quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Mestre

Minha dissertação chegou ao fim, mas o mestrado que me trouxe ao fechamento do texto não terminará nunca. Desde 2006, tenho me engalfinhado em textos, canetas, fotocópias, bibliotecas, googles e uma série de parafernálias que me trazem a informação e, não raro, me levam à desinformação. Agora, em 2008, todo esse movimento belicoso cessou e a caneta, outrora , corre livre pelo papel em busca das linhas tortas não divinas.

Acredito em muitas coisas (matita pereira, enterro de anão, arco da velha, etc.), mas não consigo acreditar que quem conclui um mestrado seja Mestre. Bem, o título é esse, dá um brilho, encorpa o currículo, valoriza um pouco essa criatura que um dia já foi mestranda, abre algumas portas, fecha outras, causa um certo efeito de pombo arrulhador, o que para alguns é o máximo. Conheço alguns que, com o título, tomaram um garbo ao arrotar, uma finesse ao soltar um pum e mesmo um certo orgulho ao defecar. Afinal, o PIB de mestres...

Alguns dizem que o doutorado me espera, ao que eu não nego e mesmo visualizo uma luminosidade longínqua, em um fim de túnel longínquo, desses que não sabemos se é uma luz, um trem desgovernado em nosso sentido ou apenas um vaga-lume malachias a debochar de nós. Não dá para descobrir se não formos até lá, in loco, verificar com introdução, justificativa, cronograma, metodologia e referências bibliográficas que brilho fátuo é aquele. Os túneis têm isso, as luzes têm isso e os curiosos têm o túnel.

Olhando o retrovisor, dois anos passaram rápidos e frenéticos como um coelho de Copas e me ensinaram, como nunca antes, a força dos eufemismos. Assim, desse processo dissertativo resultaram-se expressões faciais de experiência, um sensual clareamento capilar de madura idade, um aumento de massa corporal, assim como um relacionamento social mais fraterno com uma gama diversificada de profissionais de saúde.

Ao fim e ao cabo, batizei meu rebento de “Poéticas do artifício: Kierkegaard e Borges em Baudolino, de Umberto Eco”, contando com a orientação precisa e companheira da Profa. Maria Esther. Essa batalha lingüística agora está finda: ficaram a dissertação, o conhecimento, as amizades costuradas e os eufemismos. As pedras que surgiram ficaram pelo caminho, não me detiveram, ainda que tivessem ou houvesse várias delas. Assim como o poeta itabirano, “nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.”

sábado, 25 de outubro de 2008

Forte

O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Parafraseando a célebre frase de Euclides da Cunha em “Os sertões”, ao retratar o tipo humano vivente naquelas paisagens escaldantes do sertão da Bahia, pode-se dizer “O atleticano é, antes de tudo, um forte.”

Forte, em primeiro lugar, por torcer por um time barroco, em que céu e inferno, não raro, são consecutivos em tempo e lugar. Em que preto e branco são iguais, sem distinção de cor, uma vez que a raça é uma só multidão: aquela que está nas arquibancadas, aquela que se espera em campo e aquela entoada no hino.

Forte por chegar aos cem anos, em um centenário de tantas histórias, de tantas figuras ilustres, de milhares de indivíduos que viveram e morreram por esse time e que, mesmo sob outros céus, estarão no presidente Antônio Carlos para assistirem ao eterno triunfo. Cem anos de tantas partidas, inúmeras vitórias, milhares de gols, de ídolos, de paixão, de esperanças que se renovam diante do apito que autoriza a bola a rolar, de não poucas lágrimas, sejam elas doces ou amargas, de derrotas que mancharam a alma branca e fizeram a paixão ainda mais negra.

Forte por enfrentar anos difíceis, de batalhas maiúsculas, mas de guerras minúsculas. De conviver com promessas absurdas e de absurdas promessas, que jamais deixarão de ser “eternas promessas”. De nomes estranhos vindos de longe, de futebol esdrúxulo, de origem duvidosa, que passaram sem deixar saudades, mas, muitas vezes, um rastro de decepção e melancolia.

Forte por enfrentar um ano festivo tão duro, de tantos desacertos, de tantas omissões, de tantos desencontros, de futebol tão solitário para uma torcida tão solidária. De públicos diminutos, de silêncio, de jogos esquecíveis e de poucos motivos para sorrir senão a alegria de poder ser alvinegro sempre. De ser forte.

Do centenário ao momento atual, a campanha hoje será contra o Internacional de Porto Alegre. Não há grandes expectativas para a partida: sem ídolos, sem grande público no estádio, sem o brilho histórico das duas equipes. Vitória no jogo de hoje não é expectativa, pois vencer fazer parte do sangue atleticano, do hino, da alma, do sentimento preto-e-branco tão bem traduzido em palavras por Roberto Drummond.

O campeonato não tarda a se encerrar e logo as luzes de Natal trarão o ano novo, o de número 101 na história atleticana, talvez o redentor do antecessor. Hoje, no Mineirão, o Galo deve fazer valer as palavras do hino e vencer. Apenas vencer. E dessa vitória, buscar a próxima, a seguinte, a que virá e encerrar o ano lavando as páginas iniciais do centenário, aquelas que ficaram manchadas e não serão esquecidas. (pudéssemos nós esquecê-las!)

Com essas vitórias, estaremos na Sul-Americana em 2009. Com os votos do dia 30, teremos um presidente e um planejamento, que poderão trazer um time, e, desse triângulo, ter de volta o maior patrimônio alvinegro: a torcida. Esse irresistível continente chamado de Arquibancada Atleticana.

Ao concluir, deixo um recado ao futuro presidente atleticano me apropriando de palavras de Euclides da Cunha, de o mesmo Os sertões que iniciam este texto: “É que um exército é, antes de tudo, uma multidão, um acervo de elementos heterogêneos em que basta irromper uma centelha de paixão para determinar súbita metamorfose, numa espécie de geração espontânea em virtude da qual milhares de indivíduos diversos se fazem um animal único, fera anônima e monstruosa caminhando para dado objetivo com finalidade irresistível.”

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...