Sansara e Nirvana estão juntas
de costas uma para outra
só uma pergunta: por quê.
só uma responde:
domingo, 31 de dezembro de 2017
sábado, 30 de dezembro de 2017
The sound of silence
Hello, darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence.
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence.
Simon & Garfunkel
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Procura
- Quando alguém procura muito - explicou Sidarta - pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter um meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma.
Hermann Hesse
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
Fogo da vida
"A luz resplandece nas trevas", de Przemyslaw Wysoglad, SJ
https://goo.gl/rjfwY2
***
a luz da vida ilumina o interior do homem.
o exterior será semeado pela palavra que arde e não queima.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Partir sem asas
Berra-alto partiu em todos os santos
Goela-funda, em São Humberto
não tem asas a parte que me cabe neste latifúndio
Goela-funda, em São Humberto
não tem asas a parte que me cabe neste latifúndio
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Sabiar
Berra-alto e Goela-funda
sabiam, do verbo sabiar.
recém-nascidos, só pescoço, bico
e a fome do mundo às 5 da manhã.
em breve, voarão em busca de notas
que acordem os homens
e façam dormir os sonhos.
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Nove anos
Homenagem aos 9 anos destes bucaneiros.
a bola voltava sempre.
se errasse a parede, não havia volta.
***
hoje, lanço palavras no blog todos os dias.nem todas chegam
nem todas que chegam ficam
nem todas que ficam são lidas.
a palavra volta sempre.
importante, agora, é errar a parede.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Olhos falantes
Uma mulher fantasiada de 'Catrina', uma personagem mexicana conhecida como o esqueleto de uma dama da alta sociedade, é vista no centro de São Paulo na celebração do 'Dia dos Mortos' no México.
Foto: Cris Faga/Fox Press/Estadão Conteúdo.
Disponível em: https://goo.gl/VkS3br
***
quando as palavras não saem, os olhos falam.
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
domingo, 24 de setembro de 2017
sábado, 23 de setembro de 2017
Aniversários
me lembro do aniversário de pessoas que hoje me são estranhas.
por quê?
por que me lembro ou por que me são estranhas hoje?
ou apenas por que hoje?
me são estranhas por mim.
me lembro por elas.
por que hoje? hoje é um dia que não tem fim.
por quê?
por que me lembro ou por que me são estranhas hoje?
ou apenas por que hoje?
me são estranhas por mim.
me lembro por elas.
por que hoje? hoje é um dia que não tem fim.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
terça-feira, 19 de setembro de 2017
A esposa do Severino
- Dona Severa, não é a vida que desejamos integralmente, mas é a que temos. É essa que conseguimos construir, que conseguimos manter e, mais, é a que conseguimos viver. Está cheia de buracos, sem brilho em várias partes, estéril em outras, mas é essa e só podemos consertar para frente, tentar fazer melhor e aceitar que somos falhos, todos. O errado que passou passou; se não passou ainda, é presente (gostemos nós ou não).
Nunca fomos os piores, nem por qualidade, nem por pobreza, apenas não tivemos os holofotes que muitos medíocres tiveram e têm, mas, hoje, Dona Severa, essas mentiras já não nos enganam mais.
O pouco que sempre tivemos não era defeito, só não sabíamos disso. Havia pessoas que sempre tiveram menos que nós e frequentavam, sebastianamente, nossa casa, mas tenho dúvida se a canga delas era mais pesada que a nossa. A delas foi muitas vezes varrida pela chuva, mas sempre renascia, confiante, à frente.
Se o beco tatuou nossa vida, não pode fazer o mesmo com nossa alma. Foi aprendizado e passou, diferentemente das pessoas que iluminaram nossa história e não passaram, ainda que não estejam aqui. Agora estão mais iluminadas.
Vamos aproveitar que estamos todos aqui e comemorar, pois o amanhã só será revelado depois da zero hora e, antiquadamente, essa revelação pode queimar. Parabéns, Dona Severa!
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
As mulheres de Lulu (IV)
Estava extremamente amarga, o fel seria doce perto dela. Segurei minha careta e observei que Tio Lulu bebia a cerveja em goles generosos, prazerosos, com brilho nos olhos. Fez um sonoro "Ah!" ao terminar e pronunciou: "Bebamos porque a felicidade é líquida". Colocou o copo na mesa com força e me observou atentamente.
- Não gostou, né?
- Não, tio. Não é isso...
- Tenho certeza que não. Você está acostumado a beber esses mijos de égua e achar que são cerveja, mas quando experimenta realmente um de qualidade vira a cara.
Sorri sem graça.
- Você sabe por que achou a cerveja amarga?
- Tio, me desculpe, mas a cerveja é amarga.
- Meninos, meninos, meninos... - e num movimento instantâneo, abaixou-se, pegou um sapato no chão e o arremessou furiosamente contra a parede.
- O que foi, tio? Pulga?
- Claro que não. Apenas exercício para testar os movimentos.
Pegou a garrafa, serviu mais um copo e, antes de beber, complementou:
- A cerveja não é amarga, meu filho. Amarga é sua boca. O Xota me ensinou uma coisa, que ele ainda não entendeu muito bem, mas que é a pura verdade. É uma parte da Bíblia que diz assim: "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine". É isso que define os Mendes, que nos define. Nós não nascemos para boca de sino, para emitir sons, nós nascemos para falar, para emitir palavras, para amar.
Bebeu o copo de uma só vez e prosseguiu:
- Nós vamos morrer, meu filho, todos, sem exceção. Mas repare que alguns vão morrer mais, porque já morreram e ficaram mortos, enquanto alguns seguem vivos para sempre. Serão inúmeras gerações passadas, e alguns ainda serão lembrados, não porque foram ricos, estudados, mas porque falaram, cantaram e amaram.
Peguei a garrafa, completei meu copo e disse:
- Um brinde, tio. Ao seu aniversário e à língua dos anjos, que cantam, e à dos homens, que bebem. Nós, os Mendes.
Tocamos os copos e bebemos, e senti a cerveja muito mais saborosa.
- A cerveja é a mesma, filho, sua boca é que mudou. - e em novo movimento frenético arremessou um sapato na minha direção.
- Que isso, tio?
- Agora é barata.
***
Homenagem ao eterno Tio Lulu, Luiz Mendes de Cerqueira, "O ilimitado".
15/09/1879
O início dessa história está em As mulheres de Lulu, em três partes, de 15, 16 e 17/09/2013.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Saída para o mar
Minas não quer saída para o mar, pois não somos a Bolívia.
Não queremos um novo Trump, pois não somos os Estados Unidos.
Não queremos a volta da ditadura, pois de dura já basta a crise.
Queremos a liberdade de discursos divergentes,
ainda que não concordemos
ainda que não aceitemos
ainda que os detestemos.
Para falar conosco, é preciso entender que
temos apenas duas mãos
e o sentimento do mundo.
Não queremos um novo Trump, pois não somos os Estados Unidos.
Não queremos a volta da ditadura, pois de dura já basta a crise.
Queremos a liberdade de discursos divergentes,
ainda que não concordemos
ainda que não aceitemos
ainda que os detestemos.
Para falar conosco, é preciso entender que
temos apenas duas mãos
e o sentimento do mundo.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Ter
A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade.
De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. (Mateus 13:12)
as mãos vazias carregam os dedos.
sem dedos, carregam a ausência.
o não ter é uma forma de posse.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Carrossel (III)
A vida se abrirá num feroz carrossel
e você vai rasgar meu papel
Agradecimento a Toquinho e Mutinho
O papel rasgado não amansa a fera.
Só a lágrima.
domingo, 10 de setembro de 2017
Carrossel (II)
A vida se abrirá num feroz carrossel
e você vai rasgar meu papel
Agradecimento a Toquinho e Mutinho
quando o carrossel para, o encanto foge.
a beleza está na travessia.
sábado, 9 de setembro de 2017
Carrossel (I)
A vida se abrirá num feroz carrossel
e você vai rasgar meu papel
Agradecimento a Toquinho e Mutinho
o carrossel é a rotina fantasiada de brinquedo.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Reunião-valsa
Há um tipo de reunião chamado valsa, muito comum no mundo corporativo: são dois passos para um lado, dois para outro, para frente nunca.
Para quem não sabe dançar, recomenda-se o sorriso-paisagem ou o caderno-de-rabiscos.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Fogo
A escultura "O templo" é incendiada, marcando o final do festival de música e artes Burning Man, que reúne cerca de 70 mil pessoas de todo o mundo uma vez por ano no deserto Black Rock em Nevada, nos EUA.
Foto: Jim Urquhart/Reuters
Fonte: https://goo.gl/KtZzgK
***
numa boca sem dente
a língua lambe
ardente
o breu da noite.
o novo dia trará cores,
cinzas,
e o cheiro inconfundível da ruína.
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Sob os livros
Um militar ucraniano inspeciona uma biblioteca abandonada com vários livros vistos no chão, na cidade de Maryinka, na Ucrânia.
Foto: Oleksandr Klymenko/Reuters.
Fonte: https://goo.gl/hmeDDm
***
quando os livros se espalham pelo chão
autores e leitores jazem sob ele.
domingo, 3 de setembro de 2017
Glória
O inglês Alex Gregory, bicampeão olímpico de remo, mostrou aos seus seguidores como suas mãos estavam após muito tempo em luvas molhadas. Ele participava de um desafio de expedição no Ártico, chamado Polar Row.
https://goo.gl/o1Vse6
***
a família é grande, mas apenas a Glória é lembrada.
a mais importante, contudo, Das Dores,
diuturna,
primogênita,
é, antiquadamente sobredita,
o arrimo da família.
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Eclipse
Viajante com camelo frente ao eclipse lunar parcial
Ali Ihsan Ozturk/Anadolu Agency/Getty Images
Disponível em: goo.gl/sh6mrb
***
O enquadramento mudou a espécie.
O enluamento pintou o camelo e a corcova.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Do nada
A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado. [...] A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo.
Antonio Candido
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
Hoje
De que modo existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa de sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?
Santo Agostinho
domingo, 27 de agosto de 2017
sábado, 26 de agosto de 2017
Velas
entrou no velário, recolheu uma vela caída e, com ela, acendeu tantas outras já apagadas.
não cria nas velas, apenas nas chamas.
segunda-feira, 31 de julho de 2017
Caneteiro
que anos são esses que me trouxeram aqui?
de textos
de terapia
de evolução (não necessariamente para melhor)
de textos
de terapia
de evolução (não necessariamente para melhor)
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Três erros
Se os ventos únicos do futebol não trouxerem o imponderável, três erros marcarão o currículo do atual presidente do Galo: ter dispensado o Levir, ter trazido o Fred, ter vendido o Pratto.
Pior, ainda, será insistir em usar "obrigação", palavra que, no futebol, corta e não cicatriza.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Escovão
Chamaram o cão de "Bob" e, evidentemente, ele não deu a menor atenção. Afinal de contas, o espécime "Bob" não é nativo das montanhas de Minas. Chamei-o de "Escovão", e sua orelha levantou.
Perguntaram-me como sabia o nome do cachorro, se nunca tinha o visto antes.
- A simplicidade é autoexplicativa.
***
Homenagem ao Escovão, que me mostrou que a simplicidade é ir e, lá chegando, comer, beber e descansar, até o momento de voltar.
terça-feira, 18 de julho de 2017
segunda-feira, 17 de julho de 2017
A última montanha
a vida brinca com vento,
com o calor,
com o frio,
com o meu sonho.
o fim do sonho está atrás da última montanha
que os olhos não veem
com o calor,
com o frio,
com o meu sonho.
o fim do sonho está atrás da última montanha
que os olhos não veem
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Abobora
li.
desgostei do entendimento.
abobora
palavra nova
pronta para o mundo
sem significado
sem sentido
sem pressa.
desgostei do entendimento.
abobora
palavra nova
pronta para o mundo
sem significado
sem sentido
sem pressa.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Sem fumaça
o vento frio de julho
amola o calor da saudade.
nessa memória do fogo
não há fumaça.
só sinais.
amola o calor da saudade.
nessa memória do fogo
não há fumaça.
só sinais.
terça-feira, 4 de julho de 2017
Cibernética
a humanidade dominará o mundo
enquanto as máquinas
não entenderem
nem falarem palavrões.
o domínio dessa arte é nossa salvação
e nossa última fronteira.
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Palavrão
o palavrão é o maior patrimônio imaterial da humanidade.
sem ele, a idade da pedra teria sido superada,
mas não a era da linguagem lascada.
sem ele, a idade da pedra teria sido superada,
mas não a era da linguagem lascada.
domingo, 2 de julho de 2017
Julho, o audaz
Agradecimento a Lô Borges
Se já nem sei o meu nome
Se eu já não sei parar
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O mundo se mostrou
Se eu já não sei parar
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O mundo se mostrou
E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar
Aprender ou mais tentar
Insistir ou inventar
sábado, 1 de julho de 2017
6@
dizem que um besouro voa porque ele não sabe que é muito pesado para voar.
não sou um besouro,
sem chicote,
sem acético,
sem asas,
mas quererudo.
só ascético.
não sou um besouro,
sem chicote,
sem acético,
sem asas,
mas quererudo.
só ascético.
sexta-feira, 30 de junho de 2017
Lá
Mc Brancoulo
Lá
Lá, lá
Lá, lá, lá
eu quero lá
eu boto lá
eu soco lá
Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá
é lá, ela, é la, ela
as minas qué lá
os mano qué lá
eu quero lá
Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá
só pode sê lá
só pode sê lá
quinta-feira, 29 de junho de 2017
Sobrenome
com a herança certa,
mesmo se tudo der errado,
o produto será positivo.
não é matemática,
é onomástica.
mesmo se tudo der errado,
o produto será positivo.
não é matemática,
é onomástica.
quarta-feira, 28 de junho de 2017
O bem amado
as pedras voam,
eu não.
algumas me acertam,
eu não.
mesmo sem dentes,
rirei delas.
das que não voam.
eu não.
algumas me acertam,
eu não.
mesmo sem dentes,
rirei delas.
das que não voam.
terça-feira, 27 de junho de 2017
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Grão
João não citou o grão de mostarda
apesar de conhecê-lo tão bem.
ele semeou um pequeno, forte, pétreo, sem fim: palavra.
nem dez chifres ou sete cabeças mastigariam esse totem.
apesar de conhecê-lo tão bem.
ele semeou um pequeno, forte, pétreo, sem fim: palavra.
nem dez chifres ou sete cabeças mastigariam esse totem.
domingo, 25 de junho de 2017
sábado, 24 de junho de 2017
Corte bobesca
depois de tantas bobagens ouvidas, a anedota coroou a reunião:
- feito por mim, não precisa conferir. pode confiar.
sorri de canto a canto, certo de que tínhamos um bobo entre nós.
com a corte completa, que mandassem vir o caos.
- feito por mim, não precisa conferir. pode confiar.
sorri de canto a canto, certo de que tínhamos um bobo entre nós.
com a corte completa, que mandassem vir o caos.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
A piada de um homem só
a história foi contada e só um homem riu.
- onde está a graça? - perguntou o ansioso.
sem graça para parar, seguiu rindo,
eufórico por ter encontrado uma piada só para si.
- onde está a graça? - perguntou o ansioso.
sem graça para parar, seguiu rindo,
eufórico por ter encontrado uma piada só para si.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Pró
prolixo e pró-lixo estão bem próximos, separados apenas... pelo aterro sanitário.
o chorume do primeiro polui, sem esperança, ouvidos e alma.
o chorume do primeiro polui, sem esperança, ouvidos e alma.
quarta-feira, 21 de junho de 2017
sábado, 3 de junho de 2017
sexta-feira, 2 de junho de 2017
quinta-feira, 1 de junho de 2017
quarta-feira, 31 de maio de 2017
Reciclar
ajustados dedos e mente, é hora de reinventar o texto.
fazer um novo ciclo pode ser reciclar
ou pode ser a repetição do uso.
é melhor entender antes de fazer.
fazer um novo ciclo pode ser reciclar
ou pode ser a repetição do uso.
é melhor entender antes de fazer.
terça-feira, 30 de maio de 2017
Gaiola
ganhei uma gaiola vazia.
agradeci e a devolvi, pois não posso criar pássaros.
- a gaiola é uma peça de decoração - disse-me o presenteador.
- claro que sim, mas o pássaro não sabe - respondi.
agradeci e a devolvi, pois não posso criar pássaros.
- a gaiola é uma peça de decoração - disse-me o presenteador.
- claro que sim, mas o pássaro não sabe - respondi.
segunda-feira, 29 de maio de 2017
Reclicar
queria ter grafado "reciclar", mas os dedos mostraram-me outro destino.
segui-os.
o que alguns chamarão de erro será, para mim, uma nova opção.
domingo, 28 de maio de 2017
Três amigos e um cachorro
Imagem do autor.
O primeiro livro a ser contemplado no Projeto Paripassu será "Três amigos e uma cachorro", de Gerhart Michalick, publicado originalmente em 1976. O livro narra as aventuras de três amigos e um cachorro em pescarias, andanças e caçadas, nem sempre bem-sucedidas.
Os trabalhos já começaram, e, em um futuro próximo, uma nova edição eletrônica estará disponível. Aproveito para agradecer a autorização dessa reedição à família Michalick.
sábado, 27 de maio de 2017
sexta-feira, 26 de maio de 2017
R3fl3tir
a luz queima
seja fotográfica ou não.
o reflexo da luz também queima
e revela quem escondemos.
sejamos nós ou não.
seja fotográfica ou não.
o reflexo da luz também queima
e revela quem escondemos.
sejamos nós ou não.
quinta-feira, 25 de maio de 2017
Lagoas
as portas do sertão são antecedidas por sete lagoas.
quem quiser atravessar esse desertão precisa de contas e rezas.
contas para rezar.
rezas para contar.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
A palavra furada
uma palavra vazia é um fantasma.
uma palavra furada é uma miragem.
fantasmas existem.
as miragens, jamais.
uma palavra furada é uma miragem.
fantasmas existem.
as miragens, jamais.
terça-feira, 23 de maio de 2017
Caruru-de-porco
chamei de mato o caruru-de-porco.
é um procedimento comum de quem avalia sem conhecer:
pronunciar ervas daninhas e pastar.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Segredos
Para Cônego Belchior, meu tio-avô
o segredo de Santa Rita é uma flor e nos revela.
não conheço a flor nem o segredo.
carrego comigo, contudo,
a santa, a flor, o cônego.
domingo, 21 de maio de 2017
Resgate
na miséria de uma vida sem controle, há a riqueza da companhia de animais.
salvemos todos, ingênuos ou não.
salvemos todos, ingênuos ou não.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
domingo, 23 de abril de 2017
Livros
Hoje é dia do livro. Para comemorar, lanço minha editora virtual, que trabalhará na disponibilização de livros velhos e antigos, fora de catálogo e fora do mercado, em formato digital. Será um trabalho virtual e voluntário, sem fins lucrativos, com o objetivo de trazer de volta à circulação livros que "se perderam" no tempo. Não produziremos cópias impressas, apenas versões eletrônicas, quem sabe, e-books.
domingo, 16 de abril de 2017
sábado, 18 de março de 2017
sexta-feira, 17 de março de 2017
quinta-feira, 16 de março de 2017
Previdência
Hoje é dia de questionarmos, de forma mais efetiva, a reforma da Previdência Pública. Parece consenso que é preciso reformar, mas não e longe do modo como o governo quer fazê-la.
Precisamos de mais condições de saúde pessoal e financeira na terceira idade, momento em que encontraremos a aposentadoria. O governo não pode querer empurrar no povo brasileiro uma jornada tão longa de trabalho e contribuição, porque, a partir de certa idade, para um número considerável de profissões, a produtividade diminui também consideravelmente.
Além disso, há um dado que precisa ser considerado (ainda não encontrei uma pesquisa sobre o tema): o contingente de trabalhadores que não têm qualificação profissional, nem formação acadêmica e que, em geral, preenchem vagas "genéricas". Como esses trabalhadores se manterão em trabalho assalariado ou como se recolocarão no mercado em caso de demissão? Se estiverem em "meia-idade" então, essa pergunta se torna mais ácida.
Parece-me estranho (e até suspeito) que tantas mentes qualificadas defendam que a Previdência não é deficitária, mas mal gerida, enquanto o governo insiste em afirmar o contrário. É recorrente acompanhar, nos meios de comunicação, entrevistas com advogados especializados nessa área que defendem a boa saúde financeira da Previdência e apresentam dados que corroboram essa afirmativa. Essa oposição entre "deficitária" e "não deficitária" pode ser verificada com uma auditoria, porque, em primeira instância, essa é uma questão "matemática". Por que, então, não se viabiliza essa auditoria? Por que não realizar essa "acareação" entre dados e pontos de vista?
Que os políticos se lembrem de que nasceram brasileiros e, só depois de anos, se filiaram a partidos e se tornaram políticos. Logo, são brasileiros antes de serem políticos. Que pensem, dessa forma, primeiro no país antes de pensar em opções partidárias.
quarta-feira, 15 de março de 2017
Nos discursos
É uma perfeição nos discursos não dizer tudo, e deixar sempre alguma cousa a desejar.
Colleção de Pensamentos e Maximas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1843.
***
Este é o post de número 900. Quero agradecer a todos que leem meus textos e me ajudam a postar mais: a participação de vocês é fundamental.
terça-feira, 14 de março de 2017
segunda-feira, 13 de março de 2017
Galo na veia
O Galo na veia é recente.
Desde tempos imemoriais, contudo, o Galo está no sangue do atleticano. Não é sem motivo que os glóbulos brancos defendem, pois atacar é função dos glóbulos pretos.
Os mais céticos e cientificistas dirão que não há glóbulos pretos, e eles têm razão do ponto de vista limitado em que estão: o Galo não é ciência, é sentimento.
domingo, 12 de março de 2017
O machado
o machado também envelhece,
perde a memória,
esquece o que está perto,
esmiúça o que está longe.
a senilidade é a prova de que estamos vivos.
ainda bem.
sábado, 11 de março de 2017
Passagem
Depois de anos torcendo por elencos hortifrutigranjeiros, o Galo subiu de poleiro em 2012 e tem seguido seu caminho rumo ao topo. Contudo, não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar a possibilidade de títulos por questões internas ou por limitações do treinador. Em 2015, passamos sem um caneco nacional e, em 2016, a Flórida Cup foi uma "entrada" que não trouxe prato principal, além de os treinadores estarem bem abaixo da capacidade técnica e comportamental do elenco.
O Mineiro será importante, mas ele não enche barriga. É preciso de algo maior, de um caneco do tamanho dos 109 anos de vida que o Galo completa daqui a duas semanas: é o que espera a Arquibancada Atleticana.
Os atleticanos, certamente, não vivem todos esses anos, mas vivem tudo nesses anos. No campo dos sonhos, no Presidente Antônio Carlos, onde todos os atleticanos pós-vida se encontram, o hino segue cantado de forma ininterrupta, pois a festa não pode parar.
Só quem acredita entende essa passagem.
Os atleticanos, certamente, não vivem todos esses anos, mas vivem tudo nesses anos. No campo dos sonhos, no Presidente Antônio Carlos, onde todos os atleticanos pós-vida se encontram, o hino segue cantado de forma ininterrupta, pois a festa não pode parar.
Só quem acredita entende essa passagem.
sexta-feira, 10 de março de 2017
quinta-feira, 9 de março de 2017
Mensagem de chuva
uma mensagem não respondida é como um pingo de chuva:
só um não espanta,
muitos podem até matar.
só um não espanta,
muitos podem até matar.
quarta-feira, 8 de março de 2017
Dia da mulher
parabéns por hoje
por ontem
por amanhã
por depois de amanhã
por anteontem...
pelo dia que não nasceu
mas que será gerado
incontinenti
em um ventre feminino
por ontem
por amanhã
por depois de amanhã
por anteontem...
pelo dia que não nasceu
mas que será gerado
incontinenti
em um ventre feminino
terça-feira, 7 de março de 2017
Periferia
Trabalhador descarrega carvão de caminhão na periferia da capital do Afeganistão, Cabul
Foto: Mohammad Ismail/Reuters
Fonte: https://goo.gl/GaOtnZ
***
o carvão que está na periferia da pá não será recolhido.
quando se avolumar, será lembrado e incorporado ao sistema.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Luiz ausente
Para Luiz Clemente, meu avô
A ausência extingue as pequenas paixões, e augmenta as grandes: é como o vento, que apaga as luzes, e redobra a força dos incendios.
Colleção de Pensamentos e Maximas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1843.
domingo, 5 de março de 2017
Consideração
Para Norma Clemente, minha tia
A consideração é a renda do merecimento de toda uma vida.
Colleção de Pensamentos e Maximas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1843.
sábado, 4 de março de 2017
Alice
Para Lewis Carroll
- Aonde você vai?
- Só quando chegar saberei. Até lá, vou subindo.- Subindo? Não, você está descendo.
- Se acha que estou descendo, você está do lado errado.
sexta-feira, 3 de março de 2017
Do peido
Para Manuel Maria du Bocage
nada será como antes,
do anonimato da prisão
à fama da liberdade,
quando o fole disparar o canhão.
quinta-feira, 2 de março de 2017
Gênio
Para o Cônego Belchior, meu tio-avô
O genio é parente da loucura, e quando é grande não anda nunca sem ella.
Colleção de Pensamentos e Maximas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1843.
quarta-feira, 1 de março de 2017
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Brincadeira séria
os acidentes na Marquês de Sapucaí mostram que carnaval tem que ser sério, caso contrário a brincadeira se fará tragédia.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
domingo, 26 de fevereiro de 2017
sábado, 25 de fevereiro de 2017
Titãs
Os dois maiores Galos do mundo se apresentam hoje: o Galo da Madrugada, em Recife, o maior bloco carnavalesco do mundo, e o Galo da Eternidade, alvinegro, mineiro e barroco, o maior e mais conhecido canto da alvorada mundo.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Três mulheres
Eliza Samudio, Liberdade e Justiça.
A primeira nunca mais foi vista.
A segunda apareceu seis anos e meio depois.
A terceira, maiúscula, segue ritos e abafa o choro de famílias.
A primeira nunca mais foi vista.
A segunda apareceu seis anos e meio depois.
A terceira, maiúscula, segue ritos e abafa o choro de famílias.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Exo
cientistas anunciarem a descoberta de exoplanetas nesta semana.
mais simplório, descubro exopalavras no garimpo diário dos tempos.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Plutão
em breve, Plutão pode estar de volta sem nunca ter ido.
para alguns fenômenos, a linguagem é a ciência.
para alguns fenômenos, a linguagem é a ciência.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
O que aconteceu na Suécia?
a citação no novo episódio de "Game of Tolos" retirou a Suécia do silêncio internacional.
quem não viu não entendeu, quem viu também não.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Zealândia
é incomum vermos nascer um continente. pode até nos surpreender, mas não a linguagem, que está familiarizada com essas estrepolias do conhecimento.
sábado, 18 de fevereiro de 2017
O barco
quero um barco sinestésico, sem continente,
só conteúdo.
quero uma vela branca que o vento empurre,
mas que a brisa não apague.
quero uma tripulação variada e
a certeza de que nascemos para coisas maiores
no leme
só conteúdo.
quero uma vela branca que o vento empurre,
mas que a brisa não apague.
quero uma tripulação variada e
a certeza de que nascemos para coisas maiores
no leme
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
Binária
Foto: Aaron Favila/AP.
Aves marinhas são vistas sobre fiação elétrica à margem de um rio em Manila, nas Filipinas
Fonte: https://goo.gl/spZzbC
Aves marinhas são vistas sobre fiação elétrica à margem de um rio em Manila, nas Filipinas
Fonte: https://goo.gl/spZzbC
***
em linguagem binária, voar sempre é canção.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
No outro
Foto: Kirsty Wigglesworth/AP.
Um pedestre passa por um grafite do artista Bambi em Londres, no Reino Unido. A obra, intitulada 'Lie Lie Land' (Terra das mentiras, em tradução livre), mostra a primeira-ministra britânica Theresa May e o presidente americano Donald Trump dançando na famosa pose do filme 'La La Land'.
Fonte: https://goo.gl/cfskGp
***
recado de salão: nosso equilíbrio depende do outro.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Pesadelo
Foto: Michael Probst/AP
Pombo é visto sobre um poste diante do sol durante o amanhecer em Frankfurt, na Alemanha
https://goo.gl/18kSe7
***
o pesadelo de uma pseudocelebridade é chegar aos quinze minutos de fama pela silhueta, que é, de fato, o que a define.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Lixo
todos os dias coleto lixo.
alguns meus, outros não.
internos muitos
exteriorizados nem sempre
a catalogação é seletiva
a destinação, bem duvidosa
alguns meus, outros não.
internos muitos
exteriorizados nem sempre
a catalogação é seletiva
a destinação, bem duvidosa
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
domingo, 12 de fevereiro de 2017
Heróis
os heróis não morrem
perdem cabelos, dentes, viço.
para eles, uma nova narrativa,
velha, surrada, inventada,
é uma nova vida.
perdem cabelos, dentes, viço.
para eles, uma nova narrativa,
velha, surrada, inventada,
é uma nova vida.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Infantis
em festas,
o menino que não foi
menino
espanta-se com tudo.
contudo,
sorri pelos meninos
que apenas são
meninos.
o menino que não foi
menino
espanta-se com tudo.
contudo,
sorri pelos meninos
que apenas são
meninos.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
Pratto
a saída do Pratto é um erro tático e um acerto financeiro.
se o futuro trouxer títulos, comeremos felizes com as mãos.
se o futuro trouxer títulos, comeremos felizes com as mãos.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Médio ensino
a reforma do ensino médio passou no senado
ainda deve passar pelo presidente.
passará, contudo, pelo ensino?
pelas condições sociodocentes?
a média não nos basta.
ainda deve passar pelo presidente.
passará, contudo, pelo ensino?
pelas condições sociodocentes?
a média não nos basta.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Insistência
Uma flor é vista brotando em meio à superfície coberta de cinzas após incêndio florestal devastar uma área da comunidade Cauquenes, no Chile.
Foto: Esteban Felix/AP
Fonte: https://goo.gl/Cyw3kW
***
entre as cinzas, negras, a vida insiste.
sábado, 4 de fevereiro de 2017
Plantar e colher
melhor que pedir paz seria plantá-la e extirpar, de vez, as ervas que se dizem orquídeas.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Fevereiro
o curto mês de fevereiro é encurtado pelo carnaval.
quando o bloco está na rua, o calendário é fantasia.
quando o bloco está na rua, o calendário é fantasia.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Eterno viajante
[...] o vento, eterno viajante que passava pela estância gemendo ou assobiando, mas nunca apeava do seu cavalo; o mais que podia fazer era gritar um "Ó de casa!" e continuar seu caminho campo em fora.
Erico Veríssimo
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
domingo, 29 de janeiro de 2017
Motor 4.1
dizem que o motor é bom, tecnológico, potente, arrojado, bonito, ousado, mas essa adjetivorreia não me convence. a pé, sem motor, é mais leve.
sábado, 28 de janeiro de 2017
Ano do Galo
Vestiu a camisa gloriosa e caminhou para frente do espelho. Ajeitou-a ao corpo, pegou a escova e se pôs a pentear os cabelos.
- Chicão! Vai arrumano que daqui a poco vamu saí.
O cão se aproximou e deitou, muito atento às palavras de Dona Quiméria.
- O General foi imbora, Chicão... Vai fazê falta pra nóis! - manteve-se muda por algum tempo e concluiu: - Vai fazê falta no Pexe tamém! - Sorriu de satisfação.
O cão parecia compreender tudo.
- É um bom minino o General! Sorte pr'ele no Pexe.
Colocou a escova no criado e pegou o batom.
- O Urso foi embora. Urso-do-cabelo-duro... É, minino, num podemu mais falá assim. O povo num gosta. Os mininu mais novo nem sabe que teve um Urso-do-cabelo-duro, e todo mundo mais dizê que é preconceito. Num posso mais chamá ninguém de pretinho, memo que o mundo tenha muito pretinho. Num posso mais chamá ninguém de leite-azedo, memo que o mundo tenha muito leite-azedo. Eta bestage!
Parou de falar para passar o batom e, guardando o batom, buscou a alfazema.
- O mundo tá cheio de bicha, ma'num podemu falá "bicha". Tá cheio de crente, ma'num podemu falá assim. Tá dificil vivê, viu, Chicão!?
Borrifou várias vezes, guardou o perfume, ajeitou a saia e foi calçar a sandália.
- Sabe o que é pió, Chicão? Que o mundo - Deus me perdoa o que vô falá - tá cheio de fio-da-puta, e ninguém se preocupa com as puta! Inveiz de ficá gastando tempo com branco, preto, bicha, sapatão ou otras coisa, o povo divia oiá mais pr'as puta, purque tem muitas dela que tão sempre levando a fama sem tê culpa nenhuma. Tem muito safado aí que num é fidiputa, apesar de ser fio-da-puta, e são essas maria-madalena que carrega essa cruz.
Virou-se para o cão e disse, séria:
- Bestage danada!
Pronta para sair, percorreu a casa fechando as janelas.
- Chicão, vamu dexá essa prosa de lado e vamu tomá rumo do Campo do Sete. Hoje começa o ano do Galo e é hora d'eu vê esse povo lindo atleticano. Ocê sabe, Chicão, que num tem atleticano feio?
O cão pareceu não concordar.
- É verdade, minino. Atleticano feio é falta de banho! - e riu prazerosamente. - Com água e sabão, nóis conserta essa feioseira.
Saiu de casa junto com o cão, fechou a porta e, séria novamente, refletiu:
- Na televisão falô que hoje começa o ano do Galo pr'os chineis? Será que é verdade memo?
Parou um pouco pensativa.
-Acho que tem um pobrema nessa história que a moça da televisão num sabia... Os chineis pode comemorá o ano do Galo, mas a China Azul vai querê distância disso. É bão pro povo aprendê que chineis num é tudo igual. S'imbora!
- Chicão! Vai arrumano que daqui a poco vamu saí.
O cão se aproximou e deitou, muito atento às palavras de Dona Quiméria.
- O General foi imbora, Chicão... Vai fazê falta pra nóis! - manteve-se muda por algum tempo e concluiu: - Vai fazê falta no Pexe tamém! - Sorriu de satisfação.
O cão parecia compreender tudo.
- É um bom minino o General! Sorte pr'ele no Pexe.
Colocou a escova no criado e pegou o batom.
- O Urso foi embora. Urso-do-cabelo-duro... É, minino, num podemu mais falá assim. O povo num gosta. Os mininu mais novo nem sabe que teve um Urso-do-cabelo-duro, e todo mundo mais dizê que é preconceito. Num posso mais chamá ninguém de pretinho, memo que o mundo tenha muito pretinho. Num posso mais chamá ninguém de leite-azedo, memo que o mundo tenha muito leite-azedo. Eta bestage!
Parou de falar para passar o batom e, guardando o batom, buscou a alfazema.
- O mundo tá cheio de bicha, ma'num podemu falá "bicha". Tá cheio de crente, ma'num podemu falá assim. Tá dificil vivê, viu, Chicão!?
Borrifou várias vezes, guardou o perfume, ajeitou a saia e foi calçar a sandália.
- Sabe o que é pió, Chicão? Que o mundo - Deus me perdoa o que vô falá - tá cheio de fio-da-puta, e ninguém se preocupa com as puta! Inveiz de ficá gastando tempo com branco, preto, bicha, sapatão ou otras coisa, o povo divia oiá mais pr'as puta, purque tem muitas dela que tão sempre levando a fama sem tê culpa nenhuma. Tem muito safado aí que num é fidiputa, apesar de ser fio-da-puta, e são essas maria-madalena que carrega essa cruz.
Virou-se para o cão e disse, séria:
- Bestage danada!
Pronta para sair, percorreu a casa fechando as janelas.
- Chicão, vamu dexá essa prosa de lado e vamu tomá rumo do Campo do Sete. Hoje começa o ano do Galo e é hora d'eu vê esse povo lindo atleticano. Ocê sabe, Chicão, que num tem atleticano feio?
O cão pareceu não concordar.
- É verdade, minino. Atleticano feio é falta de banho! - e riu prazerosamente. - Com água e sabão, nóis conserta essa feioseira.
Saiu de casa junto com o cão, fechou a porta e, séria novamente, refletiu:
- Na televisão falô que hoje começa o ano do Galo pr'os chineis? Será que é verdade memo?
Parou um pouco pensativa.
-Acho que tem um pobrema nessa história que a moça da televisão num sabia... Os chineis pode comemorá o ano do Galo, mas a China Azul vai querê distância disso. É bão pro povo aprendê que chineis num é tudo igual. S'imbora!
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Para ir embora
"Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?"
"Depende bastante de para onde quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importa muito para onde", disse Alice.
"Então não importa que caminho tome", disse o Gato.
"Depende bastante de para onde quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importa muito para onde", disse Alice.
"Então não importa que caminho tome", disse o Gato.
Lewis Carroll
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
domingo, 22 de janeiro de 2017
sábado, 21 de janeiro de 2017
Em miúdos
"O essencial é tudo aquilo que não pode não ser: amizade, fraternidade, solidariedade, sexualidade, religiosidade, lealdade, integridade, liberdade, felicidade. Isso é essencial. Fundamental é tudo aquilo que te ajuda a chegar ao essencial. Fundamental é a tua ferramenta, como uma escada."
Mário Sergio Cortella
Disponível em: https://goo.gl/xXtb65.
***
essencial é o palavrão.
fundamental, a entonação.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
Trumpete
é um conceito novo,
recriado hoje
musical? fá.
belicoso? tá.
financeiro? pá.
sem dúvida, noticioso.
a nota emitida definirá o uso.
recriado hoje
musical? fá.
belicoso? tá.
financeiro? pá.
sem dúvida, noticioso.
a nota emitida definirá o uso.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Um estranho caso - parte X (final)
Acordando assustado com um galo a rasgar o dia,
levanta-se apoiando na parede e sente que o corpo todo dói. Tião Canjerê jaz,
enfim, em definitivo, na mesa, e os primeiros raios de sol fecham a madrugada.
Cobre o corpo do defunto, sai da casa e vê, não longe dali, o que deve ter sido
a pocilga e um rastro de destruição na capoeira que parte dela.
Voltando para a casa, encontra-se com um grupo que
segue, em procissão, para um sepultamento. Não há muitas pessoas, não reconhece
nenhuma delas, mas percebe que a rede que leva o defunto é pequena, certamente
uma criança.
Ao notarem o paramento do padre, todos param e pedem
a bênção.
- Deus os abençoe, meus filhos. Que Deus receba
esse irmão no Reino dos Céus.
- Amém, seu padre. – Respondem todos.
- É um menino?
- Sim, sinhô. É meu fio, Quincas, seu padi, que
morreu onti dispois do almoço. Era um minino muito bão e, doentinho que tava,
pediu que, morrendo, fosse enterrado logo que o galo cantasse.
Um brilho apavorante toma o pensamento do padre.
- Posso vê-lo? – Pede Xota apontando para a rede.
- Pode sim, sinhô. Faço até gosto que o sinhô
abençoa o minino de novo.
Xota caminha até a rede e, com lentidão, abre não
mais que um palmo entre as duas bandas que enrolam a criança. Não tem dúvidas: ali
está o garoto que fora chamá-lo em casa. Seus olhos marejam, a visão se turva e
uma breve zonzeira faz com que os pés dancem uma música surda.
- Acode, gente! – Grita um dos homens.
- Está tudo bem. Tudo bem. – Afirma Xota tentando
se recompor. – Estou há muito tempo sem comer e me emocionei ao ver essa
criança... tão jovem... – respirando fundo. Busca o que dizer e, em segundos: –
Deus escreve certo por linhas tortas, e nós que aprendamos a ler, não é mesmo?
– Diz sorrindo.
Os homens balançam a cabeça afirmativamente, e
alguns améns são ouvidos. O padre os abençoa e busca o caminho da casa,
enquanto a procissão segue para o cemitério.
Quando se afasta, uma dúvida salta à frente de
Xota e o faz parar, virar e indagar:
- Seu Zé, o senhor conhece a Rita?
- Uai, padi, cumé que o sinhô sabe meu nome?
- O senhor me disse agora há pouco, não?
O homem balança a cabeça negativamente.
- Desculpe-me, senhor. Tive uma noite difícil e
certamente esse nome me veio à mente.
O homem balança a cabeça e responde:
- Não, padi. Não cunheço essa Rita.
- A família Pemba, o senhor conhece?
- Só os minino da banda, mas num temo amizade não.
- Está certo, então. Muito obrigado, seu Zé.
- Eu inté vi esses minino Pemba onti à tarde, padi,
lá no cemitério, no enterro do Tião Canjerê.
As palavras faltam à boca do padre.
O homem prossegue:
- O Tião, o sinhô cunheceu? Morreu antes de onti e
nós enterremu onti à tarde. Sofreu muito esse: umas dor, umas doença... foi
muito triste... pediu muita ajuda antes de morrê... mas descansô o pobre
coitado. Deus teve piedade – e faz o nome do Pai.
Xota não sabe mais o que pensar, nem como pensar.
Olha o pulso e percebe o hematoma no local em que Tião o havia agarrado.
Conclui, mudo, o restante do caminho até chegar em casa.
Ao descansar a aldraba, encontra-se com a mãe no
corredor e ouve:
- Acabou, meu filho. Acabou. Deus teve piedade de
nós.
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Mar de vento
"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...
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Para Lúcias a verdadeira aula de arte transcende o compêndio. é uma instalação.
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Uma mulher fantasiada de 'Catrina', uma personagem mexicana conhecida como o esqueleto de uma dama da alta sociedade, é vista no...
















