sexta-feira, 31 de julho de 2020

Nitô-Ichi

Esta pequena fábula japonesa comemora os 19 anos do Caneteiro, meu filho querido.
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Num mundo branco pintado pela neve, há um homem apressado, apreensivo, afobado. Perseguir ou ser perseguido, eis a questão. Não se vê viva alma. Ele não anda, anda o caminho.

Depara-se com um palácio, branco como a neve que o decora. Não há guardas, nem sentinelas. Antevê o perigo que o espera à frente; maior é o monstro que (o) segue. A passos lentos, silenciosos, chega ao portão e, com alguma dificuldade, empurra-o, fazendo aquele enorme gigante roncar e abrir. Uma mínima brecha é o suficiente para que ele entre e encontre um jardim.

O oásis é também parte do deserto.

Não há como voltar. Está desarmado, cansado e com a mente confusa. Lembra-se, nesse momento, de Musashi, o samurai, e sente-se uma cópia barata e sem valor do guerreiro. Esse, porém, é um segredo dele. Só dele.

No jardim, caminhando com cuidado, vê um pequeno regato que ainda corre e uma ponte que o sobrepõe. Aproxima-se, abaixa-se e, antes de tocar água, avista uma mulher do outro lado da ponte que o observa. Levanta-se assustado e caminha para trás, mudo. A mulher, clara, bela e de longos cabelos, trajando um quimono extremamente delicado, mantém os olhos fixos nele.

Entreolham-se por longos segundos, ao fim dos quais ele resolve:

– Eu sou Mu... – é interrompido, porém, com um gesto da mulher que leva o dedo à boca numa sinalização inequívoca de silêncio.

– Eu sei quem você não é – disse ela.

Aquelas palavras o atordoam e ele recua ainda mais, agora que a mulher se dirige à ponte para atravessá-la. A distância que se encurta lhe permite ver os finos traços da mulher e sua suave força. Transpõe o regato e para, com os olhos sempre atentos ao visitante.

– Quantos perseguem você? – Pergunta ela.

– Muitos.

– Não vejo armas.

– São necessárias? 

– Para uma testa tão tensa, suas palavras são bem afiadas. 

Tenta relaxar e mostrar naturalidade, mas percebe que sua encenação não lhe trará sucesso. 

– Você olha pouco para trás. 

– Atrás é só uma perspectiva.

– Para trás não há fuga, só dúvida.

– Não quero fugir.

– Então se encontre.

– É o que me move.

– Agora, sim, seu corpo e sua boca estão em harmonia.

Ao longe, ainda de forma insípida, surge o som de um tropel de cavalos. A impaciência toma conta do homem, e a mulher delicadamente, como um longo espreguiçar de garça, leva a mão às costas. O homem se assusta, recua e vê surgir uma espada longa nas mãos dela. Não há palavras.

A mulher desenha uma flor diáfana no ar com a espada, ainda na bainha, e com um movimento rápido e preciso, aproxima-se do homem e lhe oferece a empunhadura. Atônito, renascido, ele ouve:

– Siga seu caminho; não fuja dele.

Ele pega a espada, retira-a da bainha e sente a força da arma, mantendo os olhos sempre fixos na mulher.

– Cuidado com esse jardim, pois há perigos dos quais você não faz ideia. Não se demore, porque, quando esses cavalos que ouve chegarem aqui, você poderá ser um homem morto.

– Não tenho medo de morrer, pois já morri outras vezes e uma parte de mim já está morta.

– Salve, então, a parte que está viva.

– E você? Se sua espada for encontrada comigo, sua vida estará em risco.

– Todos nós vivemos em risco.

– E se for morta?

– Não tenho medo de morrer, pois já renasci outras vezes e uma parte de mim não pode ser morta.

– Você está sem armas. Como poderá se defender?

– A escola das duas espadas é minha vida. A espada mais perigosa não corta e não pode ser vista. Quando transpassa um coração, você sabe o que é a vida.

– Ninguém é capaz de sobreviver a esse golpe.

– É verdade! Morrer por ele é ter a certeza de estar vivo.

– Não entendo.

– Quando seu coração for atingido, você saberá.

– Não posso ser atingido.

– Se não for atingido, morrerá sem saber o que é viver.

O tropel se aproxima.

Ele corre, atravessa a ponte, para, vira e vê a mulher ocultando-se entre folhas. Olha para a espada, reflete alguns segundos e retorna ao ponto onde a mulher está. Oferece-lhe a espada e diz:

– Não posso levá-la.

– Por que não?

– Prefiro carregar suas palavras a sua arma.

Com um movimento único, desenha um pássaro no ar com a espada e a entrega levemente à mulher. Surpresa, ela diz:

– Você conhece as duas espadas...

– Sabia como desenhar o pássaro, não como fazê-lo voar. Sou grato a você por isso.

Os cavalos atravessam o portão no galope, fazendo voar o pássaro, o homem e a dúvida.
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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Honorários

DECRETO Nº 10.427, DE 9 DE NOVEMBRO DE 1889

Concede ao Banco do Commercio a faculdade de emittir bilhetes ao portador, convertiveis em ouro e á vista, e approva a reforma dos respectivos estatutos.

Attendendo ao que Me requereu o Banco do Commercio com séde nesta Côrte, e achando-se verificado que, além dos recursos necessarios para satisfazer os seus compromissos, tem o dito Banco realizado, em moeda corrente, o capital minimo exigido pela Lei de 24 de Novembro do anno proximo passado, para as companhias emissoras que tenham a sua séde na capital do Imperio, Hei por bem, na conformidade da Minha Imperial Resolução de Consulta da Secção de Fazenda do Conselho de Estado, desta data, Conceder-lhe autorisação para emittir bilhetes ao portador, convertiveis em ouro e á vista, e Approvar a reforma feita nos seus estatutos, com as seguintes alterações:

[...]

Art. 64. Continúa em pleno vigor, na fórma do vencido, a deliberação irrevogavel da assembléa geral dos accionistas de 25 de Agosto de 1884, que, em reconhecimento dos relevantes serviços prestados ao Banco, desde a sua installação, pelo accionista Senador Manoel José Soares, tornou para elle vitalicios os honorarios de director, de 6:000$ annuaes, quer exerça quer não o referido cargo.

Disponível: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-10427-9-novembro-1889-543419-publicacaooriginal-53700-pe.html

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Juiz

Em julho de 1832 o juiz ordinário Gregório Luiz de Cerqueira escreve ao presidente da província dando notícia de ter cumprido o que ordenava a portaria de onze de fevereiro do mesmo ano, indo averiguar a denúncia dada por Vicente Ferreira de Souza Lobato, furriel comandante do destacamento do Indaiá, sobre assassinatos e roubos que o denunciante afirmava terem sido perpetrados por “uns crioulos monteiros no córrego da prata, distrito de Bambuí”. O juiz Gregório segue relatando: “dirigi-me ao arraial de Bambuí ainda mais apressadamente, por me constar em representação do administrador do correio desta vila, que nos lugares indicados pelo denunciante foram acometidos os estafetas que conduziam as malas da província de Goiás”.

VELLASCO, Ivan; ANDRADE, Cristiana Viegas. Criminalidade, violência e justiça na Vila de Tamanduá. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 34, n. 64, p. 51-80, jan/abr 2018. p.71.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Parente sim, político sim, Mendes não



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Manoel José Soares — Natural de Minas Geraes, e nascido a 1 de março de 1829, falleceu na cidade do Rio de Janeiro, a 12 de setembro de 1893, victima de um accesso do loucura que o levou ao suicidio, sendo negociante nesta cidade, director do Banco do commercio, membro do conselho fiscal da companhia de saneamento do Rio de Janeiro e commendador da ordem da Rosa. Depois de haver representado Minas Geraes na 18ª e na 19ª legislaturas geraes, foi pela Corôa escolhido senador do lmperio em 1888, militando sempre no partido conservador. Escreveu:
Banco do Commercio, sua iniciação, fundação e installação, e narração das principaes occurrencias. Outubro, 10-1875. Rio de Janeiro, 1875, 93 pags. in-4° — Teve segunda edição no mesmo anno na typographia de Nunes Pinto & Companhia.
Discurso pronunciado na Camara dos senhores deputados na sessão de 14 de setembro de 1882. Rio de Janeiro, 1882, 55 pags. in-12º – Versa sobre assumptos do ministerio da agricultura.

BLAKE, Sacramento. Diccionario Bibliographico Brasileiro (Volume 6: Letras M-Pe). [Rio de Janeiro] : Conselho Federal de Cultura, 1970, 7 v., v. 6: 2 p. sem numeração, 405 p. Reimpressão de Off-set da edição de 1883-1902. p.144. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5451. Acesso em: 28 jul. 2020.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Nas enxovias




No município de Tamanduà erão talvez maiores os horrores praticados pelas autoridades, em virtude da suspensão de garantias. Em toda a parte as mesmas buscas, os mesmos attentados, mas na villa de Tamanduá subirão elles de ponto. Não houve ali commoção alguma, nem um passo dados pelos homens da opposição, que os compromettesse; e apezar disso, forão lançados na enxovia com grossas correntes ao pescoço 24 individuos dos mais distinctos do municipio: entre outros, estiveram por muito tempo nas enxovias, e encorrentados o deputado provincial Gregorio Luiz de Siqueira, o tenente-coronel Elias Pinto e um filho, presos no município de Pitangui, e daquela cadêa mandados para a de Tamanduá, o sargento-mór de 1ª linha Leonel de Abreu e Lima, o padre Manoel Jacintho Castor, os Carneiros, e outros proprietários abastados e homens reconhecidamente pacíficos.

Historia do movimento politico, que no anno de 1842 teve lugar na província de Minas Geraes. Escripta pelo Conego José Antonio Marinho. Segundo volume. Tio de Janeiro: Typ. Villeneuve, 1844. p.31-32. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or58752/or58752.pdf

terça-feira, 21 de julho de 2020

21 de julho de 1674


VASCONCELOS, Diogo de. Historia Antiga das Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1904. p.34.

Casa de Fernão Dias. Parque Estadual do Sumidouro, MG. 2020.

"[...] partias ao descobrimento das minas do sertão de S. Paulo e terras das esmeraldas."

Em 21 de julho de 1674, a bandeira de Fernão Dias (já sexagenário) partia de São Paulo rumo a Minas Gerais. Não encontrou as esmeraldas, mas não descartou um sonho sem vivê-lo.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O papel aceita tudo

Imagem: Pixabay. Disponível https://bit.ly/2Z5uztN.

Sempre deverão existir maus escritores, pois eles atendem ao gosto das faixas de idade não desenvolvidas, imaturas; estas têm suas necessidades, tanto como as maduras.
Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, aforismo 201.

Há algumas semanas, divulguei, em minha conta no Instagram, o lançamento de meu quase livro “Eu, Testosterona”. Muito mais um exercício lúdico-editorial que propriamente um volume, produzi uma postagem “bem real”, apesar de não sê-la e também de não não sê-la. A história por trás desse quase livro foi publicada, de maneira ficcional, em meu blog e resolvi produzir uma estrutura que sustentasse todo aquele jogo textual.

Fiz a capa do quase livro a partir de um banco de imagens gratuitas na internet (Pixabay) e consegui todo o suporte visual no site adazing.com, no qual desenvolvi a capa em 3D e recebi outras peças gráficas, inclusive memes para meu quase livro. O único texto real do quase livro era o da orelha, postado no Instagram:

“Com uma linguagem moderna e vibrante, o autor apresenta a história ardente de um casal em busca da completude da vida. Com relatos apaixonados e diálogos fortes, somos chamados a vivenciar todos os percalços de dois amantes, no sentido mais amplo da palavra, que descobrem, juntos, todos os matizes do amor e do amar. Certamente, o leitor se identificará com a narrativa e reconhecerá os dilemas pessoais que todos aqueles que têm um coração preenchido por um outro eu tão vivamente experimentam. No futuro, Brutus e Bela estarão no panteão dos casais imortalizados como tantos outros da literatura universal. A narrativa de H.C. Clement, um dos nomes mais aclamados da nova geração de autores, sanguínea e penetrante, é um convite aos sentidos.”

Não resta dúvida de que essa orelha tem muitos mais recursos comerciais do que literários, além de uma boa dose de pretensão e de imodéstia. Afinal, se não for assim, como introduzir um “romance” no mercado de tantas publicações? É verdade que cheguei a vender alguns exemplares e que minhas companhias literárias mantiveram-se em silêncio, certamente sem saber o que se passava. De gêneros mais nobres ou nem tanto, respeito profundamente todos os autores, sejam escritores ou escreventes como diria Roland Barthes, porque sei que escrever não é um ato simples, nem fácil, pois exige, no mínimo, coragem.

Todo esse preâmbulo para chegar ao ponto principal deste texto: veracidade na escrita. Tive um colega de trabalho que tinha como mantra um velho ditado: “O papel aceita tudo.” Os suportes de escrita mudaram, mas essa verdade segue inabalável. A escrita a todos recebe bem, desde fake news e promessas eleitorais até informações do currículo Lattes, passando por inverdades, pós-verdades, incorreções e, no extremo, quase esquecidas, as boas e velhas mentiras. Por que boas? Toda mentira é boa. Uma mentira é ruim quando ela se apresenta como verdade.

É fácil perceber esse fato: conte uma mentira que seja extremamente falsa ou inverossímil e veja o efeito em sua audiência. A chance de haver riso é bem grande, porque a mentira “desvairada” e “cabeluda” é divertida. Conte, porém, uma mentira e a maquie, vista-a com um longo e esvoaçante vestido de verdade ou, então, um terno bem cortado, com colete e gravata de sinceridade: toda uma relação com sua audiência entrará numa zona nebulosa de dúvida e ficará estremecida; mais cedo ou mais tarde, aparecerá o dano quando a mentira for despida.

É perceptível que estamos quantitativamente em uma sociedade mais “escritora” do que estávamos há trinta anos, ainda que haja muita discussão qualitativa sobre o tema. Logo, se há mais gente escrevendo, há mais leitores? Se há mais uso da escrita, essa variedade está mais valorizada? Se há mais leitura, há mais conhecimento? Essas provocações dizem muito sobre nossos consumidores de texto (produtores ou não).

Assim, reserve-se sempre o direito da dúvida e a boa vontade da confirmação, para que toda afirmativa, nua ou explicitamente vestida, seja motivo para alegrar o dia e não para estragá-lo. Lembre-se de que o papel (celulótico ou eletrônico) aceita tudo, nós não.

Publicado originalmente no LinkedIn em 08 jul. 2020.
https://www.linkedin.com/pulse/o-papel-aceita-tudo-humberto-mendes

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...