quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Réveillon

Mais um velho se vai.
Mais um novo se apresenta.
As frescas e sonoras poças d'água ditam a morte das desilusões e o nascimento da esperança neste 31 de dezembro.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Matriz de Itapecerica - Ao Publico

Sinto necessidade de resalvar a minha honrabilidade profissional, á vista do desagradável incidente occorrido na cidade de Itapecerica e do qual resultou a rescisão do contracto que havia firmado com o Sr. Vigario Cerqueira para concluir as obras da matriz da mesma cidade.

Limitar-me-hei a narrar factos, deixando de parte quaesquer apreciações que serão feitas por aquelles que me lerem.

O contracto alludido impunha a condição de serem-me feitos os pagamentos á proporção dos donativos que fossem feitos ao Sr. Vigario Cerqueira. Aceitei essa clausula como um meio de provar publicamente que dispunha de capitaes sufficientes para a obra, e ao mesmo tempo confiar na palavra do Sr. Vigario que me havia promettido responsabilisar-se pelo integral pagamento a final.

Surprehendeu-me, pois, quando tive noticia que se me havia mandado suster o proseguimento dos trabalhos e por ordem do mesmo Sr. Padre, tendo-se chegado a produzir um embargo judicial.

Finalmente com a chegada á cidade de Itapecerica do mesmo Sr. Padre Cerqueira, chegamos a um accordo em vista do qual, foi-me dada uma indemnisação bem pouco satisfactoria, sendo-me declarado que seria melhor rescindirmos o contracto, pelo facto da difficuldade que se encontrava o Sr. Vigario Cerqueira em obter esmolas e donativos para as alludidas obras, como se verifica com a carta que abaixo publico.

Aceitei tudo para ver-me livre de tal vespeiro, dando-me por satisfeito com todos esses prejuízos que soffri e dos quaes resultou-me mais uma lição.

Isto que ahi vai acima é a pura verdade dos factos, que entrego á apreciação de todos os homens sensatos e honestos d’ esta zona.

O Engenheiro, Francisco Palmerio.

Fonte: Jornal O Itapecerica, Anno III, edição 80, 22 de setembro de 1895, p.3. [Arquivo Público Mineiro]

sábado, 26 de dezembro de 2009

Obras da Matriz

Conforme promettemos em o nosso numero passado, vamos hoje nos occupar dos factos que determinaram a não continuação das obras da Matriz desta cidade, e isso havemos de fazer calma e desapaixonadamente, como quem só tem em mente o progresso e o engrandecimento desta terra.

Como o publico sabe, a commissão incumbida pelo nosso estimado vigário e particular amigo Sr. Padre Cerqueira, de fiscalizar as obras referidas, embargou-as judicialmente, pelo facto de ter então o contractante Dr. Palmerio, que é um profissional incontestavelmente abalizado, ordenado a demolição, que se iniciou, de uma parte da egreja, quando isso era absolutamente necessário para a observação completa da planta por elle apresentada e acceita pelo nosso prezado vigário.

Bem sabemos que não nos assiste competência para discutirmos matéria de tão grande monta, mas por isso mesmo, antes de escrevermos estas linhas, nos informamos a respeito de um profissional insuspeito, que há dias esteve entre nós, e este nos garantio que o Dr. Palmerio estava observando fielmente o contracto e que elle não podia executar o seu plano sem primeiro demolir a parte da egreja, que tanta grita, que tanta celeuma levantou.

Não achamos absolutamente razão naquelles que contribuiram para a paralização das obras; não só porque no estado em que ellas ficaram actualmente torna-as muito mais difficeis de concluir-se, como também esse facto poderia acarretar enorme prejuízo moral ao profissional que dellas se encarregou, se o nosso vigário com o cavalheirismo que lhe é habitual e com a nunca desmentida correcção de seu proceder, não desse ao Dr. Palmerio o honroso documento que elle faz publicar em outra parte desta folha.

Entendemos que o povo, sem distincção de classe, deve facilitar o mais possível ao reverendíssimo padre Cerqueira os meios de que elle carece para a conclusão das obras que elle tão patrioticamente dezeja, desbravando as difficuldades que lhe assoberbam, mas nunca oppondo-lhe tropeços nem embaraços.

Entendemos que todos nós temos obrigação de contribuir por todos os meios a nosso alcance para a conclusão de uma obra que é nossa, que será de nossos filhos, e tudo que se fizer em contrario, digamos com franqueza, será para nós muitissimo vergonhoso.

Jornal O Itapecerica, Anno III, edição 80, 22 de setembro de 1895, p.1. [Arquivo Público Mineiro]

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

No Natal

A Liberdade se ilumina.
A criançada se anima.
A boa vontade contamina.
É nós compramos (quebrando a rima).

domingo, 20 de dezembro de 2009

Esterco

É difícil de acreditar que alguém possa perder a vida por um monte de esterco, esse conjunto de dejetos que aduba mas, não poucas vezes, não vivifica nada.
Esse monte, de origem desconhecida e de qualidade duvidosa, ceifa uma vida.
Esse esterco, humanizado, grita: "Merda é ouro. Merda é ouro".

sábado, 12 de dezembro de 2009

G

Hoje, 12 de dezembro, é aniversário de meu avô, Cesário, a quem carinhosamente chamo de "O Maestro". Uma nota, um sentimento: sol(dade).

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Caim

A história de Caim, irmão de Abel, é triste.
A história de Caim, filho de Saramago, é triste.
A maldição do Senhor pesou sobre Caim de tal modo que nem mesmo Saramago, que já havia seguido os passos de Jesus Cristo com mérito, conseguiu salvar a narrativa do fratricida.

domingo, 29 de novembro de 2009

Por que odeio Paulo Coelho

Na última semana, descobri, navegando na internet, que o escritor Paulo Coelho abriu uma seção em seu blog, intitulada "Por que odeio Paulo Coelho", para que internautas pudessem verbalizar (sem palavrões) o porquê do ódio pelo mago. É a hora de botar a boca no trombone!

Por uma incompatibilidade de gênios, o autor não frequenta minhas estantes, tampouco folheio seus livros, apesar de já ter lido "Na margem do rio Piedra...". Para que não fosse uma questão de fé (Felizes os que não leram, mas acreditaram), sentei, li, não chorei, e não mais voltei. Foi um rio que passou em minha vida e não me lembro nem mesmo se molhou meus pés.

É inegável que Paulo Coelho presta um serviço à Língua Portuguesa, uma vez que já foi traduzido em inúmeras línguas, o que demanda o conhecimento de nosso idioma em outras partes do mundo. Os mais ferrenhos dirão que isso é um desserviço à língua, o que considero uma má vontade enorme, já que somos invadidos por obras medíocres que vendem aos milhares e inúmeras são as palmas para esse lixo.

Sobre as questões estilísticas e estéticas, cada leitor tem o autor que merece. Nietzsche já dizia da necessidade de maus escritores, porque "há sempre mais intelectos não desenvolvidos e com mau gosto". A lista dos livros mais vendidos é o ápice da efemeridade e, em geral, não sobrevive a uma década, o que é um prazo extremamente curto em literatura.

Ao invés de postar um motivo de ódio por Paulo Coelho, por que os internautas mais aviltados  não criam um blog e mostram ao mago como se produzir um texto com qualidade? Quanto a  mim, não odeio o Paulo, nem o Coelho. Não carrego bandeira para pedra, tampouco para palma. Apenas ouço o Raul, com o mago ou sem ele.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Fantasmas

Nunca acreditei em fantasmas. Nada pode ser tão transparente assim.
O que me amedronta é pensar por que alguns se mostram e outros não.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

São Humberto

Muitos olham, poucos veem.
Alguns veem um cachorro.
Outros veem um santo.
Alguns enxergam a cruz da cristandade.
Outros enxergam o sinal de adição.
Muitos olhos, poucos vêm.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finados

O finado leciona o que está inacabado, em trânsito.
A saudade demonstra o que é amado, nosso.
Neste silogismo gauche, o tempo unirá as premissas.

domingo, 1 de novembro de 2009

Santos

De todos os Santos, o meu preferido é São José. Não o da Sagrada Família, mas o protetor dos puxadores de burro: São José Severino.
A hagiologia narra uma vida simples, pobre, árdua, de muito trabalho, de pouco reconhecimento pelos seus, mas de perseverança e resignação. Na velhice, coube a ele puxar uma mula de pouca visão e de muitos cascos, a qual o destino deu o nome de Sabedoria.
São José Severino, rogai pelos asininos e por nós, bestas, que aguentamos essas bestas!

sábado, 31 de outubro de 2009

Bruxas

Conheço algumas.
As que voam não passam de grandes mariposas.
Perigosas são aquelas que rastejam.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Coveiro

O buraco que tu cavas ativamente não é teu, mas leva tua assinatura.
Quando levar teu nome, teu trabalho estará terminado.

domingo, 25 de outubro de 2009

Bucaneiros

Há um ano, zarpamos - eu, Luiz e Cesário - sem rumo nesta blogosfera. Sabíamos apenas que precisaríamos de nossas ferramentas, cada um em seu ofício, para bucanear espaços: novos, velhos, inexistentes, em branco, contidos e sentidos, sem tidos.

A chalana bucaneira segue em frente, ainda incerta. Nada mais.

sábado, 24 de outubro de 2009

Sentido

- A vida não tem sentido.
- Talvez a sua vida não tenha sentido.
- Pra mim, não faz diferença.
- Lembre-se de que não ter sentido já é um sentido.
- Essa é uma construção retórica vazia.
- Isso é sua vida: uma construção retórica vazia.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Professor

Hoje é dia do Professor, ainda que haja dúvida se o "P" deve ou não ser maiúsculo.
Alguns comemoram, outros não. Alguns se orgulham, outros se lamentam. Dos trabalhos com rebanho, sem dúvida, é o de pastoreio mais difícil. As ovelhas já não são tão alvas como outrora; as perdidas se proliferam e o cajado... Bem, o cajado é reminiscência.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Fato

Se o Lula fosse atleticano, já teríamos ouvido: "Nunca, na história desse país, um time de futebol foi tão chamado a ser campeão como o time do Galo. O Palmeiras perde, o São Paulo perde, o Goiás perde e o Inter empata... É nessa hora que a gente não pode vacilar. É importante que o povo saiba que tá na hora do Galo ser campeão."

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Silêncio e esperança

“In conversione et quiete salvi eritis; in silentio et in spe erit fortitudo vestra”. (Is 30,15)

Hoje, às 6h, ainda quando a cidade esticava seus longos braços, os sinos da Matriz de São Bento repicavam em homenagem aos 80 anos de vida de meu tio Sebastião, a quem eu aprendi a chamar de Tio Padre. Há mais de cinco décadas, é possível vê-lo pelo campo, em seu incansável trabalho de semeadura, retirando espinhos, espantando corvos, recolhendo pedras, irrigando paz e plantando compaixão.

Ao sr., Tio, a quem eu carinhosamente chamo de "O discreto", o meu reconhecimento e os votos de anos mais de saúde, de fé e de música.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Em glória

Perguntaram-me se só escrevo de mortos porque os vivos não se prestam às letras. Não há mortos em meu blog, alguns falecidos, todos em glória. A vida é a essência dos bucaneiros. Mortos estão os olhos de quem não entende a ribalta. 

sábado, 3 de outubro de 2009

País do futuro

A Copa virá.
As Olimpíadas virão.
Enfim, a profecia se concretizou: somos o país do futuro, de 2014 e 2016.
O que virá depois não será profecia...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Secretariar

Pedro instituiu a função de secretário, sendo mais tarde, não sem motivo, promovido a santo. Recebeu do Chefe uma pedra, uma singela ordem e uma tarefa imensa. O resultado todos conhecem e, não sem motivos, até hoje as secretárias guardam as chaves dos céus.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Do Ipiranga

Quando aceitarmos que a Educação é o melhor (quiçá o único) caminho para o desenvolvimento de nosso povo, entenderemos por que do Ipiranga as margens eram plácidas. No grito, a história cheira a estória.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O homem sem idade

Em 15 de setembro de 1879, nascia Luiz Mendes de Cerqueira, sobredito Tio Lulu, meu tio-avô. Segundo dizem, Tio Lulu casou-se com 45 anos e afirmava ter perdido a mocidade por se casar tão cedo. Sempre achei cômica essa afirmação, até o dia que entendi o que ele dizia, talvez a expressão mais simples e mais completa sobre nós, os Mendes. A ele, Tio Lulu, a quem eu chamo carinhosamente de "O ilimitado", que vive em muitos de nós, minha homenagem.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

These

Vita brevis, ars longa, occasio praeceps, experientia fallax, judicium difficile.

Há 144 anos, em 14 de setembro de 1865, na Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, era defendida a tese "Da ressecção dos ossos com a conservação do periosteo e sua reproducção", a primeira sobre a qual se tem notícia nas famílias Mendes, Ribeiro e Cerqueira. Depois dela, tantas outras vieram, vêm e virão. Ao Dr. Ezequiel, bandeirante acadêmico de nossa família, nosso eterno reconhecimento.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Paradoxo salino

Para a grande maioria da população brasileira que vive no sal e sonha com um futuro melhor, como acreditar que a redenção socioeconômica estará no passado, no pré-sal?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Lucta

Foi tomar posse de sua freguezia o nosso conterraneo Rvmo. Pe. Belchior Mendes Cerqueira, levando em sua companhia o seo digno irmão Luiz Cerqueira. Feliz viagem lhes desejamos.

Jornal A Lucta, Itapecerica, nº 25, anno 1, 26 de fevereiro de 1899. [Primeira página]

domingo, 6 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Filhos

Os filhos permitem o desenvolvimento da família, a renovação da cópia, impedindo o estabelecimento de um selva de loucos, a estandardização do sanatório geral.

domingo, 30 de agosto de 2009

A banda

Este texto é uma homenagem a meu Tio Cesarinho, falecido em 28 de agosto de 2009, a quem eu chamo carinhosamente de "O prático".
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– Bota a Banda! – disse o Maestro.
– Eu já disse que não quero a Banda. – retrucou o Sapateiro.
– Cesarinho, ouça seu pai e deixe a Banda tocar. – disse o Padre Dulinho.
– Eu também acho, Cesarinho. Durante tantos anos você participou da Banda, ajudou a construir a identidade que ela possui, é devoto de Nossa Senhora das Dores e pessoa tão amada na cidade. Nada mais justo do que a Banda tocar. – ponderou o Ninico, limpando as narinas em seguida.
– Deixem o menino fazer o que ele quiser – interpelou Tio Lulu. – Vocês se intrometem de mais nos assuntos dos outros. Não amolem!
– Calma, Lulu, nós só estamos conversando. Não precisa estourar e aqui nem é o lugar para isso – apaziguou o Dinho Totonho.
– Qual é sua opinião, Padrinho Aluísio? – indagou Dr. Levi.
– É... – respondeu ele.
– Eu já entendi, gente. Mas não me acho merecedor da Banda, não quero dar trabalho para ninguém, quero apenas aquilo que escrevi. Só isso.
– Mas, Cesarinho, a Banda é a nossa alma. É alma de nosso povo. A música é o que corre em nossas veias, fantasiada de sangue, a mesma que adorna o altar da Matriz em tantos pontos diferentes. Nós passamos, mas nossa música fica. Permanece nas ladeiras que tantas vezes percorremos, em Fé, nas Semanas Santas, nas tristes tardes fúnebres, nos calorosos dias de festa. – refletiu o Cônego Belchior.
– Cesarinho, aquelas pessoas não estão lá para ouvir a Banda, mas todas elas gostariam e, não tenho medo de dizer, que todas, sem exceção, acham que ela deveria tocar. É uma homenagem para você e para todos nós que aqui nos reunimos. – disse o Maestro.
– Eu agradeço a atenção e o carinho de todos, mas não posso voltar atrás. Vejo e sinto o amor de todos que lá estão, uns que vieram de longe, outros daqui mesmo, tanta gente boa, tanta amizade... A Aurélia, a Rita, o Marco, o Pedro, o Zicó, a Zoca, o Zezé, a Santinha, a Mariazinha, o Lauro, o Belchior, os meus sobrinhos (os cabrinhas), as minhas sobrinhas, o pessoal da Banda, tantos amigos e amigas... Fico feliz por este momento ser assim...
– Então tá decidido: bota a Banda para tocar. Faça contato com o Marquinho e fale que ficou tudo certo, tudo acertado, sem restrições, sem mágoas. A Banda vai tocar.
O Maestro abraçou o filho e sorriu. Outros chegaram e se confraternizaram, naquele momento único, para, juntos, ouvirem o primeiro acorde.
– Saudades do Dinho Totonho...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Pontos

O que amedronta não é o obtuso ponto de interrogação, mas a presença aguda do ponto-final.

sábado, 22 de agosto de 2009

Fonte

Apesar de se utilizarem de canecas distintas, Forrest Gump e Benjamin Button bebem água da mesma fonte.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Bússola

O erro de algumas empresas é acreditarem que a Direção é o Norte, para onde todos os destinos e desejos convergem. Pavoíce consequente de seu séquito magnético (raramente geográfico), parvoíce decorrente de seu achatamento dos polos.

domingo, 9 de agosto de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

As palavras invisíveis

Para Italo Calvino

– Seja bem-vindo, Veneziano! Encontraste a mulher de meu sonho?
Marco Polo, depois de centenas de dias viajando pelo império do Grande Kublai, retornava da missão de encontrar uma mulher sonhada e descrita pelo imperador. O veneziano, ao entrar na sala imperial, fez a saudação ao soberano e caminhou em direção a ele. Sua face não demonstrava sucesso ou fracasso, o que fez Kublai Khan interromper os passos de Marco apontando-lhe o dedo indicador.
...
Mais de cem dias atrás, Marco Polo fora chamado à presença do Kublai. Frente a frente, a indagação:
– O que é um sonho?
Alguns instantes para pensar e a resposta:
– É uma realidade etérea.
O Khan o olhou fixamente:
– Na última noite, uma mulher visitou meus sonhos. Ela chegava caminhando, trazendo às mãos as rédeas de um cavalo branco. Suas feições eram limpas, sua pele clara como as mulheres do poente, os cabelos louros como o sol e seu andar felino. Aproximava-se de mim, dançava seus lábios em palavras inaudíveis e oferecia-me o cavalo.
Marco ouvia o relato atentamente.
– Ao fim de um galope, surgia uma árvore frondosa, de pequenas folhas, mas de grande altura e sombra. Descendo do cavalo, que arfava de cansaço, aproximei-me do tronco e encontrei uma outra mulher, mas que era a mesma. Sua pele estava como a das mulheres do levante, com cabelos pretos à altura dos ombros, um nariz delicado e orelhas e colo adornados com belas pedras verdes.
Nunca havia visto uma mulher com cabelos curtos e devo admitir que isso me causou grande estranheza. Ela se aproximou de mim e me presenteou com um espelho pequeno, como esses que minhas esposas seguram enquanto as amas penteiam seus longos cabelos. Novamente, uma sensação de estranheza tomou conta de mim, não por ver minha face refletida, mas por segurar o espelho. Não me lembro de ter segurado outro antes.
A mulher contornou a árvore com seu passo felino, ocultando-se pelo tronco. Seguindo seus passos, encontrei apenas um corcel, negro como a noite. O cavalo não parecia o mesmo, era maior e mais forte, com grandes narinas e parecia impaciente. Montando, parti em direção incerta.
Sentia o nascer do sol e observava o pôr, ritmados pelo trote do cavalo, que não corria, mas imprimia incrível velocidade. Aos poucos percebi que o sol estava parado, era eu que trilhava caminhos circulares, voltando sempre ao início, ao fim. Em um desses momentos, quando o fim toca o começo, uma mulher linda apareceu e sorriu. Meus olhos brincaram comigo, fazendo com que eu visse ora a mulher do levante, ora a mulher do poente, não raras vezes avistasse as duas juntas, com cabelos negros e louros, longos e curtos, na constituição de uma só mulher. Seus lábios bailavam, mas meus ouvidos estavam cegos àquela dança. Esticou os braços e desenrolou um pergaminho, que rapidamente tentei ler. Estava em branco.
Kublai se calou. Caminhou pela sala e sentou em seu trono.
– Tenho milhares de cavalos e poderia ter todos do império se quisesse. Tenho centenas de espelhos, de todos os tamanhos, de todos os formatos, e poderia mesmo controlar toda a produção deles. Tenho uma vasta biblioteca, com pergaminhos de todas as línguas conhecidas, e grande quantidade deles em branco, a serem preenchidos.
Fechando os olhos, colocou os lábios no tubo de âmbar do cachimbo e aspirou calmamente. Na seqüência:
– Mas não tenho essa mulher, não sei quem ela é nem onde mora. Ela está nos meus olhos e não posso pegá-la, está em minha mente e nem mesmo sei o seu nome. Invadiu minha fortaleza, interrompeu meu sono, trouxe-me a dúvida... Que exército vencerá um inimigo invisível?
Após nova aspiração, disse:
– Ponha-te em viagem, explora todas as costas e procura essa mulher.
...
Kublai Khan virou-se de costas e se pôs a pensar naquilo que, em segundos, findaria sua ansiedade de centenas de luas.
– Veneziano, trazes novidades?
– Sim, meu senhor.
– Encontraste a árvore frondosa?
– Sim, meu senhor.
– Viste belas mulheres?
– Sim, meu senhor. Teu reino é pródigo em beleza.
– Então, encontraste a mulher de meu sonho?
– Grande Khan, a mulher não foi encontrada, mas teu sonho sim. Aqui está ele.
Marco Polo retirou da roupa um pergaminho e o entregou ao Khan. Segurando-o, hesitou em abri-lo por alguns instantes. Desenrolando-o, descobriu-o em branco.
– Agora podes guerrear. Teu inimigo é visível.
Kublai Khan sorriu, descobrindo a mulher pelas linhas em branco do pergaminho.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

À sombra das peladas imortais

Para Mario Quintana
Da vez primeira em que me fraturaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me quebraram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus ossos calcificados, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, velha, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da pelada!
Ah! Deste pé, avaramente sestro,
Ninguém há de arrancar-me a bola amada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
Não calará o canhoto, torto, que já foi destro!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Alma de um povo

Em 23 de julho de 1979, era gravado o primeiro disco da Corporação Musical Nossa Senhora das Dores.
Em 23 de julho de 1981, o Maestro Cesário, comandante da Corporação, era chamado à casa do Pai.
Em 23 de julho de 2008, era concluída a dissertação deste bucaneiro que aqui escreve.

Em 1979, na gravação do LP, foram decisivas as participações de Padre Gil e Padre Zicó, tendo o primeiro idealizado e o segundo viabilizado o projeto.
Em 1981, "A morte do justo", numa tarde fria de inverno, solou a despedida do Maestro.
Em 2008, as últimas palavras foram acrescentadas à dissertação, fechando a versão que iria à defesa. Nesse texto, sobredito dissertação, encontra-se o nome do Maestro Cesário Mendes de Cerqueira, a quem eu chamo carinhosamente de avô e tenho a satisfação de trazer comigo dupla parte de seu nome.

Um dia, quando a banda passar, todos nós estaremos juntos novamente no reencontro desse povo que é nossa própria alma.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O bode da boda

O casamento é tão-somente uma crônica;
basta-lhe fidelidade e algum estilo.
Machado de Assis

O circo é chamado, com bastante razão, de o maior espetáculo da Terra. São vários atores, cenários, apresentações, um certo número de animais – alguns adestrados, outros não –, e o mais importante: os palhaços. O que seria de um circo sem roupas coloridas, caras pintadas e uma boa palhaçada? Entre gargalhadas e choros (de tanto rir), o espetáculo não pode parar.

Pensando no circo, acredito que o casamento é a maior aventura da Terra. Explico. Um casamento é composto por atores, um cenário, animais (não-adestrados) pululam e palhaços – de caras coloridas e roupas pintadas – pipocam de todos os lados. Hoje tem ou não tem marmelada?

Assim, empatados em grandiosidade, o casamento se torna a maior aventura da Terra pois ele é uma guerra em que aliados e inimigos vestem o mesmo uniforme. Jamais se entra ou se sai de um casamento ileso, principalmente se sua trincheira for o altar. Um casamento é o espaço ideal para rever inimizades, reaquecer intrigas, desmerecer créditos alheios, maximizar débitos terceiros, observar a ação do tempo e reencontrar amizades distanciadas. Considerando a empatia de minha caneta, reencontro as amizades, observo o tempo e engano os desatentos.

Dias atrás pisei esse campo de batalha, querendo, como Riobaldo, que o branco fosse branco e que o preto fosse preto. Possível não foi, mas a desandança seguiu, rumo a quem sabe onde não fala o que é. Atrás eu fui.

O primeiro que avistei foi Floro das Grassas e sua família, reluzente como sempre. Os ouros brilham na querença dos louros, mas há louros que não compram os ouros. Na ausência de graça, a família Grassa segue só, ridente, na vã esperança de preencher a mente.

Não muito distante, há poucos bancos de mim, Felipa dos Prazeres. Quem a visse, assim, abeatada, não imaginaria o que o plural de seu nome é capaz. Talvez não seja mais, apenas tenha sido, pois aquele viço de outrora, que nunca chegou a ser beleza, se esvaiu nas mãos do tempo. Casar gostaria, contudo os Prazeres são efêmeros.

Diferentemente, Bôsca das Flores, graciosa, aparentava rir do tempo, divertindo-se entre rosas e fragrâncias vindas de Zirma, Fedora, Ipazia, Eutrópia e Bersabéia. Sua busca por flores se apaziguou depois de entender que insetos e espinhos são parte do roseiral e que nossos olhos, muitas vezes, nos enganam.

Castigada pelo espelho, Lola das Faces deslizava pelas sombras, anônima. Poucos reconheceram Facinha – como era carinhosamente chamada –, ainda que seu vestido fosse luzente e ela estivesse bem à entrada principal. É preciso admitir que, em eventos como esse, não há muitos momentos para se demonstrar inteligência e perspicácia, virtudes indeléveis na face de Lola. Entrou Facinha, saiu Facinha, e não chamou a atenção de ninguém, mesmo que seus alvos dentes luzissem como pérolas.

Cumprimentou-me o Mariano. Ou melhor, Mariano dos Desejos, como ele afirmava e insistia. O que são os sobrenomes senão um selo que, diferentemente de alguns do mercado, não comprova nenhuma qualidade? Sem sobrenome, uma figura parva se torna insignificante, massificada pelo gentio. Você conhece o Zé? E o João? Se sim, digo que ambos devem ser ou parecer pobres, pois se fossem abastados seriam o Zé das Couves (com “c” maiúsculo), empresário das foliáceas, e o João Fedônio, garboso e aromático. Os Desejos são assim, o que se há de fazer?

Aproximaram-se Carmelo, de tantas canetadas, Tico Preto, de tantas campanhas, Lindolfo, de tantas histórias, e o Peralta, de tantas beligerâncias, alongando a amizade que a distância não conseguiu encurtar. A chegada deles espantou minhas divagações, assestrando minhas observações.

Sobre o casamento, nihil nove sub sole. A mesma liturgia, os mesmos símbolos, o mesmo “valha-me, Deus!”. Felizes entraram, felizes saíram, até que a morte os separe. Fidelidade e estilo, nas palavras de Machado, busco em meu texto; para o casamento, a hestória é outra.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Amigos

Segue a comemoração do aniversário do Caneteiro no dia do Amigo. Desde antes de "Beleza", o Caneteiro já recolhia e distendia sementes de sonhos, como aquele de ir trabalhar no interior da Inglaterra, capítulo onírico sumariamente enterrado com os incidentes de 11 de setembro de 2001.

Durante a escrita do Caneteiro, as amizades foram as certezas dos momentos incertos. Renata Velasco e Sônia Queiroz, primeiras sementeiras daquele projeto "Maluco", bussolavam a embarcação durante o son(h)o do timoneiro.

Os textos foram surgindo e novos amigos foram agregados. É bem certo, porém, que nem só de amizades vivia o Caneteiro, principalmente pela tinta acre que escorria do papel. Essa seiva espantou os "maus espíritos" e trouxe "familiares" distantes, perdidos, inéditos. A eles: Letícia Rodrigues, Lauro Mendes, Vera Casa Nova, Neide Freitas, os sempre votos de estima.

Em 2005, a hospitalidade do amigo André Penna permitiu que o Caneteiro ganhasse uma casa: http://www.caneteiro.com.br/, encerrada, em 2007, com a bênção de Medeiro Vaz. Era o momento de "queimar" o arquivo e buscar o-que-não-via, o-que-não sabe, o-que-não-digo.

A história está simplificada, mas os vértices estão citados.

O ademais é outra hestória.

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O texto de amanhã, O bode da boda, é aquele que eu gostaria de ter escrito. Em 21 de julho de 2006, em um casamento na Igreja da Boa Viagem, recebi o manuscrito em mãos, presente de Dona Quiméria. Aos nubentes da data, meus parabéns pelo terceiro ano de casamento; ao texto, quimérico, o renascimento do terceiro tomo de quatro.

sábado, 18 de julho de 2009

Decreto

Decreto N.º 1808 - de 22 de Agosto de 1860.
Autorisa o Governo a mandar matricular no primeiro anno da Faculdade de Medicina do Rio Janeiro a Fabio Sizino Bastos da Silva, e Ezequiel Alfredo dos Santos Ribeiro, e no primeiro anno da Faculdade de Medicina da Bahia a Marcos Antonio Monteiro da Silva.
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Hei poir bem Sancionar e Mandar que se execute a seguinte Resolução da Assembléa Geral Legislativa:
Art. 1º He o Governo autorisado a mandar matricular no primeiro anno da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a Fabio Sizino Bastos da Silva, e Ezequiel Alfredo dos Santos Ribeiro, sendo préviamente approvaddo, no exame de historia que lhes falta: e no primeiro anno da Faculdade de Medicina da Bahia a MArcos Antonio Monteiro da Silva, levando-se-lhe em conta os exames de preparatorios que fez, não obstante o lapso de tempo exigido para sua validade; e á exame das materias do dito anno, huma vez que se mostrem habilitados na fórma dos respectivos Estatutos.
Art.2º Ficão revogadas para esse fim quaesquer disposições em contrário.
João de Almeida Pereira Filho, do Meu Conselho, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Imperio, assim o tenha entendido, e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro em vinte e dous de Agosto de mil oitocentos e sessenta, trigesimo nono da Independencia e do Imperio.
Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.
João de Almeida Pereira Filho
João Lustosa da Cunha Paranaguá
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Fonte: Collecção das Leis do Imperio do Brasil de 1860. Tomo XXI. Parte 1. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1860. p.40.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

terça-feira, 14 de julho de 2009

Dos vivos - parte 4

– Eu esssstava em silêncio, mas não pude deixar de me ofender com o “pra mim fazer”. Você fugiu da esssscola, idiota? Eu detessssto gente esssstúpida.
– É por isso que você não se olha no espelho?
Risos.
– Se é “para eu fazer” ou “para mim fazer”, agora não vem ao caso. Isso aqui não é uma aula de Português! Eu falo do jeito que eu quiser.
– Idiota! – retrucou ela.
– Eu quero saber quem está comigo! – gritou Amadeu, encerrando a discussão.
Fez-se silêncio e alguns levantaram os braços.
– São poucos, mas são leais. Têm brio e vergonha na cara! Não são como muitos que falam muito e não fazem nada.
– Quando eu morri, depois de muito sofrer, acreditei que iria para o descanso eterno. Mas estou vendo agora que fui enganado. Vocês são muitos chatos! Me deixem em paz! – falou um velho de cabeleira branca e olhos fundos.
– É por causa da bestialidade de pessoas como você, Amadeu, que estamos sempre recebendo mais e mais vizinhos. Deixemos os adjetivos para os vivos, não sejamos tão tolos como eles.
– E os outros cemitérios? O que os moradores de lá estarão pensando e falando de nós?
– Eu quero falar – aproximou-se um índio, carcomido pelo tempo.
Abriu-se um círculo entre eles e ele começou:
– Há muito tempo eu estou aqui. Muito tempo mesmo. Muito antes de vocês chegarem. Muito antes de vocês construírem essa cidade dos mortos. Eu já estava aqui. Vi muita gente chegando. Vi muita gente partindo. Vi tudo isso. Vi muito mais.
Fez a pausa para a respiração, mesmo sem precisar.
– Vi guerras. Participei de lutas. Vi pessoas morrendo. Matei inimigos. Estou aqui. Vi muito. Aprendi um pouco. Você disse das outras cidades dos mortos. Quantas cidades dos mortos há espalhadas sem ninguém dizer nada delas?
– Aonde você quer chegar, índio?
– Já cheguei. O velho já chegou também – apontando para Horácio.
– Me diga, ande!
– Você está morto. Mas carrega um vivo dentro de você. Não se preocupe com os outros. Gaste sua preocupação com você. Deixe essas bobagens para os vivos. Você sabe o que é veleidade?
– Não, não sei. O que é?
Olhou-o no fundo dos olhos, fez uma reverência e se retirou do círculo.
– Até um índio está querendo me ensinar. É demais!
– Ouça o que o velho índio falou, Amadeu. Daqui a pouco você vai querer invadir um cemitério do outro lado do mundo, em troca de uma desculpa esfarrapada: para libertar aqueles mortos ou para assegurar a paz entre os cemitérios.
– Tolices!
– Tolo é você! – gritou uma voz entre eles.
Outras vozes surgiram, engrossando o coro contra Amadeu.
– Estou pensando em nós, não apenas em mim!
Mais vaias.
– Vocês são uns idiotas! Vão se arrepender disso!
– Cale a boca, falastrão!
– Por hora, volto para minha morada. Voltarei! Aguardem!
Amadeu antes de voltar ao sétimo andar, parou e observou atentamente sua lápide. Simples, com escritos simples, mas com um erro que o irritava profundamente. Leu em voz alta:
– Aqui jaz Amadeus da Consolação. Amadeus...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dos vivos - parte 3

Ao ouvir isso, se transformou. O pranto foi esquecido e com voz energética se dirigiu ao interlocutor:
– Capitão? Desde quando perdi minha patente? Você não tem juízo? Em outros tempos eu mandaria prender você por desacato à autoridade, moleque! Capitão, não! Tenente!
– Desculpe, capitão.
Risos.
– Moleque atrevido! Se não fosse o meu anel... – rolavam as lágrimas.
– O que aconteceu, Tenente? – perguntou uma senhora, comovida pelas lágrimas.
– O anel, meu anel de tantas histórias, de tantas lembranças, que pedi que viesse comigo à morada eterna, está encravado em minha mão e não posso tirá-lo. E pior, também não posso carregá-lo comigo.
– O senhor não poderia reclamar: e eu que estou nu há vários anos, desde o dia que assaltaram minha sepultura e levaram minhas roupas?
– Pois vocês ainda estão melhores do que eu, que estou “morando” com minha sogra! Fiquei tão feliz quando ela veio para cá, mas para minha infelicidade... aqui estou!
– Todos vocês! Por favor! Um minuto de atenção. – pediu Horácio.
Alguns cochichos e risadas foram suprimidos para dar voz a Horácio.
– Eu não conheço todos vocês, nem vocês me conhecem. Mas quero mostrar uma verdade para todos: nós estamos mortos! Mortos! Como tais, devemos esquecer aqueles valores que tínhamos em vida.
Vaias e assobios.
– Por favor, deixem que eu continue. Durante a vida, cultivamos valores que nada nos acrescentam, mas nos apegamos tanto a eles que, mesmo mortos, continuam conosco. De que vale todo o ouro que reunimos durante a vida, se nela não pudermos usufruí-lo? Vejamos o exemplo do Tenente: o anel de tantas histórias e de tanto apreço, tão próximo e tão distante.
Continuou Horácio:
– De que vale toda nossa vaidade de beleza, de estética, de cosméticos e de roupas se aqui estamos todos com o mesmo “uniforme”?
– Peraí, Horácio. Quer dizer que o senhor acha que não devemos nos preocupar com nossa beleza durante a vida? Discordo totalmente.
– Eu também quero me manifestar – disse uma mulher mais encorpada – A fulana da quadra ao lado quando chegou estava toda pintada: esmalte, sombras, batom, bijuterias,...
– Calma aí, que a fulana tem nome. Meu nome é Alzira e bijuteria, não. Jóia, viu! Jóia! Ouro! E pintada estava...
– Calma, gente – interrompeu Horácio – Deixem-me falar. Como dizia, eu não disse sobre a vida,...
– Armindo.
– Eu não disse isso, Armindo. É importante nos preocuparmos com a nossa aparência durante a vida, mas não a um ponto que ela se torne nosso objetivo principal. Quem não gosta de boas roupas e bons perfumes? Mas tudo que é demais é muito.
– Papo furado! - gritou Amadeu.
– Você, Amadeu, está impregnado de valores humanos. Tem preconceito quanto à condição social, não aceita os diferentes de você e mais, numa atitude estúpida, propôs que nos reuníssemos e que invadíssemos outros cemitérios. Só uma besta faria isso!
Mais risos.
– Ofender, não! Besta é você!
– Besta, sim! Você está morto. De idiotas já chegam muitos vivos que estão por aí! Seja por política, por religião ou até mesmo por futebol, os vivos brigam e matam uns aos outros. Pura ignorância!
– Eu não tenho paciência para ouvir sermão depois de morto. Para mim ouvir em vida já era difícil, depois de morto nem pensar.
– “Para mim ouvir”? Desssde quando “mim” faz alguma coisa? – comentou uma mulher.
– Ninica! Só podia ser você mesma! Já era chata em vida, depois de morta então... insuportável! Os alunos fugiam de suas aulas e você, tonta, se indagava por quê. SSSSaco!

domingo, 12 de julho de 2009

Dos vivos - parte 2

– Esperei durante semanas para ver se alguém faria alguma coisa sobre o assunto. Mas nada. Nem uma só palavra de repúdio! Nem um palavrão para desobstruir o silêncio e lavar a alma! Nada!
Observava as reações e prosseguia:
– Todos os dias, novas pessoas têm chegado, se mudado para cá. A cada nova mudança, sempre as mesmas histórias: “Que cemitério pobre!”, “Esse cemitério, perto do do Bonfim, não é nada. O Bonfim é muito mais assustador!”, “Aqui só deve ter pobre. Olha como as sepulturas são simples”, “Bem feito. Depois de tudo que fez na vida, ser enterrado nesse fim de mundo”.
– “Eu prefiro o da Colina”, “O Renascer é...”, “O da Saudade tem a melhor vista”.
– O quê? Eles dizem que aqui só tem pobre?
– Nunca ouviu? Não é só isso, mas também que o da Paz é o melhor localizado porque está ao lado de um shopping.
– Passei a vida inteira trabalhando duro, economizando tudo o que era possível e agora eles vêm dizer que aqui só tem pobre? À merda para eles!
– Pois é isso, minha gente! Todos aqui devem já ter ouvido alguma coisa desse tipo...
– “O Bosque da Esperança é maravilhoso”.
– Isso mesmo. Por comentários como esse é que resolvi convocar essa reunião. É preciso dar um basta nessas maledicências.
Apenas um garoto soltou um “apoiado”.
– Ninguém tem nada a dizer?
– Eu tenho – interpelou um homem.
Aproximou-se:
– Quais são suas idéias?
– Meu plano é atormentar as pessoas que vêm aqui. Se a cada cortejo mostrarmos nossa força, em breve essas “historietas” atuais sumirão.
– Mostrarmos nossa força como?
– Assustando as pessoas. Apagando velas, levantando saias, gritando, causando calafrios, arrastando correntes e outras idéias que possam surgir.
– Você pode fazer isso?
– Nós podemos. Todos nós, juntos.
– Você já tentou?
– Ainda não, mas podemos começar agora mesmo.
Silêncio novamente.
– Outra coisa: proponho que façamos uma comitiva para irmos aos outros cemitérios e mostrarmos a eles que não estamos “mortos”. Que não somos um “cachorro morto”!
– Desculpe, garoto, eu não sei seu nome – disse o homem.
– Amadeu.
– Amadeu, eu já estou aqui há muito tempo. Não sei há quanto tempo você chegou, mas eu gostaria de lembrar uma coisa a você: Você está morto!
– Desculpe, senhor, mas eu não sei o seu nome – disse Amadeu.
– Horácio.
– Horácio, se o senhor não me avisasse, eu não sei o que seria de mim.
Risos.
– É claro que eu sei que estou morto. Estou morto, mas não incapacitado. Sei muito bem o que posso.
– Amadeu, se sabe que está morto, por que continua com o discurso de um vivo?
Risos novamente. Um grito ecoa entre eles.
– Ai, meu Deus! Meus dentes! Onde estão meus dentes?
– Está vendo, Amadeu? Isso é a prova do discurso de um vivo. Ela voltará à sepultura e verá os dentes todos lá, mas não poderá pegá-los.
– Tolice! Podemos fazer alguma coisa, sim.
Outro grito:
– Meu anel! Onde está meu anel? Estava comigo e agora não está. Será que caiu enquanto subia? Vou descer e olhar. – foram as palavras de um homem em um uniforme militar.
– Anel? De ouro? Quer ajuda? – ofereceu-se outro.
Iniciou-se uma pequena discussão, interrompida segundos depois pelo pranto do militar.
– Meu anel! – dizia apenas isso e rolavam as lágrimas.
– O que foi, capitão?

sábado, 11 de julho de 2009

Dos vivos - parte 1

Deitado em sua cama observava o teto. Uma aranha deslizava silenciosa pelas paredes, ao contrário das vozes que vinham do lado de fora de sua morada. Mulheres choravam, crianças corriam inocentes e homens praguejavam. Era sempre assim. A cada novo vizinho uma nova comitiva, mas sempre o mesmo ritual.

O alto da colina era seu endereço, justificando-se assim a posição privilegiada para a observação dos cortejos. Havia se mudado para lá há pouco tempo, pouco mais de alguns meses, mas já se sentia em casa. “O que não tem remédio, remediado está”, pensava ele.

Porém, nas últimas semanas, conversas começavam a incomodá-lo bastante. Não gostava do que ouvia e esperava que algum vizinho tomasse a iniciativa de se manifestar. Silêncio. Aliás, silencioso era um bom adjetivo para aquele local e para aqueles vizinhos. Ele não sabia o nome do vizinho ao lado e o vizinho também não o conhecia; não sabia se o condomínio estava pago em dia ou atrasado, se eram famílias ou solitários, se havia crianças ou cães, se eram dali ou de outras cidades, se eram antigos moradores ou recém-chegados. Muitos, até, se orgulhavam dessa condição insular em que viviam, não pensando na perda de seu valioso tempo com vizinhos (e tempo era algo que não faltava naquele conjunto habitacional).

Pensava no que ouvia e no silêncio dos vizinhos. Não fariam nada? Não, isso não poderia ficar do jeito que estava. Levantou-se, subiu os sete andares e começou a bater de porta em porta, convocando os vizinhos para uma reunião.

– Saiam, vamos! Saiam todos! Precisamos conversar!

Um ou outro morador apareceu à porta.

– Vamos, ajudem a chamar os outros! Precisamos tomar uma atitude sobre o que têm dito de nós!

– Dito o quê? Eles quem? – indagou um senhor de idade avançada.

– O senhor não tem ouvido os comentários? Em que mundo está vivendo?

O velho ficou mudo. Outros ajudaram na convocação dos demais. Aos poucos, surgiam e se aglomeravam próximo à casa do convocador; estavam em número aproximado de cinqüenta.

11 de julho

Neste mês, no dia 31, o Caneteiro completaria 8 anos de vida. No (agora) longínquo 2001, teve início a nossa odisseia, que se estendeu até o ano de 2007, interrompida pela ausência de tinta, essa seiva que alimenta o o-que-não-fala.
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Em 2008, viriam os Bucaneiros. O traço foi alterado, a herança familiar se manteve. Alguns se foram, outros chegaram, os-que-espero não virão, os-que-não-quero continuarão a ser desqueridos, os-que-amo estão sempre presentes, longe, perto, encantados.
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Neste julho de 2009, no 8º aniversário do Caneteiro, reblogueio três textos assinados por ele. Hoje, o único texto que pode ser chamado de referência bibliográfica. "Dos vivos" foi publicado na Revista Humanidades, de São João da Boa Vista (SP), n. 4, Série Letras n. 2, p.169-174, set. 2003/abr. 2004.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Em casa

A sogra se foi.
Foi-se o pai.
Foi-se a mãe.
Foice a família.

Voa, absoluta, a fada madrasta.

domingo, 5 de julho de 2009

A casa

O inquilino que não percebe que a casa da sogra deu lugar à casa da Sônia poderá conhecer, em breve, o céu do viaduto.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Comutabilidade

Paz é guerra.
Escravidão é liberdade.
Força é ignorância.

Não importa o ano, o produto sempre é o mesmo.

domingo, 28 de junho de 2009

Lambança

Ontem, perdemos a primeira partida no Brasileirão. Perder não é um verbo que se conjuga na Arquibancada Atleticana, mas diante das circunstâncias da partida e do campeonato acho que a derrota trará muitos aprendizados que serão úteis para o restante do Campeonato.
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Há muito tempo não assistia a uma lambança tão grande, não desconsiderando a partida sem brilho do Galo. A matemática do jogo de que gosto é que a traduz os três pontos, sem me atentar muito a quantos escanteios, quantos amarelos, posse de bola e outras estatísticas mais, mas não posso deixar de notar quando meu time finaliza, com perigo, uma vez ao gol adversário. É muito pouco.
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Essa pouquidão acrescida de chuva resultou nessa lambança histórica. Toda a mixórdia começou com a furada do zagueiro do Galo no primeiro gol do Barueri, que fez com que a bola sobrasse para o jogador do time paulista finalizar de dentro da área atleticana. Na sequência, a tricotada do Aranha no recuo de bola arriscado, no domínio equivocado, na dividida com o atacante adversário, no bate-rebate, no palavrão da torcida, no gol do Barueri.
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Não satisfeito com a vitória atleticana no quesito circense, o zagueiro adversário comete um pênalti pirotécnico. Foi tão bem executado que não houve reclamação, palmas ou preces. Tardelli bateu e acrescentou mais um gol em sua conta.
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Em relação ao segundo pênalti, eu aplico minha teoria dos pênaltis. Em um lance de penalidade máxima, há três opções possíveis: foi pênalti, não foi pênalti ou é um lance ideal para o árbitro apitar (o tempo verbal não é ao acaso). Não tenho dúvidas que o lance de ontem que gerou o gol de empate do Galo está classificado no terceiro tipo, com a imprudência característica dos jogadores de marcação em lances dentro da área.
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No processo lambançal, o árbitro usou a teoria do pênalti em um lance fora da área. Falta. Menos um. A barreira não fez o papel dela. Mais um. Logo depois, mais um. Ao final, menos um. Ao recolhimento das cortinas, derrota de 4x2.
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Na derrota, nada de desespero. Após o calor do jogo, é bom rever os erros e ruminar as lições da Arena Barueri para que possamos acertar nas próximas partidas. Particularmente, prefiro as lambanças concentradas em uma partida só a várias lambanças pontuais ao longo do Campeonato.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

domingo, 21 de junho de 2009

sábado, 20 de junho de 2009

A borboleta preta

Para a bruxa do porta-retrato
No jardim sem flores, borboleteia a fragrância da memória.
O imortal escaravelho rutila os olhos de fogo.
A libido poliniza sonhos almiscarados.

Por que diabo não era ela azul?

sábado, 13 de junho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A morte e a morte de Quincas Boca-de-Urso

Hoje é seu aniversário. Alguns dirão que era...
Anda sumido, correndo de boca em boca que morreu...
Tolice. Sempre o vejo pela rua, sorriso largo, braços abertos:
"Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há."

Filho de um palhaço e de uma bailarina
batizado em homenagem ao Amado Berro D'Água
alcunhado pela gula e pelo sono
sandália, boina, colete e cachecol
Cada qual cuide do nunca, impossível é que o há.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Açucena no jardim

Fole, fogo, fala, fé.
Na bigorna dos tempos,
o coração quente
malha
a palavra fria.

Fole, fogo, fala, fé.
No tique-taque desse martelo,
forja-se um casal,
cose-se uma pergunta,
cozinha-se uma resposta.

Fole, fogo, fala, fé.

E as cebolas?

sábado, 30 de maio de 2009

Festa de Pentecostes

Carissimos fieis – Não posso ocultar as vivas emoções de minh’ alma no momento de subir a esta tribuna sagrada, para dirigir-vos, pela primeira vez, a minha modesta palavra. Foi com júbilo e desvanecimento que accedi a gentileza de um convite, para auxiliar na presente festividade, que vindes comemorando com tanto aparato, cheios de recolhimento e fervor: prelibei a ventura de poder testemunhar – de viso – o espírito profundamente religioso e edificante, com que sabeis desempenhar-vos dos compromissos religiosos, na rememoração dos mais profundos dogmas e impenetráveis mistérios da S. Igreja.


As palavras acima foram proferidas em 30 de maio de 1909, em Monte-Santo/MG, pelo Cônego Belchior Mendes de Cerqueira, abrindo o Sermão pela Festa de Pentecostes. Hoje, 100 anos depois, véspera do domingo de Pentecostes, as vivas emoções são vivas palavras.


A ele, Cônego Belchior, meu tio-avô, a quem eu chamo carinhosamente de "O descobridor", minha pequena homenagem.

Sed, quae stulta sunt mundi, elegit Deus, ut confundat sapientes, et infirma mundi elegit Deus, ut confundat fortia. (1 Cor 1:27)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Resta 1

Quem antes vive só do que mal acompanhado não conhece a solidão.
No deserto de cada um, miragens e pegadas andam aos pares.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Artesão

Com uma pedra, Pedro edificou uma igreja, Davi findou Golias.
De uma pedra, Drummond retirou poesia, Michelangelo colheu Davi.

Com uma palavra, o Nazareno inutilizou inúmeras pedras.
Com uma palavra, os tolos fazem calos, os miseráveis quebram os dentes.

As palavras não são pedras. São de pedra.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

Ausência de palavras

O que escrever quando não se tem o que dizer?
[...]
Descansai, palavras, da árdua construção.
Não há pujança, somente a ausência a ruflar asas pelo teto.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A dor da Informação

- Por que saltas, Karina?
- Por que não o faria, Anjo da Morte?
- As palavras que te ferem são as mesmas que te dão vida.
- Tu conheces a Morte, não a Sabedoria. Faze teu trabalho: recolhe as palavras sem futuro.

domingo, 19 de abril de 2009

Etiqueta

Todo homem tem seu preço. Poucos têm valor.
O preço é medido em moeda; o valor, em horas.
Mais vale a mais-valia ou a dúvida é uma questão de etiqueta?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Gato-guará

"Outrora havia o ‘juiz ladrão’. E hoje?”

Essa dúvida atroz percorria a crônica de Nelson Rodrigues em 1955, quando apenas sonhávamos com o primeiro título mundial e tínhamos pesadelos terríveis com a prata do Prata. De lá para cá e por todas as bocas se ouve que o futebol mudou, o que é um fato, assim como os jogadores mudaram, a torcida mudou, até a bola mudou. E os juízes? Metamorfosearam-se em árbitros, carregando consigo os bandeirinhas, agora sobreditos assistentes.

Além disso, inserimos o politicamente correto. Adeus, ladrões! Vigaristas, patifes, canalhas, nunca mais! Qualquer desvio linguístico se cifra em perdas e danos morais. Pobre do alface! Além de mudar de gênero, que é a único desvio de conduta que o mundo do futebol aceita, perdeu o QI.

Se ainda houvesse um patife, um mísero canalha no apito, o jogo do Galo com o Guaratinguetá seria resenhado em poucas linhas. Como não há, serão necessárias mais do que quatro linhas para narrar aquele fraco jogo de bola. Melhor que uma crônica seria um B.O.

Não fosse o gato-guará, felino bufão que resolveu dar a graça pelo gramado e entreter o público, seria difícil dizer que o jogo foi uma barafunda circense. O gatuno valente roubou a cena com seus malabarismos e pirilampos, não devolvendo a cena roubada nem após o apito final do árbitro. A unanimidade entre público e crítica traria o burro, mas como a respeitável senhora não apareceu, confirmou-se a felinidade do guará.

Quanto ao jogo, foi uma partida de uma nota só: dó. O sol brilhou rapidamente no segundo gol do Galo, com Tardelli mostrando o que faz um centroavante: técnica, posicionamento e muita sorte. O restante foi um grande balaio de gato-guará.

Apesar do modesto desempenho, logo o felino será visto em novos picadeiros, porque, no futebol, gatuno que não mia mama.

sábado, 11 de abril de 2009

Rutaceae

Para minha amiga Neide Freitas

No pequeno sítio em que trabalho, cultivo limoeiros. Produzem durante todo o ano, em alguns meses com mais produtividade, outros com menos, resultado da conjunção do sol com a chuva, do vento com a geada, do húmus do agricultor com o humor das minhocas (ou vice-versa).
Consumidores mais rotos confundem-se pelos frutos: veem os rotáceos, obra do Criador, onde há apenas rutáceos, substância de família. Por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de urtigas?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Entrelinhas

As palavras não respiram sós: no silêncio lácteo do papel, carregam consigo os interstícios da existência.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Corolário

Quando Dona Amélia me deu um terço, eu possuía um meio, era um sexto, nem vislumbrava um quarto. Escorreu-me pelos dedos meu meio, o quarto por quarto se multiplicou, o sexto sestro se fez cestro, apenas o terço se manteve trino, nas contas inumeráveis de meu fracionamento.

domingo, 29 de março de 2009

101 anos

Os breviários acreditam que todos os dias nascem atleticanos, o que, em verdade, é um ledo engano. Em verdade, os atleticanos nascem todos os dias. Mais, nascem e renascem em todas as alvoradas. Não morrem. São convocados para outros campos, outras arquibancadas, outras vidas.
Em 25 de março, ouve-se um chamado inconfundível por toda a bola e os alvinegros se apresentam para renovar a fé nesse pavilhão barroco chamado Clube Atlético Mineiro. Ave, Galo!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Eufemismo

Se dissesse que aqui você encontra obras importantes da riquíssima Literatura Brasileira, não seria propaganda, piada ou patuscada; apenas uma simples e notória inverdade. A leitura é para todos; para nem tantos vivifica a compreensão.

sábado, 21 de março de 2009

Assassinaram o camarão

Pelo fato de não ser peixe, é pouco provável que a lula morra pela boca. Moradora do oceano, não distingue um tsunami de uma marolinha, preocupada com seus múltiplos e enormes braços, ornados de bolsas simbióticas por todos os lados. Enquanto a crise não traz a tragédia, o molusco mimetizante se move molemente pela maré.

domingo, 15 de março de 2009

Clementina

Agradecimento a Caetano Veloso
Insistirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a daga pequenina
Vi que és um nome lindo e que se acaso a sina
Do gume infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima florestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A clementina cristalina em terra Mina

sexta-feira, 13 de março de 2009

Panela de pressão

Fecha atampa.
Mexe lenha.
Sopra brasa.
Ferve caldo.
Sobe chama sua bolha.
Bate-estaca, quebra-coco, cospe-fogo.

Eta dor de cabeça agnóstica, meu Deus!

domingo, 8 de março de 2009

A rosa e o cravo

Comemoração, ainda que seja um solitário dia do ano. Neste dia, festeja-se. Nos demais, luta-se para que essa comemoração seja sincera e desejada.
É a eterna peleja das rosas para mostrarem que, mesmo despedaçadas, não perdem sua essência de flor: beleza, vontade e amor. Só o cravo mais obtuso crê que as rosas não falam.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Autorretrato

Não há horas no meu relógio.
Incompletas são minhas histórias.
Meu caminho não contempla ponto final
Não sou do contra, apenas não estou contido nesta comum unidade.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Aforismo

O aforismo é uma gota de veneno: parca é a dose; incerto, o efeito; desconhecido, o barro de que é constituído o envenenado.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Calva

A escalvada cultura popular afirma que Deus cabelos a uns deu, conhecimento a outros. O fato de alguns não terem nem cabelos nem conhecimento é a prova da trina divindade.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Bicentenário

Alguns infiéis amaldiçoam Darwin por acreditar que ele batizou o primeiro Adão de macaco, inaceitando que as macaquices de Eva são sempiternas. A serpente, desde tempos imemoriais, ri e mostra a língua para esse espécime pseudoprotodesenvolvido.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Pertinência

Conjunto vazio é filosofia.
Conjunto unitário, solidão.
Conjunto universo, utopia.
A biunivocidade desconsidera que todo conjunto está contido em si mesmo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Geometria

As mulheres nasceram para as curvas, não por outro motivo foram concebidas a partir de uma costela. De outro modo, se para retas fossem criadas, teriam sua origem no fêmur.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Senhora da Noite

Alva noite.
Antes que as sombras se mostrem, há tempo para um jogo de cartas.
[...]
Entre tantas cartas, somente uma figura real: Capitu.
Ademais, dúvidas. Muitas e solitárias dúvidas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Sentenário

Na última semana, um amigo da Netgalo lembrou que o torneio no Uruguai era a última oportunidade de título no Centenário, que se encerra em março. Pois bem, ficará o título para o segundo centenário...

No clássico de ontem, em Montevidéu, um jogo de muitos gols, de muitos passes errados e de velhas histórias que se repetem. Em 2008, perdemos um clássico, no apagar das luzes, com um gol de Ramirez, fruto de um rápido contra-ataque. Ontem, antes do terceiro gol, o lance se repetiu, porém sem o gol. Minutos depois, no terceiro gol, novamente em um rápido contra-ataque, o gol foi inevitável, sem que o Juninho pudesse fazer alguma coisa diante do arremate seco e preciso de Ramirez.

Além dessa história, tivemos os velhos cruzamentos que não chegam à área, da defesa que bate cabeça e de volantes que conversam bem e têm jogado pouco (para não dizer nada). Em contrapartida, boas apresentações de Tardelli, de Éder Luiz, de Tchô, pintando a equipe do segundo tempo com ares de mais titular ao longo da temporada.

Apesar da derrota, não há motivo para desespero. O ano está apenas começando e o trabalho do Leão deve render uma equipe competitiva para a temporada, principalmente se chegarem mais alguns reforços para o Clube.

Nesse torneio de verão, com dois clubes brasileiros e dois uruguaios, o Peñarol jogará mais vezes, porque ontem ele esteve em campo duas vezes e na quarta-feira próxima enfrentará a si mesmo. Não entendo de marketing, mas o Galo deveria atuar com o uniforme que lhe confere identidade, ótima chance de mostrar em terras estrangeiras a paixão em preto e branco. Atrair a simpatia de uma torcida estrangeira, pela semelhança do uniforme, não passa de um sonho de uma noite de verão, rivais históricos que são brasileiros e uruguaios dentro de campo. Quem acreditou nessa fábula, dirá, certamente, na quarta-feira, ao fim da peça: “Senhoras e cavalheiros, não vos mostreis zombeteiros; se me quiserdes perdoar, melhor coisa hei de vos dar.”

Jogar no exterior com um uniforme que não é o próprio, que não possui a magia e a paixão alvinegras, foi um erro, o mesmo que pautou a política do centenário, o mesmo que vicia o título deste texto.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Paranoia

“A língua portuguesa deveria dispensar seus defensores pedantes e defender-se por si mesma.”
Carlos Drummond de Andrade

O ano mudou, a Língua Portuguesa mudou, mas a Faixa de Gaza continua a mesma. Nada de novo sob aquele sol, vermelho sol.

Neste início de 2009, a Língua Portuguesa sofreu mais uma reforma ortográfica, tornando-se mais próxima da língua utilizada nos países de colonização portuguesa. Algumas pessoas pensam que as ideias ficaram menos agudas, assim como as tramoias, as jiboias, as Coreias; outras pensam mesmo que a infraestrutura mudou, que a autoajuda está mais próxima e que a mão de obra será menor. Nunca na história desse país se pensou tanto...

A proposta ortográfica partiu de terras lusas ou lusitadas em 1990-91, demorando dezessete, dezoito, dezenove anos para neste pindorama se estabelecer. Chega com ar de estrangeiro, porque alguns de nós a olhamos com nossa típica cordialidade, enquanto outros vociferam, urram, latem e rosnam, não necessariamente nessa ordem, e tantos outros têm mais o que fazer. Nós, que aqui estamos, bem a recebemos, mas não deixamos de mostrar nossos dentes caninos, bem ao vento de nosso complexo de vira-latas.

Não é a primeira reforma, pouca chance possui de ser a última, outras virão e sempre há, sempre, uma alteração em andamento. As reformas deixam marcas sempre, para o bem ou para o mal, com leais seguidores e com fiéis detratores, desde Lutero tem sido assim. A penúltima reforma ortográfica refinou (quase matando) o aforismo de Stanislaw Ponte Preta: “O que seria do doce de coco se não fosse o circunflexo?”, mas a doçura do manjar foi maior, para nossa sorte.

Todos aqueles que trabalham de maneira mais formal com a língua não raro se deparam com novidades, algumas nem tão novas, mas que trazem consigo o cheiro inconfundível de ineditismo. São os mestres, de repente, aprendendo. Não faltarão dúvidas e pererecaram duplicidades ou triplicidades para todos os lados até que esta onda ortográfica se assente no oceano da língua, respingando até mesmo em compêndios formais (ou não) que se propõem a ensinar e a elucidar as novas regras.

No último domingo, no mesmo jornal lia-se, em páginas distintas, “infraestrutura” e “infra-estrutura”; em um manual de sobrevivência de uma revista semanal, alerta-se que “antiaéreo” deixa de ser “anti-aéreo”, ainda que nos últimos trinta anos não houvesse sido; em um resumo de uma editora, lê-se que “não se emprega o hífen em certos compostos em que se perdeu, em certa medida, a noção de composição.” Quanto ao hífen, não afirmamos a presença ou a ausência, porém a “noção de composição” está claramente perdida. Precisaremos aprender e o melhor será aguardar a publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – VOLP –, prevista para o fim de janeiro, para que possamos reaprender uma só vez, evitando desencontros ortográficos. Preferimos acreditar que será uma oportunidade ímpar para que a Língua Portuguesa seja revisitada e, enfim, amada como merece.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...