quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Telefones

No fim de ano, excluo nomes de minha lista de contatos telefônicos. Gente que se foi, que não veio, que não respondeu, que não atendeu. Fico mais leve e o ano que chega sorri mais sincero.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Desvio

http://g1.globo.com/pr/oeste-sudoeste/noticia/2014/12/rua-de-pato-branco-tem-desvio-para-arvore-ameacada-de-extincao.html
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chegar é o objetivo.
desviar, a saída.
contornar, a simplicidade.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Bons vizinhos

EUA e Cuba resolveram esticar os braços e tocar um no outro.
não é preciso abraço, apenas entendimento.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os moradores

Moradores do bairro Pantanal e da agrovila Boa Vista, em Castanhal, reclamam do despejo irregular de lixo na entrada do aterro sanitário, que está cada vez mais próximo das casas localizadas na zona rural do município
Raimundo Pacco/Frame/Estadão Conteúdo
http://glo.bo/1GL5npd
***
Há mais urubus do que seres humanos na foto. Os urubus também são moradores da região e, certamente, se falassem, reclamariam do número cada vez maior de catadores no aterro. Não é desmerecimento a esses homens que buscam sustento nessas condições, é o desejo que cada espécie reconheça seu hábitat e, mais, reconheça a própria espécie.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Café em Sidnei

como adoçar um sabor amargo de extremismo em um café em Sidnei, na Austrália? para os que manejam bem, com a doçura cortante do perdão.

domingo, 14 de dezembro de 2014

sábado, 13 de dezembro de 2014

Ingotejante

nem sempre os olhos veem o que querem,
mas é boa a ardência casual:
valoriza o colírio que não se goteja.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Voo

Uma gralha, pássaro da família do corvo Corvidae, salta enquanto desliza na neve em uma floresta no noroeste da Inglaterra.
Owen Humphreys/AP
http://glo.bo/1GnIyba
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quando esperarem que cantes, voa.
quando esperarem que voes, salta.
quando esperarem que saltes, desliza.
quando esperarem que deslizes, voa e canta.
enquanto esperarem, deixa que esperem,
quando não mais esperarem, estarás longe.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Lenço

Jornais estamparam que a presidente Dilma chorou durante a apresentação do relatório da Comissão da Verdade. É uma análise simplória: as lágrimas verteram, sim, da mulher que viveu aquele período de exceção, contado por gritos, dores, choro e maldição. Algumas vozes nunca mais foram ouvidas, e não há lenço que enxugue o pranto desse silêncio.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Estupro

algumas mensagens, mesmo em plenário, estupram nossos ouvidos.
a castidade verbal, em doses homeopáticas, Jair, faz bem.
quando o falo sobrar, use o calo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

domingo, 7 de dezembro de 2014

Sincera velhice

- Até breve.
- Não. Despeçam-se de uma vez. Estamos felizes e completos por hoje.
não é pressa
não é irritação
é a sincera velhice que urge
pela língua (infl)amável

sábado, 6 de dezembro de 2014

Fardo

se o fardo que carregas te cansa
empurra-o
arrasta-o
amaldiçoa-o
mas o manténs em movimento.
inerte ele te consumirá.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sem ver

Neblina se espalha em um campo agrícola no início da manhã nos arredores da cidade de Lahore, no Paquistão
Arif Ali/AFP
Fonte: http://glo.bo/1FPpuSL
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os pés do caminhante refazem o que a neblina escondeu. sem ver.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Gladiador

jogador que carrega "gladiador" no nome não tem espaço na arena alvinegra. o melhor, para ambos, é o octógono.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sétimo dia

Para Dona Quiméria
Algumas histórias passam, assim como autores. Relatos se perdem com o passar dos anos, e alguns se transformam tanto que perdem o lastro mínimo de herança, tornando-se órfãos ilustres e sem sobrenome. Há narrativas, contudo, que se eternizam, que se tornam mais vivas com o desenrolar das estações, com o eterno devir de gerações, com o sabor dos anos. São as epopeias, sobreditas míticas, que carregam consigo o sonho e o desejo de milhares de seres humanos, mortais de sangue, imortais de afeto, que têm as vidas escritas em cores vivas e pintadas em infindáveis aquarelas.
Nós somos barrocos.
Não somos feitos de crendices, de histórias mirabolantes, de narrativas cotidianas. Nós somos a própria epopeia, a própria fantasia e a vera realidade. Nós não somos os comuns, nem os ordinários, nem os sofredores. Nós somos os amantes, os apaixonados, os loucos. Para nós, não há o limite, não há o fracasso, e o impossível é uma criança inquieta que se embaralha em nossas pernas, num jogo infantil de “você não me pega”.
Nós acreditamos. Sempre. E ainda que somente nós. O mantra é recente, o sentimento que ele traduz não. Certamente posterior ao Fla-Flu, o nosso acreditar germinou quando “Deus separou a luz das trevas” e o mundo se fez preto e branco. Ali nascemos. A voz ancestral que nos leva pela mão ao estádio e nos desperta o primeiro e tímido grito de “Galo” nos ensina a orar, a acreditar. 
Nós somos alvinegros.
Acreditar não é escolha, é vocação. Acreditar é nossa oração, é nosso refúgio nos momentos de provação. Sempre que um atleticano entoa “Eu acredito!”, o mais sempiterno dos sonhos se conecta com a divindade e uma onda de paixão, única e sensual, se corporifica. É festa. Ainda que os sonhos sejam nuvens, é das nuvens que chuva vem.
Nosso acreditar é redundantemente nosso. Durante a Copa do Mundo, no jogo Brasil x Chile, no Mineirão, evocaram, naquele momento de drama, quase dramático, o credo. O Brasil se classificou, a bola encontrou a trava brasileira no final do segundo tempo da prorrogação, mas não houve epifania. Apenas uma partida de futebol.
Nós somos Galo.
Só a Arquibancada Atleticana, o maior movimento não organizado de Minas Gerais, explica o prazer (muitas vezes erótico) da mistura: branco e preto, preto e branco, preto e preto, branco e branco. Não há um só preto, assim como não há um só branco: matizes que olhos menos atentos, não atleticanos, não percebem e, logo, não entendem. Há muitas camisas pretas e brancas pelo país e pelo mundo, mas nenhuma é semelhante àquela que tremula no varal. O poeta da chuva é atleticano.
Hoje, 2 de dezembro, sétimo dia de campanha gloriosa que trouxe a Copa do Brasil para Lourdes, a celebração traz a lembrança de um ciclo que chegou ao fim, mas que renascerá em breve, numa nova vida, numa nova história. O panteão do Galo está em festa. Evoé, 2015!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Oração pelo aniversário que ainda não se comemorou

Senhor, permita que a idade avançada não me traga o medo da chuva, do vento nas costas, da desculpa mal esculpida, da encenação canastrã, da língua enrolada e da gagueira engasgada. Permita-me, apenas e tão somente, Senhor, que não perca a capacidade de dizer: "Não, obrigado". Amém.

domingo, 30 de novembro de 2014

Conta própria

Melhor nada saber do que saber muita coisa pelo meio! Melhor ser um tolo por conta própria do que um sábio na conta dos outros!
Friedrich Nietzsche

sábado, 29 de novembro de 2014

Palavra antiga

Durante as homenagens a Roberto Bolaños, criador do Chaves, um repórter sintetizou a obra como as histórias "de um garoto que morava em um baú, em um condomínio". Segundos depois, foi corrigido pela âncora do jornal: o garoto morava em um barril, não em um baú. Mas o "condomínio" ficou.
Foi uma limitação vocabular ou uma questão sociológica? A antiga palavra "vila", que explica tão bem a comunidade do Chaves, não passa pelas cancelas dos condomínios atuais.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Celebrações

Família caminha à beira de uma estrada de terra em meio à poeira deixando a vila de Baryarpur, no Nepal, após participarem das celebrações do festival hindu Gadhimai, na noite de quinta-feira (27).
Roberto Schmidt/AFP
Fonte: http://glo.bo/1vUK3hc
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talvez a morte seja apenas uma estrada empoeirada em que nossos parentes nos esperem.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Com asas

Já observaram os urubus - como eles voam em meio à ventania? Eles nem batem asas. Apenas deixam-se levar, flutuam. Esse jeito de ser chama-se sabedoria.
Rubem Alves

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Mãos dadas

Um casal caminha no Parque Ciudadela em Pamplona, no norte da Espanha.
Alvaro Barrientos/AP
Fonte: http://glo.bo/1vMOPxt
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quando as mãos estão dadas, sempre há cor.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Geração X, Y ou Z

se o DNA, com milhares de combinações
létricas, não gramáticas,
não consegue explicar o ser humano,
como acreditar que variáveis matemáticas
definam gerações inteiras?

domingo, 23 de novembro de 2014

Humor, amor e ardor

do triângulo que me contém,
coxo, dois vértices anárquicos,
germina a terceira margem

não será a trindade, Irmã,
menos ainda a unidade,
mas basta.

sábado, 22 de novembro de 2014

Perdido, almocreve

- Bom dia, Dona Amélia!
- Bom dia, seu Petão.
- Como vai a sra.?
- Com a graça de Deus, bem, obrigada. E o sr.?
- Levando, sempre levando.
- A tropa cresceu, hein?
- É, a cada dia se junta uma mula.
Recolocou o chapéu na cabeça e passou a mão pelo rosto recolhendo o suor.
- E sua neta?
- Qual delas?
- Para mim, só tem uma.
- Vai bem, obrigada. A cada dia mais linda.
- É vero.
Sorriram mutuamente.
- Seu Petão, há anos espero o sr. nesta janela.
- Eu sei, Dona Amélia, faz muito tempo. Quero pedir desculpas. É triste, mas acontece que eu perdi o texto original. - retirou o chapéu novamente.
- Não é possível!?
- Sim, Dona Amélia. Completamente perdido. Apenas o início estava manuscrito e foi mantido. O restante ficou com o pó da estrada.
- Do que tratava o texto?
- Contava a história daquela mula enfeitada que a sra. vê logo ali.
- Aquela cheia de miçangas?
- Essa mesmo.
- Como é o nome dela?
- Tem nome, mas, depois de ter perdido o texto, resolvi chamá-la de "A-que-não-digo".
- Virgem Mãe!
- Eu já tinha percebido que ela não era uma boa companhia, mas, como fazia parte da tropa, resolvi guiar essa besta até o destino dela. Tô indo entregá-la agora.
- Que bom!
- A sra. me dê licença que eu vou puxando a tropa.
- Seu Petão, antes de o sr. ir embora, que mula branca é aquela que vem vindo?
- Aquela toda branca?
- Sim.
- De crina quase loira?
- Isso.
- Com uma mancha na barriga que parece um reino?
- Essa.
- É outra besta, Dona Amélia, mas essa é outra história. Pode me aguardar.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Relojoeiro

ser um relojoeiro
não para encaixar letras e palavras
suiçamente
mas para ouvir o tempo
passageiro efêmero
da hora pedida
perdida não mais

terça-feira, 18 de novembro de 2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

domingo, 26 de outubro de 2014

Com as eleições

com a derrota, o tucano segue sua carreira.
com a vitória, faltarão 4 anos para uma nova palestranta.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Verdejante

reunidos
sem
querem planejar
com.
até quando?

até a chegada da chuva
e o verdejar da grama

haverá, então, fome,
pois a grama não será suficiente para todos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

De pés leves

em terra de bronzeados
a porcelana não reluz
pouco sorri

de pés leves
ilustra
à seda
em cores
sem palavras
a língua que os amantes conhecem

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cocaína

Escrevi tempos atrás que não era exatamente que a religião era o ópio do povo, como escreveu Marx. O ópio o teria neutralizado, anestesiado, adormecido. Não, a religião é a cocaína do povo. Ela excita as massas.
Umberto Eco

terça-feira, 23 de setembro de 2014

domingo, 14 de setembro de 2014

Universo

O universo é um lugar profundo, complexo e sutil, e o cérebro humano precisa de muito tempo para destrinchá-lo.
Brian Greene

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Torres

ergui torres
outras
nem tão longe
desmoronaram

na poeira que sobe
que obstrui,
a sombra de um sino
que não tocará

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Esferas

A lua é vista através de pequenos pontos de luz da decoração do Festival de Outono, também conhecido como Festival da Lanterna, no Parque Victoria, em Hong Kong, China.
Bobby Yip/Reuters
***
http://glo.bo/ZemfGs
***
por que alguns insistem em dizer que são todas iguais?

domingo, 7 de setembro de 2014

Pendência

muitos querem independência,
mas poucos sabem que liberdade,
essa ave esfíngica,
essência desse desejo,
dilacera,
com garras e bico,
o sonho dos mais tolos.

não para poucos, independência é morte.
nem para todos, morte é liberdade.

sábado, 6 de setembro de 2014

Reza

Numa manhã de Finados
no cemitério do Bonfim:
- Aqui é que é bão, Luizinho.
Aqui num tem preto,
num tem branco,
num tem rico
nem pobre.
Aqui num tem filho da puta nenhum!
É tudo pó! - afirmou Reinaldão.
Luizinho fitou-o e disse sorrindo:
- Amém.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

50 tons de cinza

Foto: Lee Acaster
Um ganso sob o céu tempestuoso de Londres, às margens do rio Tâmisa, foi a foto vencedora do Prêmio de Fotografia de Vida Selvagem Britânica, que reúne trabalhos que mostram a beleza e diversidade da vida selvagem no país
http://g1.globo.com/natureza/noticia/2014/09/exposicao-revela-beleza-da-vida-selvagem-na-gra-bretanha.html
***

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Verborreia

quando faltam ou sobram
números
palavras
dados
argumentos

é hora de apagar a empresa
acender as pessoas
lembrar que amanhã será outro dia

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

7 anos

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Luis de Camões
***

não há Raquel
apenas loucas
palavras
no papel

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Nas costas

por que retiras o que te defines?
porque minha definição é maior que a lacuna
e mais voraz que a sutura.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Pródiga

Para Vitória, a Régia

melhor que a parábola é o prodígio: "porque esta tua irmã era morta e reviveu, estava perdida e se achou."

sábado, 30 de agosto de 2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

tarde de sexta de agosto

o vento
as nuvens
o horário
o cheiro do mundo
tudo se parece.

o telefone insiste em tocar
para dizer que as tardes
de sexta
de agosto
são iguais

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Na cara

Agostinho, não me abandone.
agora que sinto a palma
célere e sanguínea na face,
não me abandone.

voltarei ao capítulo um,
ao início da tradução
refarei as linhas que
a tolice moldou.

reescreverei as palavras
que outros dentes mastigaram
mas que jamais sentiram o sabor.

não é hora de parar.
é, ao contrário, hora de partir.
insistir.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O filtro

Um filtro redundantemente filtra. Nasceu para filtrar, filtra e assim permanecerá até que a filtragem pare (ou seja parada). Não é jogo de palavras: é apenas um fenômeno físico, embora muitas vezes seja pensado como fenômeno químico.

O fenômeno físico, em breve explanação, é aquele em que não há formação de novas substâncias, enquanto fenômeno químico é aquele em que ocorre a formação de novas substâncias. Desse modo, o filtro separará as substâncias, mas não criará nenhuma nova. Não é da natureza do filtro criar, pois, se assim o fosse, certamente não levaria esse nome.

O filtro de água, por exemplo, tende a separar as impurezas presentes na água, a fim de que essa se torne consumível (nem tudo consumível é potável). Em um mundo de falsas obviedades, não se pode desconsiderar que só haverá água filtrada se for inserida água, uma vez que a inserção de qualquer outro líquido compromete o processo de filtragem.

Nesse ponto, surge um problema, pois existem inúmeros líquidos que se parecem com água, possuem características semelhantes, fluidez, textura, cheiro (ou ausência dele), cor (ou ausência dela) e até utilidade similar, mas não podem ser intitulados como água. Se algum desses líquidos for colocado nesse filtro de água, em um mundo de falsas similitudes, o filtrado será bem parecido com água e apenas parecido se manterá.

Em um mundo de falsas singularidades, muitas são as águas, poucas as escolhidas. Existem variedades múltiplas, e o que garante o sucesso do filtro é que a água certa esteja no local certo. Água destilada, água oxigenada, água de batata, água de colônia, água-viva, água de chuva, água salgada, água doce e água-que-passarinho-não-bebe são águas(?), muitas delas apenas com parentesco linguístico. Desse modo, para que a água processada pelo filtro seja potável (a potabilidade não é para todos), é preciso que a água colocada tenha um mínimo de qualidade. Não nos esqueçamos de que as águas que fluem pelas nossas torneiras recebem tratamento antes de chegar a nossas casas: passam por desinfecção, fluoretação, correção de Ph e filtração, entre outros processos.

Após essa análise, é hora de o filtro trabalhar. Novamente surge uma questão física: o índice e a velocidade de filtragem. Quanto maior o filtro, maior a capacidade de filtragem diriam os mais afoitos, mas a filtragem não é absoluta. Abre-se, aqui, um questionário: qual o tamanho do filtro? Qual o volume de água a ser filtrado? Quais as condições da água (é água mesmo ou um produto similar?)? Qual a urgência do filtrado?

O filtro de água fará seu trabalho enquanto não atingir a saturação, pois, a partir desse momento, sua essência está comprometida. O índice de saturação, que é a razão entre a qualidade e a quantidade do que entra e a expectativa de uso daquilo que sai (o filtrado), explica e revela, substancialmente, a qualidade (ou falta dela) do produto final.

Se a água pós-filtro não estiver filtrada, o que se faz? É hora de avaliar as variáveis: a água é boa? Tem qualidade? Tem tratamento prévio? Segue um caminho seguro da origem até o filtro? Se a resposta é sim, avalia-se o filtro: é bom? Tem qualidade? Suporta o fluxo de filtração? Tem índice de saturação confortável, está próximo do limite ou já passou dele? Recebe manutenção preventiva? Se a resposta é sim, então ou o consumidor não conhece a água que bebe, ou há um processo de contaminação, ou a expectativa de uso compromete todo o processo.

Em um mundo gestado para ser estratégico, em que pululam bocas secas e hálitos aquosos, ter uma água boa pode ser um exemplo de eficácia. Em um mundo tocado por falsas, farsas e valsas, entender o filtro será eficiência.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

13 julhos

o Caneteiro partiu
pois não podia ficar
hoje é bula de remédio
mais calado
menos poético
menos extenso
mais vivo
são as outras mesmas hestórias

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Poeta

Para Ariano Suassuna 
em 23 de julho, foi o Maestro.
em 23 de julho, foi o poeta.
em hora aproximada, partiu naquela velha chalana.

não se sabe como, só se sabe que foi assim.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Dos anões

ainda que sejam sete anões
optaram por repetir o Dunga.
a procura por maçãs do sono crescerá.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

Das fadas

Com Italo Calvino

o primeiro atributo das fadas é a leveza
de pés que não tocam o chão,
de sorriso tímido e olhos brilhantes.

a distância amiga
a palavra especial
o sentimento do mundo

sábado, 19 de julho de 2014

Barba

Para Rubem Alves

Nunca gostei de fazer a barba e, em um texto de Rubem Alves, encontrei a não-lâmina de que nunca mais me esquecerei. Com ela, recebi uma fina e elaborada reflexão sobre a existência que nenhuma lâmina cortará.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ditosos

Para João Ubaldo Ribeiro

nos tempos de Mané,
domingo era dia de João.
agora,
sem Mané
sem João
os domingos não serão ditosos.

só os budas, quiçá os anjos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Jão Tatu

a Copa do Mundo acabou hoje.
vero tiroteio foi a última cena.

feliz foi o Jão Tatu,
que tava no buraco.
- Sai, Jão! Que nós vão precisá desse buraco.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Em família (IV)

Para Cesário Mendes, meu avô
quando jovens, o desejo de ter todas as mulheres.
quando adultos, o poder de ter todas as mulheres.
quando maduros, um dobrado.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Em família (III)

A Luiz Clemente, meu avô
quando jovens, o desejo de ter todas as mulheres.
quando adultos, o poder de ter todas as mulheres.
quando maduros, o desprezo pela opinião dos outros.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Em família (II)

A Luiz Mendes, meu tio-avô
quando jovens, o desejo de ter todas as mulheres.
quando adultos, o poder de ter todas as mulheres.
quando maduros, o questionamento de por que envelhecer.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Em família

Ao Cônego Belchior, meu tio-avô
quando jovens, o desejo de ter todas as mulheres.
quando adultos, o poder de ter todas as mulheres.
quando maduros, o questionamento de por que todas.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Despacho (II)

- Meu fio, já passô da hora de ispantá essa inguiça que garrô em nóis. Ainda bem que ocê veio. Se nós num dê um jeito daqui, só lá num vai resorvê não. A cabeça de burro que interrarru lá é das bravas. Mandaru o voz de trovão imbora, mas a coisa num miorô como divia não.
Dona Quiméria fez uma expressão ambígua de medo e esperança e prosseguiu:
- Ocê sabe purque que nós tamu assim, num sabe? - fez segundos de silêncio  e seguiu - Sabe o num sabe? - outra pausa e - É por causa do xibio. Isso memo, é o xibio do ano passado, sim sinhô. É ele que tá atravacando a gente.
Olhou para os lados, ganhou fôlego e emendou:
- Meu fio, o xibio é uma força da natureza, tem um poder que ocês num faz ideia e num pode sê usado de qualquer jeito. Ano passado, nós reunimu muitos xibio para levá pra Marrocos, era xibio de mais, era pra empantufá o Xuvitz até a tampa, mas deu tudo errado. Aí, com muito xibio junto, nós criamu uma energia muito grande, que num foi utilizada. Ela tá agarrada na gente e num larga.
- Ocê vê o Ronaldinho e fala: "Num é ele". Mas é. Ele num tá aguentando nada purque é excesso de xibio acumulado. Isso mata, meu fio. Essa história de "levanta as mão pro alto e vamu bebê" é conversa fiada. Ele tá levantando é otra coisa.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Despacho (I)

- S'imbora, cambada!
Atravessou o portão que dividia o dela e o de todos e ganhou a rua. Ajeitou a roupa, acertou o cabelo, olhou o grupo, contou os meninos e disse:
- Mulecada, hoje nós vamu fazê um despacho. É hora de mandá a zica imbora e nós vamu tudo junto pra Praça do Papa pra arresorvê essa pendenga. Bora, Luisinho!
Tomou a frente do grupo o Luisinho, Dona Quiméria ao centro e o Chicão protegendo a retaguarda. O dia ainda não estava claro, e a cidade insistia no sono impossível.
Rasgaram a Afonso Penna de ponta a ponta, com pompas e circunstâncias na área do Parque Municipal, e marcharam sobre a Ladeira dos Incautos. Na Praça da Bandeira, uma saudação à tremulante e um olhar afiado para a placa que dizia: "Avenida Agulhas Negras". Dona Quiméria assobiou reunindo a tropa e disse:
- Mulecada, nós vamu precisá disso. - e emendou: - Toca pra frente.
Mais alguns minutos e avistaram os gramados da Papa. Chegaram ao platô, fizeram a vênia à cruz e buscaram se assentar.
- Agora, mulecada, é só isperá.
Horas depois, Dona Quiméria foi despertada pelo rosnar do Chicão.
- Eta, minino bão! Num faia! Na horinha! - e afagou a cabeça do cão.
Subia os metros finais da praça um velho conhecido, arfando e sorrindo, sem perceber que era observado. Quando os cães correram na direção dele, é que se deu conta da trupe.
- Dona Quiméria! - abriu os abraços para cumprimentá-la.
- Eta, cavalo de parada! Na hora como sempre. Sodade d'ocê.
O Chicão se embolou nas pernas do visitante, levando-o ao chão.
- Chicão, seu peste! Já falei que num é pr'ocê derrubá, é só pra cercá. Vem aquiqui eu mostro pr'ocê! - e fez um gesto com a mão, enquanto o cão se afastava sorrindo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Figuras reais

a Isabel é histórica.
a Áurea também.
os valetes, as rainhas e os reis,
de Paus e de Espadas,
são geográficos:
aqui
ali

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Grande sólido

Para Sofia Sasdelli

tenho dias de solidão
alguns mais
outros menos
nos demais, só ela

minha solidão não pede companhia
apenas o direito inalienável
de ser só
uma
muda
única

domingo, 11 de maio de 2014

Com uma mão

algumas mulheres não levantam homens
nem com palavras
nem com ações
nem sem roupas
sobre essas, não falo.

aquela que levanta um Estado inteiro apenas com uma bandeirada,
homens e mulheres,
sem brasão ou estandarte,
apenas convidando para o
improvável
impossível
insuspeitável
não impedimento
merece algumas palavras.

três pontos para nós
reticências para os outros...

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Disparada

Para Jair Rodrigues
"Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu"


longe fui para entender
meu boi
nossa boiada
esse boiadeiro

domingo, 27 de abril de 2014

segunda-feira, 31 de março de 2014

sábado, 1 de março de 2014

81

Para Orfeu Sasdelli
partiu cedo, Orfeu
suas ideias não
somos aqueles que não sabemos porque,
apenas como.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Arnesto

Para Adoniran Barbosa
o Arnesto nos matou de reiva.
o samba no Braz, aquele que não foi,
o desbilhetado, ainda ginga no pé da mulata.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Às três da manhã

o telefone toca às três da manhã.
é o sonho que insiste em me acordar.
- sei que é que você. já o sonhei ontem.
- estou mudado.
- eu também.
grunhiu um muxoxo.
- como posso recebê-lo se estou acordado?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Modorra

Começou a Libertadores e, com ela, a bateria de exames clínicos da Arquibancada Atleticana. Nos próximos meses, teremos testados repetidas vezes nossas emoções, nossos sentidos, além de toda a parte fisiológica (coração, mente, fígado, olhos entre outros).
Ontem, o primeiro teste, o sensor de fadiga: com um jogo tão modorrento, dormia-se ou não se dormia (sem nenhuma interferência da posição do pronome).
Venceu, três pontos, estreia, fora de casa, novo projeto: foi bom, mas, se quisermos mais, será preciso mais. Bem mais. 
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Inconsequência

a morte de Santiago Andrade é mais um indício trágico da principal doença que atinge nossa sociedade: a inconsequência.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Amor e respeito

O verdadeiro artista não ama nem respeita a matéria: ela está sempre 'em teste' [...].
Fausto Melotti

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

À espera de sangue

os abutres dos andares inferiores aguardam o tombamento
no cadafalso para esquentarem os lábios com sangue fresco.
quem tem bicos e garras aduncos não tem modos para compor,
razão de tanto grasnar, de tanto grassar.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Mireana

"A bailarina", de Joan Miró
https://goo.gl/GtMw7N
***
Para Rita Viana

ponto, ponto, ponto
pequenos pés alados beijam o solo
em círculos contínuos, celestes, multicores

no chão, a bailarina desliza, suave,
roseanamente,
sensual como uma chama
será a lua aluada que prende o coração?
ou será o coração emotivo que impede
as duas faces de serem uma só?

não é um inseto que pende
(aranhas não são insetos)
é o que é do coração mas não cabe nele

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O voo do cheiro

nasceu de um adjetivo
batizada substantivo.
quase três décadas...
muito tempo para uma vida
tão repetitiva.
fez história e nos marcou
antes de voar
para a liberdade que nunca conheceu.
adeus.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Da verdade

muitos dos que querem a verdade descobrem não estar preparados para ela apenas quando sentem a lâmina fria dos fatos rasgar as carnes. para esse corte, não há remédio, choro nem maldição.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Calibre 38

é Taurus? não, Aquarius.
tambor ou pente? caneta.
tem porte? não, apenas porto.
composição? 80% de ferro na alma
algumas pedras no bolso
e uma tinta espessa
sanguínea
silente
séssil

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A coelha branca da Rainha de Copas

corre a coelha branca da Rainha de Copas.
tanta pressa para tão curta vida.
tanta seriedade.
quanta timidez.
corre.
não sabe que o branco, que ela não entende,
pinta os naipes que o coração vermelho desconhece.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Geração

o espaço e o tempo sempre determinaram o modo de ser e de viver do homem.
de ambos, nasceu a velocidade, que, por sua vez, metamorfoseou o espaço em distância.
do triângulo amoroso distância, tempo e velocidade, brotou o tráfego.
do tráfego, também a poluição.
da poluição, também a doença.
da doença, também a morte (que já havia brotado diretamente do tráfego).
da morte, brotaram o não-tempo e o não-espaço.
sem tempo e sem espaço, nasceu a não-vida. e com ela o paradoxo.
 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

De vacas

Genoíno (aquele que possui vício de linguagem) depois de mamar nas tetas da vaca mensaleira, conseguiu uma vaquinha para pagar a multa imposta pela justiça. Quem tem amigos desse PorTe nunca terá a boca destetada.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A chama

Para Luiz Clemente
 
[...] lamentar-se de que a flecha do tempo corra para o nada não faz sentido, porque, por tudo o que há no universo e que gostaríamos de salvar, o fato de existirmos quer dizer justamente este queimar e nada mais; não há outro modo de ser que não o da chama.
Italo Calvino

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Valentia

Eu amo os valentes: mas não basta ser espadachim - é preciso também saber a quem golpear.
E muitas vezes há mais valentia em se conter e passar ao largo: a fim de poupar-se para um inimigo mais digno!
Zaratustra, de Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Entendimento

"A coisa é um tanto complicada; mas sem explicação eu entendo melhor do que explicado demais."
Emília, de Monteiro Lobato

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Pé na estrada

David Davies/PA/AP
Nascer do sol é visto em um campo de Pershore, na região central da Inglaterra.
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2014/01/imagens-do-dia-10-de-janeiro-de-2014.html#F1067614
***
quando chegar a hora,
lembre-se que
no dia seguinte
novamente
o sol despertará
e os pés escreverão uma nova estrada.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Pincéis





Ilya Naymushin/Reuters
Pessoas apreciam a vista do rio Yenisei com a temperatura em torno de menos 20°C na cidade siberiana de Krasnoyarsk, Rússia.
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2014/01/imagens-do-dia-8-de-janeiro-de-2014.html#F1064945
***
não são muitas cores, mas inúmeros tons de branco e de cinza.
nem todos os brancos são iguais.
nem todos os cinzas são cinzas.
aos pincéis, os tons.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Suspiro

"o suspiro está caríssimo"
foram as palavras.
é inflação?
não, é falta de emoção mesmo.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

As cores do ano

não importa se dirão bruxa, mariposa, borboleta.
ela não entenderá agourenta, feia ou bela.

no mundo em quela nãossesabe,
no de cá,
cores
flores
amores

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Trindade do tempo

os minutos que antecedem e aqueles que sucedem a passagem de ano são mágicos, porque nos permitem dar as mãos ao ano que chega e também ao que se retira. é o único momento em que sentimos, de maneira inequívoca e simultânea, a trindade do tempo.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...