quarta-feira, 24 de março de 2021

Redamar


Na última semana, descobri o verbo “redamar”, palavra antiga, arcaica mesmo, filha do latim e há muito esquecida em alguns dicionários. É um verbo reflexivo, em que você é agente e paciente da mesma ação, e tem um sentido certamente único. Redamar é a ação de você amar e ser amado.

Amar é um verbo intransitivo. Ama-se e ponto. Nem sempre, contudo, esse ponto é final, quisera a pontuação da vida que fosse, e aqui ele se transfigura das mais variadas formas: do duro e inflexível ou definitivo e convicto ponto-final até as sonhadoras reticências, do misterioso e enigmático ponto de interrogação até o festivo ou intempestivo ponto de exclamação. É possível também não haver nenhum ponto, ausência essa que lança o conjugador do verbo numa terrível lacuna existencial. Por isso, a importância de um ponto, pois, por mais mísero que ele seja, é fundamental saber como a frase acaba.

Ao flexionar, “eu redamo”, nessa primeira pessoa tão minha, coloco o ser amado nessa ação e crio uma peripécia linguística, pois, falando só de mim (eu), já estou afirmando sobre outrem e misturando a terceira pessoa (que nesse caso é a segunda matematicamente) na minha fala. Talvez esse verbo devesse ser defectivo, que é aquele grupo em que não há conjugação na primeira pessoa (como colorir, latir, demolir entre outros). Dizer “eu redamo” é afirmar que “nós redamos”, pois redamar não é um sonho que sonha só.

O redamor não está nos dicionários, como tantas outras palavras que falamos, ouvimos e dão sabor e cor a nossas vidas. É preferível amor na dureza dos dias a redamor na placidez das alvas páginas não visitadas. Afinal, o amor não é item de estante, ornamento ou acessório de decoração, é a essência de um sorriso luminoso, de um silêncio acolhedor, de um sentimento sereno e forte. Uma conjugação compartilhada.

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