quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
O eco do Uivo
- Mininada, junta as coisa que nós tamu de partida. Viemu, vimu e vociferamu.
A bordo do Uivo da Noite, no convés, Dona Quiméria acariciava Luisinho enquanto se afastava do litoral de Agadir. O sentimento do dever cumprido era pessoal, mas não a satisfazia, não a alegrava, não a preenchia. Engasgada com as ideias, aproximou-se da cabine principal e disse:
- Mininada, atenção! Eu queria dizê uma coisa que tá me intalando aqui. - e colocou as mãos sobre o peito. - Nós saímu do Brasil e andamu meio mundo para acompanhá o Galo, e ainda acho que nós viemu sozinho. Ondé que o Galo se meteu? Cadê os jogadô? Cadê a nossa camisa? Nós rasgamu o mundo todo dibaixo de sol e de chuva pra jogá duas veiz de branco? A camisa branca é a reserva, e no nosso time só joga titulá. Será pussíve que ninguém percebeu que a gente tava sem alma com a camisa branca? Que o manto que identifica nosso povo é o preto e branco? - baixou a cabeça e irrompeu colérica: - Eu num vô guentá: Que meeeeerrrrrrrrrrrrdaaaaaaa!!!
Todos olharam surpresos, afinal daquele boca não saíam aquelas palavras. Naquele momento saíram.
- Eu tentei controlá, mas num guentei. Agora falei. Num é a camisa que ganha jogo, mas nós somu alvinegro até a alma, nós num podia aceitá isso desse jeito. A camisa que briga no varal desde o 6° dia é a preta e branca, num é a branca. A culpa num é da camisa branca, ela tamém tem história, mas as listra faz falta. Num podemu ficá sem o misturado. Quando nada dá certo, temu que contá é com ele.
Calou-se. Todos a olhavam fixamente. Iniciou um movimento com o braço, mas sem concluí-lo. Sentou-se e permaneceu olhando o Marrocos que se distanciava.
Naquela noite, deitou-se mais cedo e sonhou sem cores.
Naquela noite, deitou-se mais cedo e sonhou sem cores.
domingo, 22 de dezembro de 2013
Gosto amargo
Há três anos, o ano se encerra com um gosto amargo na boca da Arquibancada Atleticana. Não que esse fato seja indicativo de um ano lamentável (ao contrário, bastante louvável), mas o sentimento de que o "bolo merecia uma cereja" é nítido.
Em 2011, depois de sofrido Campeonato Brasileiro, distância da torcida na Arena do Jacaré e de salvação da zona do rebaixamento na penúltima rodada, a possibilidade de rebaixar um adversário seria um alento para o torcedor. Não conseguiu o feito e ainda viu creditada uma goleada elástica na história alvinegra.
Em 2012, um título Mineiro invicto, um Campeonato Brasileiro empolgante, a contratação de Ronaldinho Gaúcho e a divulgação da marca Atlético em níveis astronômicos. Desse conjunto, o melhor futebol do país e a possibilidade do título nacional juntos. Contusões seguidas, um elenco pequeno numericamente e jogadas indecorosas extracampo permitiram o vice-campeonato, repetindo o sabor travoso do ano seguinte.
Em 2013, um ano mágico. Um elenco reforçado, amplo, experiente e uma infraestrutura completa permitiram conquistar o bicampeonato Mineiro e levantar o título da Libertadores, uma epopeia heroica, única e histórica.
A América do Galo. Faltava o Mundo. O Mundial da FIFA no Marrocos era a conclusão que este mítico ano merecia, que a torcida merecia, mas que o time não mereceu. O terceiro lugar é uma posição honrosa, que só quem é competidor entende, mas não é cereja.
Uma era se encerra no fim deste ano, com a saída do treinador e, certamente, uma reestruturação substancial do elenco; outra era se iniciará com os primeiros fogos do ano novo. Que 2014, ano da Copa do Mundo do Brasil, seja um ano mais doce, tão relevante quanto os dois anteriores e que abra 2015 completo, com sorriso largo e o inconfundível sabor da vitória nos lábios.
sábado, 21 de dezembro de 2013
Sorriso
quando se encontra uma pessoa que, com um sorriso, altera a cor do dia, descobre-se que as palavras podem ser aquareladas. renascimento.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Com o sal grosso
- Mininada! Separa o sal grosso aí que nós vamu precisá de um banho de descarrego purque a inhaca que jogaru na gente foi forte, viu?! Tinha muito tempo que nós num enfrentava uma dessa, arramação das braba com transage, cumigo-ninguém-pode e carqueja. Vixi, Mãe! - e Dona Quiméria fez o nome do Pai.
- Eta zica vera! Arre! Ma num preocupa não mininada que tá tudo sobre controle. Vamu tocá a vida purque o vento no varal não amiúda nunca. Essa oferenda vai vortá pra quem mandô, é só isperá. - puxou o Helotério das costas, mirou para o alto e abriu fogo. Logo se ouviu: "Galooo!!!"
- É isso memo. A casa caiu, ma nós num tava dentro. S'imbora, mininada!
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Sal grosso
- Alô! Roberto? É a Quiméria, meu fio! Comé q'ocê tá?
- ...
- Nós chegamu a Marrakech, agorinha memo. Descemu em Agadir ontem e viemu direto pra cá.
- ...
- Viemu a pé memo. Depois de trinta dias de navio, todo mundo queria usá os pé.
-...
- Apesar de bucanêro, nós temu pé é pra andá. Num teve pobrema nenhum não. Foi tudo em paz. Uma beleza.
- ...
- É, meu fio, os raiados ficaru de fora, mas num faz mal não. Já mandei guardá o sal grosso que ainda nós vão precisá dele. Pra essas águias verde, nós tamém vamu metê taioba.
-...
- É estranho, meu fio, mas o futebol é assim memo. Águia é um bicho que come carne, mas como el's são verde, só come verdura, intão a taioba veio a caiá. Nós tamu com um carregamento muito bão de taioba, pode ficá tranquilo que num vai faltá munição. O Elotero num vê a hora de trabaiá.
-...
- Já liguei pro Muriqui e pedi pra ele dá uma muricada nos Xuvitis. O restante deixa que nós resolvemu.
-...
- É verdade? Isso é bão dimais. Sabia que ocê num ia guentá ficá longe. Quem mais tá vindo pro jogo com'cê?
-...
-...
-...
- Eta! Intão é o Antônio Carlos todo?
-...
- Manda esse povo prepará o coração, meu fio, que co' o Galo ocê sabe cumé que é.
- ...
- Esse povo é forte, né? Do coração el's num morre mais... - riu Dona Quiméria. - Roberto, ocê é um debochado memo. - e riram os dois, e todos aqueles que, com Roberto, partiram do Campo dos Sonhos para Marrakech.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Uivo da Noite
Partiram de Recife em 15 de novembro a bordo d' O uivo da noite em direção a Agadir, no Marrocos. A tripulação era bastante numerosa, o que exigia muitos víveres e utensílios, o que foi perfeitamente atendido graças à habilidade do Capitão Stevenson. Esse escocês, proprietário do Uivo, tem como imediato uma figura peculiar, de nome Long John Silver, muito habilidoso com cartas náuticas e também com uma espada, ainda que possua uma só perna humana (a outra é obra de um marceneiro).
O cirurgião do navio é o Dr. Jekyll, um bom homem, conhecedor da ciência e também da palavra de Deus. Há também um passageiro "eventual", de nome Mr. Hide. Pouco afeito a contatos sociais, é sempre visto à noite andando pelo convés, com um passo agitado e movimentos abruptos. Apesar da dimensão do navio e de a tripulação ser numerosa, não se sabe em que cabine Mr. Hide se recolhe. Sobre ele, o Capitão Stevenson diz que é um amigo de infância e pede para que ninguém se incomode com Mr. Hide, pois, certamente, a recíproca será verdadeira.
Dona Quiméria não gosta de Mr. Hide, acha que é um passageiro inoportuno. Chicão é desafeto declarado de Mr. Hide, e, não raras vezes, em suas caminhadas pelo convés, o homem é visto a rosnar para o cão, que responde a ele com não menos dentes.
Long John Silver assegura que Mr. Hide é importante para o Uivo, ainda que seja tão estranho, sobredito esquisito. Afirma o imediato que, em suas longas viagens, descobriu que nem só de bons homens é feita uma tripulação e que, às vezes, é necessário ter um homem de sangue negro no navio. "Quando os canhões abrem fogo e o mar escancara as portas do inferno, são esses homens que sabem como dobrar o demo", afirma John Silver.
A viagem transcorreu bem, com duas tempestades mais memoráveis e algumas aproximações dignas de nota. Pelo Uivo da Noite, cruzaram o Beagle (que, segundo relatos, navegava em direção a Galápagos), o Peregrino da Alvorada, o Pequod (que causou um calafrio em Dona Quiméria) e outras dúzias de galeões de diversas nacionalidades.
O único grande perigo ocorreu já nas proximidades de Agadir, quando pequenas e inúmeras embarcações buscaram se aproximar do Uivo. Nesse momento, um grito seco de John Silver cortou os ares, e um uivo arrepiante rasgou as ondas que confrontavam o navio. Capitão Stevenson assumiu o leme, enquanto Long John Silver, numa agilidade fantástica, entoava ordens aos quatros ventos do navio. A tripulação, em armas, aguardava a aproximação daqueles piratas modernos, naqueles curtos momentos que antecedem a eternidade.
Nesse momento, pela primeira vez, viu-se Mr. Hide em plena luz do dia, com o cabelo despenteado e os olhos vermelhos inundados em sangue. Não dizia nada, apenas mastigava as palavras que insistiam em chegar à boca.
As mãos contraídas e os punhos cerrados de Mr. Hide, contudo, perderam-se com a retirada das embarcações. Não se sabe o motivo, mas não houve um tiro sequer, apenas um movimento circular de retorno e abandono. Parte da tripulação comemorou aquele sucesso, enquanto Mr. Hide, calado, triturava freneticamente a ira e o ódio que perdera naquela evasão. Mais bestializado que antes, seguiu para a cabine de Dr. Jekyll e não mais foi visto durante a viagem.
Desembarcaram em Agadir em 15 de dezembro, durante as cores únicas da alvorada. À frente, Dona Quiméria exibia o estandarte alvinegro e bailava naqueles movimentos únicos de porta-bandeira, conduzindo aquele imenso cordão alvinegro rumo a Marrakech.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Abismo
Estação meteorológica fica no cume de montanha a 2.600 metros.
(Foto: Caters News Agency)
http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2013/11/banheiro-no-topo-de-montanha-na-russia-e-o-mais-perigoso-do-mundo.html.
(Foto: Caters News Agency)
http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2013/11/banheiro-no-topo-de-montanha-na-russia-e-o-mais-perigoso-do-mundo.html.
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o banheiro está sobre o abismo, que, de fato, não existe.
o abismo é a ausência da montanha.
o perigo está no presente ou no ausente?
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
África do Sul
Para Mandela
um novo contorno, um novo Leite.
é a flor da lembrança dos jardins da Católica.
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