terça-feira, 31 de março de 2020

Ninguém solta

Fonte: https://bit.ly/39CUkDK

Para meus amigos e minhas amigas
daqui e de lá

Estamos há 15 dias em (quase) confinamento, e a expectativa é de que muitos outros dia se juntem a esses primeiros. Não será fácil, mas vai passar. Tal como afirmou Shakespeare, "não há longa noite que não encontre o dia."
É hora de serenidade.
Neste momento, mais do que no ano da eleição, ninguém solta a mão de ninguém, mesmo que não nos toquemos.
Ninguém solta o outro do pensamento e da oração.
Ninguém solta o outro do sorriso e da escuta.
Ninguém solta o outro porque o outro não existe.
Nós também somos o outro.

sexta-feira, 20 de março de 2020

domingo, 15 de março de 2020

A flor dos Mendes


Minha amada Queta,

Comemoramos hoje mais um ano de seu nascimento, e quero oferecer a você um buquê de flores, belas, algumas excêntricas, mas sempre únicas, das famílias que você tão bem conhece e das quais você é a principal: as Mendes e as Cerqueira. Reconheço a beleza de sua mãe, Dona Carolina, mas quis o destino que ela não empunhasse nem Mendes, nem Cerqueira. Sua irmã Maria, mais velha que você, certamente carregava em si a semente, mas, de forma semelhante, quis a história que não houvesse germinação. Coube a você, Queta, a alegria, a beleza e a dor de iniciar as linhas de nossa história, e por isso hoje, 15 de março, festejamos sua vida.

Espero que o Major leia esta carta com você e que, se o coração dele se encher de ciúmes por causa da “amada” que abre esta carta, releve o sentimento tão próximo que nos sustenta. Entendo o ruído dessa “intimidade”, pois poucos (ou pouquíssimos) maridos estão aptos a perceber essas nuances de sentimento, esse espectro de cores de que é feito o amor e do qual são inúmeras as combinações, todas elas carregadas de ardor, mas que não se pintam apenas de vermelho. O pintor de uma cor só não sabe o que é arte.

Nesses tantos anos, o buquê dos Mendes iniciado por você está repleto de flores. Sempre lindo, perfumado e maravilhoso. Como, porém, nem tudo são flores, com perdão do trocadilho, esse nosso buquê está incompleto. Sei que esse assunto é espinhoso, mas não abordá-lo é permitir que insistamos nessa lacuna, quando, na verdade, deveríamos ter uma coluna.

Sim, Queta, é a Cerqueira que deveria ter sido Mendes. Lembro-me de quando ralhou comigo de forma irascível, literalmente me pondo a correr. Hoje parece engraçado, mas no dia foi assustador. Espero que tenha superado esse desencontro e que eu possa contar com seu apoio e afeto para esse fim.

Dizer que vou atrás dela seria uma incoerência, pois estou atrás dela há muito tempo. Tenho conversado com muita gente, evidentemente sem revelar que a procuro, e muitas informações importantes têm surgido. Quando encontrá-la, teremos a chance de fechar um ciclo e avançar em nossa narrativa.

Antes de terminar, quero dizer que, na última semana, encontrei-me com uma Cerqueira, ainda que sequer ouvisse sua voz. Ao contemplá-la, cabelos, pele, olhos, boca e andar, tive a exata certeza de que se tratava de uma Cerqueira e me lembrei muito de você. Alegrei-me por vê-la. Não, Queta, certamente não era Mendes, e a mim não cabe dizer se o futuro a fará familiar ou não. Minha narrativa é de agora. Amanhã é um dia de outro autor.

Que seus anos sejam sempre lembrados pelos seus, pelos nossos, para que saibamos que, da costela de que viemos, nasceu uma flor; do barro soprado, voou uma pétala; da imagem e semelhança, ficou-nos a beleza.

Com o amor de sempre.

B.M.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Graças

O tempo não é uma entidade cartesiana.

A trindade temporal é una, à imagem e semelhança divina, a qual nos abençoa e nos provoca ininterruptamente, a fim de que a essência dos dias seja decifrada. Ontem, hoje e amanhã são uma só história, um só espírito, não uma só matéria. A materialidade é um suporte em que (re)escrevemos nossa história. Preciso reescrever uma parte agora.

Em 2009, no texto “A banda”, prestei uma homenagem a meu tio Cesarinho, o prático, e a muitos de meus parentes que tanto admiro. Em 2011, reencontrei-os em “Samba da bênção”, no qual refaço a minha história de minha família. A intenção é sempre manter a memória viva daqueles que me (e nos) antecederam e que graças a eles e por causa deles sou (somos) hoje o que sou (somos).

Na quarta, meu tio Sebastião, o discreto, a quem já havia citado em “Silêncio e esperança”, partiu para a casa do Senhor. Ontem, após as exéquias, familiares me procuraram para relatar o desconforto que causei a um dos citados com “A banda”, de 2009. Entre nós, os Mendes, é corrente o ditado popular que “O inferno está cheio de boas intenções”, motivo esse que me leva a fazer uma reparação com um pedido de desculpas.

Acredito que o texto de 2011 citado acima não deve ser do conhecimento de todos os que conhecem o de 2009, principalmente pelo fato de o de 2009 ter ganhado vida impressa por mãos de outros. Certamente, se o de 2011 tivesse a mesma repercussão de seu antecessor, esse desconforto já teria sido superado. O fato, porém, é que não o foi, e espero que o seja agora.

Alguns de nossos traços familiares não são os mais politicamente corretos, mas não são ilegais, nem imorais, nem imortais. Podem ser mudados, tantos já o foram, alguns são mais reticentes: esse é o ciclo. Cada um de nós, os Mendes, contribui com um capítulo nessa história, que serve de apoio para um próximo, esteja ele na mesma geração, na seguinte ou naquela que ainda nem sabemos que virá. Assim é.

Desse modo, quero me desculpar publicamente pelo mal-estar que causei com meu texto e pedir a esse Mendes, também Cerqueira, que estique generosamente a mão e me busque do “inferno das boas intenções”, diferentemente da história de Lázaro e do rico, para o qual não houve salvação. Ainda há tempo, ainda há graça. As duas.

Sua história é a minha. É a nossa.

Com a admiração, o respeito e o afeto de sempre.

B.M.

domingo, 8 de março de 2020

Viva sempre

Para as Mendes Henriqueta e Mariana
Para a Cerqueira, que deveria ter sido Mendes


não importa a cor da flor, quando um coração bate por ela.
a cor do amor, esse traquina, pinta sem sequer que se sinta.

sábado, 7 de março de 2020

O momento

Há muito não cronico.
Tenho falado mais, escrito menos.
Não tenho certeza de que assim é melhor, mas é o que há para o momento.
Só o vento da noite nas patas do lobo.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Tomara que caia

nem toda blusa sem alça é tomara que caia.
algumas são tomara que não caia.
não é piada.
é linguagem.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...