domingo, 3 de abril de 2022

Mar de vento



"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos perguntar o que diz, mas o que quer dizer [...].”
Guilherme de Baskerville, em “O nome da rosa”, de Umberto Eco.

Dos anos de postagem em meu blog, surge agora um e-book: “Mar de vento”. É uma coletânea que atravessa o período de 2008 a 2014, com textos de variados gêneros, nesse exercício diário de trabalhar e brincar com a língua.

O e-book está disponível na loja da Amazon e também no Kindle Unlimited.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

As cidades e os sonhos

Para Italo Calvino

Depois de algumas horas de sono, chega-se a Anaret, uma construção fortificada por jardins floridos e plantas frutuosas. Não há muros, balaustradas, vigias ou armas, apenas um longo exército de margaridas que circundam a cidade, jamais impedindo a entrada de um viajante, jamais permitindo que ele saia indiferente.

As mulheres de Anaret são belas, únicas, tão únicas que, apreciando-se em detalhes e pormenores, se dirá que se trata de uma só mulher, tantas vezes refeita, renascida, multiplicada infinitamente por olhos que nunca se enganam, por bocas que sempre se beijam e por mãos que se procuram num carinho, numa tarde silenciosa de sol.

À noite, quando os ventos frios anunciam a suave chegada da vida, ouvem-se melodias por todas as ruas e vielas, o clamor belo e quente de canções que embalam os homens e adormecem as feras. São vozes femininas que entorpecem os sentidos e costuram realidade, sonho e desejo numa mesma trama, em que corpos se tocam e se afastam, se pedem e se repelem, no langor cálido de paz e guerra.

Essas serenatas atravessam a noite, os sonhos e os anos, cortam o espaço, a sanidade e o interdito, não cessam jamais de chegar a um inebriado e estranho ouvinte, que insiste em caminhar em busca dessa cidade-desejo. Anaret é a cidade onde os sonhos sorriem, lábios sinuosos e sensuais, rubros e vivos, cantam memórias e esperanças, a lembrança é vivificada e calor e frio são amantes em despedida.

Ao despertar com os primeiros raios de sol, Anaret se retira e se guarda, recatada e encantadora, para que o dia seja o que se espera dele. O desperto, sem o calor da cidade-desejo, tateia a cama vazia e ora para que a chuva venha em seu socorro, verdejando a fé e umidecendo-lhe as palavras, para que, no próximo encontro, ao fim do dia, elas possam encerrar essa eternidade de silêncio e constrição.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

De mudança

https://bit.ly/3t4qYbg

Depois de longos anos na ribalta, é hora de sair de cena. Novos tempos são chegados, é hora de fazer as malas e partir. Estou mudando de casa: a partir de amanhã, estarei em apalavravoadora.wordpress.com, buscando a palavra mais leve, mais alada, não menos, porém, livre. A palavra voadora não quer fronteiras, limites ou entraves, não quer solidão, certeza ou distância. Almeja, sim, desenterrar palavras e jogá-las ao vento, para que alcem o voo mais alto e mais multiforme que puderem. Não espera que essas palavras voltem, tão somente que vivam (em) narrativas extraordinárias.

Pingos

o "i" tem pingo
o "j" tem pingo
não é pingo que faz o "i"
nem o "j"

quando um pingo é letra,
mais senciente, menos ij

domingo, 25 de abril de 2021

Ivelhação


Hoje é uma data importante para este blog: a despedida do Caneteiro dessas páginas. Em 25 de julho de 2001, houve uma ruptura, uma quase morte, que renasceu, nova e modificada, na missa de 7º dia, naquele 31 de julho. Desde então, são quase 20 anos de acidez, e não há estômago que suporte tamanha quantidade de HCl (Humberto Clemente). Assim, este é o último texto assinado por esse caneteiro, tão importante e tão único, mas que, como todo ser humano, também precisa sair de cena em algum momento da existência. Gratidão por tantas risadas e tantos aprendizados nesses longos anos de caneta irrequieta.

***
Nada mais velho do que a palavra a inovação (de origem latina), apesar de, sempre que a ouvimos, um inevitável cheiro de novo invada nossas narinas e nossa imaginação. Disrupção também não é jovem, mas, muito menos usada, está muito mais para o retrato de Dorian Gray do que para o próprio Dorian. Disrupção tem enfeitado a boca de muitas pessoas, ainda que grande parte delas não faça a menor ideia do que seja esse bibelô (chupeta para tantos outros).

Particularmente incomodado com tanta inovação e disrupção que não passam de embromação, resolvi fazer um experimento disruptivo, inovador, em que todas as bases sociais e científicas fossem colocadas à prova: o café disruptivo. Fazer um café, passar um café, o verbo pode se alterar, assim como a qualidade final da infusão, indo desde o chafé (translúcido e aguado) até o levanta defunto (quase precisando ser cheirado de tanto pó).

Para quebrar paradigmas, que é a base da disrupção, resolvi fazer meu café no liquidificador. Me senti o disruptivo, um Duchamp do século XXI, um mictório entre tantos vasos sanitários. Além do mais, resolvi afirmar que a tampa do liquidificador é um gadget, utilizando-a como olho mágico nesse laboratório fabuloso. Foram minutos de pura arte, inovação, disrupção e sujeira, muita sujeira. Os mais pessimistas diriam que o café ficou horroroso, mas prefiro buscar um olhar disruptivo e crer que criei uma nova bebida, ainda não batizada, de gosto duvidoso e pós-moderno.

Todo esse exercício lúdico acima tem a pretensão de trazer à discussão uma palavra nova no léxico, pelo menos até agora não dicionarizada em minhas pesquisas, que já nasce essencialmente velha: ivelhação. Sem dúvida, os próprios radicais já explicitam, essa ivelhação é o antípoda de inovação, certamente um antepassado longínquo, uma pitecoexistência nesse mundo tão jovem da inovação.

Essa ivelhação é o ato de se buscar o velho, o antigo, uma ação que gere ou que encontre um histórico, e não apenas uma história, sem necessariamente se remeter a teias de aranha ou a cabelos brancos. Antes que me digam preconceituoso, declaro abertamente meu afeto às aranhas, às teias e aos cabelos brancos, todos os três tão presentes em minha vida.

Ouvi certa vez uma teoria que dizia sobre as pimentas e os sais no mercado de trabalho. Os sais se referem aos cabeças brancas, aos profissionais mais experientes, com mais horas de estresse e dedicação, logo com mais idade, enquanto as pimentas se referem aos cabeças de fogo, os novos profissionais, em geral jovens, com a cabeça fervilhando de ideias e de vontades, mas sem necessariamente conhecer o front.

Particularmente, gostei muito dessa abordagem, ainda que possam ser feitos comentários ou críticas, aliás como a toda teoria, conceito ou perspectiva. Trouxe o assunto à cozinha e fiquei pensando em algum prato que leve apenas pimenta, sem sal. Depois me veio a perspectiva de a pimenta em conserva levar sal em alguns casos, ainda que se possa comer a pimenta in natura. Analisei também o impacto de uma colherada de pimenta ou de sal no humor do fígado, dos rins e do ângulo de 90⁰. (Cada um reflita por si).

Essas divagações me fazem pensar que o mercado de trabalho deveria ter uma área especializada na ivelhação, a fim de poder potencializar o que esses cabeças brancas têm de melhor. Há processos para a captação de “novos” talentos, de trainees, de “jovens lideranças”, mas há, realmente, atenção para reter os “velhos” talentos? O cabeça branca é um processador sem placa-mãe nos dias de hoje? Ou o problema é muito mais de BIOS (aqui, certamente, só os mais antigos, quiçá só os cabeças brancas reconhecerão que BIOS é esse)?

Além disso, a tradição, muito valorizada por parte considerável de nossa sociedade, só se sustenta na ivelhação, porque pensar tradição sustentada na inovação é como pensar no queijo suíço a partir dos buracos do queijo e não do queijo em si.

Esse texto não pretende ser uma proposta disruptiva, pois não há nada de novo nele, nem de abordagem, nem de metodologia. Encontrará, contudo, espaço para disruptar em virtude do que o mercado de trabalho tem feito e como tem visto esses cabeças brancas. Não há aqui nenhuma bandeira de reserva de mercado aos cabeças brancas ou de desmerecimento dos cabeças vermelhas, porque, se houvesse, seria um vício estrutural, já que os cabeças brancas já foram cabeças vermelhas, e os cabeças vermelhas que ultrapassarem o cabo da boa esperança (em minúsculas mesmo) serão cabeças brancas um dia.

A ideia é misturar, é usar o que cada grupo tem de melhor, é obter o melhor sabor que cada pimenta ou que cada sal é capaz de ofertar e apresentar um prato novo, inovador. Não nos deixemos, porém, enganar com pratos inovadores, pois o sabor pode ser incrivelmente inédito, mas o prato, esse utensílio doméstico que sustenta o alimento, seguirá o mesmo (ainda que nunca usado) em sua forma e sua função: saciar nossa ancestral fome.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Redamar


Na última semana, descobri o verbo “redamar”, palavra antiga, arcaica mesmo, filha do latim e há muito esquecida em alguns dicionários. É um verbo reflexivo, em que você é agente e paciente da mesma ação, e tem um sentido certamente único. Redamar é a ação de você amar e ser amado.

Amar é um verbo intransitivo. Ama-se e ponto. Nem sempre, contudo, esse ponto é final, quisera a pontuação da vida que fosse, e aqui ele se transfigura das mais variadas formas: do duro e inflexível ou definitivo e convicto ponto-final até as sonhadoras reticências, do misterioso e enigmático ponto de interrogação até o festivo ou intempestivo ponto de exclamação. É possível também não haver nenhum ponto, ausência essa que lança o conjugador do verbo numa terrível lacuna existencial. Por isso, a importância de um ponto, pois, por mais mísero que ele seja, é fundamental saber como a frase acaba.

Ao flexionar, “eu redamo”, nessa primeira pessoa tão minha, coloco o ser amado nessa ação e crio uma peripécia linguística, pois, falando só de mim (eu), já estou afirmando sobre outrem e misturando a terceira pessoa (que nesse caso é a segunda matematicamente) na minha fala. Talvez esse verbo devesse ser defectivo, que é aquele grupo em que não há conjugação na primeira pessoa (como colorir, latir, demolir entre outros). Dizer “eu redamo” é afirmar que “nós redamos”, pois redamar não é um sonho que sonha só.

O redamor não está nos dicionários, como tantas outras palavras que falamos, ouvimos e dão sabor e cor a nossas vidas. É preferível amor na dureza dos dias a redamor na placidez das alvas páginas não visitadas. Afinal, o amor não é item de estante, ornamento ou acessório de decoração, é a essência de um sorriso luminoso, de um silêncio acolhedor, de um sentimento sereno e forte. Uma conjugação compartilhada.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

domingo, 17 de janeiro de 2021

O pardal que canta



Então, perguntei [Pedro] a ele:
- Como posso amar alguém que não me ama e que cobiça minha propriedade? Alguém que roubaria minhas posses?
E ele [Jesus] respondeu:
- Quando está arando e teu criado está semeando atrás de ti, te deterás para olhar para trás e afugentar um pardal que se alimenta de algumas de suas sementes? Se o fizeres, não é digno das riquezas de tua colheita.

Khalil Gibran. Jesus, o Filho do Homem. p.148.

***
O pardal pode ser confundido, o dono das sementes não.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Filosofia de teia

 



Na janela de meu quarto, há uma teia, não uma aranha. Há meses, convivo com aquela grinalda etérea em minha paisagem, que não me corta a visão, apenas a juventude. Não posso dizer “minha” janela, se a marca que a identifica não é minha. Aquela porta de ilusão que só meus olhos atravessam é a fronteira entre quem eu sou e quem eu poderia ser; no meio, a teia.

A teia seria um sinal de sujeira, velhice e desleixo? Será que a aranha pensa assim? Como posso destruir uma obra, sem ao menos conhecer sua criadora, essa fiandeira silenciosa, comprometida e talentosa? Não é essa tessitura uma obra do acaso, mas o fruto indiscutível de arte, técnica e suor. Não sei se aranhas transpiram; se não o fizerem, revela-se maior a perfeição do criador e da criatura.

Leio esses fios longos e esvoaçantes como os cabelos de Dulcinéia, aquela por quem os moinhos de vento fabularam uma paixão única em uma triste figura. Estão ali as garatujas dos escritores perdidos do tempo, uns talvez de amor, outros de lembrança, muitos que não tiveram tempo de se inscrever nesse mundo da escrita. Ali também estão os fantasmas, tristes figuras quase teiares, que correm o mundo esperando que alguém acredite neles, que os veja, que conte suas terríveis histórias de vida, não de além-morte, e, principalmente, que lhes dê a certeza de que são obra do criador, não por ele esquecidos.

Há uma teia que nos une todos os dias, que se repassa infinitamente, inserindo e retirando pontos, conexões, proximidades, lonjuras, belezas e dores. Essa teia, sedosa e invisível, pode ser um elo ou um grilhão, solidariedade ou prisão, companhia ou solidão. Essa rede, não aracnídea, insiste em nos mostrar que não estamos sós, somos nós.

Eis, então, que essa suave artista se revela. Com seus longos e finos dedos, esguia e de cintura bem marcada, confere cada ponto, cada nó, cada nota, naquela partitura dos tempos. Desliza por sua obra com propriedade e, num frenesi, dedilha um solo elétrico e hipnotizante. Hendrix. Extasiada, sai do palco. Logo, está de volta. É um balé: com movimentos graciosos e aéreos, voa, livre, jogada de um lado para outro por uma brisa que não se contenta em apenas assistir. Pavlova.

Essa Penélope, de tão fino tapete, não se guarda para o amado viajante, mas aguarda um outro, com sofreguidão, numa relação de poucas palavras, que possa preenchê-la de vida e sabor. Amanhã, quando as memórias forem digeridas, não haverá remorso, só saciedade e a espera de um novo par para uma nova refeição.

Agora ela está parada e me observa. Com seus múltiplos olhos, me vê muitas vezes mais, talvez de forma fragmentada, bem humana, e avalia o que faço: meu dedilhar não contém harmonia, melodia ou beleza, é apenas um teque, teque, teque monótono. Talvez pense em quão pouca técnica há em tantos teques, espaçados por um clique. Avistando meu suor, provavelmente considere o esforço grande para produção tão pequena e, curiosa, espere que minha rede, composta de palavras, espaços, orações e parágrafos, se revele promissora. Ao fim, inequívoca, afirmará: “Esse vai morrer de fome.” Piada ou profecia?

Essa esteta se recolhe e some, para não mais aparecer. Fecham-se as cortinas do espetáculo, não da 'tecitura'. A teia segue castigada pelo vento, pela chuva e pelo olhar que não a entende. Efêmera, em algum momento, será varrida do espaço, do tempo e da memória. Eterna, em qualquer momento, é a prova da memória, do tempo e do espaço.

Na janela de meu quarto, há uma criatura à margem do criador. Imagem e verossimilhança da existência.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Porta de Santo Amaro


Era uma noite única. Tomou banho, arrumou-se, fez a barba com alguns senões, pois as mãos já não tinham a firmeza de tempos mais juvenis, mas nada que o impedisse de se sentir mais novo. Acertou os cabelos, aqueles últimos e velhos remanescentes de sua vida leonina, fez uma conferência detalhada no rosto, nos dentes, nas orelhas, ensaiou sorrisos e versos, sentiu uma emoção nova e teve a certeza de que estava pronto para o jantar.

Aqueles eram dias felizes, pois a memória estava controlada, sem lapsos, e não havia esquecido nada importante há algum tempo, o que o deixava mais confiante e animado. Havia preparado um pequeno buquê de flores do campo para presentear a anfitriã e estava muito contente com a aquarela de cores que reunia. Havia amarelas, vermelhas, laranjas, violetas e outras que se misturavam, insatisfeitas com um só tom.

Olhou o relógio, confirmou a hora e também sua pequena lista diária, apesar de não tê-la usado nos últimos dias. Tudo certo, à exceção dos remédios, pois optara pelo vinho que levava junto ao buquê. Misturar medicamentos e álcool não era uma boa opção, e seu histórico recente de lembranças lhe dava a segurança de que não teria nenhum problema.

Saiu de casa, fechou a porta. O contraste entre a rua escura e o céu iluminado lhe chamou a atenção.

Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós

Um verso veio à sua cabeça e ele sorriu. Um encontro em sua idade não era dos eventos mais comuns, ainda mais com uma mulher tão única. Pensou, então, como os adjetivos mudam com os anos, pois a primeira palavra que lhe veio à mente foi “atraente”, mas que estava muito longe do sentido usual dessa palavra. Na fase em que temos contato mais com coroas do que com buquês, a atração cede lugar à atraência. Com uns anos a menos, certamente se diria eufórico naquela noite.

A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir

Outros versos vieram à mente e ele sorriu largamente. Estaria compondo uma poesia? Estaria se descobrindo poeta nessa fase da vida? Ele, que mal escrevera umas poucas linhas ao longo de tantos anos, encontrava agora uma nova inspiração? Sua confiança crescia e ele, naquele momento, via o mundo como uma grande pintura, com cores aquareláveis, em que vermelhos eram mais rubros e azuis, mais celestes.

A casa de sua anfitriã não era longe, nada que uma caminhada musical não pudesse vencer, e ele optou por cadenciar o passo para não transpirar de mais. Além disso, era uma boa maneira de limpar a mente de problemas cotidianos e focar realmente no que era imprescindível. Como as flores naquele ramalhete tão belo.

Caminhando, levantou o buquê à altura dos olhos e sentiu a fragrância delicada das flores. Lembranças olfativas lhe vieram à mente e um singelo desejo de viver tomou conta dele.

Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Os versos seguiam-se em sua mente e uma onda de amor-próprio se apossou dele, até que fosse se quebrar na areia. Uma dúvida precipitou tudo: conseguiria lembrar dos versos que compunha? Bastava ficar calmo, não entrar em pânico, deixar as ideias fluírem e tudo daria certo. O vinho o ajudaria a relaxar e, talvez, até compor mais.

O vinho! Meu Deus! Esquecera o vinho. Não era possível! Havia programado a compra, o rótulo, a safra, com maior cuidado e zelo, e deixara a garrafa em casa. Olhou o relógio! Voltar ou não? Não havia muito tempo para isso e, se o fizesse, precisaria de outro transporte para chegar à casa da... da...

Não era possível! Não se lembrava do nome da anfitriã! Meu Deus, agora não! Ele não podia se esquecer do nome dela justo naquele momento, depois de tanto tempo esperando o jantar. O vinho, então, se tornou o menor dos seus problemas, assim como o tempo para buscar a garrafa.

Parou de caminhar e encostou numa parede. Fechou os olhos, respirou fundo e disse a si mesmo que ficasse calmo, era uma crise que logo passaria e que não atrapalharia seu encontro. Mudou a respiração e procurou os remédios em um dos bolsos. Não estavam. Como não estavam? Ele sempre carregava os remédios no bolso. Sentiu um calafrio e uma frustração enorme tomou conta dele.

Olhou o relógio de novo. Não viu as horas. Não dispunha de muito tempo e nada lhe vinha à mente que pudesse ajudá-lo. Ainda encostado, resolveu repassar todo o dia, a fim de buscar alguma ideia que o ancorasse naquele mar de dúvidas em que se encontrava.

Meu amor...
Vou lhe dizer
Quero você

Aqueles versos que não paravam de ocupar seus pensamentos. Não! Com tantos anos da vida para se fazer poeta, logo naquela hora, em que não podia dividir a mente, eles surgiram com força. Um desespero começou a brotar dentro dele e a aflição do fracasso iminente disparou-lhe o coração, ressonando as batidas nos ouvidos. E agora?

Escorregou mantendo as costas na parede e caiu sentado, desanimado, desamparado, mudo. Ainda desnorteado com toda aquela situação, lembrou-se de equilibrar a respiração para manter a calma. As lágrimas lhe correram pela face, e o sentimento de impotência lhe invadiu, mostrando a ele, brutalmente, que os anos não podem ser enganados.

Com a respiração restaurada, um feixe de clareza começou a brotar nele. Decidido, levantou-se, bateu a mão na roupa para retirar a poeira e seguiu rumo à casa da anfitriã. O buquê, fielmente em suas mãos.

Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão

Que versos eram aqueles? Um pensamento aflorou: não eram versos dele, não era ele um poeta, mas um copiador, um ladrão de versos estúpido, que mal sabia de quem roubava e dizê-los só aumentaria sua vergonha e limitação.

Pouco tempo depois, chegou à casa do jantar e parou à porta.

Na noite do sertão

Que porta era aquela?

Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei

Não reconheceu a porta. Estaria no endereço certo? Teria confundido o local? Haveria uma mulher realmente a esperá-lo, ou tudo não passaria de uma ilusão de sua mente senil? Sentiu a boca seca e as mãos transpirando. Um buquê. Que buquê era aquele?

Tomado de pavor, encarou a porta e sentiu o coração bater por ela. Era simples, de um tom azulado do fim das tardes de inverno, esmaecido, em que se percebe que o tempo chupou, tal como uma laranja, grandes partes da cor original, deixando apenas a lembrança que o bagaço já foi fruto.

Havia uma ferida na lateral, que sangrava e escorria pelo chão, mas que lutava, maternalmente, para gerar uma semente que partia rumo ao céu. Não era uma trepadeira, era uma sobrevivente, uma planta que não aceitou a limitação, a ausência de solo, de carinho e de atenção, e rasgou nas entranhas da casa uma fábula de querer viver apesar de tudo. Não, não era uma ferida, era um sonho.

Não satisfeita de fugir do destino de erva, de mato, aquela planta abraçou a porta, a cobriu, a protegeu e com ela se uniu. Casaram-se. Agora, aquele véu florido pertencia a ambas, tão parte, tão arte, que a porta não se reconhecia mais como mera fronteira entre dois mundos, mas como única existência, flor.

O degrau, comido por pés ora aflitos, ora displicentes, se juntava ao chão, fazendo uma comunhão rasteira, nunca rasa. Certamente, jamais seria casa, mas encontrou sua essência se fazendo chão. Não havia glamour, nem louvores, nem presentes e adulações, mas a felicidade do degrau não exigia um próximo passo, apenas um pé que o empurrasse ao encontro de seu par.

As flores daquele véu lhe chamaram atenção e uma luz distante, mínima e solitária piscou em sua mente: o nome dela era uma flor. Isso! Graças a deus! Sua anfitriã tinha o nome de uma flor, começava a se lembrar. Agora, era se acalmar e pensar nas opções, pois logo se lembraria de todos os detalhes. O pior já passara.

Começou a listar nomes de flores que podiam ser também próprios: Margarida, Rosa, Hortênsia... Begônia, Petúnia... Líria, Girassola, Crava, Cinamoma... Algo não estava certo... Aqueles nomes que vinham à mente eram realmente de flores? Um sentimento de que não eram começou a surgir e a sufocá-lo. Henriqueta, a flor... Henriqueta, sim, era flor, disso não tinha dúvida, e aquele sorriso enigmático lhe invadiu com serenidade e encanto. Quem era Henriqueta?

Olhou o relógio: as horas estavam lá, mas não lhe diziam nada. Voltou os olhos para a porta, percorreu-a de ponta a ponta, virou-se para a rua e, aéreo, não percebeu movimento naquele mar de solidão. Meteu a mão no bolso e não encontrou os remédios. Na outra mão havia um buquê. Que flores eram aquelas? Será que o nome que procurava estava em suas mãos e ele não reconhecia?

Era melhor seguir em frente e jogar fora para sempre aquele encontro, de cuja companhia ele nem se lembrava, ou era melhor voltar para casa e tentar recomeçar depois, tomando os remédios e seguindo suas atividades de memorização?

Não teve tempo de optar, pois a porta se abriu. Uma mulher atravessou o marco e, vendo-o ali, exclamou animada:

– Amaro! Boa noite! Você chegou agora?

Uma onda de calor tomou conta dele e um sorriso brotou-lhe incontinente. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram.

– Você está muito elegante, viu?

Cada palavra doce e gentil agitava seu corpo.

Tentou articular alguma frase, sem sucesso, emitindo apenas um rosnado inaudível.

– O que é isso em sua mão, Amaro? É um buquê?

– É...

Os olhos dela brilhavam.

– É... – voltou a dizer ele.

Um silêncio costurou os olhares de ambos.

– É...

Engasgou-se com os pensamentos, enquanto lutava com os lábios mudos.

– É...

– Que lindo! – Disse ela.

Uma torrente reprimida e incontrolável disparou:

– É para você, minha flor.

Sem saber como havia dito aquilo, viu um buquê branco surgir nos lábios da mulher, enquanto o rosto dela se tingia de vermelho.

Ele retribuiu o sorriso e esticou a mão com as flores para ela.

– Obrigada – disse ela um tanto desconcertada. – Vamos entrar. – Recolheu as flores com uma mão, levando a outra até a mão dele. Entraram juntos, de mãos dadas, e a porta se fechou.

À mesa, esqueceram-se de tudo.
***

Aquarela de Marci Nunes (@marci_nunes) e poesia de Flávio Venturini (@flavioventurinioficial), Céu de Santo Amaro.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...