sexta-feira, 31 de julho de 2009

As palavras invisíveis

Para Italo Calvino

– Seja bem-vindo, Veneziano! Encontraste a mulher de meu sonho?
Marco Polo, depois de centenas de dias viajando pelo império do Grande Kublai, retornava da missão de encontrar uma mulher sonhada e descrita pelo imperador. O veneziano, ao entrar na sala imperial, fez a saudação ao soberano e caminhou em direção a ele. Sua face não demonstrava sucesso ou fracasso, o que fez Kublai Khan interromper os passos de Marco apontando-lhe o dedo indicador.
...
Mais de cem dias atrás, Marco Polo fora chamado à presença do Kublai. Frente a frente, a indagação:
– O que é um sonho?
Alguns instantes para pensar e a resposta:
– É uma realidade etérea.
O Khan o olhou fixamente:
– Na última noite, uma mulher visitou meus sonhos. Ela chegava caminhando, trazendo às mãos as rédeas de um cavalo branco. Suas feições eram limpas, sua pele clara como as mulheres do poente, os cabelos louros como o sol e seu andar felino. Aproximava-se de mim, dançava seus lábios em palavras inaudíveis e oferecia-me o cavalo.
Marco ouvia o relato atentamente.
– Ao fim de um galope, surgia uma árvore frondosa, de pequenas folhas, mas de grande altura e sombra. Descendo do cavalo, que arfava de cansaço, aproximei-me do tronco e encontrei uma outra mulher, mas que era a mesma. Sua pele estava como a das mulheres do levante, com cabelos pretos à altura dos ombros, um nariz delicado e orelhas e colo adornados com belas pedras verdes.
Nunca havia visto uma mulher com cabelos curtos e devo admitir que isso me causou grande estranheza. Ela se aproximou de mim e me presenteou com um espelho pequeno, como esses que minhas esposas seguram enquanto as amas penteiam seus longos cabelos. Novamente, uma sensação de estranheza tomou conta de mim, não por ver minha face refletida, mas por segurar o espelho. Não me lembro de ter segurado outro antes.
A mulher contornou a árvore com seu passo felino, ocultando-se pelo tronco. Seguindo seus passos, encontrei apenas um corcel, negro como a noite. O cavalo não parecia o mesmo, era maior e mais forte, com grandes narinas e parecia impaciente. Montando, parti em direção incerta.
Sentia o nascer do sol e observava o pôr, ritmados pelo trote do cavalo, que não corria, mas imprimia incrível velocidade. Aos poucos percebi que o sol estava parado, era eu que trilhava caminhos circulares, voltando sempre ao início, ao fim. Em um desses momentos, quando o fim toca o começo, uma mulher linda apareceu e sorriu. Meus olhos brincaram comigo, fazendo com que eu visse ora a mulher do levante, ora a mulher do poente, não raras vezes avistasse as duas juntas, com cabelos negros e louros, longos e curtos, na constituição de uma só mulher. Seus lábios bailavam, mas meus ouvidos estavam cegos àquela dança. Esticou os braços e desenrolou um pergaminho, que rapidamente tentei ler. Estava em branco.
Kublai se calou. Caminhou pela sala e sentou em seu trono.
– Tenho milhares de cavalos e poderia ter todos do império se quisesse. Tenho centenas de espelhos, de todos os tamanhos, de todos os formatos, e poderia mesmo controlar toda a produção deles. Tenho uma vasta biblioteca, com pergaminhos de todas as línguas conhecidas, e grande quantidade deles em branco, a serem preenchidos.
Fechando os olhos, colocou os lábios no tubo de âmbar do cachimbo e aspirou calmamente. Na seqüência:
– Mas não tenho essa mulher, não sei quem ela é nem onde mora. Ela está nos meus olhos e não posso pegá-la, está em minha mente e nem mesmo sei o seu nome. Invadiu minha fortaleza, interrompeu meu sono, trouxe-me a dúvida... Que exército vencerá um inimigo invisível?
Após nova aspiração, disse:
– Ponha-te em viagem, explora todas as costas e procura essa mulher.
...
Kublai Khan virou-se de costas e se pôs a pensar naquilo que, em segundos, findaria sua ansiedade de centenas de luas.
– Veneziano, trazes novidades?
– Sim, meu senhor.
– Encontraste a árvore frondosa?
– Sim, meu senhor.
– Viste belas mulheres?
– Sim, meu senhor. Teu reino é pródigo em beleza.
– Então, encontraste a mulher de meu sonho?
– Grande Khan, a mulher não foi encontrada, mas teu sonho sim. Aqui está ele.
Marco Polo retirou da roupa um pergaminho e o entregou ao Khan. Segurando-o, hesitou em abri-lo por alguns instantes. Desenrolando-o, descobriu-o em branco.
– Agora podes guerrear. Teu inimigo é visível.
Kublai Khan sorriu, descobrindo a mulher pelas linhas em branco do pergaminho.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

À sombra das peladas imortais

Para Mario Quintana
Da vez primeira em que me fraturaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me quebraram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus ossos calcificados, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, velha, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da pelada!
Ah! Deste pé, avaramente sestro,
Ninguém há de arrancar-me a bola amada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
Não calará o canhoto, torto, que já foi destro!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Alma de um povo

Em 23 de julho de 1979, era gravado o primeiro disco da Corporação Musical Nossa Senhora das Dores.
Em 23 de julho de 1981, o Maestro Cesário, comandante da Corporação, era chamado à casa do Pai.
Em 23 de julho de 2008, era concluída a dissertação deste bucaneiro que aqui escreve.

Em 1979, na gravação do LP, foram decisivas as participações de Padre Gil e Padre Zicó, tendo o primeiro idealizado e o segundo viabilizado o projeto.
Em 1981, "A morte do justo", numa tarde fria de inverno, solou a despedida do Maestro.
Em 2008, as últimas palavras foram acrescentadas à dissertação, fechando a versão que iria à defesa. Nesse texto, sobredito dissertação, encontra-se o nome do Maestro Cesário Mendes de Cerqueira, a quem eu chamo carinhosamente de avô e tenho a satisfação de trazer comigo dupla parte de seu nome.

Um dia, quando a banda passar, todos nós estaremos juntos novamente no reencontro desse povo que é nossa própria alma.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O bode da boda

O casamento é tão-somente uma crônica;
basta-lhe fidelidade e algum estilo.
Machado de Assis

O circo é chamado, com bastante razão, de o maior espetáculo da Terra. São vários atores, cenários, apresentações, um certo número de animais – alguns adestrados, outros não –, e o mais importante: os palhaços. O que seria de um circo sem roupas coloridas, caras pintadas e uma boa palhaçada? Entre gargalhadas e choros (de tanto rir), o espetáculo não pode parar.

Pensando no circo, acredito que o casamento é a maior aventura da Terra. Explico. Um casamento é composto por atores, um cenário, animais (não-adestrados) pululam e palhaços – de caras coloridas e roupas pintadas – pipocam de todos os lados. Hoje tem ou não tem marmelada?

Assim, empatados em grandiosidade, o casamento se torna a maior aventura da Terra pois ele é uma guerra em que aliados e inimigos vestem o mesmo uniforme. Jamais se entra ou se sai de um casamento ileso, principalmente se sua trincheira for o altar. Um casamento é o espaço ideal para rever inimizades, reaquecer intrigas, desmerecer créditos alheios, maximizar débitos terceiros, observar a ação do tempo e reencontrar amizades distanciadas. Considerando a empatia de minha caneta, reencontro as amizades, observo o tempo e engano os desatentos.

Dias atrás pisei esse campo de batalha, querendo, como Riobaldo, que o branco fosse branco e que o preto fosse preto. Possível não foi, mas a desandança seguiu, rumo a quem sabe onde não fala o que é. Atrás eu fui.

O primeiro que avistei foi Floro das Grassas e sua família, reluzente como sempre. Os ouros brilham na querença dos louros, mas há louros que não compram os ouros. Na ausência de graça, a família Grassa segue só, ridente, na vã esperança de preencher a mente.

Não muito distante, há poucos bancos de mim, Felipa dos Prazeres. Quem a visse, assim, abeatada, não imaginaria o que o plural de seu nome é capaz. Talvez não seja mais, apenas tenha sido, pois aquele viço de outrora, que nunca chegou a ser beleza, se esvaiu nas mãos do tempo. Casar gostaria, contudo os Prazeres são efêmeros.

Diferentemente, Bôsca das Flores, graciosa, aparentava rir do tempo, divertindo-se entre rosas e fragrâncias vindas de Zirma, Fedora, Ipazia, Eutrópia e Bersabéia. Sua busca por flores se apaziguou depois de entender que insetos e espinhos são parte do roseiral e que nossos olhos, muitas vezes, nos enganam.

Castigada pelo espelho, Lola das Faces deslizava pelas sombras, anônima. Poucos reconheceram Facinha – como era carinhosamente chamada –, ainda que seu vestido fosse luzente e ela estivesse bem à entrada principal. É preciso admitir que, em eventos como esse, não há muitos momentos para se demonstrar inteligência e perspicácia, virtudes indeléveis na face de Lola. Entrou Facinha, saiu Facinha, e não chamou a atenção de ninguém, mesmo que seus alvos dentes luzissem como pérolas.

Cumprimentou-me o Mariano. Ou melhor, Mariano dos Desejos, como ele afirmava e insistia. O que são os sobrenomes senão um selo que, diferentemente de alguns do mercado, não comprova nenhuma qualidade? Sem sobrenome, uma figura parva se torna insignificante, massificada pelo gentio. Você conhece o Zé? E o João? Se sim, digo que ambos devem ser ou parecer pobres, pois se fossem abastados seriam o Zé das Couves (com “c” maiúsculo), empresário das foliáceas, e o João Fedônio, garboso e aromático. Os Desejos são assim, o que se há de fazer?

Aproximaram-se Carmelo, de tantas canetadas, Tico Preto, de tantas campanhas, Lindolfo, de tantas histórias, e o Peralta, de tantas beligerâncias, alongando a amizade que a distância não conseguiu encurtar. A chegada deles espantou minhas divagações, assestrando minhas observações.

Sobre o casamento, nihil nove sub sole. A mesma liturgia, os mesmos símbolos, o mesmo “valha-me, Deus!”. Felizes entraram, felizes saíram, até que a morte os separe. Fidelidade e estilo, nas palavras de Machado, busco em meu texto; para o casamento, a hestória é outra.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Amigos

Segue a comemoração do aniversário do Caneteiro no dia do Amigo. Desde antes de "Beleza", o Caneteiro já recolhia e distendia sementes de sonhos, como aquele de ir trabalhar no interior da Inglaterra, capítulo onírico sumariamente enterrado com os incidentes de 11 de setembro de 2001.

Durante a escrita do Caneteiro, as amizades foram as certezas dos momentos incertos. Renata Velasco e Sônia Queiroz, primeiras sementeiras daquele projeto "Maluco", bussolavam a embarcação durante o son(h)o do timoneiro.

Os textos foram surgindo e novos amigos foram agregados. É bem certo, porém, que nem só de amizades vivia o Caneteiro, principalmente pela tinta acre que escorria do papel. Essa seiva espantou os "maus espíritos" e trouxe "familiares" distantes, perdidos, inéditos. A eles: Letícia Rodrigues, Lauro Mendes, Vera Casa Nova, Neide Freitas, os sempre votos de estima.

Em 2005, a hospitalidade do amigo André Penna permitiu que o Caneteiro ganhasse uma casa: http://www.caneteiro.com.br/, encerrada, em 2007, com a bênção de Medeiro Vaz. Era o momento de "queimar" o arquivo e buscar o-que-não-via, o-que-não sabe, o-que-não-digo.

A história está simplificada, mas os vértices estão citados.

O ademais é outra hestória.

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O texto de amanhã, O bode da boda, é aquele que eu gostaria de ter escrito. Em 21 de julho de 2006, em um casamento na Igreja da Boa Viagem, recebi o manuscrito em mãos, presente de Dona Quiméria. Aos nubentes da data, meus parabéns pelo terceiro ano de casamento; ao texto, quimérico, o renascimento do terceiro tomo de quatro.

sábado, 18 de julho de 2009

Decreto

Decreto N.º 1808 - de 22 de Agosto de 1860.
Autorisa o Governo a mandar matricular no primeiro anno da Faculdade de Medicina do Rio Janeiro a Fabio Sizino Bastos da Silva, e Ezequiel Alfredo dos Santos Ribeiro, e no primeiro anno da Faculdade de Medicina da Bahia a Marcos Antonio Monteiro da Silva.
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Hei poir bem Sancionar e Mandar que se execute a seguinte Resolução da Assembléa Geral Legislativa:
Art. 1º He o Governo autorisado a mandar matricular no primeiro anno da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a Fabio Sizino Bastos da Silva, e Ezequiel Alfredo dos Santos Ribeiro, sendo préviamente approvaddo, no exame de historia que lhes falta: e no primeiro anno da Faculdade de Medicina da Bahia a MArcos Antonio Monteiro da Silva, levando-se-lhe em conta os exames de preparatorios que fez, não obstante o lapso de tempo exigido para sua validade; e á exame das materias do dito anno, huma vez que se mostrem habilitados na fórma dos respectivos Estatutos.
Art.2º Ficão revogadas para esse fim quaesquer disposições em contrário.
João de Almeida Pereira Filho, do Meu Conselho, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Imperio, assim o tenha entendido, e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro em vinte e dous de Agosto de mil oitocentos e sessenta, trigesimo nono da Independencia e do Imperio.
Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.
João de Almeida Pereira Filho
João Lustosa da Cunha Paranaguá
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Fonte: Collecção das Leis do Imperio do Brasil de 1860. Tomo XXI. Parte 1. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1860. p.40.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

terça-feira, 14 de julho de 2009

Dos vivos - parte 4

– Eu esssstava em silêncio, mas não pude deixar de me ofender com o “pra mim fazer”. Você fugiu da esssscola, idiota? Eu detessssto gente esssstúpida.
– É por isso que você não se olha no espelho?
Risos.
– Se é “para eu fazer” ou “para mim fazer”, agora não vem ao caso. Isso aqui não é uma aula de Português! Eu falo do jeito que eu quiser.
– Idiota! – retrucou ela.
– Eu quero saber quem está comigo! – gritou Amadeu, encerrando a discussão.
Fez-se silêncio e alguns levantaram os braços.
– São poucos, mas são leais. Têm brio e vergonha na cara! Não são como muitos que falam muito e não fazem nada.
– Quando eu morri, depois de muito sofrer, acreditei que iria para o descanso eterno. Mas estou vendo agora que fui enganado. Vocês são muitos chatos! Me deixem em paz! – falou um velho de cabeleira branca e olhos fundos.
– É por causa da bestialidade de pessoas como você, Amadeu, que estamos sempre recebendo mais e mais vizinhos. Deixemos os adjetivos para os vivos, não sejamos tão tolos como eles.
– E os outros cemitérios? O que os moradores de lá estarão pensando e falando de nós?
– Eu quero falar – aproximou-se um índio, carcomido pelo tempo.
Abriu-se um círculo entre eles e ele começou:
– Há muito tempo eu estou aqui. Muito tempo mesmo. Muito antes de vocês chegarem. Muito antes de vocês construírem essa cidade dos mortos. Eu já estava aqui. Vi muita gente chegando. Vi muita gente partindo. Vi tudo isso. Vi muito mais.
Fez a pausa para a respiração, mesmo sem precisar.
– Vi guerras. Participei de lutas. Vi pessoas morrendo. Matei inimigos. Estou aqui. Vi muito. Aprendi um pouco. Você disse das outras cidades dos mortos. Quantas cidades dos mortos há espalhadas sem ninguém dizer nada delas?
– Aonde você quer chegar, índio?
– Já cheguei. O velho já chegou também – apontando para Horácio.
– Me diga, ande!
– Você está morto. Mas carrega um vivo dentro de você. Não se preocupe com os outros. Gaste sua preocupação com você. Deixe essas bobagens para os vivos. Você sabe o que é veleidade?
– Não, não sei. O que é?
Olhou-o no fundo dos olhos, fez uma reverência e se retirou do círculo.
– Até um índio está querendo me ensinar. É demais!
– Ouça o que o velho índio falou, Amadeu. Daqui a pouco você vai querer invadir um cemitério do outro lado do mundo, em troca de uma desculpa esfarrapada: para libertar aqueles mortos ou para assegurar a paz entre os cemitérios.
– Tolices!
– Tolo é você! – gritou uma voz entre eles.
Outras vozes surgiram, engrossando o coro contra Amadeu.
– Estou pensando em nós, não apenas em mim!
Mais vaias.
– Vocês são uns idiotas! Vão se arrepender disso!
– Cale a boca, falastrão!
– Por hora, volto para minha morada. Voltarei! Aguardem!
Amadeu antes de voltar ao sétimo andar, parou e observou atentamente sua lápide. Simples, com escritos simples, mas com um erro que o irritava profundamente. Leu em voz alta:
– Aqui jaz Amadeus da Consolação. Amadeus...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dos vivos - parte 3

Ao ouvir isso, se transformou. O pranto foi esquecido e com voz energética se dirigiu ao interlocutor:
– Capitão? Desde quando perdi minha patente? Você não tem juízo? Em outros tempos eu mandaria prender você por desacato à autoridade, moleque! Capitão, não! Tenente!
– Desculpe, capitão.
Risos.
– Moleque atrevido! Se não fosse o meu anel... – rolavam as lágrimas.
– O que aconteceu, Tenente? – perguntou uma senhora, comovida pelas lágrimas.
– O anel, meu anel de tantas histórias, de tantas lembranças, que pedi que viesse comigo à morada eterna, está encravado em minha mão e não posso tirá-lo. E pior, também não posso carregá-lo comigo.
– O senhor não poderia reclamar: e eu que estou nu há vários anos, desde o dia que assaltaram minha sepultura e levaram minhas roupas?
– Pois vocês ainda estão melhores do que eu, que estou “morando” com minha sogra! Fiquei tão feliz quando ela veio para cá, mas para minha infelicidade... aqui estou!
– Todos vocês! Por favor! Um minuto de atenção. – pediu Horácio.
Alguns cochichos e risadas foram suprimidos para dar voz a Horácio.
– Eu não conheço todos vocês, nem vocês me conhecem. Mas quero mostrar uma verdade para todos: nós estamos mortos! Mortos! Como tais, devemos esquecer aqueles valores que tínhamos em vida.
Vaias e assobios.
– Por favor, deixem que eu continue. Durante a vida, cultivamos valores que nada nos acrescentam, mas nos apegamos tanto a eles que, mesmo mortos, continuam conosco. De que vale todo o ouro que reunimos durante a vida, se nela não pudermos usufruí-lo? Vejamos o exemplo do Tenente: o anel de tantas histórias e de tanto apreço, tão próximo e tão distante.
Continuou Horácio:
– De que vale toda nossa vaidade de beleza, de estética, de cosméticos e de roupas se aqui estamos todos com o mesmo “uniforme”?
– Peraí, Horácio. Quer dizer que o senhor acha que não devemos nos preocupar com nossa beleza durante a vida? Discordo totalmente.
– Eu também quero me manifestar – disse uma mulher mais encorpada – A fulana da quadra ao lado quando chegou estava toda pintada: esmalte, sombras, batom, bijuterias,...
– Calma aí, que a fulana tem nome. Meu nome é Alzira e bijuteria, não. Jóia, viu! Jóia! Ouro! E pintada estava...
– Calma, gente – interrompeu Horácio – Deixem-me falar. Como dizia, eu não disse sobre a vida,...
– Armindo.
– Eu não disse isso, Armindo. É importante nos preocuparmos com a nossa aparência durante a vida, mas não a um ponto que ela se torne nosso objetivo principal. Quem não gosta de boas roupas e bons perfumes? Mas tudo que é demais é muito.
– Papo furado! - gritou Amadeu.
– Você, Amadeu, está impregnado de valores humanos. Tem preconceito quanto à condição social, não aceita os diferentes de você e mais, numa atitude estúpida, propôs que nos reuníssemos e que invadíssemos outros cemitérios. Só uma besta faria isso!
Mais risos.
– Ofender, não! Besta é você!
– Besta, sim! Você está morto. De idiotas já chegam muitos vivos que estão por aí! Seja por política, por religião ou até mesmo por futebol, os vivos brigam e matam uns aos outros. Pura ignorância!
– Eu não tenho paciência para ouvir sermão depois de morto. Para mim ouvir em vida já era difícil, depois de morto nem pensar.
– “Para mim ouvir”? Desssde quando “mim” faz alguma coisa? – comentou uma mulher.
– Ninica! Só podia ser você mesma! Já era chata em vida, depois de morta então... insuportável! Os alunos fugiam de suas aulas e você, tonta, se indagava por quê. SSSSaco!

domingo, 12 de julho de 2009

Dos vivos - parte 2

– Esperei durante semanas para ver se alguém faria alguma coisa sobre o assunto. Mas nada. Nem uma só palavra de repúdio! Nem um palavrão para desobstruir o silêncio e lavar a alma! Nada!
Observava as reações e prosseguia:
– Todos os dias, novas pessoas têm chegado, se mudado para cá. A cada nova mudança, sempre as mesmas histórias: “Que cemitério pobre!”, “Esse cemitério, perto do do Bonfim, não é nada. O Bonfim é muito mais assustador!”, “Aqui só deve ter pobre. Olha como as sepulturas são simples”, “Bem feito. Depois de tudo que fez na vida, ser enterrado nesse fim de mundo”.
– “Eu prefiro o da Colina”, “O Renascer é...”, “O da Saudade tem a melhor vista”.
– O quê? Eles dizem que aqui só tem pobre?
– Nunca ouviu? Não é só isso, mas também que o da Paz é o melhor localizado porque está ao lado de um shopping.
– Passei a vida inteira trabalhando duro, economizando tudo o que era possível e agora eles vêm dizer que aqui só tem pobre? À merda para eles!
– Pois é isso, minha gente! Todos aqui devem já ter ouvido alguma coisa desse tipo...
– “O Bosque da Esperança é maravilhoso”.
– Isso mesmo. Por comentários como esse é que resolvi convocar essa reunião. É preciso dar um basta nessas maledicências.
Apenas um garoto soltou um “apoiado”.
– Ninguém tem nada a dizer?
– Eu tenho – interpelou um homem.
Aproximou-se:
– Quais são suas idéias?
– Meu plano é atormentar as pessoas que vêm aqui. Se a cada cortejo mostrarmos nossa força, em breve essas “historietas” atuais sumirão.
– Mostrarmos nossa força como?
– Assustando as pessoas. Apagando velas, levantando saias, gritando, causando calafrios, arrastando correntes e outras idéias que possam surgir.
– Você pode fazer isso?
– Nós podemos. Todos nós, juntos.
– Você já tentou?
– Ainda não, mas podemos começar agora mesmo.
Silêncio novamente.
– Outra coisa: proponho que façamos uma comitiva para irmos aos outros cemitérios e mostrarmos a eles que não estamos “mortos”. Que não somos um “cachorro morto”!
– Desculpe, garoto, eu não sei seu nome – disse o homem.
– Amadeu.
– Amadeu, eu já estou aqui há muito tempo. Não sei há quanto tempo você chegou, mas eu gostaria de lembrar uma coisa a você: Você está morto!
– Desculpe, senhor, mas eu não sei o seu nome – disse Amadeu.
– Horácio.
– Horácio, se o senhor não me avisasse, eu não sei o que seria de mim.
Risos.
– É claro que eu sei que estou morto. Estou morto, mas não incapacitado. Sei muito bem o que posso.
– Amadeu, se sabe que está morto, por que continua com o discurso de um vivo?
Risos novamente. Um grito ecoa entre eles.
– Ai, meu Deus! Meus dentes! Onde estão meus dentes?
– Está vendo, Amadeu? Isso é a prova do discurso de um vivo. Ela voltará à sepultura e verá os dentes todos lá, mas não poderá pegá-los.
– Tolice! Podemos fazer alguma coisa, sim.
Outro grito:
– Meu anel! Onde está meu anel? Estava comigo e agora não está. Será que caiu enquanto subia? Vou descer e olhar. – foram as palavras de um homem em um uniforme militar.
– Anel? De ouro? Quer ajuda? – ofereceu-se outro.
Iniciou-se uma pequena discussão, interrompida segundos depois pelo pranto do militar.
– Meu anel! – dizia apenas isso e rolavam as lágrimas.
– O que foi, capitão?

sábado, 11 de julho de 2009

Dos vivos - parte 1

Deitado em sua cama observava o teto. Uma aranha deslizava silenciosa pelas paredes, ao contrário das vozes que vinham do lado de fora de sua morada. Mulheres choravam, crianças corriam inocentes e homens praguejavam. Era sempre assim. A cada novo vizinho uma nova comitiva, mas sempre o mesmo ritual.

O alto da colina era seu endereço, justificando-se assim a posição privilegiada para a observação dos cortejos. Havia se mudado para lá há pouco tempo, pouco mais de alguns meses, mas já se sentia em casa. “O que não tem remédio, remediado está”, pensava ele.

Porém, nas últimas semanas, conversas começavam a incomodá-lo bastante. Não gostava do que ouvia e esperava que algum vizinho tomasse a iniciativa de se manifestar. Silêncio. Aliás, silencioso era um bom adjetivo para aquele local e para aqueles vizinhos. Ele não sabia o nome do vizinho ao lado e o vizinho também não o conhecia; não sabia se o condomínio estava pago em dia ou atrasado, se eram famílias ou solitários, se havia crianças ou cães, se eram dali ou de outras cidades, se eram antigos moradores ou recém-chegados. Muitos, até, se orgulhavam dessa condição insular em que viviam, não pensando na perda de seu valioso tempo com vizinhos (e tempo era algo que não faltava naquele conjunto habitacional).

Pensava no que ouvia e no silêncio dos vizinhos. Não fariam nada? Não, isso não poderia ficar do jeito que estava. Levantou-se, subiu os sete andares e começou a bater de porta em porta, convocando os vizinhos para uma reunião.

– Saiam, vamos! Saiam todos! Precisamos conversar!

Um ou outro morador apareceu à porta.

– Vamos, ajudem a chamar os outros! Precisamos tomar uma atitude sobre o que têm dito de nós!

– Dito o quê? Eles quem? – indagou um senhor de idade avançada.

– O senhor não tem ouvido os comentários? Em que mundo está vivendo?

O velho ficou mudo. Outros ajudaram na convocação dos demais. Aos poucos, surgiam e se aglomeravam próximo à casa do convocador; estavam em número aproximado de cinqüenta.

11 de julho

Neste mês, no dia 31, o Caneteiro completaria 8 anos de vida. No (agora) longínquo 2001, teve início a nossa odisseia, que se estendeu até o ano de 2007, interrompida pela ausência de tinta, essa seiva que alimenta o o-que-não-fala.
.
Em 2008, viriam os Bucaneiros. O traço foi alterado, a herança familiar se manteve. Alguns se foram, outros chegaram, os-que-espero não virão, os-que-não-quero continuarão a ser desqueridos, os-que-amo estão sempre presentes, longe, perto, encantados.
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Neste julho de 2009, no 8º aniversário do Caneteiro, reblogueio três textos assinados por ele. Hoje, o único texto que pode ser chamado de referência bibliográfica. "Dos vivos" foi publicado na Revista Humanidades, de São João da Boa Vista (SP), n. 4, Série Letras n. 2, p.169-174, set. 2003/abr. 2004.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Em casa

A sogra se foi.
Foi-se o pai.
Foi-se a mãe.
Foice a família.

Voa, absoluta, a fada madrasta.

domingo, 5 de julho de 2009

A casa

O inquilino que não percebe que a casa da sogra deu lugar à casa da Sônia poderá conhecer, em breve, o céu do viaduto.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Comutabilidade

Paz é guerra.
Escravidão é liberdade.
Força é ignorância.

Não importa o ano, o produto sempre é o mesmo.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...