domingo, 27 de março de 2011

Sêmi

quando encontro
semizero
semivirgem
semiburaco
semijoia

surge em mim
um semissentimento
um semientendimento

domingo, 20 de março de 2011

Bonfim

– Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! – gritei ao portão.
– Pra sempre seja louvado, meu fio! – respondeu Dona Quiméria. – Vamo entrando que a coisa aqui tá feia.
Passei pelo portão e caminhei em direção à porta sem ser recebido pelo Chicão.
– O que está acontecendo, Dona Quiméria?
– Nóis tamo aqui numa campanha, meu fio. Temo um invasor nessa casa. O Chicão tá interrogando o suspeito.
Lá estava o cão acuando um galo na cozinha, rosnando e latindo para a ave que se encolhia assustada.
– É bom que ocê vai sê tistimunha desse interrogatório.
– Que galo é esse, Dona Quiméria? Por que o Chicão tá bravo assim?
– É o Obama, meu fio. A culpa é dele.
– Obama?
– Aquele galo que o Chicão tá interrogando é o Obama. Nós discobrimo a verdadeira identidade dele.
– Me explica isso, Dona Quiméria.
– Meu fio, depois que o Obina foi embora e consiguimo devolver o Diego Souza pro mar, nóis sofremo com a venda do Tardelli. A gente tava precisando de um novo 9 pro nosso time. Aí, numa manhã dessas, apareceu esse galo aí, sem nome, ciscando na frente da casa. O Chicão me chamou e eu fui vê se era um dos meus que tinha fugido, o que não era. Ele num tinha nome, tava um pouco cansado e eu peguei ele pra criá. Coloquei junto com os outro, e fui alimentando, ainda que o Chicão sempre rosnasse pra ele.
– O Chicão nunca rosnou pra outro galo, já?
– Não meu, fio. Nunca! Isso me chamou a atenção, mas eu achei que fosse implicação dele. Mas no último domingo eu descobri que o Chicão tava certo... Aí descubrimo quem ele era.
– O que aconteceu?
– O Grorioso jogava contra o Coelho e, na hora do gol do Berola, foi aquela festa aqui em casa. Os minino tudo cantando e pulando, menos o sem nome, que agora é o Obama, mudo e cabisbaixo. Achei istranho, mas num liguei muito. Quando o Coelho empatou, o Obama levantou e ficou mais ouriçado. Eu falei “Eta, meu Deus! Esse galo tá meio isquisito.” Aí, quando Fábio Jr. virou o jogo, o Obama disparou a cantar e a pular que nem um louco. Aí eu não aguentei: “Chicão, aquele galo é americano! Vão pegá o sem-vergonha!” E nós fervemo pra cima dele. Aí foi um Deus nos acuda! Nóis correndo atrás dele, os minino que tava nas gaiola querendo saí pra pegar impostor, outros que tavam solto partiram pra cima dele, aquele furdum, as plantas caindo, as roupa no varal enrolando na gente e ele tentando se esquivar de todo jeito... Eta, meu Deus!
– A senhora conseguiu pegá-lo?
– Não, o Obama é esperto. Correu pra gaiola dele e fechou a porta.
– Por que a senhora deu o nome de Obama pra ele?
– Ora, meu fio, o galo é americano. Se é americano, só pudia ser o Obama.
Sorri diante da resposta dela.
– Dipois nós revistamo ele e discobrimo umas penas verde na asa. Só faltou o uniforme do Coelho! É americano mesmo! Agora o Chicão tá concluindo o interrogatório e dipois ele vai sê extraditado. Nóis vão mandá ele lá pra Arena do Jacaré hoje, pro meio da torcida do Vila.
– Mas por que pra lá?
– Por que o Vila Nova, meu fio, dipois do jogo de hoje, volta pro Caldeirão do Bonfim, que é o lugar que o Obama merece. Esse falsário vai sê extraditado. Esse galo é 171, tá usando o nome dos outro.
Dona Quiméria afastou o Chicão com uma mão e pegou o Obama com a outra. Colocou o galo numa gaiola, ajeitou o cabelo e o lenço da cabeça, assobiou pro cachorro e se dirigiu pra porta.
– Vamo, meu fio, se não nós perdemo o jogo.
– A senhora tá indo pra Arena?
– Isso, meu fio. Vamo extraditá o Obama e somá três pontos.
– E o 9 que o time tá precisando, Dona Quiméria?
– Nós vendemo a metralhadora, mas ainda tamo cheio de munição, meu fio. O Leão que prepare o couro porque hoje nós vamo metê bala! Vero tiroteio.

domingo, 6 de março de 2011

Até o fim

Agradecimento a Chico Buarque
Para Luiz Clemente, o Engenhoso

quando nasci veio um anjo safado
o chato do querubim
e decretou que eu estava predestinado
a ser canhoto assim
já de saída a minha palavra entortou
mas vou até o fim

"inda" garoto tentei jogar bola
não vingou o folhetim
não sou ruim de tudo, não sou meia-sola
sou mulato marfim
um quieto futuro é o que jamais me esperou
mas vou até o fim

eu bem que tenho ensaiado um sucesso
na ribalta sou o arlequim
talvez eu faça um bruto progresso
se me enxergarem assim
não sei como o rebucetê começou
mas vou até o fim

por conta de umas questões paralelas
quebraram minha parker nanquim
não querem mais ouvir as minhas mazelas
e a minha letra chupim
fiquei careca, a minha tinta secou
mas vou até o fim

não tem charuto acabou minha renda
deu livro no meu cupim
minha caneta ficou mais pudenda
o que será de mim?
eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
mas vou até o fim

como já disse era um anjo safado
o chato dum querubim
que decretou que eu estava predestinado
a ser todo chinfrim
já de saída a minha palavra entortou
mas vou até o fim

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...