quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Três magos

Daqui a pouco, será celebrada a Missa do Galo.

Em breve, o ano terminará e as luzes do réveillon trarão 2009.

O tempo será de menos trânsito, mais shopping, menos compras, mais dívidas. Serão férias do futebol e, conseqüentemente, férias da TV, que ficará desligada até que o primeiro pontapé abra o Estadual de 2009. A partir de então, nascerá a “temporada 2009”.

Neste fim de 2008, três magos partiram de pontos distintos, encontraram-se e, juntos, seguirão atrás de uma estrela dourada que orienta o caminho de uma nação. A estrela percorrerá um caminho longo, árduo e cansativo para aqueles que a seguirem, brilhante e espetacular para aqueles que a alcançarem. Ao fim da jornada, se essa estrela puder ser tocada, será ela estampada no peito e se ouvirá, por todo o país, um hino inequívoco de “campeão”.

A véspera de Natal trouxe o terceiro vértice dessa trindade que precisará, sem trocadilhos, fazer mágica para que essa estrela tão desejada vá se alojar no peito da camisa que eternamente luta, no varal, contra o vento e a tempestade. Bebeto de Freitas está de volta, unindo-se a Alexandre Kalil e Emerson Leão para recolocar o Atlético no caminho dessa estrela, espectador de luxo nos últimos anos.

O Centenário Atleticano, ainda que encerrado oficialmente apenas em março de 2009, será marcado pelos fatos de 2008 e deverá ser sempre lembrado, assim como o título da Série B do Brasileirão. Não são motivos de orgulho, tampouco de vergonha, mas acontecimentos como esses revelam muito daquilo que somos e daquilo que não desejamos ser. São duas estrelas vazadas que estarão estampadas na memória e no peito da Arquibancada Atleticana.

O principal equívoco de 2008 foi o então presidente, Ziza Valadares, se dirigir aos torcedores como se fossem eleitores. O pior que um dirigente de futebol pode fazer é não conhecer o torcedor, não saber o que reza o fiel de sua igreja. Promessas, discursos bem elaborados e marketing são importantes para uma campanha política, mas são ineficazes se dirigidos a um clube de futebol na condição de palavras enfileiradas.

O eleitor, em geral, tem uma memória curta. O torcedor, ao contrário, não se esquece jamais de um título vencido ou perdido, de um árbitro felino, de uma promessa, de uma discórdia ou de um ídolo. Prometeram festas e mais festas, houve decepções e muita lambança. Agora, tudo isso é lembrança.

Essa tão desejada estrela brilhará nos próximos 12 meses e em nossos 12 jogadores. Que os três magos, no ano que abre o segundo centenário, revelem a boa-nova que essa nação tanto espera.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Carta ao Presidente

Este texto é um tributo à memória do Padre Dulinho, a quem eu chamo de "O semeador". Trinta anos após seu falecimento (21/12/1978), suas palavras continuam germinando.
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Ao Excelentíssimo Presidente da República,
Sr. Luiz Inácio Lula da Silva.

Prezado Lula,

O protocolo oficial impõe que Vossa Excelência seja assim tratada, com esse pronome de tratamento, mas em virtude de se tratar de uma carta (e-mail) de um civil, sem ligações partidárias, sem interesses financeiros e sem representação de terceiros para a redação deste texto, dirigir-me-ei a Vossa Excelência por Sr. Presidente.

A situação de Santa Catarina, decorrente das sucessivas chuvas que caem sobre aquele Estado, tem causado comoção nacional e manifestações de solidariedade têm surgido de todos os cantos do país, afirmando um sentimento de nação tantas vezes esquecido. As liberações de verba, sua presença, Sr. Presidente, na área atingida e a manifestação internacional de apoio contribuem, de modo inequívoco, para que os catarinenses se sintam amparados e tenham força para buscar a reconstrução dessa parte da federação.

Seu governo, Sr. Presidente, tem-se pautado pela busca de um equilíbrio social, o que se vê claramente na política de distribuição de renda e em ganhos que as classes historicamente menos privilegiadas têm alcançado nos últimos sete anos. Na convergência entre essa busca de equilíbrio e os excessos pluviais de Santa Catarina, encontra-se a justificativa desta carta. Para alguns, mais céticos, será obra de ficção científica ou mesmo insanidade. Da minha parte, apenas uma proposta para análise de viabilidade e pertinência.

Um dos grandes problemas deste país é a desigual distribuição, cabendo aqui muitos complementos para essa expressão: “desigual distribuição” de renda, de escolaridade, de terras, de ocupação territorial, de indústrias, de universidades e tantos outros que poderiam ser citados. Uma grave desigualdade, histórica, que vigora há séculos, é a situação do Nordeste brasileiro.

Sr. Presidente, como filho daquela terra nordestina e desta terra brasileira, o senhor bem sabe que desigualdade é essa a que me refiro. A transposição do Rio São Francisco é uma peça desse intrincado quebra-cabeça e bem poderia ser uma solução para parte dessa “Questão Nordeste”. Pessoalmente, já ouvi tantas e tão divergentes opiniões sobre essa transposição que não possuo uma opinião formada a respeito, considerando apenas impensável a possibilidade de resolver uma discussão nacional com uma greve de fome.

Isso posto, Sr. Presidente, reúno os dois assuntos tratados de maneira (quase) independente até aqui apara uni-los em um mesmo propósito: “a construção de uma grande rede de aquedutos”. Se o país possuísse uma “teia” de aquedutos, que pudesse deslocar consideráveis volumes de água de um ponto a outro do território nacional, poderíamos transformar lágrimas em desenvolvimento.

A estrutura consistiria em grandes reservatórios construídos em pontos estratégicos, como a foz de um rio, por exemplo, e interligados entre si e a usinas e outros pontos de recebimento por dutos subterrâneos, que permitissem que o movimento das águas fosse direcionado de acordo com a necessidade e/ou o interesse do país.

Com uma rede de aquedutos espalhada pelo país, poderíamos, por exemplo, “orientar” o curso das águas para o Nordeste, sem precisar “tocar” o Rio São Francisco, permitindo que áreas castigadas pela seca fossem irrigadas e se consolidassem como regiões de cultivos diversos. Considerando o quadro atual, deslocaríamos parte do excesso de água de Santa Catarina para outros pontos do território, enchendo reservatórios, represas e possibilitando que as usinas hidrelétricas produzissem energia limpa para o Brasil.

Uma obra como essa, é evidente, tenho ciência disto, necessitaria de inúmeros estudos e estaria associada a números que apontariam ou não a viabilidade de execução. Iniciando pelos estudos de topografia, essa obra envolveria milhares de profissionais das mais variadas áreas, desde profissionais graduados (engenheiros, geógrafos, economistas, ambientalistas, químicos, entre outros) até aqueles relacionados à execução dos trabalhos (pedreiros, soldadores, técnicos, entre outros). Uma obra desse porte, se viável, poderia ser atendida pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e seria um marco na história brasileira, assim como foram a auto-suficiência de petróleo e a descoberta da camada pré-sal.

O Brasil já possui, em seu território, o maior aqüífero subterrâneo de água doce do mundo, o Aqüífero Guarani, e poderia desenvolver essa “Teia Azul” (nome simbólico) de maneira semelhante: uma grande rede aqüífera pelo território nacional que promovesse desenvolvimento, trabalho e esperança para todos os brasileiros.

Possuímos tecnologia de ponta em várias áreas e assistimos, dia-a-dia, à construção de oleodutos, gasodutos e outros similares que cortam nosso país e também nossas fronteiras, abrindo o caminho de divisas e construindo, com sólidos pilares, o que um dia já foi apenas sonho.

Com essa “Teia Azul”, munida de estações de tratamento de água em cada ponto de coleta e distribuição, poderíamos repensar o país no que se refere aos mananciais de água e, quem sabe, mostrar ao mundo uma ação eficaz e condizente com as questões contemporâneas, como aquecimento global, efeito estufa, escassez de água potável. As discussões ambientais apontam para a importância da água doce em um futuro próximo, considerando mesmo que, em alguns anos futuros, deixemos de ver a cotação do barril de petróleo para vermos a cotação do barril de água doce.

Dessa forma, Sr. Presidente, apresento minha idéia e espero que ela possa ser analisada pelo senhor, inicialmente, e por especialistas e técnicos em áreas correlatas ao assunto em questão. Se for viável, trará um benefício para o país e para a população de enormes proporções. Caso seja inviável, peço que considere minha intenção em ajudar e não o resultado obtido.

Encerro esta carta agradecendo sua atenção e afirmando, assim como fez meu primo Teodulo Mendes, padre e músico, na década de 1970, em carta ao Presidente Ernesto Geisel, que esta terra nos gerou; esta mesma terra nos acolherá na eternidade. Lutemos por ela em vida para que a tenhamos certa em nossa morte.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A viagem do elefante

“Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades.”
José Saramago

Este texto nasceu antes da leitura de “A viagem do elefante”, de José Saramago, mas posso dizer que a concepção se deu a partir desse livro, tendo-o indiscutivelmente como parente direto. Ao tomar conhecimento que um elefante havia partido de Portugal e chegado à Áustria, identifiquei meus últimos anos dissertativos a essa jornada elefantina. Como os trabalhos acadêmicos são, em geral, de leitura chata e hermética, resolvi produzir esta viagem para que minha dissertação, se fadada ao cemitério dos elefantes ou às prateleiras inexistentes, possa seguir viagem, ainda que sem destino.

Talvez não seja exagero dizer que todos os paquidermes têm a pretensão de agregarem “Salomão” ao nome de batismo. Salomão recebeu um presente divino inigualável: “Então você receberá sabedoria e conhecimento. Além disso, eu lhe dou também riqueza, fortuna e glória, como nenhum dos seus antecessores teve, nem seus sucessores terão.” (II Cr 3:12) Essas palavras de Javé confirmam a grandiosidade de Salomão e aguçam a pretensão dos paquidermes de todos os cantos do mundo.

Assim como na obra de Saramago, Salomão e Subhro chegam ao destino transformados, aquele em Solimão e este em Fritz. Assim como um homem não entra duas vezes em um mesmo rio, o caminhante que parte não é o mesmo que chega ao destino (considerando-se aqui que exista esse ponto de chegada). A jornada, o caminho, os companheiros, as amizades, os infortúnios e as perdas fazem com que esse viajante se metamorfoseie nesse processo, não raras vezes alguns se tornando um inseto monstruoso, precedidos ou não de sonhos intranqüilos.

Todos os anos dezenas de paquidermes partem em busca de títulos, das mais variadas áreas, dos menos variados temas, de linhas de pesquisa diversificadas e de conteúdos complexos, muitos incompreensíveis. O desejo da grande maioria é chegar ao término dessa jornada e ouvir um sonoro e uníssono “Salomão!”, confirmando a inteligência, a perspicácia e o talento que ele mesmo já sabia possuir desde o nascimento. Para esse paquiderme, essa audição tão esperada é o pleonasmo em seu grau máximo.

Daqueles que partem, talvez a grande maioria chegue ao destino. Alguns com maior mérito, outros com um pouco menos, doutros sem mérito nenhum e toutros com muita paráfrase e plágio. Muitos paquidermes, ao término, se esforçarão para esquecer os meios que os levaram aos fins, exaltando aos quatro ventos o título que os transformou naquele inseto já citado.

Expostas essas divagações iniciais e necessárias, relato agora o que de mais importante meus anos dissertativos produziram, além do texto que justifica a titulação. Inicialmente, a amizade e a companhia de minha cornaca, Júnia, que soube conduzir este paquiderme com calma durante o nevoeiro e com decisão nos últimos quilômetros de jornada.

Em seguida, a presença de pessoas que, cada uma a seu modo, contribuíram decisivamente para que essa viagem elefantina fosse concluída: Nelma e José (meus pais), Luiz (meu irmão), Norma (minha tia), Letícia (minha esposa), Prof. William Menezes, Profa. Andréa Cattermol, Profa. Sônia Magalhães, Eloísa Rodrigues, José Euríalo dos Reis e Sô Candelário. Com vocês, a jornada foi possível, mais divertida e mais humana.

Por fim, os conhecimentos ruminados e digeridos serão de grande valia para meu trabalho, seja ele convencional, seja bucaneiro. O Caneteiro se despede silenciosamente e abre espaço para novas canetas, novas espingardas, novos piratas.

domingo, 16 de novembro de 2008

Preço

Na Matemática, há um paradigma que afirma que “a ordem dos fatores não altera o produto”. Na multiplicação, por exemplo, não importa quem leva o nome de multiplicador ou de multiplicando para o resultado final, sobredito produto. Nesse caso específico, se o sujeito é agente (multiplicador) ou paciente (multiplicando), não haverá diferença no frigidar dos ovos.

Esse postulado não se adapta integralmente à língua portuguesa, o que por si só já é um demonstrativo de que as Letras não são uma ciência matemática, ainda que algumas vezes possa ser “financeira”, assim como a crise que se ergueu no mar de especulação. Explico. Existe uma lógica financeira, uma teoria econômica, que define como deveria ser e se comportar o que se chama de mercado, mas o mercado não se preocupa muito com esses preceitos. A língua portuguesa também possui uma teoria, que não podemos chamar de lógica, um exoesqueleto a que chamamos de gramática, que deveria definir como ser e como se comportar o que se chama de mercado, mas esse mercado não está, geralmente, preocupado muito com a teoria. “A gente usamos a língua e isso basta.”

Retomando os fatores e o produto, em língua portuguesa, a construção frasal segue o paradigma sujeito, verbo e objeto, ou, em miúdos, “Vovó viu a uva”. Nomeando os fatores, “Vovó” é o sujeito, “viu”, o verbo, “a uva”, o objeto. Poderíamos também construir “A uva, viu vovó” ou “Viu vovó a uva”, sem que houvesse (total) comprometimento da compreensão da frase. Acontece, porém, que em outras construções frasais o mesmo não aconteceria em virtude das características semânticas do multiplicando e do multiplicador. Assim, em “Vovó viu a vaca”, a ordem dos fatores alteraria o produto, uma vez “A vaca viu vovó” criaria um novo sentido à construção frasal. O sujeito “vedor” se torna objeto visto na troca de posições.

Isso posto, viu-se que a língua portuguesa pode ou não ser matemática, o que permite afirmar, sem dúvidas, aos mais incautos, que ela não é Exata. Considerações iniciais feitas, passemos à análise de uma construção que tem atacado nossos olhos constantemente, não perdoando inclusive nossos ouvidos: “Preço é tudo e preço só o Manuel da Venda tem.”

O Seu Manuel da Venda é uma boa pessoa, o boteco tem cerveja gelada e tira-gosto de qualidade, além de horário de funcionamento estendido, mas tudo isso outros botecos têm, não é exclusividade dele. O que faz a diferença do boteco do Manuel é o slogan: “Preço é tudo e preço só o Manuel da Venda tem.”, que está carregado de produtos.

Comecemos por “Preço é tudo” e usemos o paradigma da ordem dos fatores, “Tudo é preço.” Nada mais atual e capitalístico do que a confirmação do caráter mercantil de tudo, pois se pressupõe que se há preço, é porque está à venda. O que é esse tudo se não o simulacro de uma massa amorfa e pseudo-homogeneizada que chamamos de mercado, que, no fundo, somos nós mesmos. A cada um cabe uma etiqueta e a dúvida que paira no ar é se há etiqueta para se possuir etiqueta.

Na seqüência coordenada aditiva, mudemos “Preço só o Manuel da Venda tem” para “O Manuel da Venda só tem preço”. Nada mais. Na venda do Manuel, não espere atendimento de qualidade, atenção, conforto, conhecimento: só preço. Em tempos de encantamento do cliente, o Manuel da Venda, apenas com a inversão da frase, consegue dizer exatamente o que é e o que pretende, com incrível sinceridade, e se manter na crista da onda do mercado, mesmo que esse mar seja de especulação. Isso só reafirma a máxima de “preço ser tudo” e demonstra que talvez seja melhor conhecer um pouco mais da língua e um pouco menos da etiqueta.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Mestre

Minha dissertação chegou ao fim, mas o mestrado que me trouxe ao fechamento do texto não terminará nunca. Desde 2006, tenho me engalfinhado em textos, canetas, fotocópias, bibliotecas, googles e uma série de parafernálias que me trazem a informação e, não raro, me levam à desinformação. Agora, em 2008, todo esse movimento belicoso cessou e a caneta, outrora , corre livre pelo papel em busca das linhas tortas não divinas.

Acredito em muitas coisas (matita pereira, enterro de anão, arco da velha, etc.), mas não consigo acreditar que quem conclui um mestrado seja Mestre. Bem, o título é esse, dá um brilho, encorpa o currículo, valoriza um pouco essa criatura que um dia já foi mestranda, abre algumas portas, fecha outras, causa um certo efeito de pombo arrulhador, o que para alguns é o máximo. Conheço alguns que, com o título, tomaram um garbo ao arrotar, uma finesse ao soltar um pum e mesmo um certo orgulho ao defecar. Afinal, o PIB de mestres...

Alguns dizem que o doutorado me espera, ao que eu não nego e mesmo visualizo uma luminosidade longínqua, em um fim de túnel longínquo, desses que não sabemos se é uma luz, um trem desgovernado em nosso sentido ou apenas um vaga-lume malachias a debochar de nós. Não dá para descobrir se não formos até lá, in loco, verificar com introdução, justificativa, cronograma, metodologia e referências bibliográficas que brilho fátuo é aquele. Os túneis têm isso, as luzes têm isso e os curiosos têm o túnel.

Olhando o retrovisor, dois anos passaram rápidos e frenéticos como um coelho de Copas e me ensinaram, como nunca antes, a força dos eufemismos. Assim, desse processo dissertativo resultaram-se expressões faciais de experiência, um sensual clareamento capilar de madura idade, um aumento de massa corporal, assim como um relacionamento social mais fraterno com uma gama diversificada de profissionais de saúde.

Ao fim e ao cabo, batizei meu rebento de “Poéticas do artifício: Kierkegaard e Borges em Baudolino, de Umberto Eco”, contando com a orientação precisa e companheira da Profa. Maria Esther. Essa batalha lingüística agora está finda: ficaram a dissertação, o conhecimento, as amizades costuradas e os eufemismos. As pedras que surgiram ficaram pelo caminho, não me detiveram, ainda que tivessem ou houvesse várias delas. Assim como o poeta itabirano, “nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.”

sábado, 25 de outubro de 2008

Forte

O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Parafraseando a célebre frase de Euclides da Cunha em “Os sertões”, ao retratar o tipo humano vivente naquelas paisagens escaldantes do sertão da Bahia, pode-se dizer “O atleticano é, antes de tudo, um forte.”

Forte, em primeiro lugar, por torcer por um time barroco, em que céu e inferno, não raro, são consecutivos em tempo e lugar. Em que preto e branco são iguais, sem distinção de cor, uma vez que a raça é uma só multidão: aquela que está nas arquibancadas, aquela que se espera em campo e aquela entoada no hino.

Forte por chegar aos cem anos, em um centenário de tantas histórias, de tantas figuras ilustres, de milhares de indivíduos que viveram e morreram por esse time e que, mesmo sob outros céus, estarão no presidente Antônio Carlos para assistirem ao eterno triunfo. Cem anos de tantas partidas, inúmeras vitórias, milhares de gols, de ídolos, de paixão, de esperanças que se renovam diante do apito que autoriza a bola a rolar, de não poucas lágrimas, sejam elas doces ou amargas, de derrotas que mancharam a alma branca e fizeram a paixão ainda mais negra.

Forte por enfrentar anos difíceis, de batalhas maiúsculas, mas de guerras minúsculas. De conviver com promessas absurdas e de absurdas promessas, que jamais deixarão de ser “eternas promessas”. De nomes estranhos vindos de longe, de futebol esdrúxulo, de origem duvidosa, que passaram sem deixar saudades, mas, muitas vezes, um rastro de decepção e melancolia.

Forte por enfrentar um ano festivo tão duro, de tantos desacertos, de tantas omissões, de tantos desencontros, de futebol tão solitário para uma torcida tão solidária. De públicos diminutos, de silêncio, de jogos esquecíveis e de poucos motivos para sorrir senão a alegria de poder ser alvinegro sempre. De ser forte.

Do centenário ao momento atual, a campanha hoje será contra o Internacional de Porto Alegre. Não há grandes expectativas para a partida: sem ídolos, sem grande público no estádio, sem o brilho histórico das duas equipes. Vitória no jogo de hoje não é expectativa, pois vencer fazer parte do sangue atleticano, do hino, da alma, do sentimento preto-e-branco tão bem traduzido em palavras por Roberto Drummond.

O campeonato não tarda a se encerrar e logo as luzes de Natal trarão o ano novo, o de número 101 na história atleticana, talvez o redentor do antecessor. Hoje, no Mineirão, o Galo deve fazer valer as palavras do hino e vencer. Apenas vencer. E dessa vitória, buscar a próxima, a seguinte, a que virá e encerrar o ano lavando as páginas iniciais do centenário, aquelas que ficaram manchadas e não serão esquecidas. (pudéssemos nós esquecê-las!)

Com essas vitórias, estaremos na Sul-Americana em 2009. Com os votos do dia 30, teremos um presidente e um planejamento, que poderão trazer um time, e, desse triângulo, ter de volta o maior patrimônio alvinegro: a torcida. Esse irresistível continente chamado de Arquibancada Atleticana.

Ao concluir, deixo um recado ao futuro presidente atleticano me apropriando de palavras de Euclides da Cunha, de o mesmo Os sertões que iniciam este texto: “É que um exército é, antes de tudo, uma multidão, um acervo de elementos heterogêneos em que basta irromper uma centelha de paixão para determinar súbita metamorfose, numa espécie de geração espontânea em virtude da qual milhares de indivíduos diversos se fazem um animal único, fera anônima e monstruosa caminhando para dado objetivo com finalidade irresistível.”

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...