domingo, 31 de janeiro de 2016

Carmelo

Carmelo faz parte deste enorme contingente de pessoas estressantes e estressadas; pessoas como nós que conversamos e cumprimentamos várias pessoas e ao final não sabemos com quem falamos ou de onde conhecemos; loucos atrás do cheque que vai entrar, da prestação que vai vencer, dos cabelos que vão cair, do time que vai ganhar e de tantos relógios a olhar, carregando conosco o besouro maldito e a pressa de estar livre.

*Trecho de "Reencontro", publicado originalmente em 2001.

sábado, 30 de janeiro de 2016

A dúvida da questão

Na noite em que conversamos, não consegui dormir; pensava em meus fantasmas. Quantos, quais e como. Difícil dizer. Eles vinham, me olhavam e riam de mim; uma risada muda irritava meus ouvidos e não me deixava dormir. Não sabia o que fazer.

Levantei, caminhei até a janela e observei a rua. Ouvi vozes: era o silêncio que sussurrava baixinho. Ouvindo-o descobri. Cristiano havia deixado um presente para mim: a dúvida.

* Trecho de "Questão", publicado originalmente em 2002.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Sem vogais

ao chegar às quatro dezenas
me vi incompleto
faltavam as vogais
as consoantes, rotas

uma lágrima umedeceu minha boca árida
agrediu meus dentes mastigados
exigiu que fosse única e tocou meus pés

não há tempo para parar, disse o anjo,
torto, que vive à sombra.

a poeira do primeiro passo
o uivo da alvorada
o tom da caneta.
mais um ano foi aberto.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Demonstrativos - parte II

Simples, não? Sem dúvidas. Agora, se o homem chega em casa e vê a mulher se despedindo de outro homem, mas se esse ainda está na cena, indagará:
– Quem é esse homem?
Note, leitor, que essa situação deu origem a um triângulo. Para quem gosta de esquemas visualizadores, monta-se assim: um triângulo equilátero que em cada ponta tenha uma das figuras envolvidas. Se um dos vértices se deslocar (correr) bruscamente, todo o conjunto se move.
Na terceira possibilidade, o homem chega em casa, vê a mulher se despedindo de outro homem, aproxima-se do despedido, segura-o pela camisa com a mão destra e apregoa-lhe um tapa na cara com a mão sestra, indagando:
– Quem é este homem?
Nessa conjuntura, leitor, a situação dá origem a uma figura geométrica denominada “barraco”. O barraco se caracteriza por formas variáveis, cabíveis de expansão e retração, que são regidas por regras próprias e possuem alta instabilidade. Só se tornam estáveis quando os vértices (que podem ser em número de três ou mais) se reduzem a dois ou a um.
Perceba, leitor, quantos conhecimentos simultâneos podemos extrair desse fato. A ação foi a visão do outro e a reação foi o tapa na cara. O marido poderia ter socado o outro, mas optou por um tapa. Sabe, com certeza, que todo tapa (como já dizia Nelson Rodrigues) é o mais transcendente de todos os atos humanos. Um soco se perde no hematoma; um tapa se perde no velório.
Além disso, utilizou-se da máxima: “Bater primeiro e perguntar depois”. Perceba o espaço para o diálogo, tão próprio da democracia. Veja que o “coroado” é politicamente correto, pois não disse nenhuma palavra chula ou se referiu à mulher com adjetivos zoológicos. Também é a favor do não-armamento dos civis, tendo evitado alguns disparos no meliante.
Algumas outras considerações poderiam ser feitas, mas fico por aqui. Espero que, com este curto texto, as idéias e pré-conceitos sobre a Língua Portuguesa sejam repensadas. Quanto às casadas, amantes do perigo e da adrenalina, sugiro mais cuidado.
***
Texto originalmente publicado em 2002.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Demonstrativos - parte I

Para alguns néscios, a língua portuguesa é apenas “aquilo” que nós, brasileiros, utilizamos para nos expressar. Os mesmos (néscios) ainda consideram o estudo da língua como algo menor, como uma “falta de opção” daqueles que se propõem a fazê-lo. Pois bem, esses idiotas me irritam! Não só pela total ausência de conhecimento sobre o que são as Letras, como também pela arrogante valorização de conteúdos próprios. Não se lembram que a expressão de suas idéias se dará pela língua portuguesa.
Grande parte dos profissionais da área de Letras é vista como gramáticas e dicionários ambulantes, uma espécie de programa de computador de última geração que, ao ser questionado, dará uma resposta precisa e definitiva em poucos segundos (as Letras como Ciências Exatas). Como “expoentes de alta tecnologia”, deveriam oferecer respostas a baixos preços ou até mesmo de forma gratuita. Novamente a obtusidade: inovação tecnológica dá muito trabalho e não costuma ser barata, além de requerer profissionais qualificados.
Quem, da área de Letras, nunca foi indagado: é xuxu ou chuchu? com “x” ou “ch”? A maneira correta é cadê ou quede? O que quer dizer capadócio? E comborço? Diante de tantas dúvidas, pensei que poderia dar minha colaboração, fazendo uma breve demonstração, passível do cotidiano, da utilização dos pronomes demonstrativos este e esse.
Começo pelas personagens: uma mulher, seu amante e o marido “coroado”. A cena é a seguinte: o marido (lembre-se: o “coroado” é sempre o último a saber!) chega em casa e a mulher está se despedindo do amante. Comecemos de maneira evidente. Se o marido chegou em casa, viu a mulher se despedindo de outro homem e esse já está longe, indagará:
– Quem é aquele homem?

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Real ficção

Vivemos um momento de mestres e aprendizes, bem parecido com outros tempos, mais fantásticos e mitológicos, quando dragões, magos e criaturas maravilhosas viviam incríveis jornadas. Observe bem o que temos: o dragão da inflação, o mago dos computadores e, na Argentina, até Cavallo fala e é ministro. Brasileiros, contenham-se! A Argentina não está a nossa frente: aqui também muitas bestas falam e até tucanos governam. É a real ficção de Pierre Boulle[1].

___________________________
[1] Autor de “O Planeta dos Macacos”.

* Trecho de "RH", publicado originalmente em agosto de 2001.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Gosto do jardineiro

Ninguém mais fala, hoje em dia, flor da mocidade, não é? Esse é um termo antigo, talvez até um arcaísmo, quiçá jurássico. Vejo uma metáfora muita bela em suas palavras e acho até que existe uma verdade científica. A mocidade tem a flor, a madura idade tem os espinhos: é o gosto do Jardineiro.

* Trecho de "Saúde", originalmente publicado em 2002.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Tubarão solitário

Certa vez, fui a um casamento em que o noivo não se continha, chorando compulsivamente. A noiva não havia chegado, e ele em lágrimas. Pensei que ele deveria amá-la de mais e estar emocionado em excesso com aquele momento. Quando vi a noiva entrando pela igreja, entendi tudo. Desconjuro! Que noiva malarrumada! Não estava emocionado, estava decepcionado. O tapete vermelho era a antítese da prancha. Na prancha, quem caminha será devorado pelos tubarões; ali, na igreja, o tubarão solitário agonizava. Rezei por sua alma.

* Trecho de "Semântica", originalmente publicado em 2002.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Cachoeira dos Três Pingos

três reis magos correm
um aos gritos
um aos sustos
um pelo gosto de correr

três marimbondos voam.
profissionais. ortodoxos.
apenas ferroam.
intransitivos.

três reis magos seguem o doce cantar das águas.
os marimbondos não querem sinfonias.
herméticos, querem sossego, só.

- corre, Baltazar! corre, Gaspar!
não há boa-nova que pare esses marimbondos.

lá se vão os três reis
aos pulos
aos berros
no valha-me-Deus do morro acima
onde a história será contada.

com a bênção da chuva.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

10x7x4

Os mandamentos da lei de Deus são dez, os pecados capitais são sete, e as virtudes teologais apenas quatro para tamanha responsabilidade.
Carlos Drummond de Andrade

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...