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quarta-feira, 28 de abril de 2021

Pingos

o "i" tem pingo
o "j" tem pingo
não é pingo que faz o "i"
nem o "j"

quando um pingo é letra,
mais senciente, menos ij

domingo, 25 de abril de 2021

Ivelhação


Hoje é uma data importante para este blog: a despedida do Caneteiro dessas páginas. Em 25 de julho de 2001, houve uma ruptura, uma quase morte, que renasceu, nova e modificada, na missa de 7º dia, naquele 31 de julho. Desde então, são quase 20 anos de acidez, e não há estômago que suporte tamanha quantidade de HCl (Humberto Clemente). Assim, este é o último texto assinado por esse caneteiro, tão importante e tão único, mas que, como todo ser humano, também precisa sair de cena em algum momento da existência. Gratidão por tantas risadas e tantos aprendizados nesses longos anos de caneta irrequieta.

***
Nada mais velho do que a palavra a inovação (de origem latina), apesar de, sempre que a ouvimos, um inevitável cheiro de novo invada nossas narinas e nossa imaginação. Disrupção também não é jovem, mas, muito menos usada, está muito mais para o retrato de Dorian Gray do que para o próprio Dorian. Disrupção tem enfeitado a boca de muitas pessoas, ainda que grande parte delas não faça a menor ideia do que seja esse bibelô (chupeta para tantos outros).

Particularmente incomodado com tanta inovação e disrupção que não passam de embromação, resolvi fazer um experimento disruptivo, inovador, em que todas as bases sociais e científicas fossem colocadas à prova: o café disruptivo. Fazer um café, passar um café, o verbo pode se alterar, assim como a qualidade final da infusão, indo desde o chafé (translúcido e aguado) até o levanta defunto (quase precisando ser cheirado de tanto pó).

Para quebrar paradigmas, que é a base da disrupção, resolvi fazer meu café no liquidificador. Me senti o disruptivo, um Duchamp do século XXI, um mictório entre tantos vasos sanitários. Além do mais, resolvi afirmar que a tampa do liquidificador é um gadget, utilizando-a como olho mágico nesse laboratório fabuloso. Foram minutos de pura arte, inovação, disrupção e sujeira, muita sujeira. Os mais pessimistas diriam que o café ficou horroroso, mas prefiro buscar um olhar disruptivo e crer que criei uma nova bebida, ainda não batizada, de gosto duvidoso e pós-moderno.

Todo esse exercício lúdico acima tem a pretensão de trazer à discussão uma palavra nova no léxico, pelo menos até agora não dicionarizada em minhas pesquisas, que já nasce essencialmente velha: ivelhação. Sem dúvida, os próprios radicais já explicitam, essa ivelhação é o antípoda de inovação, certamente um antepassado longínquo, uma pitecoexistência nesse mundo tão jovem da inovação.

Essa ivelhação é o ato de se buscar o velho, o antigo, uma ação que gere ou que encontre um histórico, e não apenas uma história, sem necessariamente se remeter a teias de aranha ou a cabelos brancos. Antes que me digam preconceituoso, declaro abertamente meu afeto às aranhas, às teias e aos cabelos brancos, todos os três tão presentes em minha vida.

Ouvi certa vez uma teoria que dizia sobre as pimentas e os sais no mercado de trabalho. Os sais se referem aos cabeças brancas, aos profissionais mais experientes, com mais horas de estresse e dedicação, logo com mais idade, enquanto as pimentas se referem aos cabeças de fogo, os novos profissionais, em geral jovens, com a cabeça fervilhando de ideias e de vontades, mas sem necessariamente conhecer o front.

Particularmente, gostei muito dessa abordagem, ainda que possam ser feitos comentários ou críticas, aliás como a toda teoria, conceito ou perspectiva. Trouxe o assunto à cozinha e fiquei pensando em algum prato que leve apenas pimenta, sem sal. Depois me veio a perspectiva de a pimenta em conserva levar sal em alguns casos, ainda que se possa comer a pimenta in natura. Analisei também o impacto de uma colherada de pimenta ou de sal no humor do fígado, dos rins e do ângulo de 90⁰. (Cada um reflita por si).

Essas divagações me fazem pensar que o mercado de trabalho deveria ter uma área especializada na ivelhação, a fim de poder potencializar o que esses cabeças brancas têm de melhor. Há processos para a captação de “novos” talentos, de trainees, de “jovens lideranças”, mas há, realmente, atenção para reter os “velhos” talentos? O cabeça branca é um processador sem placa-mãe nos dias de hoje? Ou o problema é muito mais de BIOS (aqui, certamente, só os mais antigos, quiçá só os cabeças brancas reconhecerão que BIOS é esse)?

Além disso, a tradição, muito valorizada por parte considerável de nossa sociedade, só se sustenta na ivelhação, porque pensar tradição sustentada na inovação é como pensar no queijo suíço a partir dos buracos do queijo e não do queijo em si.

Esse texto não pretende ser uma proposta disruptiva, pois não há nada de novo nele, nem de abordagem, nem de metodologia. Encontrará, contudo, espaço para disruptar em virtude do que o mercado de trabalho tem feito e como tem visto esses cabeças brancas. Não há aqui nenhuma bandeira de reserva de mercado aos cabeças brancas ou de desmerecimento dos cabeças vermelhas, porque, se houvesse, seria um vício estrutural, já que os cabeças brancas já foram cabeças vermelhas, e os cabeças vermelhas que ultrapassarem o cabo da boa esperança (em minúsculas mesmo) serão cabeças brancas um dia.

A ideia é misturar, é usar o que cada grupo tem de melhor, é obter o melhor sabor que cada pimenta ou que cada sal é capaz de ofertar e apresentar um prato novo, inovador. Não nos deixemos, porém, enganar com pratos inovadores, pois o sabor pode ser incrivelmente inédito, mas o prato, esse utensílio doméstico que sustenta o alimento, seguirá o mesmo (ainda que nunca usado) em sua forma e sua função: saciar nossa ancestral fome.

domingo, 17 de janeiro de 2021

O pardal que canta



Então, perguntei [Pedro] a ele:
- Como posso amar alguém que não me ama e que cobiça minha propriedade? Alguém que roubaria minhas posses?
E ele [Jesus] respondeu:
- Quando está arando e teu criado está semeando atrás de ti, te deterás para olhar para trás e afugentar um pardal que se alimenta de algumas de suas sementes? Se o fizeres, não é digno das riquezas de tua colheita.

Khalil Gibran. Jesus, o Filho do Homem. p.148.

***
O pardal pode ser confundido, o dono das sementes não.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Filosofia de teia

 



Na janela de meu quarto, há uma teia, não uma aranha. Há meses, convivo com aquela grinalda etérea em minha paisagem, que não me corta a visão, apenas a juventude. Não posso dizer “minha” janela, se a marca que a identifica não é minha. Aquela porta de ilusão que só meus olhos atravessam é a fronteira entre quem eu sou e quem eu poderia ser; no meio, a teia.

A teia seria um sinal de sujeira, velhice e desleixo? Será que a aranha pensa assim? Como posso destruir uma obra, sem ao menos conhecer sua criadora, essa fiandeira silenciosa, comprometida e talentosa? Não é essa tessitura uma obra do acaso, mas o fruto indiscutível de arte, técnica e suor. Não sei se aranhas transpiram; se não o fizerem, revela-se maior a perfeição do criador e da criatura.

Leio esses fios longos e esvoaçantes como os cabelos de Dulcinéia, aquela por quem os moinhos de vento fabularam uma paixão única em uma triste figura. Estão ali as garatujas dos escritores perdidos do tempo, uns talvez de amor, outros de lembrança, muitos que não tiveram tempo de se inscrever nesse mundo da escrita. Ali também estão os fantasmas, tristes figuras quase teiares, que correm o mundo esperando que alguém acredite neles, que os veja, que conte suas terríveis histórias de vida, não de além-morte, e, principalmente, que lhes dê a certeza de que são obra do criador, não por ele esquecidos.

Há uma teia que nos une todos os dias, que se repassa infinitamente, inserindo e retirando pontos, conexões, proximidades, lonjuras, belezas e dores. Essa teia, sedosa e invisível, pode ser um elo ou um grilhão, solidariedade ou prisão, companhia ou solidão. Essa rede, não aracnídea, insiste em nos mostrar que não estamos sós, somos nós.

Eis, então, que essa suave artista se revela. Com seus longos e finos dedos, esguia e de cintura bem marcada, confere cada ponto, cada nó, cada nota, naquela partitura dos tempos. Desliza por sua obra com propriedade e, num frenesi, dedilha um solo elétrico e hipnotizante. Hendrix. Extasiada, sai do palco. Logo, está de volta. É um balé: com movimentos graciosos e aéreos, voa, livre, jogada de um lado para outro por uma brisa que não se contenta em apenas assistir. Pavlova.

Essa Penélope, de tão fino tapete, não se guarda para o amado viajante, mas aguarda um outro, com sofreguidão, numa relação de poucas palavras, que possa preenchê-la de vida e sabor. Amanhã, quando as memórias forem digeridas, não haverá remorso, só saciedade e a espera de um novo par para uma nova refeição.

Agora ela está parada e me observa. Com seus múltiplos olhos, me vê muitas vezes mais, talvez de forma fragmentada, bem humana, e avalia o que faço: meu dedilhar não contém harmonia, melodia ou beleza, é apenas um teque, teque, teque monótono. Talvez pense em quão pouca técnica há em tantos teques, espaçados por um clique. Avistando meu suor, provavelmente considere o esforço grande para produção tão pequena e, curiosa, espere que minha rede, composta de palavras, espaços, orações e parágrafos, se revele promissora. Ao fim, inequívoca, afirmará: “Esse vai morrer de fome.” Piada ou profecia?

Essa esteta se recolhe e some, para não mais aparecer. Fecham-se as cortinas do espetáculo, não da 'tecitura'. A teia segue castigada pelo vento, pela chuva e pelo olhar que não a entende. Efêmera, em algum momento, será varrida do espaço, do tempo e da memória. Eterna, em qualquer momento, é a prova da memória, do tempo e do espaço.

Na janela de meu quarto, há uma criatura à margem do criador. Imagem e verossimilhança da existência.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Porta de Santo Amaro


Era uma noite única. Tomou banho, arrumou-se, fez a barba com alguns senões, pois as mãos já não tinham a firmeza de tempos mais juvenis, mas nada que o impedisse de se sentir mais novo. Acertou os cabelos, aqueles últimos e velhos remanescentes de sua vida leonina, fez uma conferência detalhada no rosto, nos dentes, nas orelhas, ensaiou sorrisos e versos, sentiu uma emoção nova e teve a certeza de que estava pronto para o jantar.

Aqueles eram dias felizes, pois a memória estava controlada, sem lapsos, e não havia esquecido nada importante há algum tempo, o que o deixava mais confiante e animado. Havia preparado um pequeno buquê de flores do campo para presentear a anfitriã e estava muito contente com a aquarela de cores que reunia. Havia amarelas, vermelhas, laranjas, violetas e outras que se misturavam, insatisfeitas com um só tom.

Olhou o relógio, confirmou a hora e também sua pequena lista diária, apesar de não tê-la usado nos últimos dias. Tudo certo, à exceção dos remédios, pois optara pelo vinho que levava junto ao buquê. Misturar medicamentos e álcool não era uma boa opção, e seu histórico recente de lembranças lhe dava a segurança de que não teria nenhum problema.

Saiu de casa, fechou a porta. O contraste entre a rua escura e o céu iluminado lhe chamou a atenção.

Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós

Um verso veio à sua cabeça e ele sorriu. Um encontro em sua idade não era dos eventos mais comuns, ainda mais com uma mulher tão única. Pensou, então, como os adjetivos mudam com os anos, pois a primeira palavra que lhe veio à mente foi “atraente”, mas que estava muito longe do sentido usual dessa palavra. Na fase em que temos contato mais com coroas do que com buquês, a atração cede lugar à atraência. Com uns anos a menos, certamente se diria eufórico naquela noite.

A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir

Outros versos vieram à mente e ele sorriu largamente. Estaria compondo uma poesia? Estaria se descobrindo poeta nessa fase da vida? Ele, que mal escrevera umas poucas linhas ao longo de tantos anos, encontrava agora uma nova inspiração? Sua confiança crescia e ele, naquele momento, via o mundo como uma grande pintura, com cores aquareláveis, em que vermelhos eram mais rubros e azuis, mais celestes.

A casa de sua anfitriã não era longe, nada que uma caminhada musical não pudesse vencer, e ele optou por cadenciar o passo para não transpirar de mais. Além disso, era uma boa maneira de limpar a mente de problemas cotidianos e focar realmente no que era imprescindível. Como as flores naquele ramalhete tão belo.

Caminhando, levantou o buquê à altura dos olhos e sentiu a fragrância delicada das flores. Lembranças olfativas lhe vieram à mente e um singelo desejo de viver tomou conta dele.

Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Os versos seguiam-se em sua mente e uma onda de amor-próprio se apossou dele, até que fosse se quebrar na areia. Uma dúvida precipitou tudo: conseguiria lembrar dos versos que compunha? Bastava ficar calmo, não entrar em pânico, deixar as ideias fluírem e tudo daria certo. O vinho o ajudaria a relaxar e, talvez, até compor mais.

O vinho! Meu Deus! Esquecera o vinho. Não era possível! Havia programado a compra, o rótulo, a safra, com maior cuidado e zelo, e deixara a garrafa em casa. Olhou o relógio! Voltar ou não? Não havia muito tempo para isso e, se o fizesse, precisaria de outro transporte para chegar à casa da... da...

Não era possível! Não se lembrava do nome da anfitriã! Meu Deus, agora não! Ele não podia se esquecer do nome dela justo naquele momento, depois de tanto tempo esperando o jantar. O vinho, então, se tornou o menor dos seus problemas, assim como o tempo para buscar a garrafa.

Parou de caminhar e encostou numa parede. Fechou os olhos, respirou fundo e disse a si mesmo que ficasse calmo, era uma crise que logo passaria e que não atrapalharia seu encontro. Mudou a respiração e procurou os remédios em um dos bolsos. Não estavam. Como não estavam? Ele sempre carregava os remédios no bolso. Sentiu um calafrio e uma frustração enorme tomou conta dele.

Olhou o relógio de novo. Não viu as horas. Não dispunha de muito tempo e nada lhe vinha à mente que pudesse ajudá-lo. Ainda encostado, resolveu repassar todo o dia, a fim de buscar alguma ideia que o ancorasse naquele mar de dúvidas em que se encontrava.

Meu amor...
Vou lhe dizer
Quero você

Aqueles versos que não paravam de ocupar seus pensamentos. Não! Com tantos anos da vida para se fazer poeta, logo naquela hora, em que não podia dividir a mente, eles surgiram com força. Um desespero começou a brotar dentro dele e a aflição do fracasso iminente disparou-lhe o coração, ressonando as batidas nos ouvidos. E agora?

Escorregou mantendo as costas na parede e caiu sentado, desanimado, desamparado, mudo. Ainda desnorteado com toda aquela situação, lembrou-se de equilibrar a respiração para manter a calma. As lágrimas lhe correram pela face, e o sentimento de impotência lhe invadiu, mostrando a ele, brutalmente, que os anos não podem ser enganados.

Com a respiração restaurada, um feixe de clareza começou a brotar nele. Decidido, levantou-se, bateu a mão na roupa para retirar a poeira e seguiu rumo à casa da anfitriã. O buquê, fielmente em suas mãos.

Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão

Que versos eram aqueles? Um pensamento aflorou: não eram versos dele, não era ele um poeta, mas um copiador, um ladrão de versos estúpido, que mal sabia de quem roubava e dizê-los só aumentaria sua vergonha e limitação.

Pouco tempo depois, chegou à casa do jantar e parou à porta.

Na noite do sertão

Que porta era aquela?

Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei

Não reconheceu a porta. Estaria no endereço certo? Teria confundido o local? Haveria uma mulher realmente a esperá-lo, ou tudo não passaria de uma ilusão de sua mente senil? Sentiu a boca seca e as mãos transpirando. Um buquê. Que buquê era aquele?

Tomado de pavor, encarou a porta e sentiu o coração bater por ela. Era simples, de um tom azulado do fim das tardes de inverno, esmaecido, em que se percebe que o tempo chupou, tal como uma laranja, grandes partes da cor original, deixando apenas a lembrança que o bagaço já foi fruto.

Havia uma ferida na lateral, que sangrava e escorria pelo chão, mas que lutava, maternalmente, para gerar uma semente que partia rumo ao céu. Não era uma trepadeira, era uma sobrevivente, uma planta que não aceitou a limitação, a ausência de solo, de carinho e de atenção, e rasgou nas entranhas da casa uma fábula de querer viver apesar de tudo. Não, não era uma ferida, era um sonho.

Não satisfeita de fugir do destino de erva, de mato, aquela planta abraçou a porta, a cobriu, a protegeu e com ela se uniu. Casaram-se. Agora, aquele véu florido pertencia a ambas, tão parte, tão arte, que a porta não se reconhecia mais como mera fronteira entre dois mundos, mas como única existência, flor.

O degrau, comido por pés ora aflitos, ora displicentes, se juntava ao chão, fazendo uma comunhão rasteira, nunca rasa. Certamente, jamais seria casa, mas encontrou sua essência se fazendo chão. Não havia glamour, nem louvores, nem presentes e adulações, mas a felicidade do degrau não exigia um próximo passo, apenas um pé que o empurrasse ao encontro de seu par.

As flores daquele véu lhe chamaram atenção e uma luz distante, mínima e solitária piscou em sua mente: o nome dela era uma flor. Isso! Graças a deus! Sua anfitriã tinha o nome de uma flor, começava a se lembrar. Agora, era se acalmar e pensar nas opções, pois logo se lembraria de todos os detalhes. O pior já passara.

Começou a listar nomes de flores que podiam ser também próprios: Margarida, Rosa, Hortênsia... Begônia, Petúnia... Líria, Girassola, Crava, Cinamoma... Algo não estava certo... Aqueles nomes que vinham à mente eram realmente de flores? Um sentimento de que não eram começou a surgir e a sufocá-lo. Henriqueta, a flor... Henriqueta, sim, era flor, disso não tinha dúvida, e aquele sorriso enigmático lhe invadiu com serenidade e encanto. Quem era Henriqueta?

Olhou o relógio: as horas estavam lá, mas não lhe diziam nada. Voltou os olhos para a porta, percorreu-a de ponta a ponta, virou-se para a rua e, aéreo, não percebeu movimento naquele mar de solidão. Meteu a mão no bolso e não encontrou os remédios. Na outra mão havia um buquê. Que flores eram aquelas? Será que o nome que procurava estava em suas mãos e ele não reconhecia?

Era melhor seguir em frente e jogar fora para sempre aquele encontro, de cuja companhia ele nem se lembrava, ou era melhor voltar para casa e tentar recomeçar depois, tomando os remédios e seguindo suas atividades de memorização?

Não teve tempo de optar, pois a porta se abriu. Uma mulher atravessou o marco e, vendo-o ali, exclamou animada:

– Amaro! Boa noite! Você chegou agora?

Uma onda de calor tomou conta dele e um sorriso brotou-lhe incontinente. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram.

– Você está muito elegante, viu?

Cada palavra doce e gentil agitava seu corpo.

Tentou articular alguma frase, sem sucesso, emitindo apenas um rosnado inaudível.

– O que é isso em sua mão, Amaro? É um buquê?

– É...

Os olhos dela brilhavam.

– É... – voltou a dizer ele.

Um silêncio costurou os olhares de ambos.

– É...

Engasgou-se com os pensamentos, enquanto lutava com os lábios mudos.

– É...

– Que lindo! – Disse ela.

Uma torrente reprimida e incontrolável disparou:

– É para você, minha flor.

Sem saber como havia dito aquilo, viu um buquê branco surgir nos lábios da mulher, enquanto o rosto dela se tingia de vermelho.

Ele retribuiu o sorriso e esticou a mão com as flores para ela.

– Obrigada – disse ela um tanto desconcertada. – Vamos entrar. – Recolheu as flores com uma mão, levando a outra até a mão dele. Entraram juntos, de mãos dadas, e a porta se fechou.

À mesa, esqueceram-se de tudo.
***

Aquarela de Marci Nunes (@marci_nunes) e poesia de Flávio Venturini (@flavioventurinioficial), Céu de Santo Amaro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

É, de repente

E de repente é noite
Salvatore Quasimodo

Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repente: é noite.
Trad.: Ernesto Sampaio
***

Cada um tem só, sobre o coração, a terra
Trespassada por um raio de sol:
E, de repente, a vida se fez poesia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Estupro culposo

A violência do crime se repete a cada vez que essa construção esdrúxula (pobre língua!) é pronunciada. Nossos ouvidos e nossa dignidade são violados, repetidamente, enquanto houver um miserável que se ampare e creia nessa odiosa tese.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Meia-verdade

Imagem de holdmypixels, by Pixabay. 

Ennio Alberto Filho e Humberto Mendes 

Em uma entrevista de emprego, o entrevistador, ao ler o currículo do candidato, identifica “curso superior incompleto” e questiona o entrevistado o quanto exatamente é “incompleto”. O candidato responde que passou pelo vestibular, cursou um mês e trancou a matrícula. “Um mês?” pergunta o entrevistador, e “Sim” responde o candidato. “Isso é incompleto?” perguntou um, “Bastante incompleto, senhor”, respondeu o outro. 

Nessa breve história, fictícia em relação à entrevista e verídica em relação ao currículo, destaca-se uma questão bem contemporânea: a meia-verdade. Apesar de consideravelmente velha, talvez ainda não tenha sido estudada com a profundidade com que merece, pois, sem dúvida, está, senão em patamar semelhante, muito próximo àquele ocupado pelas fake news, pela pós-verdade e mesmo pela mentira. 

Sem dúvida, a meia-verdade se confunde com a meio-verdade, que muito se aproximam, mas que não são idênticas. As normas linguísticas elucidam esse parentesco (meio x meia), mas é inegável, do ponto de vista lógico, que tudo que contém um pouco de verdade precisará conter um tanto de não verdade para ser inteiro, valendo o mesmo para a mentira. 

Antes da metade, é importante focar o inteiro. O que é a verdade? Certamente, a filosofia está mais bem preparada para debater esse tema, mas se pode considerar a verdade um conceito e uma realidade que coabitam com união de bens e com separação litigiosa simultaneamente. Essa é uma afirmação um tanto questionável, o que afirma seu caráter propositivo e provocativo, próprio do movimento reflexivo a que se propõe este texto. 

Por que a verdade pode ser um conceito? Porque pode ser discutida, debatida, contestada e até mesmo negada, apontem os fatos ou não para essa possibilidade. Por que pode ser uma realidade? Porque pode ser factual, visível, sensível e científica. A proporção entre conceito e realidade determinará o quanto uma verdade é “inteira”, se há inteireza entre meias, metades, meios e fins. 

O ponto central que se pretende debater neste texto é a quantidade de energia gasta atualmente para se discutir uma meia-verdade, para reafirmar dois lados complementares, mas sem se buscar uma visão outra que possa resolver a questão como um todo e permitir que haja um avanço não só epistemológico, mas também humano. 

Um exemplo modesto é o copo com água até a metade de sua capacidade. Meio cheio? Meio vazio? Aqui há possibilidades simbólicas variadas de leitura e interpretação, mas, do ponto de vista pragmático, se aquele “meio copo” é uma questão a ser debatida, o foco deve ser o quão relevante é faltar ou conter no copo. Se o conteúdo do copo não for um problema, o melhor é não perder tempo nem com ele nem com o outro. 

Um exemplo mais ácido é o momento pelo qual passamos, de pandemia, em que economia e saúde pública têm se chocado. Não deveriam se chocar, pois precisam caminhar juntas, paralelamente, e o princípio matemático básico prevê que duas retas paralelas jamais se encontrarão, logo jamais se chocarão. Então por que discutir se é melhor focar em uma ou outra neste momento? É o mesmo que discutir se o copo do parágrafo anterior é o mais indicado para conter água. 

Economia e saúde pública devem ser pensadas juntas, sistemicamente, partes inseparáveis das políticas de Estado e do dia a dia de cada ente de um grupo social. O debate a ser promovido é sobre como conciliar ambas, como, eventualmente, permitir que uma avance um pouco agora até que a outra possa alcançá-la depois, como responder às inúmeras demandas de saúde pública que o Brasil exige diante de um quadro de recursos limitados e, muitas vezes, já comprometidos. 

Muitas vezes, grupos antagônicos defendem pontos de vista distintos, mas não excludentes, apenas “meiados”. Dizer que a culpa é do governo não resolve nada, assim como afirmar que a população não faz a parte dela não melhora a situação. Não se busca aqui uma politização do debate, mas observe: a culpa é do governo? Primeiro, essa frase precisaria ser completada: culpa de quê? Se a resposta for sim, é culpa só desse governo? Então essa situação veio do governo anterior: só dele? Ah, não, do anterior também e dos anteriores “antecessivamente.” Não há dúvida de que encontrar uma solução e resolver os problemas, pelo menos no primeiro momento, é infinitamente melhor do que discutir e não avançar. Mesmo que a culpa seja desse governo, buscar incialmente a solução é o mais sensato. 

Há uma questão central na meia-verdade sobre a qual sempre se deve ater: se uma proposição pode ser classificada como meia-verdade, de que será constituída sua outra parte? Um meia-verdade implica uma meia-mentira? Uma meia-verdade é uma meia-mentira que não se realizou, e vice-versa? 

É preciso “certo repertório”, como afirma Luiz Felipe Pondé, para poder se desvencilhar desse jogo fracionário da atualidade. Entende-se “repertório”, aqui, como um fazer compartilhado de e por informação, cultura e sabedoria. Podem não ser tudo de que se precisa, mas, certamente, serão os itens iniciais para um conhecimento que não será completo jamais, mas conseguirá ser muito mais do que incompleto. 

Texto publicado no LinkedIn em 29 de outubro de 2020.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Bilhões

De uns tempos para cá, chegamos facilmente à casa dos bilhões: de desviode sonegação, de multa. Infelizmente, as mãos de poucos sujam nossa mesa, enquanto milhares de bocas urram famintas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O ramo que não seca

Picanço no ramo seco, de Niten (Miyamoto Musashi) (século XVII).
Disponível em: https://bit.ly/2F3QTNr

***
"quando se trata de amor
não escreva cartas
não escreva poemas"

toque-o
em notas
candentes
melífluas

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Altaestima

Não deveria haver problema de autoestima no mundo, não fosse a distribuição tão irregular existente entre as pessoas. A língua não prevê ainda, mas outras ciências (psicologia, antropologia, sociologia) certamente precisarão de mais opções léxicas para descrever o efeito de altaestima que assola as redes sociais. É alta, é estima, mas há muito já se desgarrou da autoestima.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

sábado, 1 de agosto de 2020

Nas sombras


A medida da fala não é a fala medida.
Não medida é falazada.
Desfalar é serenar o supremo suspiro nas sombras.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Nitô-Ichi

Esta pequena fábula japonesa comemora os 19 anos do Caneteiro, meu filho querido.
***

Num mundo branco pintado pela neve, há um homem apressado, apreensivo, afobado. Perseguir ou ser perseguido, eis a questão. Não se vê viva alma. Ele não anda, anda o caminho.

Depara-se com um palácio, branco como a neve que o decora. Não há guardas, nem sentinelas. Antevê o perigo que o espera à frente; maior é o monstro que (o) segue. A passos lentos, silenciosos, chega ao portão e, com alguma dificuldade, empurra-o, fazendo aquele enorme gigante roncar e abrir. Uma mínima brecha é o suficiente para que ele entre e encontre um jardim.

O oásis é também parte do deserto.

Não há como voltar. Está desarmado, cansado e com a mente confusa. Lembra-se, nesse momento, de Musashi, o samurai, e sente-se uma cópia barata e sem valor do guerreiro. Esse, porém, é um segredo dele. Só dele.

No jardim, caminhando com cuidado, vê um pequeno regato que ainda corre e uma ponte que o sobrepõe. Aproxima-se, abaixa-se e, antes de tocar água, avista uma mulher do outro lado da ponte que o observa. Levanta-se assustado e caminha para trás, mudo. A mulher, clara, bela e de longos cabelos, trajando um quimono extremamente delicado, mantém os olhos fixos nele.

Entreolham-se por longos segundos, ao fim dos quais ele resolve:

– Eu sou Mu... – é interrompido, porém, com um gesto da mulher que leva o dedo à boca numa sinalização inequívoca de silêncio.

– Eu sei quem você não é – disse ela.

Aquelas palavras o atordoam e ele recua ainda mais, agora que a mulher se dirige à ponte para atravessá-la. A distância que se encurta lhe permite ver os finos traços da mulher e sua suave força. Transpõe o regato e para, com os olhos sempre atentos ao visitante.

– Quantos perseguem você? – Pergunta ela.

– Muitos.

– Não vejo armas.

– São necessárias? 

– Para uma testa tão tensa, suas palavras são bem afiadas. 

Tenta relaxar e mostrar naturalidade, mas percebe que sua encenação não lhe trará sucesso. 

– Você olha pouco para trás. 

– Atrás é só uma perspectiva.

– Para trás não há fuga, só dúvida.

– Não quero fugir.

– Então se encontre.

– É o que me move.

– Agora, sim, seu corpo e sua boca estão em harmonia.

Ao longe, ainda de forma insípida, surge o som de um tropel de cavalos. A impaciência toma conta do homem, e a mulher delicadamente, como um longo espreguiçar de garça, leva a mão às costas. O homem se assusta, recua e vê surgir uma espada longa nas mãos dela. Não há palavras.

A mulher desenha uma flor diáfana no ar com a espada, ainda na bainha, e com um movimento rápido e preciso, aproxima-se do homem e lhe oferece a empunhadura. Atônito, renascido, ele ouve:

– Siga seu caminho; não fuja dele.

Ele pega a espada, retira-a da bainha e sente a força da arma, mantendo os olhos sempre fixos na mulher.

– Cuidado com esse jardim, pois há perigos dos quais você não faz ideia. Não se demore, porque, quando esses cavalos que ouve chegarem aqui, você poderá ser um homem morto.

– Não tenho medo de morrer, pois já morri outras vezes e uma parte de mim já está morta.

– Salve, então, a parte que está viva.

– E você? Se sua espada for encontrada comigo, sua vida estará em risco.

– Todos nós vivemos em risco.

– E se for morta?

– Não tenho medo de morrer, pois já renasci outras vezes e uma parte de mim não pode ser morta.

– Você está sem armas. Como poderá se defender?

– A escola das duas espadas é minha vida. A espada mais perigosa não corta e não pode ser vista. Quando transpassa um coração, você sabe o que é a vida.

– Ninguém é capaz de sobreviver a esse golpe.

– É verdade! Morrer por ele é ter a certeza de estar vivo.

– Não entendo.

– Quando seu coração for atingido, você saberá.

– Não posso ser atingido.

– Se não for atingido, morrerá sem saber o que é viver.

O tropel se aproxima.

Ele corre, atravessa a ponte, para, vira e vê a mulher ocultando-se entre folhas. Olha para a espada, reflete alguns segundos e retorna ao ponto onde a mulher está. Oferece-lhe a espada e diz:

– Não posso levá-la.

– Por que não?

– Prefiro carregar suas palavras a sua arma.

Com um movimento único, desenha um pássaro no ar com a espada e a entrega levemente à mulher. Surpresa, ela diz:

– Você conhece as duas espadas...

– Sabia como desenhar o pássaro, não como fazê-lo voar. Sou grato a você por isso.

Os cavalos atravessam o portão no galope, fazendo voar o pássaro, o homem e a dúvida.
***

terça-feira, 21 de julho de 2020

21 de julho de 1674


VASCONCELOS, Diogo de. Historia Antiga das Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1904. p.34.

Casa de Fernão Dias. Parque Estadual do Sumidouro, MG. 2020.

"[...] partias ao descobrimento das minas do sertão de S. Paulo e terras das esmeraldas."

Em 21 de julho de 1674, a bandeira de Fernão Dias (já sexagenário) partia de São Paulo rumo a Minas Gerais. Não encontrou as esmeraldas, mas não descartou um sonho sem vivê-lo.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O papel aceita tudo

Imagem: Pixabay. Disponível https://bit.ly/2Z5uztN.

Sempre deverão existir maus escritores, pois eles atendem ao gosto das faixas de idade não desenvolvidas, imaturas; estas têm suas necessidades, tanto como as maduras.
Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, aforismo 201.

Há algumas semanas, divulguei, em minha conta no Instagram, o lançamento de meu quase livro “Eu, Testosterona”. Muito mais um exercício lúdico-editorial que propriamente um volume, produzi uma postagem “bem real”, apesar de não sê-la e também de não não sê-la. A história por trás desse quase livro foi publicada, de maneira ficcional, em meu blog e resolvi produzir uma estrutura que sustentasse todo aquele jogo textual.

Fiz a capa do quase livro a partir de um banco de imagens gratuitas na internet (Pixabay) e consegui todo o suporte visual no site adazing.com, no qual desenvolvi a capa em 3D e recebi outras peças gráficas, inclusive memes para meu quase livro. O único texto real do quase livro era o da orelha, postado no Instagram:

“Com uma linguagem moderna e vibrante, o autor apresenta a história ardente de um casal em busca da completude da vida. Com relatos apaixonados e diálogos fortes, somos chamados a vivenciar todos os percalços de dois amantes, no sentido mais amplo da palavra, que descobrem, juntos, todos os matizes do amor e do amar. Certamente, o leitor se identificará com a narrativa e reconhecerá os dilemas pessoais que todos aqueles que têm um coração preenchido por um outro eu tão vivamente experimentam. No futuro, Brutus e Bela estarão no panteão dos casais imortalizados como tantos outros da literatura universal. A narrativa de H.C. Clement, um dos nomes mais aclamados da nova geração de autores, sanguínea e penetrante, é um convite aos sentidos.”

Não resta dúvida de que essa orelha tem muitos mais recursos comerciais do que literários, além de uma boa dose de pretensão e de imodéstia. Afinal, se não for assim, como introduzir um “romance” no mercado de tantas publicações? É verdade que cheguei a vender alguns exemplares e que minhas companhias literárias mantiveram-se em silêncio, certamente sem saber o que se passava. De gêneros mais nobres ou nem tanto, respeito profundamente todos os autores, sejam escritores ou escreventes como diria Roland Barthes, porque sei que escrever não é um ato simples, nem fácil, pois exige, no mínimo, coragem.

Todo esse preâmbulo para chegar ao ponto principal deste texto: veracidade na escrita. Tive um colega de trabalho que tinha como mantra um velho ditado: “O papel aceita tudo.” Os suportes de escrita mudaram, mas essa verdade segue inabalável. A escrita a todos recebe bem, desde fake news e promessas eleitorais até informações do currículo Lattes, passando por inverdades, pós-verdades, incorreções e, no extremo, quase esquecidas, as boas e velhas mentiras. Por que boas? Toda mentira é boa. Uma mentira é ruim quando ela se apresenta como verdade.

É fácil perceber esse fato: conte uma mentira que seja extremamente falsa ou inverossímil e veja o efeito em sua audiência. A chance de haver riso é bem grande, porque a mentira “desvairada” e “cabeluda” é divertida. Conte, porém, uma mentira e a maquie, vista-a com um longo e esvoaçante vestido de verdade ou, então, um terno bem cortado, com colete e gravata de sinceridade: toda uma relação com sua audiência entrará numa zona nebulosa de dúvida e ficará estremecida; mais cedo ou mais tarde, aparecerá o dano quando a mentira for despida.

É perceptível que estamos quantitativamente em uma sociedade mais “escritora” do que estávamos há trinta anos, ainda que haja muita discussão qualitativa sobre o tema. Logo, se há mais gente escrevendo, há mais leitores? Se há mais uso da escrita, essa variedade está mais valorizada? Se há mais leitura, há mais conhecimento? Essas provocações dizem muito sobre nossos consumidores de texto (produtores ou não).

Assim, reserve-se sempre o direito da dúvida e a boa vontade da confirmação, para que toda afirmativa, nua ou explicitamente vestida, seja motivo para alegrar o dia e não para estragá-lo. Lembre-se de que o papel (celulótico ou eletrônico) aceita tudo, nós não.

Publicado originalmente no LinkedIn em 08 jul. 2020.
https://www.linkedin.com/pulse/o-papel-aceita-tudo-humberto-mendes

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...