domingo, 17 de janeiro de 2021

O pardal que canta



Então, perguntei [Pedro] a ele:
- Como posso amar alguém que não me ama e que cobiça minha propriedade? Alguém que roubaria minhas posses?
E ele [Jesus] respondeu:
- Quando está arando e teu criado está semeando atrás de ti, te deterás para olhar para trás e afugentar um pardal que se alimenta de algumas de suas sementes? Se o fizeres, não é digno das riquezas de tua colheita.

Khalil Gibran. Jesus, o Filho do Homem. p.148.

***
O pardal pode ser confundido, o dono das sementes não.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Filosofia de teia

 



Na janela de meu quarto, há uma teia, não uma aranha. Há meses, convivo com aquela grinalda etérea em minha paisagem, que não me corta a visão, apenas a juventude. Não posso dizer “minha” janela, se a marca que a identifica não é minha. Aquela porta de ilusão que só meus olhos atravessam é a fronteira entre quem eu sou e quem eu poderia ser; no meio, a teia.

A teia seria um sinal de sujeira, velhice e desleixo? Será que a aranha pensa assim? Como posso destruir uma obra, sem ao menos conhecer sua criadora, essa fiandeira silenciosa, comprometida e talentosa? Não é essa tessitura uma obra do acaso, mas o fruto indiscutível de arte, técnica e suor. Não sei se aranhas transpiram; se não o fizerem, revela-se maior a perfeição do criador e da criatura.

Leio esses fios longos e esvoaçantes como os cabelos de Dulcinéia, aquela por quem os moinhos de vento fabularam uma paixão única em uma triste figura. Estão ali as garatujas dos escritores perdidos do tempo, uns talvez de amor, outros de lembrança, muitos que não tiveram tempo de se inscrever nesse mundo da escrita. Ali também estão os fantasmas, tristes figuras quase teiares, que correm o mundo esperando que alguém acredite neles, que os veja, que conte suas terríveis histórias de vida, não de além-morte, e, principalmente, que lhes dê a certeza de que são obra do criador, não por ele esquecidos.

Há uma teia que nos une todos os dias, que se repassa infinitamente, inserindo e retirando pontos, conexões, proximidades, lonjuras, belezas e dores. Essa teia, sedosa e invisível, pode ser um elo ou um grilhão, solidariedade ou prisão, companhia ou solidão. Essa rede, não aracnídea, insiste em nos mostrar que não estamos sós, somos nós.

Eis, então, que essa suave artista se revela. Com seus longos e finos dedos, esguia e de cintura bem marcada, confere cada ponto, cada nó, cada nota, naquela partitura dos tempos. Desliza por sua obra com propriedade e, num frenesi, dedilha um solo elétrico e hipnotizante. Hendrix. Extasiada, sai do palco. Logo, está de volta. É um balé: com movimentos graciosos e aéreos, voa, livre, jogada de um lado para outro por uma brisa que não se contenta em apenas assistir. Pavlova.

Essa Penélope, de tão fino tapete, não se guarda para o amado viajante, mas aguarda um outro, com sofreguidão, numa relação de poucas palavras, que possa preenchê-la de vida e sabor. Amanhã, quando as memórias forem digeridas, não haverá remorso, só saciedade e a espera de um novo par para uma nova refeição.

Agora ela está parada e me observa. Com seus múltiplos olhos, me vê muitas vezes mais, talvez de forma fragmentada, bem humana, e avalia o que faço: meu dedilhar não contém harmonia, melodia ou beleza, é apenas um teque, teque, teque monótono. Talvez pense em quão pouca técnica há em tantos teques, espaçados por um clique. Avistando meu suor, provavelmente considere o esforço grande para produção tão pequena e, curiosa, espere que minha rede, composta de palavras, espaços, orações e parágrafos, se revele promissora. Ao fim, inequívoca, afirmará: “Esse vai morrer de fome.” Piada ou profecia?

Essa esteta se recolhe e some, para não mais aparecer. Fecham-se as cortinas do espetáculo, não da 'tecitura'. A teia segue castigada pelo vento, pela chuva e pelo olhar que não a entende. Efêmera, em algum momento, será varrida do espaço, do tempo e da memória. Eterna, em qualquer momento, é a prova da memória, do tempo e do espaço.

Na janela de meu quarto, há uma criatura à margem do criador. Imagem e verossimilhança da existência.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...