quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Distância

uma mulher linda à distância
um passo pela curiosidade
um passo pelo instinto
um passo pela sedução

olhos vazios
boca seca
língua fútil

passo pela ilusão
passo pela decepção
passo pelo erro

se tivesse acreditado na crase

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nosso lar

Comemoramos hoje o 2º ano nesta blogosfera. Em 2008, quando juntos partimos, tínhamos em mente o desejo de reunir a família, de trazer à mesma tela os Ribeiro, os Mendes, os Cerqueira, os Clemente e de pintar um retrato (que para alguns pode ser autorretrato) único, mas não homogêneo, em preto e branco, de nós que nos dizemos parentes. Podemos dizer que os traços (não os textos) obtidos nestes dois anos são fiéis aos sobrenomes que carregamos conosco.
No último final de semana, festejamos o aniversário de 80 anos de minha tia Zoca. Reencontramos e conhecemos velhos parentes, uns mais Ribeiro, outros mais Cerqueira, outros nitidamente mais Mendes, outros sempre Clemente e alguns não tão menos Rabelo (que não tinham entrado na história).
A melhor parte foi reencontrar a Mercês e, com ela, aqueles que tanto povoam este nosso lar. Muitos anos depois, um pouco envelhecida pelo tempo e pelo sol, mas vívida e jovem, a mesma encantadora de lágrimas. Por ela, encontrei muitos que fazem parte de mim e que só na eternidade esperava abraçar.

A alegria e a emoção desse encontro não são palavras.
Não estamos sós.

domingo, 17 de outubro de 2010

Rosário

rosário é uma vida que se diz oração
fé, paciência e perseverança

Hoje, 17 de outubro, minha tia Maria do Rosário, a Zoca, completa 80 anos de oração. A ela, a quem eu chamo carinhosamente de “A acolhedora”, minha gratidão e meu afeto.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Hodierno

Para Edgar Alan Poe
Minha maldição foi ter nascido palhaço. Acaso fosse um domador de feras, o homem-bala, um triste elefante encantado por amendoins, ou mesmo um chimpanzé, acorrentado à imagem e semelhança de um escravo, não produziria estas letras. Não. Meu fardo é rolar, dia após dia, essa imensa rocha de lembranças rumo ao topo da ilusão.
Meu acerto foi, nesse palco etéreo, me apaixonar pela bailarina. Leve, flexível, sombrinha dos tempos em mãos e sorriso da paz em seus lábios. Não havia música na qual os pés curtos e precisos não modelassem uma coreografia almiscarada, lúdica, cativante. Ela me mostrou doçura para que eu aprendesse a lidar com a dureza, ouviu meus vícios e, serena, sorriu para que eu aprendesse a lidar com as lágrimas.
Não se sabe a exata medida de seu nome, ainda que seja a razão entre o que circula e o que corta.
Não se têm referências, nem ajudarão a primeira e terceira pessoas de qualquer tempo.
Não se proclama mais o delicado chuvisco de seu nome.
Não serão formas afetivas tampouco diminutas que reduzirão a lembrança de sua semeante alegria.
Eu bem me lembro disso...
A bailarina está morta. Não me importa que ela não dance mais diante de meus olhos, que não deslize, sombrinha em mãos, pelo picadeiro úmido de uma noite chuvosa, que retribua meu desejo com seus olhos infinitos. Eu a tenho comigo.
Eu falo com os mortos, eu invado sonhos, eu corro pelas sombras com as bestas, eu entendo a língua do silêncio, da distância e do tempo. Nenhum negro corvo voará em minha noite escura, nenhuma ave será o arauto de minha impossibilidade eterna, nenhum bico adunco ressoará “Nunca mais” em meu quarto nem rasgará meus umbrais. O grasnar demoníaco de seus olhos vazados e de seu voo nefasto não será o archote de meu devaneio. Não, não há criatura que crocite o amanhã. Eu sou o hoje.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Nosso Chevrolet 51

Para Antônio Cesário Mendes Rabelo

Foi a maior aventura da minha vida.
Saí do estado de Connecticut, E.E.U.U., no dia 1º de outubro de 1960.

Completam-se hoje, 1º de outubro, 50 anos que meu tio Cesarinho, O prático, partiu, em um Chevrolet Fleetline modelo 51, dos Estados Unidos com destino a Itapecerica (MG). Essa história é descrita no livro “Meu Chevrolet 51 e eu” e assim pode ser sintetizada, nas palavras do próprio autor:
“Relato da viagem que fiz ‘sozinho’, dos Estados Unidos ao Brasil, dirigindo um velho Chevrolet modelo 51, passando por 14 países, rodando quase 24.000 km de estradas de todos os tipos que é possível imaginar.
Por vezes, usei correntes, pá, enxadão, machado, serrote, facão, cordas, etc.”
No carro, tio Cesarinho seguia sozinho, mas com ele viajavam dezenas, centenas de pessoas. Essa viagem mudou a vida dele e também, de certo modo, de toda a família, seja pela apreensão que os perigos da viagem e os períodos sem notícia causavam, seja pela mobilização para o envio de apoio, muitas vezes em dinheiro, sempre em oração. Além disso, a cada leitura do livro ou a cada vez que a história é mencionada, embarca-se novamente no Chevrolet 51 e, não sem motivo, ouve-se “aquele roncado bonito parecendo um tanque de guerra”.
Em agosto de 2009, tio Cesarinho partiu em nova viagem. Dessa vez, sem o Chevrolet, mas, de certo modo, toda a família partiu com ele novamente. Poucas coisas continha sua bagagem: algumas peças de roupa, a camisa do Galo, o livro que narra essa aventura e aquilo que define os Mendes: o sonho do impossível.
Neste dia festivo, tão importante para nós, a homenagem ao Cesarinho, meu tio, que dizia: “De vez em quando, sonho que estou com ele [o Chevrolet], viajando por aí e contando a nossa história.” Nós também sonhamos, tio. Nós também.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...