quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Porta de Santo Amaro


Era uma noite única. Tomou banho, arrumou-se, fez a barba com alguns senões, pois as mãos já não tinham a firmeza de tempos mais juvenis, mas nada que o impedisse de se sentir mais novo. Acertou os cabelos, aqueles últimos e velhos remanescentes de sua vida leonina, fez uma conferência detalhada no rosto, nos dentes, nas orelhas, ensaiou sorrisos e versos, sentiu uma emoção nova e teve a certeza de que estava pronto para o jantar.

Aqueles eram dias felizes, pois a memória estava controlada, sem lapsos, e não havia esquecido nada importante há algum tempo, o que o deixava mais confiante e animado. Havia preparado um pequeno buquê de flores do campo para presentear a anfitriã e estava muito contente com a aquarela de cores que reunia. Havia amarelas, vermelhas, laranjas, violetas e outras que se misturavam, insatisfeitas com um só tom.

Olhou o relógio, confirmou a hora e também sua pequena lista diária, apesar de não tê-la usado nos últimos dias. Tudo certo, à exceção dos remédios, pois optara pelo vinho que levava junto ao buquê. Misturar medicamentos e álcool não era uma boa opção, e seu histórico recente de lembranças lhe dava a segurança de que não teria nenhum problema.

Saiu de casa, fechou a porta. O contraste entre a rua escura e o céu iluminado lhe chamou a atenção.

Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós

Um verso veio à sua cabeça e ele sorriu. Um encontro em sua idade não era dos eventos mais comuns, ainda mais com uma mulher tão única. Pensou, então, como os adjetivos mudam com os anos, pois a primeira palavra que lhe veio à mente foi “atraente”, mas que estava muito longe do sentido usual dessa palavra. Na fase em que temos contato mais com coroas do que com buquês, a atração cede lugar à atraência. Com uns anos a menos, certamente se diria eufórico naquela noite.

A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir

Outros versos vieram à mente e ele sorriu largamente. Estaria compondo uma poesia? Estaria se descobrindo poeta nessa fase da vida? Ele, que mal escrevera umas poucas linhas ao longo de tantos anos, encontrava agora uma nova inspiração? Sua confiança crescia e ele, naquele momento, via o mundo como uma grande pintura, com cores aquareláveis, em que vermelhos eram mais rubros e azuis, mais celestes.

A casa de sua anfitriã não era longe, nada que uma caminhada musical não pudesse vencer, e ele optou por cadenciar o passo para não transpirar de mais. Além disso, era uma boa maneira de limpar a mente de problemas cotidianos e focar realmente no que era imprescindível. Como as flores naquele ramalhete tão belo.

Caminhando, levantou o buquê à altura dos olhos e sentiu a fragrância delicada das flores. Lembranças olfativas lhe vieram à mente e um singelo desejo de viver tomou conta dele.

Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Os versos seguiam-se em sua mente e uma onda de amor-próprio se apossou dele, até que fosse se quebrar na areia. Uma dúvida precipitou tudo: conseguiria lembrar dos versos que compunha? Bastava ficar calmo, não entrar em pânico, deixar as ideias fluírem e tudo daria certo. O vinho o ajudaria a relaxar e, talvez, até compor mais.

O vinho! Meu Deus! Esquecera o vinho. Não era possível! Havia programado a compra, o rótulo, a safra, com maior cuidado e zelo, e deixara a garrafa em casa. Olhou o relógio! Voltar ou não? Não havia muito tempo para isso e, se o fizesse, precisaria de outro transporte para chegar à casa da... da...

Não era possível! Não se lembrava do nome da anfitriã! Meu Deus, agora não! Ele não podia se esquecer do nome dela justo naquele momento, depois de tanto tempo esperando o jantar. O vinho, então, se tornou o menor dos seus problemas, assim como o tempo para buscar a garrafa.

Parou de caminhar e encostou numa parede. Fechou os olhos, respirou fundo e disse a si mesmo que ficasse calmo, era uma crise que logo passaria e que não atrapalharia seu encontro. Mudou a respiração e procurou os remédios em um dos bolsos. Não estavam. Como não estavam? Ele sempre carregava os remédios no bolso. Sentiu um calafrio e uma frustração enorme tomou conta dele.

Olhou o relógio de novo. Não viu as horas. Não dispunha de muito tempo e nada lhe vinha à mente que pudesse ajudá-lo. Ainda encostado, resolveu repassar todo o dia, a fim de buscar alguma ideia que o ancorasse naquele mar de dúvidas em que se encontrava.

Meu amor...
Vou lhe dizer
Quero você

Aqueles versos que não paravam de ocupar seus pensamentos. Não! Com tantos anos da vida para se fazer poeta, logo naquela hora, em que não podia dividir a mente, eles surgiram com força. Um desespero começou a brotar dentro dele e a aflição do fracasso iminente disparou-lhe o coração, ressonando as batidas nos ouvidos. E agora?

Escorregou mantendo as costas na parede e caiu sentado, desanimado, desamparado, mudo. Ainda desnorteado com toda aquela situação, lembrou-se de equilibrar a respiração para manter a calma. As lágrimas lhe correram pela face, e o sentimento de impotência lhe invadiu, mostrando a ele, brutalmente, que os anos não podem ser enganados.

Com a respiração restaurada, um feixe de clareza começou a brotar nele. Decidido, levantou-se, bateu a mão na roupa para retirar a poeira e seguiu rumo à casa da anfitriã. O buquê, fielmente em suas mãos.

Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão

Que versos eram aqueles? Um pensamento aflorou: não eram versos dele, não era ele um poeta, mas um copiador, um ladrão de versos estúpido, que mal sabia de quem roubava e dizê-los só aumentaria sua vergonha e limitação.

Pouco tempo depois, chegou à casa do jantar e parou à porta.

Na noite do sertão

Que porta era aquela?

Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei

Não reconheceu a porta. Estaria no endereço certo? Teria confundido o local? Haveria uma mulher realmente a esperá-lo, ou tudo não passaria de uma ilusão de sua mente senil? Sentiu a boca seca e as mãos transpirando. Um buquê. Que buquê era aquele?

Tomado de pavor, encarou a porta e sentiu o coração bater por ela. Era simples, de um tom azulado do fim das tardes de inverno, esmaecido, em que se percebe que o tempo chupou, tal como uma laranja, grandes partes da cor original, deixando apenas a lembrança que o bagaço já foi fruto.

Havia uma ferida na lateral, que sangrava e escorria pelo chão, mas que lutava, maternalmente, para gerar uma semente que partia rumo ao céu. Não era uma trepadeira, era uma sobrevivente, uma planta que não aceitou a limitação, a ausência de solo, de carinho e de atenção, e rasgou nas entranhas da casa uma fábula de querer viver apesar de tudo. Não, não era uma ferida, era um sonho.

Não satisfeita de fugir do destino de erva, de mato, aquela planta abraçou a porta, a cobriu, a protegeu e com ela se uniu. Casaram-se. Agora, aquele véu florido pertencia a ambas, tão parte, tão arte, que a porta não se reconhecia mais como mera fronteira entre dois mundos, mas como única existência, flor.

O degrau, comido por pés ora aflitos, ora displicentes, se juntava ao chão, fazendo uma comunhão rasteira, nunca rasa. Certamente, jamais seria casa, mas encontrou sua essência se fazendo chão. Não havia glamour, nem louvores, nem presentes e adulações, mas a felicidade do degrau não exigia um próximo passo, apenas um pé que o empurrasse ao encontro de seu par.

As flores daquele véu lhe chamaram atenção e uma luz distante, mínima e solitária piscou em sua mente: o nome dela era uma flor. Isso! Graças a deus! Sua anfitriã tinha o nome de uma flor, começava a se lembrar. Agora, era se acalmar e pensar nas opções, pois logo se lembraria de todos os detalhes. O pior já passara.

Começou a listar nomes de flores que podiam ser também próprios: Margarida, Rosa, Hortênsia... Begônia, Petúnia... Líria, Girassola, Crava, Cinamoma... Algo não estava certo... Aqueles nomes que vinham à mente eram realmente de flores? Um sentimento de que não eram começou a surgir e a sufocá-lo. Henriqueta, a flor... Henriqueta, sim, era flor, disso não tinha dúvida, e aquele sorriso enigmático lhe invadiu com serenidade e encanto. Quem era Henriqueta?

Olhou o relógio: as horas estavam lá, mas não lhe diziam nada. Voltou os olhos para a porta, percorreu-a de ponta a ponta, virou-se para a rua e, aéreo, não percebeu movimento naquele mar de solidão. Meteu a mão no bolso e não encontrou os remédios. Na outra mão havia um buquê. Que flores eram aquelas? Será que o nome que procurava estava em suas mãos e ele não reconhecia?

Era melhor seguir em frente e jogar fora para sempre aquele encontro, de cuja companhia ele nem se lembrava, ou era melhor voltar para casa e tentar recomeçar depois, tomando os remédios e seguindo suas atividades de memorização?

Não teve tempo de optar, pois a porta se abriu. Uma mulher atravessou o marco e, vendo-o ali, exclamou animada:

– Amaro! Boa noite! Você chegou agora?

Uma onda de calor tomou conta dele e um sorriso brotou-lhe incontinente. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram.

– Você está muito elegante, viu?

Cada palavra doce e gentil agitava seu corpo.

Tentou articular alguma frase, sem sucesso, emitindo apenas um rosnado inaudível.

– O que é isso em sua mão, Amaro? É um buquê?

– É...

Os olhos dela brilhavam.

– É... – voltou a dizer ele.

Um silêncio costurou os olhares de ambos.

– É...

Engasgou-se com os pensamentos, enquanto lutava com os lábios mudos.

– É...

– Que lindo! – Disse ela.

Uma torrente reprimida e incontrolável disparou:

– É para você, minha flor.

Sem saber como havia dito aquilo, viu um buquê branco surgir nos lábios da mulher, enquanto o rosto dela se tingia de vermelho.

Ele retribuiu o sorriso e esticou a mão com as flores para ela.

– Obrigada – disse ela um tanto desconcertada. – Vamos entrar. – Recolheu as flores com uma mão, levando a outra até a mão dele. Entraram juntos, de mãos dadas, e a porta se fechou.

À mesa, esqueceram-se de tudo.
***

Aquarela de Marci Nunes (@marci_nunes) e poesia de Flávio Venturini (@flavioventurinioficial), Céu de Santo Amaro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

É, de repente

E de repente é noite
Salvatore Quasimodo

Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repente: é noite.
Trad.: Ernesto Sampaio
***

Cada um tem só, sobre o coração, a terra
Trespassada por um raio de sol:
É, de repente, a vida se fez poesia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Estupro culposo

A violência do crime se repete a cada vez que essa construção esdrúxula (pobre língua!) é pronunciada. Nossos ouvidos e nossa dignidade são violados, repetidamente, enquanto houver um miserável que se ampare e creia nessa odiosa tese.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Meia-verdade

Imagem de holdmypixels, by Pixabay. 

Ennio Alberto Filho e Humberto Mendes 

Em uma entrevista de emprego, o entrevistador, ao ler o currículo do candidato, identifica “curso superior incompleto” e questiona o entrevistado o quanto exatamente é “incompleto”. O candidato responde que passou pelo vestibular, cursou um mês e trancou a matrícula. “Um mês?” pergunta o entrevistador, e “Sim” responde o candidato. “Isso é incompleto?” perguntou um, “Bastante incompleto, senhor”, respondeu o outro. 

Nessa breve história, fictícia em relação à entrevista e verídica em relação ao currículo, destaca-se uma questão bem contemporânea: a meia-verdade. Apesar de consideravelmente velha, talvez ainda não tenha sido estudada com a profundidade com que merece, pois, sem dúvida, está, senão em patamar semelhante, muito próximo àquele ocupado pelas fake news, pela pós-verdade e mesmo pela mentira. 

Sem dúvida, a meia-verdade se confunde com a meio-verdade, que muito se aproximam, mas que não são idênticas. As normas linguísticas elucidam esse parentesco (meio x meia), mas é inegável, do ponto de vista lógico, que tudo que contém um pouco de verdade precisará conter um tanto de não verdade para ser inteiro, valendo o mesmo para a mentira. 

Antes da metade, é importante focar o inteiro. O que é a verdade? Certamente, a filosofia está mais bem preparada para debater esse tema, mas se pode considerar a verdade um conceito e uma realidade que coabitam com união de bens e com separação litigiosa simultaneamente. Essa é uma afirmação um tanto questionável, o que afirma seu caráter propositivo e provocativo, próprio do movimento reflexivo a que se propõe este texto. 

Por que a verdade pode ser um conceito? Porque pode ser discutida, debatida, contestada e até mesmo negada, apontem os fatos ou não para essa possibilidade. Por que pode ser uma realidade? Porque pode ser factual, visível, sensível e científica. A proporção entre conceito e realidade determinará o quanto uma verdade é “inteira”, se há inteireza entre meias, metades, meios e fins. 

O ponto central que se pretende debater neste texto é a quantidade de energia gasta atualmente para se discutir uma meia-verdade, para reafirmar dois lados complementares, mas sem se buscar uma visão outra que possa resolver a questão como um todo e permitir que haja um avanço não só epistemológico, mas também humano. 

Um exemplo modesto é o copo com água até a metade de sua capacidade. Meio cheio? Meio vazio? Aqui há possibilidades simbólicas variadas de leitura e interpretação, mas, do ponto de vista pragmático, se aquele “meio copo” é uma questão a ser debatida, o foco deve ser o quão relevante é faltar ou conter no copo. Se o conteúdo do copo não for um problema, o melhor é não perder tempo nem com ele nem com o outro. 

Um exemplo mais ácido é o momento pelo qual passamos, de pandemia, em que economia e saúde pública têm se chocado. Não deveriam se chocar, pois precisam caminhar juntas, paralelamente, e o princípio matemático básico prevê que duas retas paralelas jamais se encontrarão, logo jamais se chocarão. Então por que discutir se é melhor focar em uma ou outra neste momento? É o mesmo que discutir se o copo do parágrafo anterior é o mais indicado para conter água. 

Economia e saúde pública devem ser pensadas juntas, sistemicamente, partes inseparáveis das políticas de Estado e do dia a dia de cada ente de um grupo social. O debate a ser promovido é sobre como conciliar ambas, como, eventualmente, permitir que uma avance um pouco agora até que a outra possa alcançá-la depois, como responder às inúmeras demandas de saúde pública que o Brasil exige diante de um quadro de recursos limitados e, muitas vezes, já comprometidos. 

Muitas vezes, grupos antagônicos defendem pontos de vista distintos, mas não excludentes, apenas “meiados”. Dizer que a culpa é do governo não resolve nada, assim como afirmar que a população não faz a parte dela não melhora a situação. Não se busca aqui uma politização do debate, mas observe: a culpa é do governo? Primeiro, essa frase precisaria ser completada: culpa de quê? Se a resposta for sim, é culpa só desse governo? Então essa situação veio do governo anterior: só dele? Ah, não, do anterior também e dos anteriores “antecessivamente.” Não há dúvida de que encontrar uma solução e resolver os problemas, pelo menos no primeiro momento, é infinitamente melhor do que discutir e não avançar. Mesmo que a culpa seja desse governo, buscar incialmente a solução é o mais sensato. 

Há uma questão central na meia-verdade sobre a qual sempre se deve ater: se uma proposição pode ser classificada como meia-verdade, de que será constituída sua outra parte? Um meia-verdade implica uma meia-mentira? Uma meia-verdade é uma meia-mentira que não se realizou, e vice-versa? 

É preciso “certo repertório”, como afirma Luiz Felipe Pondé, para poder se desvencilhar desse jogo fracionário da atualidade. Entende-se “repertório”, aqui, como um fazer compartilhado de e por informação, cultura e sabedoria. Podem não ser tudo de que se precisa, mas, certamente, serão os itens iniciais para um conhecimento que não será completo jamais, mas conseguirá ser muito mais do que incompleto. 

Texto publicado no LinkedIn em 29 de outubro de 2020.

domingo, 25 de outubro de 2020

Da bênção, o samba

Este post foi publicado originalmente em 2011, bucaneado do "Samba da Benção", de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Passados nove anos, algumas lacunas foram preenchidas e hoje, no dia de aniversário de 12 anos deste blog, eu o republico como agradecimento a todos que me dão a honra de passar por aqui.
***

Agradecimento a Vinícius de Moraes e Baden Powell

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
[...]

Eu, por exemplo, o bicho do mato
Humberto Mendes
Editor e bucaneiro
O branco e preto mais torto do Brasil
Na linha direta de Quixote. En gard!
A bênção, Dona Quiméria,
a maior vidente de BH,
terra da eterna luta no varal.
A bênção, Cônego Belchior,
tu que me ensinaste na vida
todos os matizes de nossa dor.
A bênção, Chocô, a bênção, Tadeu,
A bênção, Padre Dulinho,
Sua bênção, Ninico, primo dos prazeres
A bênção, Tio Lauro,
A bênção, Dr. Ezequiel,
A bênção, Geraldinho,
você, sobrinho de Cesarinho,
o inesquecível.
A bênção, José, meu pai,
o severo, o menino.
A bênção, todos os grandes
caneteiros do Brasil
preto, mulato, branco,
lindo como a pele macia de Otsu.
A bênção, maestro Cesário Mendes,
companheiro de blog e avô querido,
que já viajaste tantas letras comigo
e ainda há tantas por viajar.
A bênção, Clóvis Habibe,
parceiro cem por cento
você que une a palavra ao sentimento
e ao pensamento.
A bênção, Baden Powell,
A bênção, Vinícius de Moraes,
que fizestes este samba
que agora bucaneio.
A bênção, Sr. Luiz, meu avô,
companheiro de blog,
que me ensinaste o engenho dos adjetivos.
A bênção, Tio Lulu,
o único, o múltiplo,
os mais Mendes de todos os Mendes,
incluindo meu Tio Sebastião.
En gard!
A bênção, que eu vou partir
eu vou ter que dizer adeus.
[...]

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Bilhões

De uns tempos para cá, chegamos facilmente à casa dos bilhões: de desviode sonegação, de multa. Infelizmente, as mãos de poucos sujam nossa mesa, enquanto milhares de bocas urram famintas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O ramo que não seca

Picanço no ramo seco, de Niten (Miyamoto Musashi) (século XVII).
Disponível em: https://bit.ly/2F3QTNr

***
"quando se trata de amor
não escreva cartas
não escreva poemas"

toque-o
em notas
candentes
melífluas

terça-feira, 15 de setembro de 2020

15 de setembro de 1879

“Cosme ainda estava na idade em que a vontade de contar dá vontade de viver, e se acredita não ter vivido experiências suficientes para contá-las, e assim partia para a caça, ficava fora durante semanas, depois voltava para as árvores da praça segurando pelo rabo fuinhas, texugos e raposas, e contava aos penúmbrios novas histórias que, se verdadeiras, narrando-as tornavam-se inventadas e, se inventadas, verdadeiras.” (p.143-144)

“[...] sua loucura fora aceita por todos, e não falo somente da sua fixação de viver lá em cima, mas das várias esquisitices de seu caráter, e todos o consideravam um original, nada mais do que isso.” (p.209)

Homenagem a Luiz Mendes de Cerqueira, meu tio-avô, sobredito Tio Lulu, o mais Mendes de todos os Mendes, nascido em 15 de setembro de 1879.

Acervo: Ana Lúcia Mendes Rabelo.


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Altaestima

Não deveria haver problema de autoestima no mundo, não fosse a distribuição tão irregular existente entre as pessoas. A língua não prevê ainda, mas outras ciências (psicologia, antropologia, sociologia) certamente precisarão de mais opções léxicas para descrever o efeito de altaestima que assola as redes sociais. É alta, é estima, mas há muito já se desgarrou da autoestima.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

BIB

A Boçalidade Interna Bruta (BIB) do país tem batido recorde ano após ano.
É preocupante, pois a BIB é muito contagiosa e se configura como uma endemia.
O alento é saber que, quando o pasto que alimenta os boçais acabar, restará a eles apenas a autofagia.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Mamãe, eu quero

Agradecimento a Silvio Caldas

Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero socar!
Mete a porrada, m
ete a porrada, mete a porrada,
Mete a porrada pra imprensa se calar!

Dorme, filhinho do meu coração,
Traz a cloroquina que o covid só pega em bundão
Tenho um conhecido que se chama Queiroz
Se ele abrir o bico, não sobrará nenhum de nós

Eu olho os laranjas, com aquele fingimento
O fruto é muamba e o pé é fraudulento.
Conheço uma Michele que é sensacional
Ela é da bossa e o marido é um boçal.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Festa pela maioridade


Illm. e Exm. Sr. – A camara da villa de S. Bento do Tamanduá extaziada de prazer pelo fausto successo da elevação do Sr. D. Pedro 2.º ao Throno declarado Maior[1] por uma resolução da assembléa geral legislativa; sucesso que coroou os votos de todo o Brasil, e que deve agrilhoar para sempre a feroz anarchia, que mais ou menos em quasi todos os pontos do imperio tem levantado o colo nos dez annos da dolorosa orphandade; apressa-se a participar a v. exc., como, e de que maneira fora recebida tão lisongeira noticia.

Chegando á esta villa o estafeta do correio á meia noite do dia 2 do corrente, trouxera ao doutor juiz de direito o impresso da proclamação da camara da cidade de S. João d’El-Rei pela qual convidára ao povo para assistir aos festejos que delineara por tão plausivel motivo; o sobredito juiz de direito não podendo conter o praser, que lhe transbordou o coração passou a communica lo á essa mesma hora aos visinhos, e imemdiatamente os repiques de sinos, salvas e vivas acordarão todo o povo de maneira, que as duas horas uma banda de musica percorria as ruas da villa já então apinhoadas de immensa gente, e a aurora do dia 3 foi annunciada com a salva imperial de 101 tiros de roqueira. Aberta a malla do correio as oito horas, identicos impressos recebem alguns vereadores, reune-se a câmara, concorrem aos paços desta o juiz de direito, o de paz, o chefe da legião, o juiz municipal, o vigario da vara, e os cidadãos mais grados do paiz, e quando um dos vereadores propoem o solemnisar-se uma tão grata noticia com a maior pompa possível, a espensas próprias, todos a uma voz sollicitão o compartirem as despesas. A camara pois resolveo convidar aos habitantes da villa para illuminarem as frentes de suas casas por tres noites consecutivas havendo lugar em todas estas as salvas imperiais e alvoradas, uma missa solene com Senhor Exposto, oração analoga, e Te Deum Laudamus em acção de graças ao Todo Poderoso no dia 9 do corrente na igreja matriz desta villa. A camara tem a inexplicavel satisfação de affirmar a v. exc., que desde o começo do festejo, que hontem findou, assistirão e concorrerão effectivamente todas as authoridades, todos os cidadãos habitantes na villa e o povo emfim de todas as classes, sendo de notar, que em uma reunião de tamanho vulto não se ouvio jamais um grito alem dos vivas nacionaes analogos ao objecto repetidos a miudo com patriotico enthusiasmo, de sorte que, dfiferença de opinioens politicas, dissençoens particulares, tudo, tudo desappereceo inteiramente nestes dias, para não haver lugar se não, e somente a alegria de que todos estão possuidos, e reinar como de facto reinou entre todos a mais perfeita harmonia, e fraternal amisade. A festa e Te Deum em conclusão do festejo fica adiada para domingo proximo futuro, assim pela necessidade de virem clerigos de fora, como para maior concurso de povo, e reunião de maior numero possivel de guardas nacionaes. Taes são as disposiçoens e puros votos da camara, e povo desta villa.

Deos guarde a v. exc.

Villa de S. Bento do Tamanduá em sessão extraordinaria de 6 de agosto de 1840.

Illm. e Exm. Sr. Bernardo Jacintho da Veiga, presidente da provincia de Minas

Luiz Mariano de Moraes.

Joaquim Ferreira Carneiro Junior.

José dos Santos Ribeiro.

Francisco José de Carvalho.

Gregorio Luiz de Cerqueira.

Manoel Ignacio Pereira da Terra.

Paulo Antonio de Avelar.

O Universal, Ouro-preto, n.94, anno XVI, 17 de agosto de 1840. p.2-3. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=706930&pesq=%22Trist%C3%A3o%20Luiz%20de%20Cerqueira%22&pagfis=9853



[1] Em 23 de julho de 1840, o então garoto Pedro, com 14 anos de idade, foi elevado à maioridade e assumiu o título de D. Pedro II, imperador do Brasil.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Dispensa de título


Correspondencias 

Sr. Redactor. – Rogo-lhe o obsequio de transcrever nas colunas de sua estimavel folha o officio abaixo, pois muito obrigado lhe ficará seu muito respeitador e criado – José dos Santos Ribeiro. 

Tendo sido nomeado tenente da primeira companhia do primeiro batalhão de guardas nacionais desta villa, por livres sufragios de meus concidadãos, e observando que estes são cousa nenhuma em presença dos artigos 2º e 6º da lei Mineira de 16 de março deste anno n.170, não pretendendo por tanto solicitar o titulo que a mesma lei exige, de ora em diante reassumo a classe de simples guarda, em cuja qualidade protesto prestar todos e quaesquer serviços ao meu alcance a bem da minha patria, bem como a obedecer ás ordens legaes dos officiaes que o governo houver de nomear; e dando assim minha formal demissão e renuncia do posto, entendo que cumpre a v. s. dar providencias a eleição do oficial, que me deve substituir, ou participar ao governo para as darr como a v.s. parecer mais acertado. 

Deos guarde a v. s.

Villa de S. Bento do Tamanduá 13 de junho de 1840.

Illm. Sr. Francisco José Soares, juiz de paz desta mesma villa. 

José dos Santos Ribeiro

O Universal, Ouro-preto, n.77, anno XVI, 08 de julho de 1840. p.4.

sábado, 1 de agosto de 2020

Nas sombras


A medida da fala não é a fala medida.
Não medida é falazada.
Desfalar é serenar o supremo suspiro nas sombras.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Nitô-Ichi

Esta pequena fábula japonesa comemora os 19 anos do Caneteiro, meu filho querido.
***

Num mundo branco pintado pela neve, há um homem apressado, apreensivo, afobado. Perseguir ou ser perseguido, eis a questão. Não se vê viva alma. Ele não anda, anda o caminho.

Depara-se com um palácio, branco como a neve que o decora. Não há guardas, nem sentinelas. Antevê o perigo que o espera à frente; maior é o monstro que (o) segue. A passos lentos, silenciosos, chega ao portão e, com alguma dificuldade, empurra-o, fazendo aquele enorme gigante roncar e abrir. Uma mínima brecha é o suficiente para que ele entre e encontre um jardim.

O oásis é também parte do deserto.

Não há como voltar. Está desarmado, cansado e com a mente confusa. Lembra-se, nesse momento, de Musashi, o samurai, e sente-se uma cópia barata e sem valor do guerreiro. Esse, porém, é um segredo dele. Só dele.

No jardim, caminhando com cuidado, vê um pequeno regato que ainda corre e uma ponte que o sobrepõe. Aproxima-se, abaixa-se e, antes de tocar água, avista uma mulher do outro lado da ponte que o observa. Levanta-se assustado e caminha para trás, mudo. A mulher, clara, bela e de longos cabelos, trajando um quimono extremamente delicado, mantém os olhos fixos nele.

Entreolham-se por longos segundos, ao fim dos quais ele resolve:

– Eu sou Mu... – é interrompido, porém, com um gesto da mulher que leva o dedo à boca numa sinalização inequívoca de silêncio.

– Eu sei quem você não é – disse ela.

Aquelas palavras o atordoam e ele recua ainda mais, agora que a mulher se dirige à ponte para atravessá-la. A distância que se encurta lhe permite ver os finos traços da mulher e sua suave força. Transpõe o regato e para, com os olhos sempre atentos ao visitante.

– Quantos perseguem você? – Pergunta ela.

– Muitos.

– Não vejo armas.

– São necessárias? 

– Para uma testa tão tensa, suas palavras são bem afiadas. 

Tenta relaxar e mostrar naturalidade, mas percebe que sua encenação não lhe trará sucesso. 

– Você olha pouco para trás. 

– Atrás é só uma perspectiva.

– Para trás não há fuga, só dúvida.

– Não quero fugir.

– Então se encontre.

– É o que me move.

– Agora, sim, seu corpo e sua boca estão em harmonia.

Ao longe, ainda de forma insípida, surge o som de um tropel de cavalos. A impaciência toma conta do homem, e a mulher delicadamente, como um longo espreguiçar de garça, leva a mão às costas. O homem se assusta, recua e vê surgir uma espada longa nas mãos dela. Não há palavras.

A mulher desenha uma flor diáfana no ar com a espada, ainda na bainha, e com um movimento rápido e preciso, aproxima-se do homem e lhe oferece a empunhadura. Atônito, renascido, ele ouve:

– Siga seu caminho; não fuja dele.

Ele pega a espada, retira-a da bainha e sente a força da arma, mantendo os olhos sempre fixos na mulher.

– Cuidado com esse jardim, pois há perigos dos quais você não faz ideia. Não se demore, porque, quando esses cavalos que ouve chegarem aqui, você poderá ser um homem morto.

– Não tenho medo de morrer, pois já morri outras vezes e uma parte de mim já está morta.

– Salve, então, a parte que está viva.

– E você? Se sua espada for encontrada comigo, sua vida estará em risco.

– Todos nós vivemos em risco.

– E se for morta?

– Não tenho medo de morrer, pois já renasci outras vezes e uma parte de mim não pode ser morta.

– Você está sem armas. Como poderá se defender?

– A escola das duas espadas é minha vida. A espada mais perigosa não corta e não pode ser vista. Quando transpassa um coração, você sabe o que é a vida.

– Ninguém é capaz de sobreviver a esse golpe.

– É verdade! Morrer por ele é ter a certeza de estar vivo.

– Não entendo.

– Quando seu coração for atingido, você saberá.

– Não posso ser atingido.

– Se não for atingido, morrerá sem saber o que é viver.

O tropel se aproxima.

Ele corre, atravessa a ponte, para, vira e vê a mulher ocultando-se entre folhas. Olha para a espada, reflete alguns segundos e retorna ao ponto onde a mulher está. Oferece-lhe a espada e diz:

– Não posso levá-la.

– Por que não?

– Prefiro carregar suas palavras a sua arma.

Com um movimento único, desenha um pássaro no ar com a espada e a entrega levemente à mulher. Surpresa, ela diz:

– Você conhece as duas espadas...

– Sabia como desenhar o pássaro, não como fazê-lo voar. Sou grato a você por isso.

Os cavalos atravessam o portão no galope, fazendo voar o pássaro, o homem e a dúvida.
***

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Honorários

DECRETO Nº 10.427, DE 9 DE NOVEMBRO DE 1889

Concede ao Banco do Commercio a faculdade de emittir bilhetes ao portador, convertiveis em ouro e á vista, e approva a reforma dos respectivos estatutos.

Attendendo ao que Me requereu o Banco do Commercio com séde nesta Côrte, e achando-se verificado que, além dos recursos necessarios para satisfazer os seus compromissos, tem o dito Banco realizado, em moeda corrente, o capital minimo exigido pela Lei de 24 de Novembro do anno proximo passado, para as companhias emissoras que tenham a sua séde na capital do Imperio, Hei por bem, na conformidade da Minha Imperial Resolução de Consulta da Secção de Fazenda do Conselho de Estado, desta data, Conceder-lhe autorisação para emittir bilhetes ao portador, convertiveis em ouro e á vista, e Approvar a reforma feita nos seus estatutos, com as seguintes alterações:

[...]

Art. 64. Continúa em pleno vigor, na fórma do vencido, a deliberação irrevogavel da assembléa geral dos accionistas de 25 de Agosto de 1884, que, em reconhecimento dos relevantes serviços prestados ao Banco, desde a sua installação, pelo accionista Senador Manoel José Soares, tornou para elle vitalicios os honorarios de director, de 6:000$ annuaes, quer exerça quer não o referido cargo.

Disponível: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-10427-9-novembro-1889-543419-publicacaooriginal-53700-pe.html

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Juiz

Em julho de 1832 o juiz ordinário Gregório Luiz de Cerqueira escreve ao presidente da província dando notícia de ter cumprido o que ordenava a portaria de onze de fevereiro do mesmo ano, indo averiguar a denúncia dada por Vicente Ferreira de Souza Lobato, furriel comandante do destacamento do Indaiá, sobre assassinatos e roubos que o denunciante afirmava terem sido perpetrados por “uns crioulos monteiros no córrego da prata, distrito de Bambuí”. O juiz Gregório segue relatando: “dirigi-me ao arraial de Bambuí ainda mais apressadamente, por me constar em representação do administrador do correio desta vila, que nos lugares indicados pelo denunciante foram acometidos os estafetas que conduziam as malas da província de Goiás”.

VELLASCO, Ivan; ANDRADE, Cristiana Viegas. Criminalidade, violência e justiça na Vila de Tamanduá. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 34, n. 64, p. 51-80, jan/abr 2018. p.71.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Parente sim, político sim, Mendes não



***
Manoel José Soares — Natural de Minas Geraes, e nascido a 1 de março de 1829, falleceu na cidade do Rio de Janeiro, a 12 de setembro de 1893, victima de um accesso do loucura que o levou ao suicidio, sendo negociante nesta cidade, director do Banco do commercio, membro do conselho fiscal da companhia de saneamento do Rio de Janeiro e commendador da ordem da Rosa. Depois de haver representado Minas Geraes na 18ª e na 19ª legislaturas geraes, foi pela Corôa escolhido senador do lmperio em 1888, militando sempre no partido conservador. Escreveu:
Banco do Commercio, sua iniciação, fundação e installação, e narração das principaes occurrencias. Outubro, 10-1875. Rio de Janeiro, 1875, 93 pags. in-4° — Teve segunda edição no mesmo anno na typographia de Nunes Pinto & Companhia.
Discurso pronunciado na Camara dos senhores deputados na sessão de 14 de setembro de 1882. Rio de Janeiro, 1882, 55 pags. in-12º – Versa sobre assumptos do ministerio da agricultura.

BLAKE, Sacramento. Diccionario Bibliographico Brasileiro (Volume 6: Letras M-Pe). [Rio de Janeiro] : Conselho Federal de Cultura, 1970, 7 v., v. 6: 2 p. sem numeração, 405 p. Reimpressão de Off-set da edição de 1883-1902. p.144. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5451. Acesso em: 28 jul. 2020.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Nas enxovias




No município de Tamanduà erão talvez maiores os horrores praticados pelas autoridades, em virtude da suspensão de garantias. Em toda a parte as mesmas buscas, os mesmos attentados, mas na villa de Tamanduá subirão elles de ponto. Não houve ali commoção alguma, nem um passo dados pelos homens da opposição, que os compromettesse; e apezar disso, forão lançados na enxovia com grossas correntes ao pescoço 24 individuos dos mais distinctos do municipio: entre outros, estiveram por muito tempo nas enxovias, e encorrentados o deputado provincial Gregorio Luiz de Siqueira, o tenente-coronel Elias Pinto e um filho, presos no município de Pitangui, e daquela cadêa mandados para a de Tamanduá, o sargento-mór de 1ª linha Leonel de Abreu e Lima, o padre Manoel Jacintho Castor, os Carneiros, e outros proprietários abastados e homens reconhecidamente pacíficos.

Historia do movimento politico, que no anno de 1842 teve lugar na província de Minas Geraes. Escripta pelo Conego José Antonio Marinho. Segundo volume. Tio de Janeiro: Typ. Villeneuve, 1844. p.31-32. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or58752/or58752.pdf

terça-feira, 21 de julho de 2020

21 de julho de 1674


VASCONCELOS, Diogo de. Historia Antiga das Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1904. p.34.

Casa de Fernão Dias. Parque Estadual do Sumidouro, MG. 2020.

"[...] partias ao descobrimento das minas do sertão de S. Paulo e terras das esmeraldas."

Em 21 de julho de 1674, a bandeira de Fernão Dias (já sexagenário) partia de São Paulo rumo a Minas Gerais. Não encontrou as esmeraldas, mas não descartou um sonho sem vivê-lo.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O papel aceita tudo

Imagem: Pixabay. Disponível https://bit.ly/2Z5uztN.

Sempre deverão existir maus escritores, pois eles atendem ao gosto das faixas de idade não desenvolvidas, imaturas; estas têm suas necessidades, tanto como as maduras.
Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano, aforismo 201.

Há algumas semanas, divulguei, em minha conta no Instagram, o lançamento de meu quase livro “Eu, Testosterona”. Muito mais um exercício lúdico-editorial que propriamente um volume, produzi uma postagem “bem real”, apesar de não sê-la e também de não não sê-la. A história por trás desse quase livro foi publicada, de maneira ficcional, em meu blog e resolvi produzir uma estrutura que sustentasse todo aquele jogo textual.

Fiz a capa do quase livro a partir de um banco de imagens gratuitas na internet (Pixabay) e consegui todo o suporte visual no site adazing.com, no qual desenvolvi a capa em 3D e recebi outras peças gráficas, inclusive memes para meu quase livro. O único texto real do quase livro era o da orelha, postado no Instagram:

“Com uma linguagem moderna e vibrante, o autor apresenta a história ardente de um casal em busca da completude da vida. Com relatos apaixonados e diálogos fortes, somos chamados a vivenciar todos os percalços de dois amantes, no sentido mais amplo da palavra, que descobrem, juntos, todos os matizes do amor e do amar. Certamente, o leitor se identificará com a narrativa e reconhecerá os dilemas pessoais que todos aqueles que têm um coração preenchido por um outro eu tão vivamente experimentam. No futuro, Brutus e Bela estarão no panteão dos casais imortalizados como tantos outros da literatura universal. A narrativa de H.C. Clement, um dos nomes mais aclamados da nova geração de autores, sanguínea e penetrante, é um convite aos sentidos.”

Não resta dúvida de que essa orelha tem muitos mais recursos comerciais do que literários, além de uma boa dose de pretensão e de imodéstia. Afinal, se não for assim, como introduzir um “romance” no mercado de tantas publicações? É verdade que cheguei a vender alguns exemplares e que minhas companhias literárias mantiveram-se em silêncio, certamente sem saber o que se passava. De gêneros mais nobres ou nem tanto, respeito profundamente todos os autores, sejam escritores ou escreventes como diria Roland Barthes, porque sei que escrever não é um ato simples, nem fácil, pois exige, no mínimo, coragem.

Todo esse preâmbulo para chegar ao ponto principal deste texto: veracidade na escrita. Tive um colega de trabalho que tinha como mantra um velho ditado: “O papel aceita tudo.” Os suportes de escrita mudaram, mas essa verdade segue inabalável. A escrita a todos recebe bem, desde fake news e promessas eleitorais até informações do currículo Lattes, passando por inverdades, pós-verdades, incorreções e, no extremo, quase esquecidas, as boas e velhas mentiras. Por que boas? Toda mentira é boa. Uma mentira é ruim quando ela se apresenta como verdade.

É fácil perceber esse fato: conte uma mentira que seja extremamente falsa ou inverossímil e veja o efeito em sua audiência. A chance de haver riso é bem grande, porque a mentira “desvairada” e “cabeluda” é divertida. Conte, porém, uma mentira e a maquie, vista-a com um longo e esvoaçante vestido de verdade ou, então, um terno bem cortado, com colete e gravata de sinceridade: toda uma relação com sua audiência entrará numa zona nebulosa de dúvida e ficará estremecida; mais cedo ou mais tarde, aparecerá o dano quando a mentira for despida.

É perceptível que estamos quantitativamente em uma sociedade mais “escritora” do que estávamos há trinta anos, ainda que haja muita discussão qualitativa sobre o tema. Logo, se há mais gente escrevendo, há mais leitores? Se há mais uso da escrita, essa variedade está mais valorizada? Se há mais leitura, há mais conhecimento? Essas provocações dizem muito sobre nossos consumidores de texto (produtores ou não).

Assim, reserve-se sempre o direito da dúvida e a boa vontade da confirmação, para que toda afirmativa, nua ou explicitamente vestida, seja motivo para alegrar o dia e não para estragá-lo. Lembre-se de que o papel (celulótico ou eletrônico) aceita tudo, nós não.

Publicado originalmente no LinkedIn em 08 jul. 2020.
https://www.linkedin.com/pulse/o-papel-aceita-tudo-humberto-mendes

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 6]


– Ele é um cara que tem um passado obscuro, do qual ele tenta se esquecer, mas que constantemente bate a sua porta. Belinha é sonhadora, romântica e acredita na força do amor. Muitas pessoas não querem esse romance, mas eles vão tentá-lo com todas as forças.
– E tem cenas quentes? 
– É o que mais tem. O livro pega fogo na sua mão. 
– Nossa, eu quero esse livro. 
– É um livro para esquentar as noites frias. 
– Nossa! É do jeito que gosto. 
– Vai ser lançado em breve. 
– Quando? 
– Está quase pronto. 
– E como termina? 
– Não posso dar spoiler, senão perde a graça. 
– Ah, vai, me conta. Eu estou louca para saber. 
– É segredo. Só nas últimas páginas haverá a revelação. 
– Ah, não faz isso. Me conta!
– Eu tenho alguns finais prontos, mas não sei qual vou usar. Pode ser até que escreva uma continuação do livro, alguma coisa tipo uma trilogia.
– Nossa! 
– Vai depender da aceitação do público leitor. 
– Nossa! E você já tem uma editora? 
– Tenho sim. Vai sair pela Pedkouv, a editora dos grandes talos. 
– Nunca ouvi falar! 
– É uma editora especializada, que tem 9 na lista dos 10 livros mais vendidos. É uma das maiores do mercado nesse segmento e tem uma ótima relação com autores.
– Vou pesquisar. Mas, e meu livro? 
– Comece a colocar suas ideias no papel. 
– Não é meu perfil, sabe? Escrever é muito devagar, eu prefiro navegar e produzir na cabeça, que é muito mais rápido.
– Para ser uma escritora, você vai precisar “escrever”.
– Vou procurar alguém para me ajudar. 
– É uma boa ideia. 
– E seu livro? 
– Espero terminá-lo logo, porque já está queimando minhas mãos, assim como esse celular.
***
Notas:
*Capa produzida com imagem da Pixabay.
**Em virtude da pandemia de COVID-19, a quase venda ocorrerá apenas em formato eletrônico, nos principais players do mercado.
*** Outras informações pelo Instagram: humberto_mendes_

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 5]

– Lá vai: “Então ele me pegou e me beijou.”
[Silêncio]
– Ponto-final?
– Sim. Grandioso assim. O que achou?
– É...
– É o quê?
– É... "impactante".
– Eu sabia. Todo mundo vai gostar.
– Vai... Vai sim...
– Então seu romance vai ser em primeira pessoa?
– Vai, vai sim. Então, você vai me ajudar?
– Desculpe, mas... fiquei tão impactado com o fim que me perdi. O que você quer mesmo que eu faça?
– Que escreva minha história para mim!
– Quer que eu escreva? 
– Sim, isso. Não existe a função de ghost writer? Então, queria que você fosse o meu.
– Desculpe, Anastásia, mas não faço esse trabalho.
– Você vai perder essa chance de ficar famoso e ganhar dinheiro? Não acredito que não quer!
– Não trabalho como ghost writer.
– Talvez seja a hora de começar. Você tem talento! Eu ajudo você.
– Você me “ajuda”?
– Claro. Só não posso colocar seu nome no livro porque a ideia foi só minha.
– Ah, claro.
– Então?
– Infelizmente tenho que confessar que não posso ajudar você porque estou escrevendo um livro sobre um grande romance. 
– Não acredito!
– Sim, estou. Já tenho o título, as personagens, o enredo e muitas páginas escritas.
– Mentira! Jura?
– É verdade, e vou contar para você em primeira mão!
– Ah, não! Não me fala isso.
– O livro se chama “Eu, Testosterona” e conta a história de Brutus, um homem forte, másculo e viril que se apaixona pela meiga Bela, uma jovem linda e ingênua. Só que Brutus tem um segredo guardado a sete chaves, que, se for descoberto, acabará com todas as chances de felicidade dele.
– Nossa!
– Brutus é um homem irresistível.
– Meu Deus!
– Isso mesmo! Um deus grego com uma pegada moderna: jovem, veloz e furioso.
– Nossa! 

terça-feira, 23 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 4]

– [Não devia perguntar, mas não resisti] Você pode ler para mim essa frase? 
– Acho melhor não. 
– Por quê? Se você quer minha ajuda, eu preciso saber o desfecho. 
[Silêncio] 
– É, acho que você tem razão. Vou pegar. 
– Tá bom. 
Alguns segundos depois: 
– Vou ler, tá? 
– Tá bom. 
– É algo impactante, assim, avassalador, para que o leitor saia deslumbrado com o livro. 
– Claro, assim deve ser. 
– Não queria nada muito óbvio. 
– Sim. 
– Nada clichê. 
– Você está certa.
– Pensei em algo que o leitor quisesse decorar, que o fizesse querer ler o livro de novo só por essa frase.
– Entendo.
– Alguma coisa que mexesse com o sentimento dos homens e o desejo das mulheres. 
– Tá. 
– Que tivesse uma pegada moderna. 
– Hunrum. 
– Sabe, uma “pegada” forte! 
– Sei. 
– Um misto de amor e paixão. 
– Hunrum. 
– Demorei muito para escrever isso. 
– Hunrum. 
[Silêncio] 
– Então, vou ler: 
[Silêncio]

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 3]

[Silêncio] 
– E o que mais?
– Queria que você me ajudasse com as construções, que me desse umas dicas sobre a melhor forma de narrar, sobre as vírgulas, sobre as personagens.
– Bem, tenho que lhe dizer que o que você deseja precisaria ter sido pensado antes do texto estar pronto, pois agora o trabalho será enorme para fazer isso.
– Não se preocupe, isso é simples. 
– Você usou esse mesmo método nos outros livros? 
– Não, não. 
– Como fez nos outros? 
– Foi inspiração. Tive uma ideia e escrevi. 
– E o trabalho com a língua? 
– Ainda não foi feito. 
– Então você escolheu começar por esse? 
– Sim. 
– Você tem inúmeras páginas escritas que precisam ser avaliadas, é isso? 
– Ah, não são "inúmeras". 
– É um livro pequeno, então? Na verdade, um conto. 
– Não, não, não é um conto! É um livro mesmo. 
– Quantas páginas ele tem? 
– Não muitas. 
– Me diga quantas são. 
– Huljileopnbertyad 
– Desculpe. Não entendi. 
– Bgtradoleuncte. 
– A ligação ficou péssima. Não consegui entender. 
– Estou mudando de lugar. Melhorou? 
– Sim, agora sim. Quantas são? 
– Então, na verdade... Bem, na verdade, eu queria sua ajuda na redação do livro. 
– Para escrever o livro? 
– É isso. Isso mesmo. 
– Você não tem nada escrito, então? 
– Não, não, tenho. 
– Você só tem a história? 
– Não, não, claro que não! O livro está pronto na minha cabeça. 
– Ah, sim, na sua cabeça. Só falta passar para o papel. 
– É isso! Sabia que você ia me entender. 
– Quanto você já escreveu? 
– O mais importante. 
– Que é? 
– O fim. 
– Você tem o capítulo final. 
– Quase... 
– Quase como? 
– É... quer dizer, eu tenho o fechamento, a frase final. 
– A frase?
– Isso, a frase. O fechamento do romance, a chave de ouro, o ponto alto de toda uma história de amor.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...