Para minha mãe
No último domingo, comemorou-se o dia das mães, e todas as homenagens que se fizerem a elas são justas, merecidas e talvez ainda insuficientes. O “amor de mãe”, exemplo sublime em nossa espécie, merece sempre ser louvado, lembrado e enaltecido, e acredito que a parábola do filho pródigo seria mais verossímil se o papel do pai fosse feminino, com a mãe recebendo o filho que retorna. É certo que esse pai parabólico é maiúsculo, mas é a mãe o ser que mais se aproxima da divindade nesse nosso vale de lágrimas.
Desse modo, quero também homenagear minha mãe e entendo, nesses tempos bicudos que vivemos, que o que posso afirmar com mais convicção é que minha mãe sempre foi uma democrata. Diferentemente de tantas mães autoritárias, minha mãe sempre se pautou por apresentar opções aos filhos: apanhar ou não apanhar. Sim, sempre nos dava uma escolha a cada ordem dada: você podia (1)executar a ordem diretamente, sem discutir, logo sem apanhar, ou (2)discutir, apanhar e executar ainda mais rapidamente do que na primeira opção, porque, nesse caso, já havia perdido tempo comentando, apanhando e tomando o tempo dela.
Não bastasse esse livre arbítrio, dentro da segunda opção, para que não haja a menor sombra de dúvida quanto ao liberalismo e à liberalidade, minha mãe nos ofertava uma questão de múltipla escolha rápida, com duas opções, versando sobre a quantidade da surra. A opção standard era composta por apanhar e não chorar, com direito a algumas poucas lágrimas, sem mimimi (palavra que nem existia na época e também “porque nem tá doendo”) e uma “lavagem de cara” pontual. A opção extended era usada quando os princípios básicos da standard eram ignorados, precedida pelo mote “se chorar, apanha mais” e sucedida pela “lavagem de cara” ampliada, em que toda sua ficha criminal pregressa era relatada. Aí, com a liberdade total de escolha, era decidir pela mais conveniente. Particularmente, sempre tive gosto pela standard, acho que por um perfil pessoal mais minimalista.
Minha mãe foi diretora da escola de adestramento infantil que levava seu nome por mais de cinco décadas, até que os filhos crescessem e os tempos mudassem, tornando, para muitos, ultrapassada essa forma de ação educacional. Foram centenas de mães orientadas, treinadas e tituladas como especialistas sobre a égide da escola de adestramento comandada por minha mãe, a fim de que todos esses meninos e meninas “virassem gente”.
Hoje, por estarmos confinados devido à pandemia, não é possível estarmos nas ruas, mas, com frequência, ao sair com ela, encontramos vários exemplos de crianças que, certamente, teriam as vidas mudadas pela escola de adestramento de minha mãe. Birra, chilique, manha, esperneio, gritaria e toda uma gama de comportamentos infantis eram listados e ilustrados no “Manual da criança feliz”, obra escrita e constantemente reelaborada por minha mãe. Esse compêndio tinha o sugestivo subtítulo “Para ser gente”, sobre o qual minha mãe, em várias palestras educativas ministradas por todo o país, afirmava estar a base pedagógica dela, pois, se assim não fosse, poderíamos descambar para o “Parecer gente”.
Em alguns momentos, vejo que o modelo democrático de minha mãe bate asas pelo país, passando pela boca e pelas ações de muitos, não necessariamente vinculados à área pedagógica. Não tenho saudades desse regime de governo, assim como não acredito que os resultados foram (e são) convincentes, apesar de reconhecer a dedicação de minha mãe na implementação e na execução dele. Essa democracia materna não existe mais, apenas como lembrança bem-humorada em encontros familiares, nos quais as novas gerações possam se divertir e aprender que os valores da mátria são amorosamente diferentes dos da pátria.