segunda-feira, 25 de maio de 2020

Recado


você tentou se esconder.
no silêncio,
no anonimato,
nas sombras.
eu sei quem você é,
afinal nós dividimos o mesmo sonho na noite passada, não é mesmo?

nós nos olhávamos reciprocamente, tão longe, tão perto,
mas o relógio não permitiu que eu tocasse em você. não ainda.
esse momento não tardará.
nesse dia, não fará diferença com qual gênero estará vestido,
se estará nua ou neutro,
suas palavras serão esmagadas pelo meu verso.
claro e frio como o medo da noite.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Democracia mátria

https://bit.ly/2SXujtw

Para minha mãe

No último domingo, comemorou-se o dia das mães, e todas as homenagens que se fizerem a elas são justas, merecidas e talvez ainda insuficientes. O “amor de mãe”, exemplo sublime em nossa espécie, merece sempre ser louvado, lembrado e enaltecido, e acredito que a parábola do filho pródigo seria mais verossímil se o papel do pai fosse feminino, com a mãe recebendo o filho que retorna. É certo que esse pai parabólico é maiúsculo, mas é a mãe o ser que mais se aproxima da divindade nesse nosso vale de lágrimas.

Desse modo, quero também homenagear minha mãe e entendo, nesses tempos bicudos que vivemos, que o que posso afirmar com mais convicção é que minha mãe sempre foi uma democrata. Diferentemente de tantas mães autoritárias, minha mãe sempre se pautou por apresentar opções aos filhos: apanhar ou não apanhar. Sim, sempre nos dava uma escolha a cada ordem dada: você podia (1)executar a ordem diretamente, sem discutir, logo sem apanhar, ou (2)discutir, apanhar e executar ainda mais rapidamente do que na primeira opção, porque, nesse caso, já havia perdido tempo comentando, apanhando e tomando o tempo dela.

Não bastasse esse livre arbítrio, dentro da segunda opção, para que não haja a menor sombra de dúvida quanto ao liberalismo e à liberalidade, minha mãe nos ofertava uma questão de múltipla escolha rápida, com duas opções, versando sobre a quantidade da surra. A opção standard era composta por apanhar e não chorar, com direito a algumas poucas lágrimas, sem mimimi (palavra que nem existia na época e também “porque nem tá doendo”) e uma “lavagem de cara” pontual. A opção extended era usada quando os princípios básicos da standard eram ignorados, precedida pelo mote “se chorar, apanha mais” e sucedida pela “lavagem de cara” ampliada, em que toda sua ficha criminal pregressa era relatada. Aí, com a liberdade total de escolha, era decidir pela mais conveniente. Particularmente, sempre tive gosto pela standard, acho que por um perfil pessoal mais minimalista.

Minha mãe foi diretora da escola de adestramento infantil que levava seu nome por mais de cinco décadas, até que os filhos crescessem e os tempos mudassem, tornando, para muitos, ultrapassada essa forma de ação educacional. Foram centenas de mães orientadas, treinadas e tituladas como especialistas sobre a égide da escola de adestramento comandada por minha mãe, a fim de que todos esses meninos e meninas “virassem gente”.

Hoje, por estarmos confinados devido à pandemia, não é possível estarmos nas ruas, mas, com frequência, ao sair com ela, encontramos vários exemplos de crianças que, certamente, teriam as vidas mudadas pela escola de adestramento de minha mãe. Birra, chilique, manha, esperneio, gritaria e toda uma gama de comportamentos infantis eram listados e ilustrados no “Manual da criança feliz”, obra escrita e constantemente reelaborada por minha mãe. Esse compêndio tinha o sugestivo subtítulo “Para ser gente”, sobre o qual minha mãe, em várias palestras educativas ministradas por todo o país, afirmava estar a base pedagógica dela, pois, se assim não fosse, poderíamos descambar para o “Parecer gente”.

Em alguns momentos, vejo que o modelo democrático de minha mãe bate asas pelo país, passando pela boca e pelas ações de muitos, não necessariamente vinculados à área pedagógica. Não tenho saudades desse regime de governo, assim como não acredito que os resultados foram (e são) convincentes, apesar de reconhecer a dedicação de minha mãe na implementação e na execução dele. Essa democracia materna não existe mais, apenas como lembrança bem-humorada em encontros familiares, nos quais as novas gerações possam se divertir e aprender que os valores da mátria são amorosamente diferentes dos da pátria.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Curadoria


Fonte da imagem: https://bit.ly/3doGmYv 

Ennio Alberto Filho e Humberto Mendes

Em tempos de pandemia, separar o joio do trigo ganha um novo sentido: separar as fake news das (true?) news. Pode parecer redundante, mas é preciso considerar que, quando essa parábola foi contada (Mt 13, 24-30), o mundo era irremediavelmente manual (muito antes de ser analógico), bem longe destes tempos digitais em que já navegamos há anos. Além disso, há a questão de língua portuguesa, pois, afinal, temos em nosso léxico palavras ou expressões que poderiam substituir de maneira idêntica (às vezes melhor) “fake news”, mas optamos por manter essa forma tão consolidada (nos dois sentidos) em nossa sociedade.

Muitas são as palavras ou expressões que podem ser usadas para ilustrar o volume de informações circulantes atualmente, sejam elas fake ou não, e é importante saber usá-las, escolhendo a melhor opção, para que o objetivo a que nos propomos seja atingido. Uma palavra incerta é como uma laranja podre em um cesto.

Com frequência, o volume de informações parece conferir autoridade (ou poder) ao usuário independentemente da veracidade do que é afirmado. Ocorre, muitas vezes, que o leitor ou espectador se confunde em relação aos estratos em que informação, cultura e sabedoria se encontram, tomando uma pela outra indiscriminadamente. Em linhas gerais, a informação é ponto de partida, o fato, a ação. A cultura é um arcabouço ao qual essa informação se articula, em um jogo inter-relacional de certa complexidade. Já a sabedoria é o discernimento de identificar o que é informação, o que é cultura e como usá-las da maneira mais qualificada.

As fake news, em geral, estão mais vinculadas a notícias, apesar de que elas existem em todas as áreas, vestindo apenas outras roupagens. Quem já não se deparou com inverdades, incorreções ou ausências substancialmente estruturais de conteúdos verídicos, que, carinhosamente, chamamos de falsidades, erros ou mentiras? Quanto mais específico for o conteúdo, mais difícil será avaliar a veracidade e validade de uma informação, logo mais necessária será a voz de uma especialista.

Saber escolher as melhores opções é fazer curadoria, é discernir o que é relevante, é estar ciente da diferença entre o que é essencial e o que é fundamental, diferença essa tão bem explicada pelo Prof. Mario Sergio Cortella. Somos conscientes, é claro, de que escolher não é uma tarefa simples, como explica o pesquisador Barry Schwartz em um TED sobre o paradoxo da escolha (em inglês ou legendado), assunto que dá título a livro desse pesquisador, mas não há como viver sem fazer escolhas. Viver é escolher, ainda que seja por não viver.

Como separar o que é relevante do que é irrelevante neste contexto dinâmico e de crescimento exponencial de conteúdo em que estamos inseridos? Como saber o que usar, em quem ou em quais fontes confiar e como ter acesso ao trigo e não ao joio? Não é possível ser especialista em diversos assuntos, pois, se assim fosse, o multiespecialista seria um generalista, portanto não especialista, num jogo tautológico sem fim.

Na perspectiva do método científico, fazer a curadoria é saber, dentre as milhares de variáveis que supostamente interferem num fenômeno, quais delas realmente determinam (e como) o resultado final dele. Para esse fim, é preciso ter informação, cultura e sabedoria, lembrando que as duas primeiras são potencialmente acadêmicas, enquanto a terceira se constrói na experiência de saberes e na vivência de valores. Por isso a importância de uma educação, também atingida por essa avalanche informacional, que oriente e ensine os alunos a “curadorar”.

Independentemente das melhores escolhas ou não, uma curadoria pode ocorrer, ainda que de maneira corretiva. Uma escolha malfeita implicará o uso de outro sentido de curadoria, daquele que cura, que repara uma doença ou um mal, uma ação alopática. Todos nós sabemos que remédios são drogas e, por conseguinte, apresentam efeitos colaterais, ainda que de baixo espectro. Assim, para o bem desse processo, que também é o da conscientização da autoria do nosso destino, é melhor um curador do que um curandeiro.

Texto publicado originalmente no Linkedin:
https://www.linkedin.com/pulse/curadoria-humberto-mendes

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Da nacionalidade

se o pão de sal é dito francês,
o covid que nos mata é chinês?
não há relação entre as premissas, apesar da rima.
se você não percebeu, é melhor conferir o miolo.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...