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terça-feira, 22 de maio de 2018

A flor do cônego

Para Rita Capemba


por onde anda, Rita?
por que se retira para essas páginas que ninguém lê?

os lábios de absinto
o sinuoso sabor das selvas
as sonoras seivas incensadas
a serena sede da surpresa.

não há fé que viceje nesse feitiço.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte X (final)

Acordando assustado com um galo a rasgar o dia, levanta-se apoiando na parede e sente que o corpo todo dói. Tião Canjerê jaz, enfim, em definitivo, na mesa, e os primeiros raios de sol fecham a madrugada. Cobre o corpo do defunto, sai da casa e vê, não longe dali, o que deve ter sido a pocilga e um rastro de destruição na capoeira que parte dela.
Voltando para a casa, encontra-se com um grupo que segue, em procissão, para um sepultamento. Não há muitas pessoas, não reconhece nenhuma delas, mas percebe que a rede que leva o defunto é pequena, certamente uma criança.
Ao notarem o paramento do padre, todos param e pedem a bênção.
- Deus os abençoe, meus filhos. Que Deus receba esse irmão no Reino dos Céus.
- Amém, seu padre. – Respondem todos.
- É um menino?
- Sim, sinhô. É meu fio, Quincas, seu padi, que morreu onti dispois do almoço. Era um minino muito bão e, doentinho que tava, pediu que, morrendo, fosse enterrado logo que o galo cantasse.
Um brilho apavorante toma o pensamento do padre.
- Posso vê-lo? – Pede Xota apontando para a rede.
- Pode sim, sinhô. Faço até gosto que o sinhô abençoa o minino de novo.
Xota caminha até a rede e, com lentidão, abre não mais que um palmo entre as duas bandas que enrolam a criança. Não tem dúvidas: ali está o garoto que fora chamá-lo em casa. Seus olhos marejam, a visão se turva e uma breve zonzeira faz com que os pés dancem uma música surda.
- Acode, gente! – Grita um dos homens.
- Está tudo bem. Tudo bem. – Afirma Xota tentando se recompor. – Estou há muito tempo sem comer e me emocionei ao ver essa criança... tão jovem... – respirando fundo. Busca o que dizer e, em segundos: – Deus escreve certo por linhas tortas, e nós que aprendamos a ler, não é mesmo? – Diz sorrindo.
Os homens balançam a cabeça afirmativamente, e alguns améns são ouvidos. O padre os abençoa e busca o caminho da casa, enquanto a procissão segue para o cemitério.
Quando se afasta, uma dúvida salta à frente de Xota e o faz parar, virar e indagar:
- Seu Zé, o senhor conhece a Rita?
- Uai, padi, cumé que o sinhô sabe meu nome?
- O senhor me disse agora há pouco, não?
O homem balança a cabeça negativamente.
- Desculpe-me, senhor. Tive uma noite difícil e certamente esse nome me veio à mente.
O homem balança a cabeça e responde:
- Não, padi. Não cunheço essa Rita.
- A família Pemba, o senhor conhece?
- Só os minino da banda, mas num temo amizade não.
- Está certo, então. Muito obrigado, seu Zé.
- Eu inté vi esses minino Pemba onti à tarde, padi, lá no cemitério, no enterro do Tião Canjerê.
As palavras faltam à boca do padre.
O homem prossegue:
- O Tião, o sinhô cunheceu? Morreu antes de onti e nós enterremu onti à tarde. Sofreu muito esse: umas dor, umas doença... foi muito triste... pediu muita ajuda antes de morrê... mas descansô o pobre coitado. Deus teve piedade – e faz o nome do Pai.
Xota não sabe mais o que pensar, nem como pensar. Olha o pulso e percebe o hematoma no local em que Tião o havia agarrado. Conclui, mudo, o restante do caminho até chegar em casa.
Ao descansar a aldraba, encontra-se com a mãe no corredor e ouve:
- Acabou, meu filho. Acabou. Deus teve piedade de nós.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte IX

Em pé, Pe. Xota segura a mão de Tião e, ofegante, sente as pernas tremerem. Respira aliviado pela paz que reina naquela cozinha, quando se lembra da condição de Tião. Busca alguma palavra na boca seca e, com custo, encontra as seguintes:
- Tião... Quer dizer, Sebastião... É hora dos mundos se separarem, pois ainda não é o momento dos mortos se levantarem. É hora de desligarmos na terra o que já foi desligado no céu e pedirmos que a ligação seja refeita segundo a vontade do Pai.
- Padre, quero tomar uma caneca d’água antes de ir. Minha estrada é longa e pode ser que não consiga nem molhar a ponta da língua até lá.
Xota balança afirmativamente a cabeça e larga a mão de Tião. O ex-feiticeiro caminha pela cozinha até a bilha, mas descobre que ela não está mais no local de sempre. Olha para Xota e espera alguma ajuda.
O padre se lembra de que fora atingido pela bilha e que essa se quebrara em inúmeros pedaços. Não há mais bilha, nem água. Olhando ao redor, percebe um brilho no chão, pequeno e oscilante, e se dá conta de que é o reflexo da vela em sua navalha. Caminha para apanhá-la, mas, antes que o faça, Tião se lança a sua frente e recolhe a arma.
Um sentimento de horror percorre seu corpo, e ele vagarosamente caminha para trás, buscando se afastar de Tião. Não sabe o que se passa na cabeça daquele gigante, morto em um mundo, vivo em outro, preso em uma realidade que não consegue explicar e, agora, armado.
Tião segura a navalha aberta com extremo zelo, enquanto os segundos passam minutamente. Num átimo eterno, caminha em direção ao padre com a navalha em punho. Xota estremece e tenta organizar o pensamento para uma resposta ao que acontecerá em breve, embora o pavor não permita que as ideias se encadeiem.
Junto ao padre, em movimentos bem lentos, Tião estica o braço em que navalha está segura.
O padre recua.
Tião leva a arma à boca. Uma língua bovina se mostra e toca uma solitária gota de água que insiste em deslizar no cabo oleoso da navalha. Há uma expressão facial de êxtase, a navalha é fechada e oferecida gentilmente ao padre, que a recolhe com a mão trêmula. Tião se vira, caminha até a mesa e se deita sobre ela, da mesma forma em que se encontrava quando Xota chegou.
- Obrigado, Padre. Agradeça também a sua mãe por mim.
Não há mais nenhum movimento de Tião, e Xota queda-se esgotado por aquela história tão singular. Os olhos pesam e lhe trazem um sono sem sonhos.

***

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte VIII

Nesse momento, uma ideia rasga sua mente e invade seu coração de forma incontinenti.
- Levanta, Tião! Saia desse chão frio. O que nos faz humanos é a palavra, e não há bestas no mundo que enfrentem nossas letras.
Um leve tremor sacode a casa.
- Venha, Tião! Levanta daí porque um novo dia vai começar! – Profere Xota com energia e determinação. – Aquele Tião, feiticeiro, conhecido por todos como Tião Canjerê, morreu ontem e há de buscar seu descanso eterno. Aqui, agora, nasce um novo Sebastião, que até então dormia e que foi desperto, que cria, mas não admitia, que mastigava, mas não se alimentava, que existia, mas não vivia!
Tião, no chão, com as mãos nos ouvidos, se contorce selvagemente. Uma onda de guinchos demoníacos se ouve e, enfim, as velas crepitam. Xota transpira de forma caudalosa, e sua voz cresce à medida que a casa treme de pavor.
- Sebastião, sua vida será curta nesta terra. Assim como um punhado de grãos de areia não faz um deserto, um punhado de bestas não faz a danação. A graça de Deus é um dom, que pode ser recebido por qualquer homem, mesmo que seja um pecador, basta que ele se arrependa e tenha fé.
Uma bilha de barro, até então invisível, surge arremessada do meio da noite e atinge fortemente o rosto do padre. Xota vai ao chão, encharcado pela água, ferido pelo forte impacto e com o supercílio cortado, no qual uma trilha de sangue escorre pelo olho em direção à boca. Tonto, numa noite vermelha, se esforça para levantar, passa o braço pelo rosto para limpar o sangue e busca forças para concluir seu objetivo.
- Sebastião, levanta daí! Me dê sua mão. O Senhor espera por você, e esse caminho é longo. – Estica a mão para Tião, segura a mão dele e, com uma força assombrosa, puxa aquele gigante para cima. Ao vê-lo de pé, ainda que vacilante, Xota grita bestialmente:
- Nesta casa, só há um Deus! Nesta morada – batendo a mão no peito de Tião –, só há uma vida! Para vocês, que esperam ser uma legião, todos os porcos serão pouco! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
A casa emudece instantaneamente e, lá de fora, o gemido dos porcos enche os ares. Ainda que porcos se atirem de um precipício, não há som mais aterrorizante do que o proveniente da pocilga. Os animais estão loucamente barulhentos, transtornados, e não demora muito para que se ouça o estalar do cercado que os prende e o galopar infernal daquelas bestas. Um rastro sonoro de destruição é ouvido à medida que aquele tropel se afasta da casa, e a noite torna, cautelosamente, a ser negra e muda.
***

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte VII

A resposta foi tão incisiva e dilacerante, que interrompe bruscamente o arrebatamento de Xota. Os dois homens param à média distância e se olham.
- Padre, me ajuda a morrer!
Xota cambaleia para trás e se apoia em uma das paredes.
- Me ajuda, padre! Não me deixa assim!
Encostado na parede, um brilho de lucidez acende em Xota e algumas palavras se mostram:
- Tião... pelo amor de Deus... que feitiçaria é essa?
- Padre, eu quero morrer.
Xota precisa ensaiar algumas vezes para que as palavras saiam naquele momento.
- Tião... Você não tem pulsação, não está respirando e o fogo não queima você... Você está m... mor... morto... Tião.
- Eu sei, padre. Eu sei que eu já não pertenço mais aos vivos, mas eles não me deixam entrar no mundo dos mortos.
Uma onda de horror anuncia as palavras trêmulas do padre:
- E-eles... q-quem... Tião?
- Eles, padre. – E gira o dedo pela cozinha apontando os quatros cantos. Nesse momento, os sons mais bestiais são ouvidos: gemidos, zumbidos, urros, guinchos, rosnados, sons humanos em diferentes línguas, ofensas, risos, gargalhadas satânicas e todo tipo de som que faria tremer qualquer rocha da terra.
Todos os pelos de Xota se levantam e um calafrio polar comprime sua espinha. O rosto de Tião se contorce de dor, enquanto as mãos tampam os ouvidos, tentando, inutilmente, se proteger daquela canção nefasta.
- Me ajuda a passar, seu padre! Pede a Deus por mim!
Uma risada histérica e coletiva é ouvida nesse momento. Tião cai de joelhos, tampando loucamente os ouvidos.
Xota, atônito, tenta organizar o pensamento para fazer alguma coisa, mas tudo aquilo é diferente de mais para ele. Anos de seminário e estudo, dias após dias de oração e reflexão, momentos vários de penitência... nada, naquele momento, faz sentido. Que fantástico mundo é aquele em que se encontra e que nenhum livro, professor ou monsenhor mencionou, mas que é extremamente real e palpável? A ciência explica esse fenômeno bárbaro? Como aquilo terminará? Por que naquele momento, justamente naquele momento, está sozinho, desacompanhado?
Lembra-se das Ritas – da Pemba e da Santa – e uma gota de luz nasce em sua mente. Nas trevas da alma, percebe que aquele homem caído no chão precisa de sua ajuda. Com a mente desgovernada, as possibilidades vão surgindo e sendo descartadas uma a uma: extrema unção (já está morto), exorcismo (não é possessão), unção dos enfermos (não é doença), penitência (não é cristão).

***

domingo, 15 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte VI

- Padre, me ajuda! – Grunhe Tião.
- Deus do céu! – Grita Xota.
- Padre, me ajuda! Não me deixa assim!
Xota, coberto de horror e pânico, tenta se desvencilhar daquela criatura agora reanimada, mas, quanto mais se debate, mais Tião Canjerê aperta-lhe o braço. Na tentativa de Xota se distanciar da mesa, o ex-defunto se desequilibra e vai ao chão, ainda firme no pulso do padre.
- Que brincadeira dos infernos é essa, Tião? Me solta!
- Padre, me ajuda. Eu não posso ficar assim.
Um cheiro fétido toma conta da sala e nauseia Xota, que, encharcado de suor, nos limites de sua força, usa fortemente os pés para se afastar da criatura. As têmporas, inundadas de medo, tingem-se de branco, num envelhecimento que engole dias, meses e anos em fração de segundos. Livre de Tião e tentando se manter em pé, contorna a mesa, deixando-a entre eles.
Enquanto Tião levanta, Xota percebe que o homem está completamente nu, em pelo, e parece ainda mais infernal agora, com manchas multicores que tomam aquele corpo obeso.
- Fique longe de mim! - Grita energicamente o padre.
Tião Canjerê para e observa o padre por longos segundos. Em seguida, se dirige a uma das velas e coloca a mão na chama. O padre olha horrorizado aquele flagelo, sem a menor contração de dor por parte de Tião.
- Que feitiçaria é essa, Tião? – Grita o padre. – Meus Deus, me ajuda! Não me abandone!
- Padre, me ajuda.
- Que brincadeira é essa, Tião? Se você não está morto, por que me chamaram aqui?
Tião não responde.
- Responda, Tião! Que brincadeira de mau-gosto é essa?
A cada não resposta, o pavor se avoluma na alma de Xota, e as preces parecem palavras jogadas ao vento. Toda aquela confusão e nem uma viva alma aparece na cozinha, do mesmo modo as velas estão mudas, sem um estalo ou leve crepitar. Esse quadro pinta uma imagem mortal e demoníaca na mente de Xota, que, já sem saber o que fazer ou como enfrentar aquele demônio, sente um objeto em seu bolso (aquele colocado pela mãe) e leva instintivamente a mão até ele. É uma navalha.
Nesse momento, uma explosão de cólera surge dentro dele e, com a navalha em mãos, ruma em direção a Canjerê:
- Ou você me responde, demônio, ou eu mesmo te mato!
- É disso que preciso, seu padre. – Responde humildemente Tião. – Morrer!

***

sábado, 14 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte V

Enfim Xota descobrirá que história é essa e o que ela tem de tão extraordinário. Com passos curtos, mas decididos, ruma para a casa que tem a porta aberta. Ouve, nesse momento, o ruído de porcos e sente o cheiro da pocilga, mesmo sem identificar onde estão. Para na entrada da casa, faz uma breve oração, aperta fortemente o terço com as mãos e segue.
Ao transpor aquele umbral, diz em voz baixa:
- Que a paz do Senhor esteja nesta casa!
Um estrondo enorme responde àquela saudação e faz Xota parar. O padre não entende o que pode ter causado tamanho barulho àquela hora, mas está certo de que os vizinhos não passarão impunemente àquele ruído.
Aperta o terço, engole a saliva que parara em sua boca durante a explosão e, passando por aquele primeiro cômodo, uma espécie de sala com apenas um tamborete em um dos cantos, chega à cozinha. Nela, deitado sobre uma mesa, cercado por quatro velas acesas, um corpo enorme coberto por um pano branco.
Conheceu Tião de vista, encontrou-se com ele muitas vezes pela rua ou em alguma visita para os lados do Rosário, mas não se lembra de ele ser tão grande, tão gordo. Faz o nome do Pai e se aproxima do corpo, suspendendo o tecido na região que acredita estar a cabeça. Realmente. Ela está enorme, inchada, com longos hematomas sob os olhos, os lábios rijos, dando a nítida sensação que os dentes estão cerrados, a cabeça muito próxima do tronco, criando o efeito de não possuir pescoço, além da pele muito manchada na região dos ombros.
A pele está com um tom diferente, algo puxado para o verde, e tem um aspecto áspero, não parecendo em nada humana. Volta o tecido ao lugar e se dirige ao outro extremo da mesa, levantando aquela espécie de lençol e observando os pés, que estão incrivelmente inchados. Nunca havia visto uma perna naquele estado, tão taturanada. Cobre os pés do morto e corre os olhos pelo ambiente aguçando os ouvidos à busca de algum sinal de vida naquela casa.
Nada.
Caminha até a outra porta da cozinha e tem a certeza de que está só, de que todos evitam velar o corpo daquele feiticeiro, certamente com medo de encantamentos pós-morte que circulam entre as fantasias de pessoas sem fé. Vira-se, faz o sinal de cruz e resolve que acabará com aquilo logo, o que muito trará paz a seu coração e conforto a seu corpo ao reencontrar sua casa e o fim da madrugada.
Enquanto se aproxima, imagina como aquele homem tenha morrido, pois são notórias a dor e a lamúria de quem padece de nó-nas-tripas. Lembra-se de seu tio-avô Ezequiel, médico, e do tratado escrito por ele na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro sobre o rigor mortis. Pe. Xota havia lido esse texto há pouco tempo e, movido por um misto de ciência e curiosidade, resolve descobrir há quanto tempo, aproximadamente, aquele homem havia morrido.
Próximo ao meio da mesa, onde estão as mãos do defunto, levanta o pano e segura o pulso esquerdo do, agora, ex-feiticeiro. Nenhuma pulsação, nenhum calor, ao contrário, um toque viscoso em uma couraça que um dia foi pele. Ainda segurando o pulso do morto, ouve um ruído na sala próxima e, antes que possa se virar, sente uma garra prender-lhe o pulso.
***

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte IV

Sobem em direção ao alto do Rosário em silêncio sepulcral. Ao passarem pela igreja, fazem o sinal de cruz, e Xota puxa conversa:
- Quincas, você é o que do Tião?
- Nada, seu padre.
- Você o conhece de onde?
- Do terreiro.
- Que terreiro, menino?
Quando percebeu, Quincas já havia falado.
- É... Não, seu padre... É do terreiro da... É...
- Você também é feiticeiro, menino?
- Não, seu padre. Não, senhor.
- Quando você saiu, ele já tinha morrido?
- Não, senhor.
- Não?
- Não, seu padre. Quer dizer... mais ou menos...
- Como mais ou menos, menino? Ninguém morre mais ou menos!
- Num sei, seu padre. Eu tava com muito medo. Num vi direito.
A irritação do padre só cresce, pois sabe e sente que o menino não relata toda a história.
Completam mais alguns longos minutos em silêncio até encontrarem algumas casas perdidas no meio do nada.
- É aquela ali, seu padre.
- Então, vamos.
- Eu não, seu padre.
- Por que não, menino?
- Tô com medo. Muito medo.
- Medo de uma pessoa morta, menino?
- De morto eu não tenho medo, seu padre. Só de vivo – e corre loucamente para o meio da escuridão.

***

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte III

Quincas balança a cabeça afirmativamente sem dizer uma palavra. Pe. Belchior conclui que o pavor do menino não permite uma resposta precisa e, pedindo que o garoto aguardasse um minuto, se dirige ao quarto. Nas longas tábuas que rangem sob seus pés, encontra-se com o pai:
- O que foi, Xota[1]?
- Nada, meu pai. Um pobre coitado que veio pedir a palavra de Deus como salvação na hora derradeira.
- A essa hora?
- Não há hora para morrer, não é mesmo?
- É verdade, meu filho. Tem razão. Mas você não é pároco, por que vieram procurá-lo?
- Acredito que todas as coisas estão na mão de Deus, e Ele sabe o que faz.
O pai avalia a força daquelas palavras e diz:
- Que Deus o abençoe, Xota. Proteja-se do frio e não atravesse a noite sem necessidade.
- Obrigado. Sua bênção.
- Que Deus te abençoe, meu filho.
Pe. Belchior não está firme em sua convicção de atender àquele chamado, mesmo que Rita esteja envolvida, mas a conversa com seu pai sela sua partida. Vai até o quarto, apronta-se, recolhe os objetos necessários e o paramento, ajeita o barrete sobre a cabeça, o guarda-chuva sobre o braço e, quando volta à sala, ouve a voz da mãe:
- Xota, você já fez a barba?
- O que, minha mãe?
- A barba, meu filho. Você já fez?
- Ainda é noite alta.
Queta varre com os olhos o ambiente pouco iluminado, busca o rosto do filho e diz:
- Ah, sim. É verdade. Você está certo, meu filho. – Aproxima-se dele, passa a mão por seu rosto, beija-o e, sem que Xota perceba, coloca algo no bolso dele.
- Obrigado – agradece à mãe e segue para a sala.
Henriqueta observa atentamente o caminho do filho.
 - Vamos, Quincas! Vamos descobrir o que nos espera. Que Deus nos abençoe.
Belchior, o pai do padre e que repetira o nome no filho, observa Xota saindo sozinho da casa e sente-se estranho, pois ouvira vozes na sala. Caminha até a porta, abre uma mínima fresta e observa, ao longe, que o filho anda sozinho pela rua.
Ao voltar para o quarto, ouve de sua esposa:
- O Xota não devia ter ido só.
***




[1] O nome Belchior, no século XIX, formava um diminutivo carinhoso como “Belchiorzinho”, “Belchotinha” e, por redução, o “Xota”. A palavra xoxota, considerada de origem banta, não deveria ser comum como o é em nossos dias, logo a utilização da alcunha Xota não devia causar estranhamento, mesmo em um religioso.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte II

- Me diga seu nome primeiro. – Disse o padre.
- Quincas, seu padre.
- Conheço você?
- Não, senhor.
- Você me conhece?
- Sim, seu padre.
- De onde?
- Da missa no Rosário.
- Você é filho de quem?
- Dos meus pais, seu padre.
Sem a condição de medo do menino, o padre teria ralhado com essa resposta.
- Me fala o nome do seu pai e da sua mãe, menino.
- Zé e Maria, seu padre.
- Você é parente da Rita?
- Não, seu padre.
- Então, você não é Pemba?
- Não, seu padre.
O garoto leva as mãos à boca apertando o rosto fortemente.
- O que foi, meu filho?
- A Rita pediu pro senhor acudir um vizinho dela que tá morrendo.
- Por que você está segurando o rosto?
- Tô segurando meus dentes. Fico ainda mais nervoso com eles tremendo.
- Acalme-se, meu filho. Agora está tudo bem.
- Não tá não, seu padre.
O garoto balança o rosto negativamente e, soltando as mãos rapidamente, cobre-se com o sinal da cruz repetidas vezes. O padre coloca a mão no ombro do garoto e diz:
- Está tudo bem. Deus está conosco.
Com essa presença, o garoto relaxa a musculatura dos braços e respira mais pausadamente, ainda que sem perceber esse movimento.
- Me conta o que está acontecendo.
Quincas, ainda encostado na parede, tenta falar, mas a sequidão da boca o impede. Demora alguns segundos para encontrar o ponto de fala e diz:
- A Rita mandou que eu procurasse o senhor, seu padre, e pedisse que fosse acudir o Tião. Ele tá morrendo.
- Ele está morrendo?
- Sim, senhor. – Repetindo o sinal da cruz.
- Eu conheço esse Tião?
- É o Canjerê, seu padre.
- Tião Canjerê? O feiticeiro?
- Não, senhor, seu padre. Não, quer dizer, sim, senhor, seu padre... É...
- É ele ou não é?
- É, seu padre.
- Ele é feiticeiro, não é cristão e não acredita em Deus, meu filho. Como posso ajudá-lo?
- Foi a Rita que pediu depois que ele morreu.
- Como assim depois que ele morreu? Você disse que ele estava morrendo.
- É, seu padre.
- É o quê?
- Morrendo, seu padre.
- Ele morreu ou não morreu, Quincas?
- Tá morrendo, seu padre, já deve ter morrido.
- Ele estava doente?
- É nó-nas-tripa.
- O médico não foi chamado?
- Isso é coisa de rico. O povo é pobre, seu padre.
- A que horas é o enterro?
- Não sei, seu padre.
- Avise a Rita que estarei lá às 6 horas para a encomendação.
- Não, seu padre, o senhor tem quer ir comigo. A Rita pediu que eu não voltasse sem o senhor.
- Meu filho, se o homem já morreu, não adianta ir agora. Quando o dia clarear, irei e farei a encomendação do corpo.
- Não, seu padre, pelo amor de Deus! Não me deixa voltar sozinho. A Rita falou que o senhor ia voltar comigo, e o Tião pode tá precisando do senhor. Salva a alma dele, seu padre!
Pe. Belchior começa a pressentir que a história não está bem contada, que há algum detalhe não mencionado pelo garoto que justifique aquele horror e o pedido naquela hora.
– Quincas – disse o Padre se aproximando do garoto e deixando a vela entre os dois –, o que você ainda não me contou sobre esse caso?
O garoto baixa os olhos.
- Quincas, olhe pra mim. Tem alguma coisa errada nessa história e você ainda não me contou. O que é?
O garoto treme novamente sem olhar para o padre.
- Quincas, o Tião morreu ou não morreu?

***

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Um estranho caso - parte I

Para Henry Jekyll e Edward Hyde
***
Este texto espera ser um conto de terror,
fruto de um sonho inconsequente.
***
São Bento do Tamanduá, 22 de maio de 18--.

O breu da noite esvazia as ruas e afasta qualquer possibilidade de uma alma perdida perambular pela cidade numa hora como essa. Na Porcena, não há mais trabalho, as meninas se recolhem, as últimas velas são apagadas, e os bêbados mais exaltados jazem pela calçada desacordados em sonhos que não entendem e dos quais não se lembrarão no dia seguinte.
Pela terra batida chamada de rua, apenas o frio vento da madrugada a buscar frinchas para uma melodia lúgubre, sinistra e apavorante. Todos dormem.
A matriz em construção espera o sol raiar para voltar às obras, e um relógio sonâmbulo, rebelde, insiste em quebrar o silêncio anunciando a terceira hora da madrugada; com ela, surgem passos apressados pela rua morta. O som abafado não deixa dúvidas de que são pés descalços, e a fluência apertada e temerosa indica pressa.
As passadas param, e ouve-se o som de uma nervosa aldraba. À frente da casa do recém-ordenado Pe. Belchior, um garoto de não mais de 10 anos treme de medo e de frio, ansioso pela abertura da porta. Não há resposta. A hora está morta. O garoto, aflito, olha para os lados repetidamente pedindo a Deus que mantenha a rua vazia e que ninguém apareça, vivo ou morto, naquele momento.
A aldraba nervosa soa novamente. Do lado de dentro, o padre já está sentado na cama, com ouvidos atentos, aguardando a confirmação daquele som, que bem poderia ter saído de seu sonho. Ao ouvir a batida morta, levanta-se, veste-se apressadamente sobre o pijama, tateia o criado em busca dos fósforos, acende a vela e, com o castiçal em mãos, ainda descalço, caminha em direção à porta.
Encostado à porta, aguarda que aquela mão insistente diga alguma palavra que justifique essa visita. Ao sentir que a aldraba seria molestada novamente, impede rispidamente a ação.
- Quem é?
- Careço de falar com o padre. – Respondeu o garoto entre a tremedeira dos dentes.
- A uma hora dessas?
- É caso de vida e morte.
- Por que não procura o médico?
- Ele num ia arresolvê agora mais. Tô vindo a pedido da Rita Pemba.
Nesse momento impensável, um nome impensável. O padre coloca o castiçal no chão, destrava a porta e vê, como um raio, o garoto entrar e se encostar na parede com as mãos espalmadas. Fecha a porta, recolhe o castiçal e aproxima a vela do rosto do garoto. A expressão de pavor é nítida: os olhos esbugalhados, os lábios arroxeados e ressecados, a respiração descompassada e a musculatura da face revelando a cerração dos dentes.

***

domingo, 22 de maio de 2016

Autopsicografia

Para meu tio Belchior, o cônego, no dia de Santa Rita

Agradecimento a Fernando Pessoa

O poeta é um mentidor.
Mente tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem sua mente,
Na dor lida sentem bem,
Deveras sabem que ele mente,
Mas só nas palavras que eles não veem.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a (não)razão,
Esse comboio de corda
Que é o meu coração.

terça-feira, 2 de março de 2010

Capítulo I

Mais um dia de chuva.
As ruas enlameadas dificultam o vaivém das carroças, mulas desapressadas cortam o barro úmido, enquanto cavaleiros se equilibram em cavalos equilibristas. A manhã de março não traz o cotidiano à rua, e São Bento do Tamanduá dorme ao revés de galos que espantam a neblina.
Na casa do Major, o assoalho de madeira degusta passadas rápidas em um movimento freneticamente mudo. Henriqueta, no quarto, com o auxílio de Sinhá Rita, inicia as contrações que trarão ao mundo mais um rebento. O Major, ansioso, enumera os cigarros um atrás do outro, com tragadas longas e baforadas rápidas, enquanto espera o médico.
[...]

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...