Ao primeiro chamado não se ouve resposta.
– Dona Quiméria! – insisti.
Ouvi, então, o roçar de patas no chão. Era o Chicão que vinha ao portão, incrivelmente silencioso, apenas atentamente me observando. Aproximou-se do trinco e, mantendo-se em duas patas apenas, com um golpe único fez com que o portão se abrisse. Como eu não entrava, Chicão se assentou.
Eu sabia que, quando estivesse do lado de dentro, com o portão fechado, não haveria problemas, pois o Chicão se transformaria no Luizinho, mas, como a travessia de mundos não é para qualquer um, mantive minha indecisão. Não posso dizer o mesmo de Chicão, que, talvez cansado de me esperar, virou as costas e voltou para dentro de casa.
Passei pelo portão trancando-o e segui casa adentro.
– Dona Quiméria! – chamei novamente.
Nenhuma resposta. Chicão apareceu e, silenciosamente, pediu que o seguisse. Atravessamos a casa e chegamos ao quintal, avistando Dona Quiméria sentada num banco. O cachorro se aproximou dela e se deitou.
– Puxa a cadeira, meu fio!
Avistei um banco e o peguei me acomodando ao lado dela. O ar estava quieto e percebi que Dona Quiméria olhava fixamente para o infinito.
– Como a senhora está, Dona Quiméria?
– Bem, meu fio. Com a graça de Deus, bem.
– Tô achando a senhora um pouco abatida.
– É impressão sua.
Não era impressão minha. Os olhos vivos de Dona Quiméria não brilhavam como de costume.
– O que a senhora faz aqui, sentada nesse banquinho?
– Tamo esperando.
– Esperando quem?
– A chuva, meu fio.
– A chuva?
– Isso memo, meu fio. A chuva. Só ela vai limpá essa lambança.
– É, Dona Quiméria, a lambança tá brava.
– Bota braba nisso. Da última vez que nóis nos vimo, naquele dia em Lourdes, nós lavamo a entrada da Sede e deixamo tudo pronto pro time deslanchá. Mas num deu. Eles enganaru a gente.
Deixei que ela prosseguisse.
– Nosso time é de Galo, meu fio. Eles esquece disso. Encheram o time de pato, de marreco, de pavão, até faisão tem, mas Galo memo que é bom tá faltando. É pur isso que o time não deslancha. Falta gente pra jogá futebol. É pur isso que o Chicão fica preto desse jeito.
O medo da travessia não permitiu que percebesse como o Chicão estava mais betuminoso.
– Nós num guenta, meu fio. Nós num guenta.
O céu cinza emoldurava o desabafo de Dona Quiméria: sentada, queixo escorado na mão esquerda e a direita livre para gestos esporádicos, tendo aos pés o cão, que, deitado, mantinha a cabeça entre as patas da frente. O som da espera.
– Nóis num vota, nóis num frequenta a sede, talvez nem deixem a gente entrá lá ou memo visitá a Cidade do Galo, mas nóis somo esse time. Se não fosse nóis, o Grorioso seria apenas mais um clube como tantos que tem por aí. Nós tamo numa draga danada, mas continuamo a leva mais gente na Arena do Jacaré. Como dizia o velho Caneteiro, “O melhor do Atlético é o atleticano”.
– O Dorival chegou e talvez agora as coisas melhorem.
– Já passô da hora, meu fio. Já passô da hora. Se eles tivesse ouvido o Caneteiro e colocado a estrela vazada na manga da camisa, talvez nóis num tivesse nessa draga agora.
– Estrela vazada?
– Isso, meu fio. O Caneteiro difindia que nóis tivesse uma estrela vazada na manga da camisa para num mais esquecê o inferno da segundona. Pra mostrá pras novas gerações, ainda que com dor e amargura, o que nóis fomo um dia e pra nunca mais deixá isso acontecê, pra mostrá que nóis aprendemo com os erro do passado. Que nóis somo muito maió que um campeonato, que uma divisão, que um clube comum. Que nóis somo branco, somo preto, preto e branco, branco e preto, e que nóis num deixamo de acreditá nunca. Nem morto! – concluiu ela levantando o braço direito com o punho fechado.
Nesse momento, o cão saltou e latiu como quem parte para a guerra. No horizonte, um primeiro raio pincelou aquela cinzura.
– Dona Quiméria, vamos entrar. Daqui a pouco vai começar a chover.
– Meu fio, tamo esperando a chuva. S’nóis entrá na hora que ela chegá, de que adiantou esperá?
– A senhora pode pegar uma gripe.
– Nóis treis tamo acostumado, meu fio.
– Nós três?
Dona Quiméria levantou o dedo indicador direito e apontou em frente. Nesse momento, percebi, no fundo do quintal, pendurada no varal, a camisa do Atlético. Desde minha chegada, era esse o infinito particular de Dona Quiméria.
– Meu fio, nóis tamo acostumado a enfrentá qualquer coisa.
Em seguida, a chuva desceu com força e o vento sacudia a camisa no varal de todos os modos. Na chuva, Dona Quiméria pulava e agitava as mãos, enquanto Chicão saltava e mordia aqueles pingos chuvosos, na euforia do gol que levanta a Arquibancada.