Não sou decorador, nem arquiteto, tampouco designer de interiores. Sou apenas um homem de letras que se propõe a tecer alguns comentários: hoje, sobre ambientes. Permita-me leitor que me apresente: sou o Caneteiro Maluco. Caneteiro pelo ofício de redigir utilizando canetas e Maluco, pelo gosto daqueles que me conhecem.
Nos últimos dias tive a oportunidade de conhecer dois ambientes bem distintos, mas que pensando bem possuem suas semelhanças. O primeiro deles foi um sofisticado e conceituado salão de cabeleireiros, e o segundo foi o Centro de Oncologia e Quimioterapia de um hospital em Belo Horizonte.
Na cortança de minhas madeixas, conhecia apenas as peculiares barbearias e seus calendários que mostravam a anatomia feminina. É verdade que senti a falta daquele português bem falado das barbearias, onde adjetivos, pleonasmos e boas mentiras temperam o ambiente, mas é interessante conhecer outros ares.
O salão de Cabeleireiros era claro, limpo, bem arejado e com pessoas sorridentes e bem humoradas na labuta. Não há divisão de ambientes, todos se vêem e se controlam mutuamente. Atendem-se homens e mulheres, diferentemente da barbearia, onde as mulheres se encontravam nas paredes. Serviços são feitos aos montes, desde cortes simples, pés e mãos até as balayages. O que é balayage? Tive que consultar o universo feminino para entender que é algo feito nos cabelos. Para mim foi suficiente a explicação.
Sentado enquanto esperava ser atendido, observava as pessoas que chegavam. Fofinhas, roliças, rotundas e filiadas a esta categoria prevaleciam lá. Deixo claro que nada tenho contra elas, ao contrário, têm o meu apreço e a minha atenção como pode se observar. E cada uma que chegava, ao aproximar-se de algum dos cabeleireiros dizia: “Boa Tarde! Hoje vim fazer aquilo!” ou “Hoje eu vou fazer.” E nada mais. Para falarem tão pouco e dizerem tanto, devem ser sócias de carteirinha do salão. E realmente algumas precisavam estar ali constantemente. Pouco antes de ser chamado, ouvi um presunto bem apessoado dizer: “Será que vai ficar bom?” Estávamos em um salão ou em uma clínica de cirurgia plástica? O presuntinho não sabia.
Os excessos à parte, havia também mulheres que não necessitavam estar ali. Tenho um amigo que usa a seguinte frase: As belas vão ao salão apenas para administrar a beleza; as feias, para tentar o impossível.
Deixo o salão de lado e passo ao Centro de Quimioterapia. É uma sala ampla de espera, bem iluminada e arejada e pintada com cores discretas. A recepção dá o aspecto de ante-sala à sala de espera principal, um pouco pleonástico, mas assim mesmo. As pessoas falam baixo e procuram fazer silêncio. Ao entrar cumprimenta-se a recepcionista timidamente, diz-se nome completo, horário da consulta e se particular ou convênio (nem sempre nesta ordem). “Pode se assentar e aguardar” diz a recepcionista e educadamente respondo: “Obrigado”.
Ali as pessoas não conversam entre si; eventualmente, um consultante e o acompanhante trocam algumas palavras rápidas e param. Não que seja proibido conversar, mas a vontade das pessoas é ficar em silêncio, ou melhor, a vontade talvez seja sair daquele local o mais rápido possível e encontrar o sol que brilha lá fora.
Para que falar se alguns que ali estão sentem-se no corredor da morte? A expectativa de laudos e exames silencia o lugar e as pessoas. A TV de vinte e nove polegadas enfeita o local: não há vontade de se ver nada, principalmente em dias de apagão.
Surge um garoto, dez anos aproximadamente, com a cabeça calva e o olhar distante. Acompanhado, caminha com dificuldade. Penso que muitos de nós lutamos por melhores empregos e salários e vejo uma luta em um nível diferente, vital. Aquele garoto briga diariamente contra a doença e contra si mesmo, tentando vencer o desânimo e apatia que surgem dentro de si.
Penso na frase do presuntinho do salão e descubro o quão parecido são os ambientes. Todos procuram a beleza e a alegria de viver. A beleza e alegria vivem juntas, ou deveriam viver. Alguns buscam a beleza que não têm; outros, aquela que perderam. Vejo que as outras frases do salão se encaixariam perfeitamente no Hospital, pouco ou nada se alterando.
Antes de terminar este texto recebo um e-mail intitulado CANCER, com um anexo e sem texto do remetente. Em anexo, o pedido de ajuda a uma Instituição que trata de crianças com câncer. Lembro-me do professor de português que corrigia as provas com uma caneta vermelha, rabiscando as palavras escritas de maneira não correta e dizendo: Isso não existe! Que inveja tenho dele! Que vontade de rabiscar este CANCER sem acento circunflexo e dizer que ele não existe, que é uma farsa.
Enquanto espero que o tempo me dê esta caneta vermelha, torço para que o garoto não desanime da beleza de ver o dia seguinte.
Divulgado originalmente em 31 de julho de 2001.