sábado, 31 de julho de 2010

Beleza

Não sou decorador, nem arquiteto, tampouco designer de interiores. Sou apenas um homem de letras que se propõe a tecer alguns comentários: hoje, sobre ambientes. Permita-me leitor que me apresente: sou o Caneteiro Maluco. Caneteiro pelo ofício de redigir utilizando canetas e Maluco, pelo gosto daqueles que me conhecem.

Nos últimos dias tive a oportunidade de conhecer dois ambientes bem distintos, mas que pensando bem possuem suas semelhanças. O primeiro deles foi um sofisticado e conceituado salão de cabeleireiros, e o segundo foi o Centro de Oncologia e Quimioterapia de um hospital em Belo Horizonte.

Na cortança de minhas madeixas, conhecia apenas as peculiares barbearias e seus calendários que mostravam a anatomia feminina. É verdade que senti a falta daquele português bem falado das barbearias, onde adjetivos, pleonasmos e boas mentiras temperam o ambiente, mas é interessante conhecer outros ares.

O salão de Cabeleireiros era claro, limpo, bem arejado e com pessoas sorridentes e bem humoradas na labuta. Não há divisão de ambientes, todos se vêem e se controlam mutuamente. Atendem-se homens e mulheres, diferentemente da barbearia, onde as mulheres se encontravam nas paredes. Serviços são feitos aos montes, desde cortes simples, pés e mãos até as balayages. O que é balayage? Tive que consultar o universo feminino para entender que é algo feito nos cabelos. Para mim foi suficiente a explicação.

Sentado enquanto esperava ser atendido, observava as pessoas que chegavam. Fofinhas, roliças, rotundas e filiadas a esta categoria prevaleciam lá. Deixo claro que nada tenho contra elas, ao contrário, têm o meu apreço e a minha atenção como pode se observar. E cada uma que chegava, ao aproximar-se de algum dos cabeleireiros dizia: “Boa Tarde! Hoje vim fazer aquilo!” ou “Hoje eu vou fazer.” E nada mais. Para falarem tão pouco e dizerem tanto, devem ser sócias de carteirinha do salão. E realmente algumas precisavam estar ali constantemente. Pouco antes de ser chamado, ouvi um presunto bem apessoado dizer: “Será que vai ficar bom?” Estávamos em um salão ou em uma clínica de cirurgia plástica? O presuntinho não sabia.

Os excessos à parte, havia também mulheres que não necessitavam estar ali. Tenho um amigo que usa a seguinte frase: As belas vão ao salão apenas para administrar a beleza; as feias, para tentar o impossível.

Deixo o salão de lado e passo ao Centro de Quimioterapia. É uma sala ampla de espera, bem iluminada e arejada e pintada com cores discretas. A recepção dá o aspecto de ante-sala à sala de espera principal, um pouco pleonástico, mas assim mesmo. As pessoas falam baixo e procuram fazer silêncio. Ao entrar cumprimenta-se a recepcionista timidamente, diz-se nome completo, horário da consulta e se particular ou convênio (nem sempre nesta ordem). “Pode se assentar e aguardar” diz a recepcionista e educadamente respondo: “Obrigado”.

Ali as pessoas não conversam entre si; eventualmente, um consultante e o acompanhante trocam algumas palavras rápidas e param. Não que seja proibido conversar, mas a vontade das pessoas é ficar em silêncio, ou melhor, a vontade talvez seja sair daquele local o mais rápido possível e encontrar o sol que brilha lá fora.

Para que falar se alguns que ali estão sentem-se no corredor da morte? A expectativa de laudos e exames silencia o lugar e as pessoas. A TV de vinte e nove polegadas enfeita o local: não há vontade de se ver nada, principalmente em dias de apagão.

Surge um garoto, dez anos aproximadamente, com a cabeça calva e o olhar distante. Acompanhado, caminha com dificuldade. Penso que muitos de nós lutamos por melhores empregos e salários e vejo uma luta em um nível diferente, vital. Aquele garoto briga diariamente contra a doença e contra si mesmo, tentando vencer o desânimo e apatia que surgem dentro de si.

Penso na frase do presuntinho do salão e descubro o quão parecido são os ambientes. Todos procuram a beleza e a alegria de viver. A beleza e alegria vivem juntas, ou deveriam viver. Alguns buscam a beleza que não têm; outros, aquela que perderam. Vejo que as outras frases do salão se encaixariam perfeitamente no Hospital, pouco ou nada se alterando.

Antes de terminar este texto recebo um e-mail intitulado CANCER, com um anexo e sem texto do remetente. Em anexo, o pedido de ajuda a uma Instituição que trata de crianças com câncer. Lembro-me do professor de português que corrigia as provas com uma caneta vermelha, rabiscando as palavras escritas de maneira não correta e dizendo: Isso não existe! Que inveja tenho dele! Que vontade de rabiscar este CANCER sem acento circunflexo e dizer que ele não existe, que é uma farsa.

Enquanto espero que o tempo me dê esta caneta vermelha, torço para que o garoto não desanime da beleza de ver o dia seguinte.

Divulgado originalmente em 31 de julho de 2001.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Bola de meia

Há sete anos ela se foi, numa tarde fria, um domingo no CEU.
Desde então, sem inferno que me acolha,
meus pés descalços driblam o purgatório.
O sonho morreu. O menino não.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A verdade amiga

em um mundo sem arco-íris
o cinza não é uma opção.
por que medo de um futuro sombrio
cinza como uma tarde de tempestade
se, ao fim, seremos cinzas?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Eliza e o zeppelin

Não conheci Eliza. Não sei o que ela fazia para viver, ou mesmo sobreviver, nem posso afirmar que ela era boa pra apanhar, era boa pra cuspir. Os nomes e os zeppelins vão e vêm sem cessar, renovando sempre a história enodoada de dramas e damas.

Não quero discutir a monstruosidade dos relatos dos últimos dias, com detalhes ignóbeis e performáticos de vilões e bufões, que fizeram com que a cidade apavorada se quedasse paralisada. Quero me ater às mulheres que amamos, Marias Madalenas de todos os dias.

Puta não é uma palavra querida, ainda que esteja em nossa boca em momentos regulares de nossas vidas, para alguns em momentos muito regulares. Talvez o pouco afeto de que goza o determinante seja reflexo do pouco sentimento dispensado ao determinado, ainda que este esteja prenhe de amar. Poderia dizer que está prenhe de “amor”, mas isso acarretaria uma discussão mais profunda, que não é o objetivo deste texto.

Talvez pareça paradoxal que algo que esteja prenhe de amar não contenha amor, uma vez que amar e amor têm o mesmo radical (linguístico e pragmático). Talvez pareça paradoxal que uma mulher com a qual tenhamos contato tão íntimo seja objeto de tanto desprezo e asco (este objeto não é casual), que seja tão estimada antes e tão desconsiderada depois. Talvez pareça paradoxal menosprezar uma mercadoria pela qual se paga, que ansiosamente é aguardada e que, fato consumado, desvalorizada de maneira vil. Talvez pareça paradoxal erigir o dirigível com tanto aprumo e vigor para vê-lo, mais tarde, tombar mortalmente como o Hindenburg. O paradoxo da parecência é uma característica do ser humano.

Quando incendiaram o índio Galdino, o argumento dos adolescentes foi que eles acharam que se tratava de um mendigo. Quando espancaram uma doméstica em um ponto de ônibus na cidade do Rio de Janeiro, o argumento dos adolescentes foi que eles acharam que se tratava de uma garota de programa. Nesse jogo de premissas, a conclusão é óbvia.

Toda essa repercussão sobre a profissão de “modelo” de Eliza, se era garota de programa, atriz de filmes eróticos ou qualquer eufemismo que o valha, abafa a humanidade do caso, reminiscência inequívoca de um imaginário popular que desqualifica totalmente as prostitutas. Observe que, dos três palavrões mais comuns de nossa língua, dois deles carregam “puta” em sua estrutura; há um ditado antigo que afirma “Conversa de puta Deus não escuta.” (não nos esqueçamos da importância da religião em nossa cultura e sociedade); quando uma mulher precisa ser desqualificada, o primeiro adjetivo a ser lembrado, em geral, é puta, zoologicamente metamorfoseado em piranha se dito por uma mulher.

Em contrapartida, há um chavão do imaginário popular que afirma que uma mulher para ser uma boa esposa precisar ser “na rua uma dama e uma puta na cama”. Novamente, o paradoxo da parecência.

Não faço apologia aos extremos – nem à prostituição nem à hagiologia das meretrizes; não afirmo que os preceitos abordados neste texto sejam definitivos ou compartilhados integralmente por homens e mulheres. A reflexão é sobre a humanidade, sobre homens e mulheres, sobre aquilo que nos permite afirmar que constituímos uma civilização. De que adianta o zeppelin partir se seguimos cuspindo e arremessando bosta na maldita?

sábado, 3 de julho de 2010

Bolsa de valores

Em uma aplicação, viu-se sem carteira, relógio e celular.
Da carteira, só voltou uma esmaecida 3x4.
Do relógio, algumas horas anônimas.
Do celular, nem o toque. Foram os contatos ou foi a bateria?

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...