domingo, 28 de fevereiro de 2016

Ocultismo - parte II

Alguns céticos tentam explicações mais próximas do cotidiano para as desandanças do futebol: culpam o árbitro e os bandeirinhas; dizem que a culpa é do “montinho artilheiro”, da chuva, do vento, de “trabalho feito”, de olho-gordo, de língua de sogra, de uma cabeça de burro (mas aí pode ser mesmo: a do técnico), da cerveja que estava quente, do tropeiro que não lhe fez bem, do agouro do comentarista e outras possibilidades. Nada disso é verdadeiro! Tudo está naquilo que não se vê, no oculto.

O Futebol está repleto de histórias ocultas e de fatos extraordinários. Quem não conhece o caso do goleiro que foi bater um tiro de meta e matou um urubu (em pleno voo)? E do jogador que bateu o escanteio e correu para cabecear a bola, fazendo o gol? Do jogador que, longe do lance de gol, tirou a chuteira e a arremessou na bola, parada em cima da linha do gol? E o goleiro que, fora do gol, retirou a luva e a arremessou na direção bola, evitando o gol do jogador que arremessara a chuteira? Isso é o futebol.

Neste 2003, ano que a China Azul inundou a cidade e submergiu o país com sua tríplice coroa, o Atlético ocultou-se de mais, seja em campo ou fora dele. Em campo, ocultou-se por jogadores tecnicamente fracos, sem profissionalismo, incapazes de vestir a camisa alvinegra. Fora dele, por Comissões Técnicas inoperantes (às vezes, bem intencionadas, mas de boas intenções o inferno está cheio) e de um departamento de futebol despreparado e com baixa acuidade visual.

Mesmo com essa onda azul, os atleticanos estão nas ruas, com seus estandartes alvinegros. Mas que força oculta é essa que, mesmo com tantas desventuras, convoca a torcida a comparecer aos campos e a cantar o hino, mesmo nas situações mais adversas? Para os atleticanos não há nada de oculto, apenas a Atleticanidade.

A Atleticanidade é um sentimento, uma identidade, uma camisa no varal num dia de chuva, um grito de gol, o canto do galo. É o indizível, o imponderável, o sempiterno.

Espero que em 2004, já que a Libertadores se ocultou mais uma vez de nós, que possamos acordar, sempre, antes do sol.

* Texto originalmente publicado em 2003.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Ocultismo - parte I

Para Elisa Amorim

“Acordo, sempre, antes do sol”

O que você vê nessa frase, leitor? Alguns dirão que não veem nada porque ao acordar não abrem os olhos. Outros dirão, barrocamente, que visualizam o breu do quarto. Há outras respostas possíveis e muito variadas, mas minha indagação busca o “sujeito”. Onde está o sujeito dessa oração? Se você ainda não identificou o sujeito, não se preocupe: a intenção dele é não aparecer.

Esse é o um dos exemplos citados por Celso Cunha em sua Gramática da Língua Portuguesa. Em um caso como esse, ocorre o sujeito oculto, “aquele que não está materialmente expresso na oração”. É bom que se destaque que a oração é de autoria do poeta Augusto Frederico Schmidt. Quem? Para os mais antigos (quiçá, velhos), um grande poeta que se perdeu junto com “O galo branco”; para os mais novos, um desconhecido-oculto nos compêndios literários.

Os ocultos anteriormente citados são apenas exemplos de como o ocultismo está presente em nossa sociedade (em nosso país já derrubou até presidente). Para todos os lados, há alguma coisa oculta, a ser descoberta, com uma única exceção: o amigo-oculto. Oculto no amigo-oculto, além do nome, só o desgosto de ter tirado o nome da figura mais chata do grupo.

Não quero polemizar com os profissionais das ciências ocultas, mas preciso fazer uma afirmação absoluta. Acredito, inclusive, que alguém já tenha dito o mesmo: “O futebol é a maior das ciências ocultas”. O Michaelis me disse que ocultismo é o “estudo das coisas e fenômenos para os quais as leis naturais ainda não deram explicação”. Eu respondi então:

– Micha, isso é o futebol!

O Sobrenatural de Almeida talvez tenha dito, mas, se não disse, viveu intensamente todo esse mundo misterioso da bola. Não é sem motivo que a bola é um conjunto de círculos, que são, por sua vez, o símbolo da perfeição. E o que é a perfeição senão a metáfora do mistério, do enigma? A bola gira, e com ela todas as regras e certezas se misturam, tornando-se um bólido rumo ao mar da incompreensão.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Eco em silêncio

Para Umberto Eco

"Não houve modo. No dia seguinte, Baudolino abraçou Nicetas, toda a sua família e seus hóspedes. Saiu com algum esforço a cavalo, levando consigo a mula com muitas provisões, a espada presa à sela e os dois punhais árabes na cintura.
Nicetas o viu desaparecer ao longe, ainda acenando com a mão, mas sem olhar para trás, seguindo para o reino do Prestes João."

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ecos do olhar

Karamojong
Conhecidos como "os velhos pode andar mais longe", homem desta tribo espera para votar, em uma aldeia perto da cidade de Kaabong, em Uganda.
Foto: Goran Tomasevic / Reuters
Fonte: http://goo.gl/FPhsqW
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se os velhos podem andar mais longe,
mais curto é o caminho da idade.
cabelos brancos não balançam ao vento,
se jogam no para sempre.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Luz

Necessitamos de luz para os atos cotidianos, mas a dispensamos em circunstâncias especiais.
Carlos Drummond de Andrade

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...