Alguns céticos tentam explicações mais próximas do cotidiano para as desandanças do futebol: culpam o árbitro e os bandeirinhas; dizem que a culpa é do “montinho artilheiro”, da chuva, do vento, de “trabalho feito”, de olho-gordo, de língua de sogra, de uma cabeça de burro (mas aí pode ser mesmo: a do técnico), da cerveja que estava quente, do tropeiro que não lhe fez bem, do agouro do comentarista e outras possibilidades. Nada disso é verdadeiro! Tudo está naquilo que não se vê, no oculto.
O Futebol está repleto de histórias ocultas e de fatos extraordinários. Quem não conhece o caso do goleiro que foi bater um tiro de meta e matou um urubu (em pleno voo)? E do jogador que bateu o escanteio e correu para cabecear a bola, fazendo o gol? Do jogador que, longe do lance de gol, tirou a chuteira e a arremessou na bola, parada em cima da linha do gol? E o goleiro que, fora do gol, retirou a luva e a arremessou na direção bola, evitando o gol do jogador que arremessara a chuteira? Isso é o futebol.
Neste 2003, ano que a China Azul inundou a cidade e submergiu o país com sua tríplice coroa, o Atlético ocultou-se de mais, seja em campo ou fora dele. Em campo, ocultou-se por jogadores tecnicamente fracos, sem profissionalismo, incapazes de vestir a camisa alvinegra. Fora dele, por Comissões Técnicas inoperantes (às vezes, bem intencionadas, mas de boas intenções o inferno está cheio) e de um departamento de futebol despreparado e com baixa acuidade visual.
Mesmo com essa onda azul, os atleticanos estão nas ruas, com seus estandartes alvinegros. Mas que força oculta é essa que, mesmo com tantas desventuras, convoca a torcida a comparecer aos campos e a cantar o hino, mesmo nas situações mais adversas? Para os atleticanos não há nada de oculto, apenas a Atleticanidade.
A Atleticanidade é um sentimento, uma identidade, uma camisa no varal num dia de chuva, um grito de gol, o canto do galo. É o indizível, o imponderável, o sempiterno.
Espero que em 2004, já que a Libertadores se ocultou mais uma vez de nós, que possamos acordar, sempre, antes do sol.
* Texto originalmente publicado em 2003.
* Texto originalmente publicado em 2003.
