O Nicanô viveu co’nóis muitos ano, sempre fazeno minino e arrumano briga. Virô lenda aqui na Lagoinha, na Floresta, no Bonfim, quase na cidade inteira, e o povo vinha de longe pra cunhecê ele.
Numa manhã clara, o Nico partiu. Tinha chovido a noite inteira, muito trovão, muito relâmpago, e a manhã dispertô calma, como se ela num tivesse nada a vê com aquela noite de fera. Levantei, fui pra cozinha fazê café e, quando abri a porta, vi que uns vaso tinha tombado e tinha muita terra pelo caminho. Fui buscá a vassoura pra arrumá aquela confusão e vi que tinha umas marca de pé na terra molhada.
Algum galo passou por aqui. Pensei em todos, menos no Nico, purque havia dois pé marcado na terra, e ele num pudia sê nunca. Conferi um por um, todos lá, e fui ver o Nico, que não estava onde costumava dormir.
Chamei por ele e num tive resposta nenhuma. Num era possível! Voltei na porta da cozinha, abaixei e fui observar as marca de novo. Era de um galo mesmo, e tavam de duas em duas, num pudia ser o Nicanô.
Fiz o café, bibi e pensei naquilo tudo. O Luizim me olhava atento.
Então não tive dúvida que era o Nicanô memo, que agora tava incantado, que ia podê usá as perna que ele sempre teve, mais que num picisô pra expricá a perfeição.
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