quinta-feira, 31 de maio de 2018

Os posts que você fez pra mim

Hoje, eu leio os posts que você fez pra mim
Não sei por que razão tudo mudou assim
Ficaram os textos e você não ficou

Esqueceu de tanta coisa que um dia me tocou
Tanta coisa que somente entre nós dois ficou
Eu acho que você já nem se lembra mais

É tão difícil olhar o mundo e ver
O que ainda existe
Pois sem você meu mundo é displicente
Minha alegria é triste

Você disse tantas vezes que rezava tanto
Tantas vezes eu enxuguei o seu pranto
E agora eu choro só sem ter você aqui
Agradecimento a Roberto Carlos

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Regra três

Há uma semente perigosa dentro do programa sócio-torcedor: que o time se transforme em clube. O número de torcedores é infinitamente superior ao número de sócios, sem desconsiderar, é claro, que os sócios são torcedores muito além da simples nomenclatura. Olhando o copo meio cheio, há uma demanda reprimida enorme. Olhando o copo meio vazio, há um clube fechado.

Entre o resto e o restolho, vale a "Regra três", de Vinícius e Toquinho:

"Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz,
Abusou da regra três
Onde menos vale mais


Da primeira vez ela chorou 
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar"


Até quando o torcedor conseguirá viver, com paixão, trocando a arquibancada pela mesa de bar ou pelo sofá? Os canais a cabo, os bares e as cervejarias agradecem, e a Nutella, que não tem nada a ver com a história, leva a fama. É o espetáculo gourmet. É por isso que, na Fox Sports, eles insistem em anunciar o "futebol raiz".

Tempos atrás, assisti ao Chico Sá dizendo, na ESPN, não necessariamente com essas palavras, que não se havia "civilizado" em relação à Libertadores. Essa é a essência do futebol, da arquibancada hoje (da geral antigamente), da paixão furiosa que rege o torcedor. Se vivo, Nélson Rodrigues diria: "Qual paixão não é furiosa? A fúria é o bálsamo dos apaixonados."

Longe dos gramados, sem a paixão clubística, é melhor assistir à Liga dos Campeões ou a qualquer campeonato no Brasil? Por que os jogadores brasileiros sempre citam a vontade de jogar na Europa, mas não na China ou no "mundo Árabe", ainda que esses destinos, muitas vezes, paguem bem mais? Não é apenas dinheiro, é também espetáculo. Qualquer peladeiro que dê, minimamente, três embaixadinhas sabe a diferença em jogar ao lado de bons jogadores ou de pernas de pau.

O sócio-torcedor pode ser a redenção de um time ou sua rendição. Se redimir, todos ganharão, inclusive a bola. Se render, o país do futebol será um clube fechado, com acesso restrito aos sócios.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A carta

enviei uma carta em fevereiro de 2014, que foi recebida na última semana, no dia de Santa Rita.
por onde ela andou, só os selos sabem.
ter chegado "na hora certa", é a pura magia da amizade.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Bênção didática

Este post é um agradecimento ao amigo Roberto Tristão, professor de literatura, que, no hoje distante ano de 2011, citou um dos posts deste blog em um material didático.
Para aquele samba, foi a bênção.

domingo, 27 de maio de 2018

De costas

Quando Sirley chegou ao céu, São Judas, o das causas perdidas, chamou-o ao canto e disse:
- Me conta a história do penâlti que você pegou de costas.
- Foi mesmo - disse ele. - Lá no campo do Galena.
- Me conta, me conta...
- Como o senhor ficou sabendo?
- O Expedito me falou.
- Ele tava lá?
- Foi ele que bateu o penâlti.
***
Homenagem ao amigo Sirley, o decano, convocado para outros campos em 30 abr. 2018.

sábado, 26 de maio de 2018

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Nunca jovens

os Mendes nunca morrem jovens.
mesmo recentes, carregam consigo
a crônica da boa morte: 
a incerta convicção do último suspiro.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A morte à porta

Para os Mendes

os Mendes,
esses loucos
que cantam,
que amam,
que bebem os dias,
que rasgam as almas, 
e riem, velhos e tolos,
quando a morte bate-lhes à porta.
não se preocupam com a visita,
apenas a abraçam
a beijam e lhe dizem:
- Quem está com você, querida?

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O sonho da vírgula

com os ditos 20 anos em 2, a vírgula só tem ouvido: "ruim com ela, pior sem ela".
esperançosa, espera que o voto de outubro a faça exclamação.

terça-feira, 22 de maio de 2018

A flor do cônego

Para Rita Capemba


por onde anda, Rita?
por que se retira para essas páginas que ninguém lê?

os lábios de absinto
o sinuoso sabor das selvas
as sonoras seivas incensadas
a serena sede da surpresa.

não há fé que viceje nesse feitiço.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A vírgula gata

"O Brasil voltou, 20 anos em 2".
***
A vírgula, tantas vezes vilipendiada, gaiata nessa história, quer se enrodilhar, tal qual um gato, para ver se se faz ponto. Não será a salvação, mas um alívio para essa pobre alma, pois com o ponto, intransigente, é fim de papo.

domingo, 20 de maio de 2018

Das fadas

o casamento real é um conto de fadas que as fadas não contam.
não sem motivo, elas não têm uma caneta de condão.

sábado, 19 de maio de 2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Flatulência digital

O gemidão do WhatsApp é um peido digital: quando foge, aos berros, mostrando-se ao público, é hora do circo.
A performance do palhaço garante a comédia ou o drama.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Esquisito

sempre que me dizem esquisito,
meu guarda-chuva de tachinhas cresce,
meus sapatos floridos se agitam,
brota uma nova hestória.
sem trocar a vaca,
assim sobe meu pé de feijão.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A boca

na placa: "pão com requejão".
- moço, tá faltando uma coisa ali. - e apontou para a placa.
- tá sim, mas é porque a linguiça acabou.

moral da história: a língua está subordinada à boca.

domingo, 13 de maio de 2018

Mães

Para Nelma, Norma e Zoca

A maternidade é um acolhimento, uma maneira de apresentar o mundo aos novatos e de conduzi-los por terrenos tão novos quanto eles, ainda que velhos (os novatos e os terrenos). No colo, de mãos dadas ou em prece, essa presença é um afago na existência.

sábado, 12 de maio de 2018

Bão

prefiro o bão ao bom,
o tom ao tão,
a garatuja à cara suja,
a caneta à chapoleta.
bucanear é vera treta.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O relógio

preso à parede
não ao tempo
esse paladino do nada
atira os braços ao vento
ora como hora
ora como caos.

girando às avessas
desescreve o passado
rerrascunha o presente
desdeturpa o futuro.

defeito não, filosofia de vida.
o ululante silêncio da anarquia.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Sim, não ou talvez?

sempre é bom ter uma pergunta pronta para os dias de mistério.
enquanto as interrogações não pulam, brinca-se com as certezas.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Lápide

riu enquanto pôde.
ao fim da piada,
deitou-se, esperançoso, aqui mesmo.
sonha, agora, com o cheiro da terra
e o flerte das sempre-vivas.

terça-feira, 8 de maio de 2018

O dragão e a bela

Para a Bela Desdenhosa

Os amigos (ou nem tanto), ao longo da vida, incansavelmente, renomeiam e corrigem o escorregão linguageiro que nossos pais (nem sempre) cometem aos nos batizar. Essa metamorfose de nossos eus nos molda e revela se vamos da larva ao adulto (e batemos asas) ou se da larva à larva (abscônditos).
As palavras certas, brejeiras, adestram o dragão, e não haverá desdém que, tomado de assalto, não sucumba a uma flor em flecha. A beleza precisa de um nome para ser sussurrado, não de um sussurro...

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A bela e o dragão

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESCONHECIDA. E ei-la rotulada, classificada, exorcismada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em chamares a um dragão de JOLI, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...
Mario Quintana

domingo, 6 de maio de 2018

A parte que falta

Para Regiane Mendes

a parte que falta
falta para quem?
se em mim, é presença.
se no outro, é querença.

sábado, 5 de maio de 2018

De botequim

Para Mario Quintana

Com a informatização das relações sociais, as conversas de botequim migraram, em grande parte, para as redes sociais. Antigamente, etilizado, não prestava atenção em muitas bobagens ditas e até rias para elas, delas e com elas. Mesmos tristes, todos ficavam felizes.
Agora, porém, em qualquer lugar e hora, nessa torrente de mensagens bêbadas, não há bebida que nos deixe ébrios. Mesmos hipnotizados, a atenção não presta.
Hoje, no menu, só bebida zero byte ou sem like, com 0,0% de digitalização, para que o brilho dos olhos seja uma maçã com asas.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Redação

Tributo a Albanito Vaz Júnior
+27 abr. 2016

não havia politicamente correto

disciplina
diversão
piadas infames de ambos os lados
e a lembrança de que a vida é tênue,
que à morte está reservado o rascunho.
a melhor redação é o presente.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Pedagogia da bigorna

no início, tapas quentes, lágrimas frias.
na infância, veio a bigorna,
essa matrona trituradora de sonhos.

o ferreiro não conhece o malhado,
apenas o martelo, chamado de flauta.
nessa melodia não há agudos.
tudo é grave.

apanha no quente, apanha no frio,
incha no fogo, soluça no gelo,
fogogelo, gelofogo.
quando fogo e gelo não se distinguem,
nascem os monstros.
alguns de papel...

se fossem oitenta por cento nas almas,
os óxidos não pintariam meus dentes
e eu chamaria de primo o itabirano.
com esse sorriso,
ferroso,
feérico,
fero,
minha parenta é a calçada.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Sonho meu

Tributo a Dona Ivone Lara
+16 abr. 2018

Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu

Vai mostrar esta saudade, sonho meu
Com a sua liberdade, sonho meu
No meu céu a palavra guia se perdeu
E a caneta fria só me traz melancolia
Sonho meu

Sinto o gosto da noite na boca do tempo
Fazer o verso das flores no meu pensamento
Traz a pureza de um conto
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um conto que mexe o corpo da gente
E o olho vazio rabiscando a flor

terça-feira, 1 de maio de 2018

Nicanor (parte 7) - O encantado

O Nicanô viveu co’nóis muitos ano, sempre fazeno minino e arrumano briga. Virô lenda aqui na Lagoinha, na Floresta, no Bonfim, quase na cidade inteira, e o povo vinha de longe pra cunhecê ele.
Numa manhã clara, o Nico partiu. Tinha chovido a noite inteira, muito trovão, muito relâmpago, e a manhã dispertô calma, como se ela num tivesse nada a vê com aquela noite de fera. Levantei, fui pra cozinha fazê café e, quando abri a porta, vi que uns vaso tinha tombado e tinha muita terra pelo caminho. Fui buscá a vassoura pra arrumá aquela confusão e vi que tinha umas marca de pé na terra molhada.
Algum galo passou por aqui. Pensei em todos, menos no Nico, purque havia dois pé marcado na terra, e ele num pudia sê nunca. Conferi um por um, todos lá, e fui ver o Nico, que não estava onde costumava dormir.
Chamei por ele e num tive resposta nenhuma. Num era possível! Voltei na porta da cozinha, abaixei e fui observar as marca de novo. Era de um galo mesmo, e tavam de duas em duas, num pudia ser o Nicanô.
Fiz o café, bibi e pensei naquilo tudo. O Luizim me olhava atento.
Então não tive dúvida que era o Nicanô memo, que agora tava incantado, que ia podê usá as perna que ele sempre teve, mais que num picisô pra expricá a perfeição.
***

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...