domingo, 24 de setembro de 2017

O céu de cada um

na gota, o mundo está de cabeça para baixo.
ao se desprender, ela descobrirá que céu é o seu.

sábado, 23 de setembro de 2017

Aniversários

me lembro do aniversário de pessoas que hoje me são estranhas.
por quê?
por que me lembro ou por que me são estranhas hoje?
ou apenas por que hoje?
me são estranhas por mim.
me lembro por elas.
por que hoje? hoje é um dia que não tem fim.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A esposa do Severino

- Dona Severa, não é a vida que desejamos integralmente, mas é a que temos. É essa que conseguimos construir, que conseguimos manter e, mais, é a que conseguimos viver. Está cheia de buracos, sem brilho em várias partes, estéril em outras, mas é essa e só podemos consertar para frente, tentar fazer melhor e aceitar que somos falhos, todos. O errado que passou passou; se não passou ainda, é presente (gostemos nós ou não).
Nunca fomos os piores, nem por qualidade, nem por pobreza, apenas não tivemos os holofotes que muitos medíocres tiveram e têm, mas, hoje, Dona Severa, essas mentiras já não nos enganam mais.
O pouco que sempre tivemos não era defeito, só não sabíamos disso. Havia pessoas que sempre tiveram menos que nós e frequentavam, sebastianamente, nossa casa, mas tenho dúvida se a canga delas era mais pesada que a nossa. A delas foi muitas vezes varrida pela chuva, mas sempre renascia, confiante, à frente.
Se o beco tatuou nossa vida, não pode fazer o mesmo com nossa alma. Foi aprendizado e passou, diferentemente das pessoas que iluminaram nossa história e não passaram, ainda que não estejam aqui. Agora estão mais iluminadas.
Vamos aproveitar que estamos todos aqui e comemorar, pois o amanhã só será revelado depois da zero hora e, antiquadamente, essa revelação pode queimar. Parabéns, Dona Severa!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

As mulheres de Lulu (IV)

Estava extremamente amarga, o fel seria doce perto dela. Segurei minha careta e observei que Tio Lulu bebia a cerveja em goles generosos, prazerosos, com brilho nos olhos. Fez um sonoro "Ah!" ao terminar e pronunciou: "Bebamos porque a felicidade é líquida". Colocou o copo na mesa com força e me observou atentamente.
- Não gostou, né?
- Não, tio. Não é isso...
- Tenho certeza que não. Você está acostumado a beber esses mijos de égua e achar que são cerveja, mas quando experimenta realmente um de qualidade vira a cara.
Sorri sem graça.
- Você sabe por que achou a cerveja amarga?
- Tio, me desculpe, mas a cerveja é amarga.
- Meninos, meninos, meninos... - e num movimento instantâneo, abaixou-se, pegou um sapato no chão e o arremessou furiosamente contra a parede.
- O que foi, tio? Pulga?
- Claro que não. Apenas exercício para testar os movimentos.
Pegou a garrafa, serviu mais um copo e, antes de beber, complementou:
- A cerveja não é amarga, meu filho. Amarga é sua boca. O Xota me ensinou uma coisa, que ele ainda não entendeu muito bem, mas que é a pura verdade. É uma parte da Bíblia que diz assim: "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine". É isso que define os Mendes, que nos define. Nós não nascemos para boca de sino, para emitir sons, nós nascemos para falar, para emitir palavras, para amar.
Bebeu o copo de uma só vez e prosseguiu:
- Nós vamos morrer, meu filho, todos, sem exceção. Mas repare que alguns vão morrer mais, porque já morreram e ficaram mortos, enquanto alguns seguem vivos para sempre. Serão inúmeras gerações passadas, e alguns ainda serão lembrados, não porque foram ricos, estudados, mas porque falaram, cantaram e amaram.
Peguei a garrafa, completei meu copo e disse:
- Um brinde, tio. Ao seu aniversário e à língua dos anjos, que cantam, e à dos homens, que bebem. Nós, os Mendes.
Tocamos os copos e bebemos, e senti a cerveja muito mais saborosa.
- A cerveja é a mesma, filho, sua boca é que mudou. - e em novo movimento frenético arremessou um sapato na minha direção.
- Que isso, tio?
- Agora é barata.
***
Homenagem ao eterno Tio Lulu, Luiz Mendes de Cerqueira,  "O ilimitado".
15/09/1879

O início dessa história está em As mulheres de Lulu, em três partes, de 15, 16 e 17/09/2013.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Saída para o mar

Minas não quer saída para o mar, pois não somos a Bolívia.
Não queremos um novo Trump, pois não somos os Estados Unidos.
Não queremos a volta da ditadura, pois de dura já basta a crise.
Queremos a liberdade de discursos divergentes,
ainda que não concordemos
ainda que não aceitemos
ainda que os detestemos.
Para falar conosco, é preciso entender que
temos apenas duas mãos
e o sentimento do mundo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Ter

A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade.
De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. (Mateus 13:12)

as mãos vazias carregam os dedos.
sem dedos, carregam a ausência.
o não ter é uma forma de posse.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Carrossel (III)

A vida se abrirá num feroz carrossel
e você vai rasgar meu papel
Agradecimento a Toquinho e Mutinho

O papel rasgado não amansa a fera.
Só a lágrima.

domingo, 10 de setembro de 2017

Carrossel (II)

A vida se abrirá num feroz carrossel
e você vai rasgar meu papel
Agradecimento a Toquinho e Mutinho

quando o carrossel para, o encanto foge.
a beleza está na travessia.

sábado, 9 de setembro de 2017

Carrossel (I)

A vida se abrirá num feroz carrossel
e você vai rasgar meu papel
Agradecimento a Toquinho e Mutinho

o carrossel é a rotina fantasiada de brinquedo.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Reunião-valsa

Há um tipo de reunião chamado valsa, muito comum no mundo corporativo: são dois passos para um lado, dois para outro, para frente nunca.
Para quem não sabe dançar, recomenda-se o sorriso-paisagem ou o caderno-de-rabiscos.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Fogo

A escultura "O templo" é incendiada, marcando o final do festival de música e artes Burning Man, que reúne cerca de 70 mil pessoas de todo o mundo uma vez por ano no deserto Black Rock em Nevada, nos EUA.
Foto: Jim Urquhart/Reuters
Fonte: https://goo.gl/KtZzgK
***
numa boca sem dente
a língua lambe
ardente
o breu da noite.

o novo dia trará cores,
cinzas,
e o cheiro inconfundível da ruína.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Sob os livros

Um militar ucraniano inspeciona uma biblioteca abandonada com vários livros vistos no chão, na cidade de Maryinka, na Ucrânia.
Foto: Oleksandr Klymenko/Reuters.
Fonte: https://goo.gl/hmeDDm
***
quando os livros se espalham pelo chão
autores e leitores jazem sob ele.

domingo, 3 de setembro de 2017

Glória

O inglês Alex Gregory, bicampeão olímpico de remo, mostrou aos seus seguidores como suas mãos estavam após muito tempo em luvas molhadas. Ele participava de um desafio de expedição no Ártico, chamado Polar Row.
https://goo.gl/o1Vse6
***
a família é grande, mas apenas a Glória é lembrada.
a mais importante, contudo, Das Dores,
diuturna,
primogênita,
é, antiquadamente sobredita,
o arrimo da família.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...