quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
O eco do Uivo
- Mininada, junta as coisa que nós tamu de partida. Viemu, vimu e vociferamu.
A bordo do Uivo da Noite, no convés, Dona Quiméria acariciava Luisinho enquanto se afastava do litoral de Agadir. O sentimento do dever cumprido era pessoal, mas não a satisfazia, não a alegrava, não a preenchia. Engasgada com as ideias, aproximou-se da cabine principal e disse:
- Mininada, atenção! Eu queria dizê uma coisa que tá me intalando aqui. - e colocou as mãos sobre o peito. - Nós saímu do Brasil e andamu meio mundo para acompanhá o Galo, e ainda acho que nós viemu sozinho. Ondé que o Galo se meteu? Cadê os jogadô? Cadê a nossa camisa? Nós rasgamu o mundo todo dibaixo de sol e de chuva pra jogá duas veiz de branco? A camisa branca é a reserva, e no nosso time só joga titulá. Será pussíve que ninguém percebeu que a gente tava sem alma com a camisa branca? Que o manto que identifica nosso povo é o preto e branco? - baixou a cabeça e irrompeu colérica: - Eu num vô guentá: Que meeeeerrrrrrrrrrrrdaaaaaaa!!!
Todos olharam surpresos, afinal daquele boca não saíam aquelas palavras. Naquele momento saíram.
- Eu tentei controlá, mas num guentei. Agora falei. Num é a camisa que ganha jogo, mas nós somu alvinegro até a alma, nós num podia aceitá isso desse jeito. A camisa que briga no varal desde o 6° dia é a preta e branca, num é a branca. A culpa num é da camisa branca, ela tamém tem história, mas as listra faz falta. Num podemu ficá sem o misturado. Quando nada dá certo, temu que contá é com ele.
Calou-se. Todos a olhavam fixamente. Iniciou um movimento com o braço, mas sem concluí-lo. Sentou-se e permaneceu olhando o Marrocos que se distanciava.
Naquela noite, deitou-se mais cedo e sonhou sem cores.
Naquela noite, deitou-se mais cedo e sonhou sem cores.
domingo, 22 de dezembro de 2013
Gosto amargo
Há três anos, o ano se encerra com um gosto amargo na boca da Arquibancada Atleticana. Não que esse fato seja indicativo de um ano lamentável (ao contrário, bastante louvável), mas o sentimento de que o "bolo merecia uma cereja" é nítido.
Em 2011, depois de sofrido Campeonato Brasileiro, distância da torcida na Arena do Jacaré e de salvação da zona do rebaixamento na penúltima rodada, a possibilidade de rebaixar um adversário seria um alento para o torcedor. Não conseguiu o feito e ainda viu creditada uma goleada elástica na história alvinegra.
Em 2012, um título Mineiro invicto, um Campeonato Brasileiro empolgante, a contratação de Ronaldinho Gaúcho e a divulgação da marca Atlético em níveis astronômicos. Desse conjunto, o melhor futebol do país e a possibilidade do título nacional juntos. Contusões seguidas, um elenco pequeno numericamente e jogadas indecorosas extracampo permitiram o vice-campeonato, repetindo o sabor travoso do ano seguinte.
Em 2013, um ano mágico. Um elenco reforçado, amplo, experiente e uma infraestrutura completa permitiram conquistar o bicampeonato Mineiro e levantar o título da Libertadores, uma epopeia heroica, única e histórica.
A América do Galo. Faltava o Mundo. O Mundial da FIFA no Marrocos era a conclusão que este mítico ano merecia, que a torcida merecia, mas que o time não mereceu. O terceiro lugar é uma posição honrosa, que só quem é competidor entende, mas não é cereja.
Uma era se encerra no fim deste ano, com a saída do treinador e, certamente, uma reestruturação substancial do elenco; outra era se iniciará com os primeiros fogos do ano novo. Que 2014, ano da Copa do Mundo do Brasil, seja um ano mais doce, tão relevante quanto os dois anteriores e que abra 2015 completo, com sorriso largo e o inconfundível sabor da vitória nos lábios.
sábado, 21 de dezembro de 2013
Sorriso
quando se encontra uma pessoa que, com um sorriso, altera a cor do dia, descobre-se que as palavras podem ser aquareladas. renascimento.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Com o sal grosso
- Mininada! Separa o sal grosso aí que nós vamu precisá de um banho de descarrego purque a inhaca que jogaru na gente foi forte, viu?! Tinha muito tempo que nós num enfrentava uma dessa, arramação das braba com transage, cumigo-ninguém-pode e carqueja. Vixi, Mãe! - e Dona Quiméria fez o nome do Pai.
- Eta zica vera! Arre! Ma num preocupa não mininada que tá tudo sobre controle. Vamu tocá a vida purque o vento no varal não amiúda nunca. Essa oferenda vai vortá pra quem mandô, é só isperá. - puxou o Helotério das costas, mirou para o alto e abriu fogo. Logo se ouviu: "Galooo!!!"
- É isso memo. A casa caiu, ma nós num tava dentro. S'imbora, mininada!
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Sal grosso
- Alô! Roberto? É a Quiméria, meu fio! Comé q'ocê tá?
- ...
- Nós chegamu a Marrakech, agorinha memo. Descemu em Agadir ontem e viemu direto pra cá.
- ...
- Viemu a pé memo. Depois de trinta dias de navio, todo mundo queria usá os pé.
-...
- Apesar de bucanêro, nós temu pé é pra andá. Num teve pobrema nenhum não. Foi tudo em paz. Uma beleza.
- ...
- É, meu fio, os raiados ficaru de fora, mas num faz mal não. Já mandei guardá o sal grosso que ainda nós vão precisá dele. Pra essas águias verde, nós tamém vamu metê taioba.
-...
- É estranho, meu fio, mas o futebol é assim memo. Águia é um bicho que come carne, mas como el's são verde, só come verdura, intão a taioba veio a caiá. Nós tamu com um carregamento muito bão de taioba, pode ficá tranquilo que num vai faltá munição. O Elotero num vê a hora de trabaiá.
-...
- Já liguei pro Muriqui e pedi pra ele dá uma muricada nos Xuvitis. O restante deixa que nós resolvemu.
-...
- É verdade? Isso é bão dimais. Sabia que ocê num ia guentá ficá longe. Quem mais tá vindo pro jogo com'cê?
-...
-...
-...
- Eta! Intão é o Antônio Carlos todo?
-...
- Manda esse povo prepará o coração, meu fio, que co' o Galo ocê sabe cumé que é.
- ...
- Esse povo é forte, né? Do coração el's num morre mais... - riu Dona Quiméria. - Roberto, ocê é um debochado memo. - e riram os dois, e todos aqueles que, com Roberto, partiram do Campo dos Sonhos para Marrakech.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Uivo da Noite
Partiram de Recife em 15 de novembro a bordo d' O uivo da noite em direção a Agadir, no Marrocos. A tripulação era bastante numerosa, o que exigia muitos víveres e utensílios, o que foi perfeitamente atendido graças à habilidade do Capitão Stevenson. Esse escocês, proprietário do Uivo, tem como imediato uma figura peculiar, de nome Long John Silver, muito habilidoso com cartas náuticas e também com uma espada, ainda que possua uma só perna humana (a outra é obra de um marceneiro).
O cirurgião do navio é o Dr. Jekyll, um bom homem, conhecedor da ciência e também da palavra de Deus. Há também um passageiro "eventual", de nome Mr. Hide. Pouco afeito a contatos sociais, é sempre visto à noite andando pelo convés, com um passo agitado e movimentos abruptos. Apesar da dimensão do navio e de a tripulação ser numerosa, não se sabe em que cabine Mr. Hide se recolhe. Sobre ele, o Capitão Stevenson diz que é um amigo de infância e pede para que ninguém se incomode com Mr. Hide, pois, certamente, a recíproca será verdadeira.
Dona Quiméria não gosta de Mr. Hide, acha que é um passageiro inoportuno. Chicão é desafeto declarado de Mr. Hide, e, não raras vezes, em suas caminhadas pelo convés, o homem é visto a rosnar para o cão, que responde a ele com não menos dentes.
Long John Silver assegura que Mr. Hide é importante para o Uivo, ainda que seja tão estranho, sobredito esquisito. Afirma o imediato que, em suas longas viagens, descobriu que nem só de bons homens é feita uma tripulação e que, às vezes, é necessário ter um homem de sangue negro no navio. "Quando os canhões abrem fogo e o mar escancara as portas do inferno, são esses homens que sabem como dobrar o demo", afirma John Silver.
A viagem transcorreu bem, com duas tempestades mais memoráveis e algumas aproximações dignas de nota. Pelo Uivo da Noite, cruzaram o Beagle (que, segundo relatos, navegava em direção a Galápagos), o Peregrino da Alvorada, o Pequod (que causou um calafrio em Dona Quiméria) e outras dúzias de galeões de diversas nacionalidades.
O único grande perigo ocorreu já nas proximidades de Agadir, quando pequenas e inúmeras embarcações buscaram se aproximar do Uivo. Nesse momento, um grito seco de John Silver cortou os ares, e um uivo arrepiante rasgou as ondas que confrontavam o navio. Capitão Stevenson assumiu o leme, enquanto Long John Silver, numa agilidade fantástica, entoava ordens aos quatros ventos do navio. A tripulação, em armas, aguardava a aproximação daqueles piratas modernos, naqueles curtos momentos que antecedem a eternidade.
Nesse momento, pela primeira vez, viu-se Mr. Hide em plena luz do dia, com o cabelo despenteado e os olhos vermelhos inundados em sangue. Não dizia nada, apenas mastigava as palavras que insistiam em chegar à boca.
As mãos contraídas e os punhos cerrados de Mr. Hide, contudo, perderam-se com a retirada das embarcações. Não se sabe o motivo, mas não houve um tiro sequer, apenas um movimento circular de retorno e abandono. Parte da tripulação comemorou aquele sucesso, enquanto Mr. Hide, calado, triturava freneticamente a ira e o ódio que perdera naquela evasão. Mais bestializado que antes, seguiu para a cabine de Dr. Jekyll e não mais foi visto durante a viagem.
Desembarcaram em Agadir em 15 de dezembro, durante as cores únicas da alvorada. À frente, Dona Quiméria exibia o estandarte alvinegro e bailava naqueles movimentos únicos de porta-bandeira, conduzindo aquele imenso cordão alvinegro rumo a Marrakech.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Abismo
Estação meteorológica fica no cume de montanha a 2.600 metros.
(Foto: Caters News Agency)
http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2013/11/banheiro-no-topo-de-montanha-na-russia-e-o-mais-perigoso-do-mundo.html.
(Foto: Caters News Agency)
http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2013/11/banheiro-no-topo-de-montanha-na-russia-e-o-mais-perigoso-do-mundo.html.
***
o banheiro está sobre o abismo, que, de fato, não existe.
o abismo é a ausência da montanha.
o perigo está no presente ou no ausente?
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
África do Sul
Para Mandela
um novo contorno, um novo Leite.
é a flor da lembrança dos jardins da Católica.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Mensaleiro III
um emprego para chamar dir ceu precisa valer 20 mil.
menos que isso, é melhor ser mártir político na Papuda e escrever um livro do cárcere.
menos que isso, é melhor ser mártir político na Papuda e escrever um livro do cárcere.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
domingo, 17 de novembro de 2013
Taberna
durante dois anos, lia-se no frontispício de nossa taberna: "Mudamos de casa, de nome, de letra. Mudamos os hábitos, os hinos, as bandeiras. Contudo, seguimos nós e as dúvidas. BdR".
pouco a porta se abriu e a fumaça não revelava o fogo.
pouco a porta se abriu e a fumaça não revelava o fogo.
sábado, 16 de novembro de 2013
Mensaleiro
A ortografia é única: grafa-se "genuíno"; qualquer alteração não é variação linguística, é erro mesmo. O falsário que carrega uma bandeira com poema do Quintana, só o último círculo das orlas infernais receberia. Nunca, na história desse país despronominado, a poesia foi tão aviltada.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Operação Xibiutis - parte III
– Aí, a Espanha entrô no xibiu. Eta, égua!!! Achô que a lua era queijo e deu nu que deu. Porque xibiu, se num fô bem medido, mata um home, meu fio. – concluiu rindo. – Aí, eu tava conversano co' Marquês e ele me disse: “Leva o xibio de Recife, porque ele já tem experiência”. Num pensei duas veiz.
– ...
– Meu fio, a Espanha é vermeia quinem o Xuvisquis, num fala português quinem o Xuvistis e tava cheia de fama quinem tá o Xubitis. Intão, recolhemu uma meia dúzia de uns sete xibiu, dos de mió qualidade, todos que tava com a Espanha no meio do ano e vamo tocá pro Marrocos agora. Esses xibiu, mais o sal grosso, mais a taioba, mais os naco de porco, mais nós tudo que tá aqui vamo vô parti pra cima do Xuvitis.
– ...
– Roberto, num tem nada não. O mundo é assim desde deus-menino.
– ...
– Tô preocupada é com o Fernandinho, meu fio. Tô achando que el’s tão querendo baixá o cabelo dele e isso nós num podemu deixá. Já tô matutando alguma coisa pra resorve isso, mas num tá fácil. Fiquei sabendo que o Bastião do Xuvistis num vai, mas isso num resorve muito o nosso pobrema. Vai pensando daí qu’eu tô pensando aqui.
– ...
– Num falei antes dessa nossa missão no Recife purque era secreta, meu fio. Nessas hora, é preciso muito cuidado pra num vazá nada, porque tem um monte de raposa seguindo a gente e elas num pode discubri nada antes da hora.
– ...
– Intão é isso, Roberto. Operação Xibiutis concluída. Fi'co’Deus! Se ocê tive que rezá e quisé pidi umas coisa, num pede pra São Vito e nem pra São Humberto, porque el’s tão indo com a gente e num vão podê atendê nesses dia.
– ...
– Meu fio, a Espanha é vermeia quinem o Xuvisquis, num fala português quinem o Xuvistis e tava cheia de fama quinem tá o Xubitis. Intão, recolhemu uma meia dúzia de uns sete xibiu, dos de mió qualidade, todos que tava com a Espanha no meio do ano e vamo tocá pro Marrocos agora. Esses xibiu, mais o sal grosso, mais a taioba, mais os naco de porco, mais nós tudo que tá aqui vamo vô parti pra cima do Xuvitis.
– ...
– Roberto, num tem nada não. O mundo é assim desde deus-menino.
– ...
– Tô preocupada é com o Fernandinho, meu fio. Tô achando que el’s tão querendo baixá o cabelo dele e isso nós num podemu deixá. Já tô matutando alguma coisa pra resorve isso, mas num tá fácil. Fiquei sabendo que o Bastião do Xuvistis num vai, mas isso num resorve muito o nosso pobrema. Vai pensando daí qu’eu tô pensando aqui.
– ...
– Num falei antes dessa nossa missão no Recife purque era secreta, meu fio. Nessas hora, é preciso muito cuidado pra num vazá nada, porque tem um monte de raposa seguindo a gente e elas num pode discubri nada antes da hora.
– ...
– Intão é isso, Roberto. Operação Xibiutis concluída. Fi'co’Deus! Se ocê tive que rezá e quisé pidi umas coisa, num pede pra São Vito e nem pra São Humberto, porque el’s tão indo com a gente e num vão podê atendê nesses dia.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Operação Xibiutis - parte II
– Minino, a praia de Boa Viage é linda. Gostei dimais. Aqui tamém é cidade do Galo, o da Madrugada. Eta Galo bão, sô!!!
Respirou fundo e prosseguiu:
– Meu fio, pra enfrentá o Xuvisquis, nós precisamu recolhê uns material e por isso nós passamu aqui no Recife. Nós num podemu se esquecê que, antes do Xuvistis, temo que passá pelos raiados, o que carece de atenção tamém. Num podemu dexá esses raio caí na gente, inda mais que el’s são azul e branco. Aí, nós pegamu muito sal grosso pelo caminho, pra ajudá a aterrá esses raiado, porque num podemu corrê o risco de tomá um biliscão deles. É um ôio neles e outro no Xivitis.
– ...
– Pra enfrentá o Vermeião, nós precisava de um ingrediente especial, que tem no Brasil todo, mas o daqui já tem... cumé que fala? Quando ocê já testô e deu certo?
– ...
– Isso, isso, experiência. O daqui já tem experiência no assunto.
– ...
– Xibiu.
– ...
– Xibiu, meu fio. É isso memo que ocê ouviu. Nós viemu aqui recolhê uns xibiu.
– ...
– Eta memória fraca, hein, minino? Ocê não se alembra da Copa das Confederações desse ano? Vô explica: quando a seleção da Espanha ficô aqui no Recife, el’s arrumaru umas confusão braba, tá lembrado?
– ...
– Isso, minino. O consumo de xibiu foi muito grande aqui e el’s acabaru desconcentrando, ficando fraco e sem vontade. Aí, quando el’s foru disputa a final no Maracanã com a gente, além de nós jugá mió, eles num tava bem. Aí, nós sapecamu el’s: 3x0. Eta festança!
– ...
– Antes de começá, todo mundo só falava da Espanha, que a Espanha ia ganhá, que ia atropelá, que ninguém guentava ela e otras coisa. Só que esses memo que falava isso num alembrava que o futebol é quinem dô de barriga: muitas coisa num cai bem e nem sempre o apito anuncia o fim de jogo, as vezes é no apito é que as coisa começa a acontecê.
Respirou fundo e prosseguiu:
– Meu fio, pra enfrentá o Xuvisquis, nós precisamu recolhê uns material e por isso nós passamu aqui no Recife. Nós num podemu se esquecê que, antes do Xuvistis, temo que passá pelos raiados, o que carece de atenção tamém. Num podemu dexá esses raio caí na gente, inda mais que el’s são azul e branco. Aí, nós pegamu muito sal grosso pelo caminho, pra ajudá a aterrá esses raiado, porque num podemu corrê o risco de tomá um biliscão deles. É um ôio neles e outro no Xivitis.
– ...
– Pra enfrentá o Vermeião, nós precisava de um ingrediente especial, que tem no Brasil todo, mas o daqui já tem... cumé que fala? Quando ocê já testô e deu certo?
– ...
– Isso, isso, experiência. O daqui já tem experiência no assunto.
– ...
– Xibiu.
– ...
– Xibiu, meu fio. É isso memo que ocê ouviu. Nós viemu aqui recolhê uns xibiu.
– ...
– Eta memória fraca, hein, minino? Ocê não se alembra da Copa das Confederações desse ano? Vô explica: quando a seleção da Espanha ficô aqui no Recife, el’s arrumaru umas confusão braba, tá lembrado?
– ...
– Isso, minino. O consumo de xibiu foi muito grande aqui e el’s acabaru desconcentrando, ficando fraco e sem vontade. Aí, quando el’s foru disputa a final no Maracanã com a gente, além de nós jugá mió, eles num tava bem. Aí, nós sapecamu el’s: 3x0. Eta festança!
– ...
– Antes de começá, todo mundo só falava da Espanha, que a Espanha ia ganhá, que ia atropelá, que ninguém guentava ela e otras coisa. Só que esses memo que falava isso num alembrava que o futebol é quinem dô de barriga: muitas coisa num cai bem e nem sempre o apito anuncia o fim de jogo, as vezes é no apito é que as coisa começa a acontecê.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Operação Xibiutis - parte I
– Alô!? Roberto? É ocê? Sou eu, meu fio, a Quiméria.
– ...
– Tô, tô no Recife, já resolvi os pobrema tudo aqui e daqui a pouco nós vão saí de novo. Daqui pro Marrocos.
– ...
– Nós chegamu onti, meu fio. Tá todo mundo bem, a viagem foi boa, só tivemu uns pobrema na chegada aqui na cidade, mas dirresto foi tudo muito bão. Num pegamu chuva, muitas vêiz tinha uma brisa fresca pra arejá, a comida foi boa, e a comitiva tá confiante.
– ...
– Minino, nós saímu daí aquele dia e viemu subindo: cumemo uns pequi em Montes Claros, recolhemu umas pimenta e muito azeite de dendê em Salvador e viemu apeá aqui em Recife.
– ...
– O dendê? Eta, Roberto, nós vão precisá dele no Marrocos. Mas como eu ia falano co’cê: nós viemu apeá aqui em Recife. Quando nós tava chegano na cidade, um mundéu de timbu tentô cercá a gente. Mas era muito memo. A cara deles num tava muito boa e nós pensamu até em conversá, mas resolvemu, graças a Deus, corrê. Foi nossa salvação!
– ...
– Ocê tá esquecendo da sapecada que nós demu nel’s no Horto? Intão, nós tamém isquecemu. Quando o Chicão me alembrô disso, nós arrumamu uma correria da peste.
– ...
– E el’s atrás da gente.
– ...
– Não, meu fio, num teve conversa, num teve nada. Era só nós correnu e el’s atrás.
– ...
– Eu tentei, mas o Elotero ingasgô. E eu gritava: “Atira, home de Deus!” e o Elotero, ingasgado, nem respondia. “El’s tão chegano e vão pegá a gente. Atira logo!” E eu batia nas costa dele pra desingasgá o pobre coitado e nada. E el’s só chegano, só chegano, só chegano...
– ...
– Medo? Não, meu fio, num tinha ninguém cu’ medo não. Era quinem um “coletivo”, um treinamento para enfrentá o Xucrutis.
– ...
– Aí, de tanto batê nas costa do Elotero, ele disingasgô. E foi um só! Pá!!! Vuô taioba pra tudo enquanté lado. Aí, os timbu assustarô e correru pro outro lado.
– ...
– Brigá? Pra que brigá, meu fio? Nós tamu focado no Xuvitiz e brigá num resolve nada. Por isso, nós corremu.
– ...
– Tô, tô no Recife, já resolvi os pobrema tudo aqui e daqui a pouco nós vão saí de novo. Daqui pro Marrocos.
– ...
– Nós chegamu onti, meu fio. Tá todo mundo bem, a viagem foi boa, só tivemu uns pobrema na chegada aqui na cidade, mas dirresto foi tudo muito bão. Num pegamu chuva, muitas vêiz tinha uma brisa fresca pra arejá, a comida foi boa, e a comitiva tá confiante.
– ...
– Minino, nós saímu daí aquele dia e viemu subindo: cumemo uns pequi em Montes Claros, recolhemu umas pimenta e muito azeite de dendê em Salvador e viemu apeá aqui em Recife.
– ...
– O dendê? Eta, Roberto, nós vão precisá dele no Marrocos. Mas como eu ia falano co’cê: nós viemu apeá aqui em Recife. Quando nós tava chegano na cidade, um mundéu de timbu tentô cercá a gente. Mas era muito memo. A cara deles num tava muito boa e nós pensamu até em conversá, mas resolvemu, graças a Deus, corrê. Foi nossa salvação!
– ...
– Ocê tá esquecendo da sapecada que nós demu nel’s no Horto? Intão, nós tamém isquecemu. Quando o Chicão me alembrô disso, nós arrumamu uma correria da peste.
– ...
– E el’s atrás da gente.
– ...
– Não, meu fio, num teve conversa, num teve nada. Era só nós correnu e el’s atrás.
– ...
– Eu tentei, mas o Elotero ingasgô. E eu gritava: “Atira, home de Deus!” e o Elotero, ingasgado, nem respondia. “El’s tão chegano e vão pegá a gente. Atira logo!” E eu batia nas costa dele pra desingasgá o pobre coitado e nada. E el’s só chegano, só chegano, só chegano...
– ...
– Medo? Não, meu fio, num tinha ninguém cu’ medo não. Era quinem um “coletivo”, um treinamento para enfrentá o Xucrutis.
– ...
– Aí, de tanto batê nas costa do Elotero, ele disingasgô. E foi um só! Pá!!! Vuô taioba pra tudo enquanté lado. Aí, os timbu assustarô e correru pro outro lado.
– ...
– Brigá? Pra que brigá, meu fio? Nós tamu focado no Xuvitiz e brigá num resolve nada. Por isso, nós corremu.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Legião estrangeira
sem luz, não há sombras.
o que faz você aqui? por quem procura?
são palavras? aquelas?
estão todas aqui, mas nem sempre é fácil vê-las.
o que faz você aqui? por quem procura?
são palavras? aquelas?
estão todas aqui, mas nem sempre é fácil vê-las.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Nos dentes
a faca está nos dentes.
quando nas mãos,
não haverá amarra,
perdão, dúvida.
só o gume frio
e o futuro claro.
quando nas mãos,
não haverá amarra,
perdão, dúvida.
só o gume frio
e o futuro claro.
sábado, 9 de novembro de 2013
Sem cheiro
nua, como os brancos alvos dentes:
- é um sonho.
- o cheiro de verdade me disse.
- não tenho palavras.
- então por que não ficou em silêncio?
- a minha máscara cairia.
- é um sonho.
- o cheiro de verdade me disse.
- não tenho palavras.
- então por que não ficou em silêncio?
- a minha máscara cairia.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Gota de fogo
Binsar Bakkara/AP
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2013/11/imagens-do-dia-6-de-novembro-de-2013.html#F1001096
***
Um gato foi fotografado no telhado de uma casa coberta de cinzas vulcânicas da erupção do Monte Sinabung em Mardingding, Indonésia.
***
na língua de fogo,
uma gota de vida se aquarela.
domingo, 3 de novembro de 2013
Caçada ao bávaro vermelho - parte III
- A pé, Dona Quiméria? A pé não dá, é muito longe. O Marrocos fica do outro lado do Atlântico.
- Meu fio, num tô preocupada de que lado o Atlântico tá: num torço pra ele e, se ele engraçá com gente, nós metemo taioba nele tamém.
- O Atlântico é um mar, Dona Quiméria.
- Eu sei, meu fio. E daí? Moisés andô quarenta ano no deserto com o povo dele dispois de tê atravessado o Mar Vermeio e ninguém falô que era longe. Nós vamu andá muito menos... Nós num temu esse tempo todo tamém.
Prosseguiu ela:
- Eta, tô pensando aqui: nós tamém vão tê que atravessá o vermeio, só que em vez de sê o mar vai sê o porco. - e sorriu.
- Nós tamu saino hoje purque hoje é dia de São Humberto, o santo protetô dos caçadô. Com nosso grupo certinho, as peça certa, a munição vera e o santo junto, vai ficá mais fácil enfrentá o Xubitis. Agora, meu fio, ocê num repará não que nós temo que botá o pé na estrada. Temo que passá no Recife antes de sigui pro Marrocos.
- Para quê, Dona Quiméria?
- Isso é um segredo, meu fio. Dispois de resolvido, iscrevo pr'ocê contano.
Prendeu o saco de bala na algibeira, fez sinal para o Chicão pegar as iscas, colocou o Elotero nas costas, juntou alguns pertences e gritou:
- Meninada, nós saímu hoje pr'uma caçada grande, a maió da nossa vida até agora. Nós sabemu que o Xulrutis tá esperando a gente iqui num acredita que nós podemu dirrubá ele. Acha que nós somu um bando de morto de fome, de peladeiro sem rumo nem prumo, que vamu chega lá e caí que nem pato. Pato não, purque aqui é Galo!!!
Um trovão ressoou no terreiro. Seguiu ela:
- Nada foi fácil até agora e num ia sê agora que ia mudá. Intão, pode prepará pra guerra, pode prepará pro sofrimento, até mesmo pra dor, mas tamém pode prepará pra alegria, pra vitória, pro banquete. Só vai dependê de nós: se nós somu o Davi, vamo sentá a funda nesse Golias!
Um novo estrondo iluminou o terreiro.
- Vamu mostrá que o que é impossíve pros otros, pra nós é história, é magia, é festa. Por aqui é Galo, e o Galo num disiste nunca. Vamu pegá esse Xubitis e prepará uma boa feijoada com ele, completa, com trupicão à vontade, com muita foia de couve e laranja baía. Sem medo, mininada, porque o futuro é nosso. - e concluiu gritando: Galo!!!
O quintal, vivo, respondeu novamente. Dona Quiméria partiu, seguida pelo Chicão, e me pediu que abrisse a porta da cozinha, que levava ao quintal: "Pr'os minino saí".
Ao abrir a porta da cozinha, um mar de galos se avolumava a minha frente, a perder de vista. Eram muitos, inúmeros, milhares, de todas as cores, de todas as raças, de todos os credos, todos seguindo Dona Quiméria. Um espetáculo magnífico, único, tal como será a caçada a esse bávaro vermelho.
Caçada ao bávaro vermelho - parte II
- De quem?
- Num sei bem se é Xútis, Xultis, Xurultis, Xubultis, mas nós vamo pegá o bicho. É ou não é, Chicão?
O cachorro rosnou, latiu e avançou no som que o nome evocara.
- Eta minino, bão, sô! Nós vamu saí hoje e só voltamo perto do Natal, depois de tê derrubado o bicho. Já tamu com tudo pronto: munição, comida e água, o plano pra intucaiá o danado, a maneira de dirrubá e tudo quantuá.
Prosseguiu ela:
- Tá todo mundo dizendo que o bicho é grande que nem popótamo, mal que nem cobra e muitas vezes maior que o javali do Hércules, ma num tem poblema. Nós tamu junto e vamo vencê.
Caminhei até os volumes que estavam no chão da sala e li, num saco, "bala".
- Posso ver?
- Claro, meu fio, é só num misturá.
Abri o saco e percebi que eram vegetais.
- O que é isso, Dona Quiméria? - e levei ao nariz para cheirar.
- Talo de taioba, meu fio. Num conhece não?
- Mas aqui está escrito "bala"?
- Intão, pra nós metê bala no bicho. Não tem coisa mió. É taioba da boa.
Percebendo que não estava entendo, disse ela:
- Meu fio, esse Xucrutis, Xuvrutis ou sei lá que diabo de nome ele tem, é um porco gigante. Tão dizendo que é o maió da oropa, vermeião, imponente, que num fala português, que é o tal. Aí, nós tamu levando esse carregamento de bala para enchê o bucho dele. Nós soca na boca do Elotero, e Elotero cospe fogo pra dentro do bicho.
- A taioba é para engordar o porco?
- Eta minino, e pra que mais devia de sê? Ele vai cumê tudo, vai crescê mais ainda, vai se achá ainda maió, o bonzão, e aí, gordão e pesadão, nós pegamu ele.
- E esse saco aqui? - disse eu abrindo e sentindo um cheiro de carne de porco.
- Ah, esse é das isca. Pra espantá as raposa que vão sigui a gente. Ocê sabe que as raposa adora espreitá a gente durante uma caçada, principalmente sabendo que o bicho é desse tamanho. Aí, seguindo o conselho do Barão, que tem ixperiência nessas coisa, tamo levando essa carne de porco pra espaiá pelo caminho e tirá o foco da raposada. Elas vão querê secá a gente, mas vão atrás do porco errado.
- A senhora vai como? De avião?
- A pé, uai.
Caçada ao bávaro vermelho
Estampidos roucos avisaram-me que a casa estava em guerra.
- Dona Quiméria?! - gritei eu.
Rebombaram mais alguns e só. Silêncio. Alguns segundos depois, a porta da cozinha se abriu e apareceu Dona Quiméria com uma cara de front.
- Ô meu fio, é ocê? Vamo entrá. Num repara não que eu tô em campanha.
- Que barulho era esse, Dona Quiméria? Parecia tiro.
- Nonada. Tiros que ocê ouviu não foram de briga não, Deus esteja. Era o Elotero limpando a garganta.
- Quem?
- Vamo entrá que eu mostro pr'ocê.
Reinava na casa um ar diferente, que não pode ser explicado, desse que antecede os grandes feitos. As janelas estavam fechadas e havia alguns volumes na sala, ao lado dos quais se colocava o Luisinho.
- Olá, Luisinho. - saudei o cachorro. Ele me olhou, mostrou os dentes e rosnou como um leão.
- Eta, meu fio! Num chama o Chicão de Luisinho que ele num gosta.
- Mas achei que fosse o Luisinho...
- Os óio da gente pode se enganá, meu fio. - disse ela afagando a cabeça do Chicão, o que fez com que ele guardasse os dentes.
A pouca luz que penetrava o ambiente me trouxe a certeza: na casa reinava um fim de ciclo. Perguntei:
- A senhora vai viajar?
- Eu só não: eu, os minino, o Chicão, o Elotero e mais um grupo de amigo.
- Para onde?
Enquanto perguntava, Dona Quiméria me deu as costas e entrou em um quarto, ainda mais escuro do que a sala em que estávamos. Não respondeu.
Como ela demorava e havia ruídos no quarto, perguntei de novo:
- Pra onde?
- Pro Marrocos - respondeu ela aparecendo com uma espingarda descomunal nas mãos.
- Que isso, Dona Quiméria?
- É o Elotero, meu fio. Ocê num pergunto por ele. Tá aí ele.
Não era bem uma espingarda, mas um bacamarte colossal, com um aspecto bem velho e alguns pontos de ferrugem.
- Nós vamo atrás do Xútis.
sábado, 2 de novembro de 2013
Epitáfio
aos amigos, pela alegria do encontro.
aos não amigos, pelo aprendizado profissional.
aos inimigos, pela paz da distância.
aos vermes, por permitirem apenas a lembrança.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Talento
A visão que um escritor sustenta deve ser compatível com a sanidade, no sentido clínico, e com o poder do pensamento contínuo: afora isso, o que pedimos a ele é talento, que é provavelmente outro nome para convicção.
George Orwell
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
O tiro da paz
Eric Gay/AP
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2013/10/imagens-do-dia-30-de-outubro-de-2013.html#F993689
***
Pombos transformaram em um poleiro a espingarda de uma estátua de Benjamin Rush Milam, localizada no parque Milam, em San Antonio, no Texas (EUA).
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2013/10/imagens-do-dia-30-de-outubro-de-2013.html#F993689
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Pombos transformaram em um poleiro a espingarda de uma estátua de Benjamin Rush Milam, localizada no parque Milam, em San Antonio, no Texas (EUA).
***
entre os pombos, só se ouvia: "faça amor, não faça guerra".
sábado, 26 de outubro de 2013
Andança
Agradecimento a Paulinho Tapajós
as noites quentes regadas a vinho adormeceram
a música cessou
fechadas portas e janelas
churrasqueira apagada
apenas um andar trôpego solfeja pela rua escura:
a lembrança da seresta de nossos sorrisos jovens
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Ano 5
nossa sombra tem se mostrado independente, sem corpo que a materialize. hoje, cinco anos de ribalta, mais bucaneiros, menos palavras.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
terça-feira, 1 de outubro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
As mulheres de Lulu (III)
Depois de alguns minutos de solfejos e músicas, ele me disse:
- O que traz você aqui?
- Quero conversar com o senhor.
- Sobre o quê?
- Sobre todos nós.
- Nós quem?
- Nós Mendes.
- O que têm os Mendes?
- É o que quero saber. E também quero o que eles não têm.
- É muita filosofia para mim. Preciso refrescar as ideias.
Caminhou até perto da cama, abaixou e puxou uma caixa de madeira que estava sob a cama. A caixa cantou ao vir à luz e revelou-se um engradado. Retirou uma garrafa, examinou o conteúdo, devolveu a garrafa ao engradado e pegou outra. Repetiu esse movimento até se dar por satisfeito com uma garrafa.
- Muito bem. Essa é uma espécie única. Safra de... - olhou o relógio e cravou - sete horas atrás. Um brinde.
Puxou dois copos, abriu a garrafa e, servindo:
- Lúmen, Lúmen, Lúmen - bradou ele com olhos apaixonados.
- A mítica cerveja Luiz Mendes.
- Um brinde aos Mendes, aos nossos, àqueles que sabem por que viver, por que morrer.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
As mulheres de Lulu (II)
- A porta estava aberta e eu...
- E você é cachorro para entrar só porque a porta está aberta?
- Eu não...
- Minguta! - gritou ele ao ver apontar uma galinha no alto do guarda-roupa. O que você tá fazendo aqui dentro? Vai pra fora.
Correu atrás da galinha e a colocou para fora do quarto. Suspendeu as calças que já iam ao joelho, assoou o nariz e me encarou novamente.
- Quem é você?
- Neto do Zaio.
- Que Zaio?
Percebi que o ciclo se reiniciaria e resolvi mudar a abordagem.
- Sou Mendes, Tio Lulu, seu sobrinho-neto.
Ele parou, apertou o cinto da calça, limpou as mãos no paletó e, com os olhos marejados, disse:
- Eu sabia que era você. Só um Mendes responde corretamente a um Mendes. - e me abraçou. Como está seu pai, sua mãe, o Zaio, a Raimunda? Me dê notícias de todos.
domingo, 15 de setembro de 2013
As mulheres de Lulu
sete dias e 84 anos separam o início da conclusão.
***
- Tio Lulu! - gritei entrando pela casa. Estrondos vinham do quarto, como se objetos fossem arremessados à parede.
- Tio Lulu! Oh Tio Lulu! - insisti.Os ruídos cessaram. Prossegui.
- Tio Lulu! - chamei e fui empurrando a porta do quarto.
- Que que é? Que que é? - respondeu em tom colérico.
Fiz um gesto cordial cumprimentando com as mãos.
- Quem é você? O que que você quer?
- Sou neto do Zaio.
- Que Zaio?
- Seu irmão.
- Não conheço. Quem é seu pai?
- O Zézé.
- Qual Zezé?
- O do Zaio.
- Zezé do Zaio?
- Isso.
- Não conheço.
- Não se lembra do Zezé e do Zaio?
- Claro que não, idiota. Os dois eu conheço. Não conheço você. - sorriu e arremessou um sapato que tinha em mãos na parede.
- É barata?
- Claro que não. Se fosse barata, a Minguta já tinha comido. Falando nisso, cadê a Minguta?
Ei, e você? Como entrou aqui?
domingo, 1 de setembro de 2013
Dos ratos
os ratos são os primeiros a abandonar o navio.
por isso, algumas histórias só por eles são contadas.
por isso, algumas histórias só por eles são contadas.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Monarquia dos incompetentes
nessa gleba, o discurso real é ser amigo do rei.
de que valem palavras certas se as linhas são tortas?
é melhor um café e programar uma viagem.
de que valem palavras certas se as linhas são tortas?
é melhor um café e programar uma viagem.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
O que quero
Girassol que ganhou mais altura que seus vizinhos é visto em um campo de flores em Dakota do Norte, nos EUA. A imagem feita na semana passada foi divulgada nesta segunda-feira (26).
Karen Bleier/AFP
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2013/08/imagens-do-dia-26-de-agosto-de-2013.html#F921581
***
não quero mais apenas a luz do sol.
agora eu quero o céu.
domingo, 25 de agosto de 2013
Intelligencia
Nos homens, e nas nações, a maior independencia suppõe maior intelligencia.
Collecção de Pensamentos e Maximas. Lisboa, 1845.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Do fogo
Carcará é visto sobre a carcaça de um bovino morto, no rescaldo do incêndio de grandes proporções que teve início em lavoura de cana em Dourados (MS), deixando um morto. O fogo atingiu pasto e áreas de reserva florestal; os prejuízos estão sendo somados.
Ademir Almeida/Futura Press/Estadão Conteúdo
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2013/08/imagens-do-dia-23-de-agosto-de-2013.html#F918252
***
apenas um descanso na longuidão incandescente da jornada.
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Creação da comarca de Itapecerica
LEI N. 1867 – DE 15 DE JULHO DE 1872.
Lei que crea as comarcas de Queluz, Rio Dourados, Itapecerica, Itajubá, e Leopoldina, e contem outras disposições
O Dr. Joaquim Floriano de Godoy, Presidente da Provincia de Minas Geraes: Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléa Legislativa Provincial decretou, e eu sanccionei a lei seguinte:
Art. 1º. Alem das comarcas existentes, ficão creadas mais cinco, a saber: os termos de Queluz e Bomfim formaráõ a comarca de Queluz: os da Bagagem, Patos e Patrocinio a do Rio Dourados; os de Tamanduá e Santo Antonio do Monte a de Itapecerica; os de Itajubá e S. José do Paraizo a de Itajubá; os da Leopoldina e Pomba a de Leopoldina.
§ 1º. Os termos de Curvello e Sete Lagoas constituirão a actual comarca do Paraopeba.
§ 2º. O termo de Santa Rita do Turvo fica pertencendo á comarca de Muriabé.
Art. 2º. Ficam revogadas as disposições em contrario.
Mando, portanto, a todas as autoridades, á quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumprão e fação cumprir tão inteiramente como nella se contem. O Secretario desta província a faça imprimir publicar e correr. Dada no Palacio da Presidencia da Provincia de Minas Gerais aos quinze dias do mez de Julho do anno do Nascímento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e setenta e dous, quinquagesimo primeiro da Independencia e do Imperio.
(L.S.)
DR. JOAQUIM FLORIANO DE GODOY.
Modesto Romão de Andrade a fez.
Sellada na Secretaria da Presidencia da Provincia aos 15 de Julho de 1872.
José da Costa Carvalho.
Nesta Secretaria foi publicada em avulso a presente lei em 20 de Julho de 1872.
José da Costa Carvalho.
Disponível em http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/leis_mineiras_docs/
photo.php?lid=68859.
photo.php?lid=68859.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
A matemática da macaca
- Alô?
- ...
- Ô, meu fio! É ocê! Tudo bão?
- ...
- Graças a Deus, tudo em paz. Os menino tamém tão bom.
- ...
- O quê? O que que tão falando?
- ...
Dona Quiméria ria ao telefone.
- É isso memo, meu fio. Isso é papo de secadô, num esquenta a pioienta não. - e seguia gargalhando. - É a matemática da macaca, meu fio. Deu certo.
- ...
- Vô explica pr'ocê. Tem muita gente de oio grande no Galo, secadô memo, desses brabo. Aí, pra minha poção de boldo funcioná, eu picisei enganá esse povo todo. Que que eu fiz: arrumei a poção pro último sábado, que era rodada 13 do Brasileirão, pra numeração ajudá. Só que o Galo teve um jogo adiado, tá lembrado? Ocê se lembra com quem, né?
- ...
- Isso, meu fio. Com a Ponte Preta, a macaca. Desse jeito, os secadô acharu que devia secá no sábado pra poção dá errado, o que eles fizeru bem, tanto é que o Galo num ganhô. Aí, eles acharu que a poção num valeu nada e baixaru a força dos óio. Aí, ontem, contra o Bahia, com menos óio e a poção fermentando qui nem pimenta, nós jogamo e ganhamo três ponto.
- ...
- Num adianta mais, meu fio. Agora a poção já pegô e tá funcionando. Num precisa preocupá. Eles vão continuá secano, mas o Galo tá protegido. Quem vai tê que se preocupá agora é os secadô.
- ...
- É isso memo, meu fio. Aqui é Galo.
sábado, 10 de agosto de 2013
Boldo
- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
- Pra sempre seja louvado! Vamo entrá, meu fio!
- E o Chicão, Dona Quiméria?
- Tá ocupado, meu fio! Num esquenta a pioeinta não.
Atravessei o portão, o jardim e, entrando pela casa, fui encontrá-la na cozinha mexendo alguma coisa no fogão. Uma nuvem verde tomava conta da casa, e eu ouvia, ao longe, o rosnado certo do Chicão, porque o Luisinho não rosna e raramente late.
- Saudades da senhora! - e a abracei.
- Tamém, minino. Cê tá meio sumido?
- Muito trabalho, Dona Quiméria.
- Ocê precisa relaxá mais, meu fio, si não ocê "num vai guentá" - e riu de alegria.
- A senhora tem razão. - e sorri pra ela.
Corri os olhos pela cozinha e percebi que a fumaça tomava conta também dos outros cômodos e caminhava para o quintal.
- Que fumaceira é essa, Dona Quiméria?
- Tô fazendo um defumadô, meu fio. Tô pricisano espantá a zica.
- Mas esse cheiro é de...
- Boldo! Isso memo. Boldo!
- Defumador com boldo eu nunca vi, Dona Quiméria.
- Os meus minino tão numa ressaca braba. Vai lá no quintal pr'ocê dá uma olhada.
Caminhei mais uns passos e, ao chegar à porta que levava ao quintal, me deparei com os galos de Dona Quiméria espalhados pelo quintal. Todos deitados ou encostados em um vaso ou planta, com um olhar distante.
- Estão doentes? - perguntei eu.
- Qui doente o quê, meu fio! Isso é ressaca memo. Eles beberu uma das boas, sinão a mió que tá tendo. É a América e, desde intão, tão nessa ressaca da peste. Tô fazendo esse defumeiro pra espantá a zica e, com o caldo que sobrá, vô fazê uma poção pr'eles revigorá.
Nesse momento, apareceu o Luisinho e foi até Dona Quiméria, "disse" alguma coisa e recebeu um afago. Virou-se e se dirigiu à porta: o cão soltou um uivo bestial e apareceu no quintal já como Chicão.
- O que foi, Dona Quiméria?
- É o Chicão que tá dando uma dura nos galo. El's precisá tomá vergonha e voltá a fazê a coisa certa.
- E o Luisinho?
- O Luisim é um craque, com ele é só na categoria. Pra esses serviço "mais pesado", tem que sê o Chicão. - e riu.
O Chicão se aproximava de cada galo e rosnava, latia e batia a pata esquerda dianteira no chão.
- Eta, que esse minino tá nervoso hoje. - e o cão prosseguia dando "uma dura" nos galos. Alguns levantavam, esticavam as asas, ameaçavam um canto, ensaiavam mesmo algumas esporadas.
Dona Quiméria desligou o fogo e virou o conteúdo do caldeirão em um balde metálico, desses leiteiros. Foi até o quintal, recolheu algumas folhas de arruda e voltou à cozinha.
- Mi ajuda aqui, meu fio. Pega esse balde pra mim e vão lá no quintal. É bom qui ocê espanta sua zica tamém.
Peguei o balde e a segui. No quintal, o Chicão, ao ver nossa chegada, parou o que fazia e foi sentar ao lado de Dona Quiméria, já transmutado em Luisinho.
- Eh mininada! Vamu acordá. Tá na hora de nós voltá a fazê o que fazemu de mió. Cada um d'ocês vai vim aqui nesse balde e vai dá uma golada nessa poção. Hoje é a rodada de número 13, e 13 é Galo, e a partir de hoje pricisamu voltá a vencê. Cabô esse negócio de festança e galinhada, é hora de metê as espora di novo. Vamu lá!
Coloquei o balde no chão. Os galos, um por um, se aproximavam e bebericavam a poção. Alguns mais, outros menos, mas sempre com uma careta danada. Enquanto isso, Dona Quiméria batia as folhas de arruda na cabeça deles.
- Ocê, Guilérme, bebe mais. Ocê tá pricisando!
- Ronaldinho, ocê bebeu? Mintira. Ocê qué é mi enganá. Volta aqui e bebe direito.
O galo voltou, bebeu uma boa golada, recebeu o afago de Dona Quiméria e ouviu:
- Minino, si ocê quisé, tudo pode acontecê.
O galo sorriu timidamente e balançou a cabeça. Dona Quiméria tirou uma caneca de alumínio do bolso do vestido e mergulhou no balde.
- Toma, meu fio! Esse é o seu. Pode bebê.
Peguei a caneca, verifiquei se estava quente (o cheiro de boldo era insuportável) e virei em um só "tapa".
- Isso, meu fio. Agora as coisa vão virá. Pode esperá e acreditá.
- Eu acredito.
Ao ouvir minha resposta, todos os galos cantaram, Chicão latiu insistentemente e Dona Quiméria mostrou, pelos alvos dentes, o sorriso dos crédulos, pois os incrédulos não têm dentes.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Velha infância
Agradecimento aos Tribalistas
Tributo aos 12 anos do Caneteiro
E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância...
segunda-feira, 29 de julho de 2013
A encantada
Na semana que passou, mais exatamente no dia 23 de julho, faltou a este blog comemorar os dez anos de amizade com a maior de vidente de BH, Dona Quiméria. Em 2003, no auge da performance da China Azul, juntou-se a nós essa figura única e seus fiéis escudeiros, Chicão e Luisinho, para que pudéssemos prosseguir com as míticas narrativas atleticanas.
É impossível olhar para a Arquibancada Atleticana e não vê-la entre aquele mundo de gente alvinegra, aquele mar de sorrisos e lágrimas, aquela onda de vozes de fé. A ela, Dona Quiméria, a quem chamamos carinhosamente de "A encantada", nosso agradecimento e nosso amor incondicional.
domingo, 28 de julho de 2013
O galo celestial
De acordo com os chineses, o galo celestial é uma ave de plumagem de ouro, que canta três vezes por dia. A primeira, quando o Sol toma seu banho matinal nos confins do oceano; a segunda, quando o Sol está no zênite; a última, quando afunda no poente. O primeiro canto sacode os céus e desperta a humanidade. O galo celestial é antepassado do yang, princípio masculino do universo. Dispõe de três pés e faz seu ninho na árvore fu-sang, cuja altura chega a centenas de milhas e que cresce na região da aurora. A voz do galo celestial é muito forte; seu porte, majestoso. Põe ovos dos quais saem pintos de crista vermelha que respondem a seu canto pela manhã. Todos os galos da Terra descendem do galo celestial, que também se chama ave da aurora.
Jorge Luis Borges
sábado, 27 de julho de 2013
Sem você
dez anos sem você. antes, os dias. agora, as noites adormecidas.
suas irmãs, lindas e graciosas, não têm o encanto de sua voz, a doçura de suas curvas.
não há mistério, não há mágoa.
suas irmãs, lindas e graciosas, não têm o encanto de sua voz, a doçura de suas curvas.
não há mistério, não há mágoa.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Mitologia
os secadores ouviram Olympia e entenderam Olimpo.
a vitória dos titãs confirmou a parca percepção.
a vitória dos titãs confirmou a parca percepção.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
O canto do vento
o vento que varre as montanhas de Minas
canta, solitário e destemido, que a batalha findou.
randômica, os mais tolos acreditam ser eco.
não reconhecem a sempiterna voz da massa alvinegra.
canta, solitário e destemido, que a batalha findou.
randômica, os mais tolos acreditam ser eco.
não reconhecem a sempiterna voz da massa alvinegra.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Eu acredito
Et post dies octo iterum erant discipuli eius intus, et Thomas cum eis. Venit Iesus ianuis clausis et stetit in medio et dixit: “Pax vobis!”. Deinde dicit Thomae: “Infer digitum tuum huc et vide manus meas et affer manum tuam et mitte in latus meum; et noli fieri incredulus sed fidelis!”. Respondit Thomas et dixit ei: “Dominus meus et Deus meus!”. Dicit ei Iesus: “Quia vidisti me, credidisti. Beati, qui non viderunt et crediderunt!”.
João 20: 26-29
terça-feira, 23 de julho de 2013
Piada pronta
Para José Simão
A presidenta disse, no discurso de boas-vindas ao Papa Francisco, que a fé faz parte da alma do brasileiro. Esqueceu-se ela de dizer que também faz parte do vocabulário brasileiro. "Fé da puta!"
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Recado presidencial
Avisemos à Presidenta que, nesse país, o Português (a língua) não pode ser abreviado como PT.
domingo, 21 de julho de 2013
1995
Cabe tudo aqui dentro.
E essa ideia de prazer
e esse mundo lúdico
nunca vêm de dentro
está tudo no exterior
E essa ideia de prazer
e esse mundo lúdico
nunca vêm de dentro
está tudo no exterior
sábado, 20 de julho de 2013
O jabuti
- Por que corre, coelho?
- Porque o caminho é longo, jabuti. Você não corre?
- Não, apenas caminho.
- Mas assim você não chega, jabuti.
- O meu caminho, coelho, ainda não existe, eu o faço.
- Porque o caminho é longo, jabuti. Você não corre?
- Não, apenas caminho.
- Mas assim você não chega, jabuti.
- O meu caminho, coelho, ainda não existe, eu o faço.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Andrógina banana
a roupa a que chamamos casca é um vestido único de três zíperes que envolve a fálica fruta.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Sempre preto e branco
Em todas as lutas vence o mais forte, o que bate mais, o que se cansa menos. O cansaço é a principal causa de todas as derrotas. Quem aguenta um minuto mais que o parceiro está vencedor.
Monteiro Lobato
Somos alvinegros. Sempre. Nada mais atleticano do que o preto e branco, do que o barroco sentimento claro e escuro. Quando nos esquecemos dessa máxima e nos tornamos apenas brancos, ou apenas pretos, deixamos o espírito atleticano de lado: um corpo sem espírito é apenas um corpo.
Não somos o time que joga apenas com técnica, apenas com raça. Não nos define só a defesa, ou só o ataque; ou só a cadência, ou só a velocidade; ou só toque de bola, ou só bola rifada; ou só a tradição, ou só a inovação. Só, nada nos define, porque não somos sós, não estamos sós.
Na Arquibancada Atleticana, não há só homens, só mulheres, só crianças, só velhos, só ricos, só pobres, só escolados, só desescolados, só gênios, só tolos, só brancos ou só pretos. Todos estão lá, juntos, no maior movimento civil não organizado de Minas Gerais. Nós não choramos só nas derrotas, nem só rimos nas vitórias, nós choramos nas vitórias e rimos, enlouquecidos, nas derrotas.
Nós não somos o time do passado, tampouco o do futuro: nós somos o time do presente, seja ele doce ou amargo, principalmente porque, para muitos, melhor é o amargo do que o doce. Nós não perdemos de véspera (afinal, somos Galo, não peru), e também não ganhamos na posteridade: nossas lutas são durante os noventas minutos e mais o que o destino nos apresentar (prorrogação ou pênaltis).
Nós somos da Arena Independência e também do Mineirão. Nós somos de Minas, do mundo misturado de Rosa e do sentimento do mundo de Drummond. Por isso, nossos jogos são um mundo de emoções, um mundo de possibilidades, um mundo de aventuras (como tão bem gostam as crianças). Por isso, nossa torcida é um mundão de gente, é um mundo de tipos e de vozes, de cores, de cheiros, de olhos, de falas, de dentes e de crenças.
Misturados, pretos e brancos, brancos e pretos, podemos escrever mais uma página heroica em nossa história na próxima quarta-feira. Precisamos, para isso, da “bagunça organizada”, da vibração e da inspiração juntas, dos pés em campo e das mãos na arquibancada, do amor e do terror (não entendido como violência, mas como imposição de superioridade ao adversário), do ideal e do real, do jogo inequívoco de claros e escuros.
Não é o momento de desânimo, mas de credo, de fé, de batalha. Lutemos por esse sonho para que, ao término, possamos sonhar com essa luta.
domingo, 14 de julho de 2013
Alteridade
o que levaria uma pessoa a tatuar a área branca dos olhos e inserir um soco inglês de silicone sob a pele? o mesmo que levaria alguém a ler, em um jornal, numa manhã de domingo, essa peculiar atitude.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Tesouro
com quantas moedas falsas se constrói um tesouro?
em um mundo falso, toda moeda é um tesouro.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Quase lá
- Chegamos?
- Ainda não.
- Falta muito?
- Mais duas semanas.
- Semanas é medida de tempo, não de espaço.
- Para nós, agora, tempo e espaço são listras brancas e negras.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Eminência parda
Há pessoas a quem não deves dar a mão, mas apenas a pata: e desejo que tua pata tenha também garras.
Friedrich Nietzsche
domingo, 7 de julho de 2013
Óctogono
o amarelo não faz uma abelha, assim como a leveza do deslocamento não indica uma borboleta.
a derrota é fruto de uma minúscula que se leu maiúscula: ali não era Ali.
a derrota é fruto de uma minúscula que se leu maiúscula: ali não era Ali.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
1993
Em em 7 de abril 1993, o Newell's Old Boys venceu o São Paulo por 2x0 em casa, pelo jogo de ida das oitavas-de-final da Copa Libertadores. No jogo de volta, em 14 de abril, o São Paulo venceu por 4x0, eliminou o time argentino e arrancou para o título de campeão das Américas.
Em sete dias, uma nova história será contada, mas o roteiro não será tão novo. A camisa alvinegra que tremula, mas não teme, segue lutando no varal.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Mangue...
aquele que busca o caranguejo não percebe que está tão imerso quanto a caça e, cavando, grita: "- é por aqui! é por aqui!"
nesse caminho, crê que o homem veio da lama e à lama deve voltar.
terça-feira, 2 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
sábado, 29 de junho de 2013
sexta-feira, 28 de junho de 2013
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Mudança de categoria
nas recentes manifestações, a imprensa começou com "manifestantes".
depois criou o grupo de "extremistas".
na sequência, esses se tornaram "vândalos".
agora, são bandidos.
será bom quando usarem nomes próprios.
depois criou o grupo de "extremistas".
na sequência, esses se tornaram "vândalos".
agora, são bandidos.
será bom quando usarem nomes próprios.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Pedido
"O Brasil pediu essa Copa", disse o Blatter.
mentira? não.
verdade? também não.
então, o quê? metonímia.
mentira? não.
verdade? também não.
então, o quê? metonímia.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
A besta das ruas
Ergueu-se das entranhas da rua um monstro mítico, que ruge labaredas de fogo e tritura palavras vãs. Cabeça de águia, corpo humano e cauda de escorpião: em vários momentos, águia e escorpião pelejam entre si.
Ouve-se que não tarda uma metamorfose, mas não se sabe qual dos extremos assumirá o controle da criatura.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
A camisa do dragão
a televisão prestou um desserviço para São Jorge: agora popstar, até o dragão quer estampa.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
O desaprisionado
Dona Quiméria me disse, pelo telefone, hoje pela manhã:
- Meu fio, ontem não era dia de fiasco, nem de Riascos. Foi o dia do nosso São Vito. Ocê conhece o santo, meu fio?
- Não, Dona Quiméria.
- São Vito é o protetô dos prisioneiro, dos exilado. Por isso, na hora qui o Vito defendeu o penâlti, os locutor e a torcida do Galo soltaru o grito aprisionado, aquele qui quase morreu na hora que o juiz deu a falta. Aquele grito de Galo não podia ficá preso ontem, num era possível, nós num merecia. É qui nem a hitória do Santo: todo mundo achô qui ele tava morto, mas ele tava vivo, muito vivo, e bão qui nem um coco.
Prosseguiu ela:
- Intão, meu fio, agora qui nós liberamu o grito e abraçamu o Santo, pode tê certeza qui tem coisa boa vindo aí. Num disanima não! Guenta firme qui nós ainda tamo na rinha e só saímo dela em pé, livre.
Ramon Bitencourt/LANCE!Press
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