segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O gato sem sombra

Para as bruxas do dia

No muro de uma velha casa, uma gata branca solfeja numa noite enluarada. Sozinha, dá dó. Só dó. Nenhuma nota outra. De olhos fixos na lua, entoa sua triste canção e busca outra nota, que, por si mesma, nem sabe que existe.
Subitamente, tem sua atenção tomada por um vulto negro que se aproxima. Reconhece ela, silencioso e sorrateiro, um semelhante que, de tão espectral, parece flutuar pelo jardim. O gato negro acomoda-se ao lado dela e ouve a interrupção da melodia. A gata não quer mais dó.
O gato negro emite um sol, que espanta os ouvidos incautos da gata. Depois emite outra nota, mais uma, outra mais e mais outra. A gata está assustada. O gato diz:
- Que belas imagens compõe a lua.
A gata volta seus olhos para o chão. Seus pelos se eriçam, seu corpo se contorce e sua boca se resseca. O apavoramento é crescente: quer gritar, mas não há notas. Do alto do muro, a gata vê seu reflexo solitário no chão. Não há sombra de seu companheiro das trevas.
O negro gato estica a pata para tocar a gata, que tenta se afastar aterrorizada e se desequilibra do muro. O negro a socorre com o rabo, num movimento de chicote, e a recoloca no muro.
- O que assusta você não é sombra que você não vê, mas a sombra que acredita ser sua.
A gata vira-se para o chão e percebe a própria sombra, disforme e monstruosa, movimentando-se livremente. Um miado de horror rasga a noite.
- A sombra nunca mente - sussurou o gato antes desaparecer na escuridão.

domingo, 30 de outubro de 2011

Faces

Ontem, num shopping, ocorreu um desfile de modelos. A magreza das candidatas daria ao observador menos atento a certeza de se tratar de um concurso de desnutrição, ou, quem sabe, de uma disputa geométrica, em que a reta fosse o grau máximo de perfeição.
Súbito, ouço o Nélson comentar assustadíssimo:
- Somos o país do carnaval, e não há uma cuíca, um pandeiro, uma zabumba que nos represente naquela passarela. Querem matar nossa bateria! Essas não são mulheres brasileiras. São antibrasileiras.
- São outros tempos, Nélson. Agora, quem dá as cartas são os tablets.
- Toda tecnologia é burra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Samba da bênção

Agradecimento a Vinícius de Moraes e Baden Powell

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

[...]

Eu, por exemplo, o bicho do mato
Humberto Mendes
Editor e bucaneiro
O branco e preto mais torto do Brasil
Na linha direta de Ogum, saravá!
A bênção, Dona Quiméria,
a maior vidente de BH
Terra da eterna luta no varal.
A bênção, Cônego Belchior,
tu que me ensinaste na vida
todos os matizes de nossa dor.
A bênção, Chocô, a benção, Tadeu
A bênção, Padre Dulinho
Sua bênção, Ninico, primo dos prazeres
A bênção, Tio Lauro
A bênção, Dr. Ezequiel
A bênção, Geraldinho
você, sobrinho de Cesarinho,
o inesquecível.
A bênção, José, meu pai,
o severo, o menino.
A bênção, todos os grandes
peladeiros do Brasil
branco, preto, mulato
lindo como a pele macia de Oxum.
A bênção, maestro Cesário Mendes
companheiro de blog e avô querido,
que já viajaste tantas letras comigo
e ainda há tantas por viajar.
A bênção, Clóvis Habibe
parceiro cem por cento
você que une a palavra ao sentimento
e ao pensamento.
A bênção, Baden Powell
A benção, Vinícius de Moraes
que fizestes este samba
que agora bucaneio.
A bênção, Sr. Luiz, meu avô,
companheiro de blog,
que me ensinaste o engenho dos adjetivos.
A bênção, Tio Lulu
o único, o múltiplo
os mais Mendes de todos os Mendes
incluindo meu Tio Sebastião.
Saravá!
A bênção, que eu vou partir
eu vou ter que dizer adeus

[...]

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

sábado, 22 de outubro de 2011

Nós

– Dr., estou arrependido de toda aquela história.
– A que você se refere?
– De toda aquela confusão envolvendo a menina.
– É mesmo?
– Gostaria de ter dado outro desfecho à história.
– O que o incomoda?
– Penso por que chutei e pisei amenina naquela noite.
– Porque ela cruzou seu caminho e atrapalhou seu pensamento.
– Aquela maldita... – encarou o médico e prosseguiu – ...esquina alterou minha vida.
– Até então você estava incógnito.
– Apenas mais uma sombra entre tantas.
– Sua energia era superior à dela, e apenas o esbarrão já a teria machucado.
– Não a devia ter pisado...
– Não há como mudar o passado.
– Não a devia ter chutado...
– É importante ver que você...
– Eu a devia ter matado – disse Hide num guincho colérico. – Ela e aqueles tolos que a acudiram.
– Não! – respondeu o médico energicamente. – Você não poderia fazer isso.
Hide, ainda arfando, sorriu diabolicamente para Jekyll e disse:
– É verdade, Dr., eu não o faria. – e gargalhando: – Nós a mataríamos, Dr. Nós.

Para Robert Louis Stevenson

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Os Mendes

aquele que deve ser louvado
aquele que deve ser reprendido.
barroco

os prazeres da vida
os (des)cultivos da mente
o sentido ímpar de tempo

voláteis
sanguíneos
armeiros, armados, amantes

domingo, 16 de outubro de 2011

Os Clemente

belicosidade ímpar
aguda memória
poucas palavras
nada para agradar
para irritar, menos

um Clemente, ao nascer, bate os pequenos lábios freneticamente e, em seguida, irrompe em lágrimas, sentindo a ausência dos caninos com os quais atacaria aquele que o segura pelas mãos. Ao vir à luz, um Clemente ouve o mantra que o acompanhará por toda a vida:

"Ei nós, que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos polvóra, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear"

produtores e hábeis manuseadores de armas brancas
em breve não haverá mais deles
só lembranças, cicatrizes e as históricas pedras

sábado, 15 de outubro de 2011

Antigamente

antigamente, médico era doutor
delegado era doutor
professor era mestre
hoje, médico contiua doutor
delegado continua doutor
professor é comerciante

é uma questão de educação ou de mercado?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Nós, bucaneiros

Algumas pessoas com as quais convivemos dizem que não nos conhecem, que gostariam de saber mais sobre nós. Acreditamos que essas afirmações são fruto de miopia e de analfabetismo, duas patologias comuns em nossa sociedade vitrinista.
Tentar explicar, neste momento, pode ser tarde, uma vez que já arremessamos as duas flechas (alguns dirão pedras), mas não há ofensa míope nem analfabeta.
Não somos vitrinistas.
Não somos twiteiros.
Não são mares que navegamos, as redes sociais.
Somos textuais, não visuais.
Somos mestiços.
Somos barrocos.
Nosso convés é a dúvida.

domingo, 9 de outubro de 2011

A ribalta

Neste mês, completamos 3 anos. Para quem corre é muito tempo, mas para quem caminha com velocidade é oração. Caminhamos juntos, nós três e tantos outros que nos acompanham com visitas silenciosas e anônimas. No dia 25, a festa é nossa.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...