Para as bruxas do dia
No muro de uma velha casa, uma gata branca solfeja numa noite enluarada. Sozinha, dá dó. Só dó. Nenhuma nota outra. De olhos fixos na lua, entoa sua triste canção e busca outra nota, que, por si mesma, nem sabe que existe.
Subitamente, tem sua atenção tomada por um vulto negro que se aproxima. Reconhece ela, silencioso e sorrateiro, um semelhante que, de tão espectral, parece flutuar pelo jardim. O gato negro acomoda-se ao lado dela e ouve a interrupção da melodia. A gata não quer mais dó.
O gato negro emite um sol, que espanta os ouvidos incautos da gata. Depois emite outra nota, mais uma, outra mais e mais outra. A gata está assustada. O gato diz:
- Que belas imagens compõe a lua.
A gata volta seus olhos para o chão. Seus pelos se eriçam, seu corpo se contorce e sua boca se resseca. O apavoramento é crescente: quer gritar, mas não há notas. Do alto do muro, a gata vê seu reflexo solitário no chão. Não há sombra de seu companheiro das trevas.
O negro gato estica a pata para tocar a gata, que tenta se afastar aterrorizada e se desequilibra do muro. O negro a socorre com o rabo, num movimento de chicote, e a recoloca no muro.
- O que assusta você não é sombra que você não vê, mas a sombra que acredita ser sua.
A gata vira-se para o chão e percebe a própria sombra, disforme e monstruosa, movimentando-se livremente. Um miado de horror rasga a noite.
- A sombra nunca mente - sussurou o gato antes desaparecer na escuridão.