segunda-feira, 20 de abril de 2020

O caminho


há um caminho que corta o halo,
a que chamam, alguns, de esperança.
a lugar nenhum é levada,
não leva, 
mas mantém a caminhada.

domingo, 19 de abril de 2020

Mantra familiar

Para Renata Velasco,
que me iluminou essa ideia.

não pense numa maneira,
ame de todas as maneiras.

sábado, 18 de abril de 2020

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Graal - parte III

O homem se lançou desesperadamente à frente na expectativa de se agarrar ao estranho, mas só encontrou areia e pedras. Sentiu algo quente pela face e, levando a mão, encontrou um filete de sangue que jorrava.

– Com estupidez, esse sangue que escorre de seu rosto pode matá-lo. 


– Quem é você, desgraçado? Que zomba de um moribundo e usa a sagrada escritura para escarnecer de minha miséria? Que tipo de homem é você? Ou você é um demônio, tal qual aquele que tentou o Salvador? 

- Devo admitir que você conhece a Bíblia, cristão, mas não posso dizer que você a entende. 

Com um movimento rápido, tomou o cálice da mão do homem. 

– Não! – Gritou o moribundo. 

– O que há, homem? Se não acredita em mim, por que se agarra ao cálice?

Sujo, coberto de areia e com uma máscara de poeira e sangue, tentou se levantar. O corpo disse não. 

– Beba mais, cristão. Quem sabe assim você consegue limpar seu coração. 

O homem virou-se lentamente e esticou o braço. Tocou o cálice. Pegou e o levou a boca. Vazio. 

- Desgraçado! Não bastasse minha dor, você ainda zomba de mim? 

Nesse momento, sentiu água tocando-lhe o rosto: o estranho a jogava nele. 

- Aí está sua água, cristão. Ou você precisa do cálice para salvar-se? Você crê na palavra ou na materialidade do objeto? – Disse tomando-lhe o cálice. 

O vento seco riu novamente. 

- Você caminhou muito para não chegar a lugar nenhum. Aproveite essa água, lave os olhos e encontre o caminho de sua casa. 

- Estou cego! – Gritou o homem. – Como vou a algum lugar? 

- Cego você é há muito tempo, mas mesmo assim chegou até aqui. Pergunte-se como. 

O estranho se afastou. 

- Não me deixe aqui, estranho! 

- Adeus, cristão. 

- Quem é você? Qual seu nome? 

- Lembre-se de mim como o homem do Graal. 

- Maldito! Não zombe da Cristandade! 

O estranho riu brevemente. 

- Espero que a água da vida, em algum momento, toque seu coração. Sua jornada está perdida, mas a semeadura ainda não acabou. Desperte e salve-se. Ninguém o fará por você. Enquanto buscar fora, o interior estará vazio. 

O moribundo tentou gritar, mas sua voz estava presa na noite.

                                                                            ***

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Graal - parte II

O silêncio permaneceu por um longo período.

- Cristão, vendo-o daqui, na condição em que se encontra, faz realmente diferença para você quem sou eu?

- Ajude-me, estranho. Dê-me água!

- Beba, cristão. Essa é a água da vida.

Sentiu algo tocar-lhe as mãos e percebeu que se tratava de um cálice. Bebeu avidamente, deixando que grande parte escorresse pelo corpo.

- Mais! - Implorou o homem.

O estranho tomou o cálice dele, encheu-o e estendeu a mão:

- Aqui.

Bebeu rapidamente e pediu mais.

- Sim, cristão, mas cuidado para não quebrar o Graal.

O mundo parou.

- O que disse?

- Cuidado para não quebrar o Graal - respondeu o estranho.

O homem apertou fortemente o cálice, buscando cada recorte daquela peça, contornando cada curva, cada saliência. Cheirou, bateu nele com os dedos, alisou-o.

- Que brincadeira é essa? Por que chama esse simples cálice de Graal?

- Cristão, esse é o Graal. Por que você pensa que estou brincando?

- Você, estranho, de quem não sei o nome, não deveria usar o sacro nome do cálice sagrado nesse cálice miserável! – Disse mostrando irritação.

- Esse cálice “miserável”, cristão, está salvando sua vida. Essa que você bebe é a água da vida, ou sua fé não é suficiente para mostrar-lhe esse gosto?

O homem agarrou-se ainda mais ao cálice.

– Dê-me. – Pediu o estranho. – Beba mais.

O moribundo protegeu o cálice como se o outro pudesse roubá-lo.

– O que há? Não quer mais? Já está salvo?

Com uma mão segurando o objeto, levou a outra aos olhos, desesperado pela visão que lhe faltava.

– Sua fé precisa dos olhos, cristão?

O homem estava desnorteado. Não sabia o que dizer, o que fazer. Talvez agora pudesse chorar, gritar, levantar e se jogar sobre o estranho...

– Dê-me sua mão, estranho. Deixe-me tocá-la!

– Você procura as chagas?

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Graal - parte I

De uma noite que andei longe

Não conseguia mais dobrar o joelho da perna direita, pois a dor era insuportável. O esforço com todo o lado esquerdo do corpo para puxar o direito esmagava os pensamentos, e as ideias se embolavam na mente. Não conseguia organizá-las, o que o tornava ainda mais perdido, pois o caminho já não o sabia há muito.

Topou com algum obstáculo pelo caminho e logo foi ao chão. Desmaiou. Sonhou: um sonho vazio, silencioso, branco. Uma onda de horror tomou conta dele e um projeto de grito que não se concretizou o despertou. Trevas.

Não enxergava.

Não era noite.

Estava cego.

Tentou gritar, mas a garganta seca não respondeu. Levou as mãos aos olhos, socou a própria cabeça, desesperou-se e o choro se irrompeu. Seco como aquelas areias em que se estendia.

Era o fim.

Invocou o nome do Santíssimo, pedindo à Mãe que intercedesse por ele.

Um vento seco riu dele.

Tentou gritar outras vezes, mas a dor na boca árida só crescia. Desmaiou novamente.

Dessa vez, não houve sonho. Só o nada.

Despertou sentindo o calor do sol e, com esforço, sentou-se. A certeza da morte tomou conta dele e fez brotar uma reflexão agreste. Dedicara a vida a encontrar o Santo Graal, a servir à Cristandade e à glória do Pai, mas agora estava só.

Não apenas só. Velho, doente, machucado, há dias sem comer ou beber, com dores terríveis na garganta, cego, castigado pelo sol, perdido. Meio morto, meio vivo. Só.

Sem forças para levantar ou mesmo para pensar, ficou onde estava. Sentado. Seco.

Acordado, sonhou com o Graal, com o cálice, com a vida eterna. Com a glória.

- Ei, cristão!

Essa voz chamou-o à realidade e fez com que piscasse os olhos freneticamente. Sem resultado, esfregou as mãos nos olhos na vã esperança de ver quem era.

- Quem é? Quem está aí?

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...