sábado, 31 de dezembro de 2016

Simbolismo

quando hoje for ontem e amanhã for hoje, estaremos em um ano novo.
separados apenas por uma noite, teremos a certeza de que algo passou e um novo horizonte aguarda um novo sol.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Troca de turno

2016 chegou à taberna, pediu uma bebida e buscou uma cadeira para se assentar.
- O que faz aqui? - disse alguém.
2016 se manteve mudo.
- Você já largou serviço? Seu turno de trabalho ainda não terminou!
2016 virou a bebida de um só gole e, amargo, respondeu:
- Não te preocupes comigo, pois em breve serei uma lembrança. Preocupa-te com o próximo como a ti mesmo.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Carta de demissão

Sr. Redactor do Universal – Rogo-lhe o obsequio de inserir na sua estimavel folha o officio junto, por isso que desejo fique o respeitável publico inteirado da demissão que dou do posto que até hoje occupei; por cuja graça mais e mais obrigado lhe será.
Seu assignante, e assiduo leitor.
Gregorio Luiz de Cerqueira.
Tamanduá 14 de junho de 1840.
  
Illm. e Exm. Sr. – Inteirado das disposições da lei Mineira n. 170 de 19 março do corrente anno, que tornão dependente da vontade do governo a continuação, e demissão dos nomeados, e d’ora em diante da privativa escolha do mesmo a nomeação dos officiaes do estado maior; apresso-me a participar a v. exc. que de hoje avante reassumo a honrosa qualidade de simples guarda nacional, em cuja clace obedecerei as ordens legaes dos meus superiores, e prestarei a minha querida patria todos e quaesquer serviços ao alcance de minhas forças, demitindo-me como de facto me demitto do posto de sargento-mor do 1º batalhão deste municipio, que tenho ocupado desde a sua creação por livres sufragios dos meus honrados concidadãos; para que v. exc. haja de nomear pessoa de sua confiança; e nesta data tenho devolvido o comando ao capitão mais velho. – Deos guarde a v. exc.
Villa de S. Bento do Tamanduá 15 de junho de 1840.
Illmo. E exm. Sr. Bernardo Jacintho da Veiga, presidente desta província de Minas Geraes.
Gregorio Luiz de Cerqueira.

Originalmente publicado em O Universal, 22 de junho de 1840, Ouro Preto, p.4.
Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=706930&pagfis=9762&pesq=&url=
http://memoria.bn.br/docreader#. Acesso em: 26 dez. 2016.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

domingo, 25 de dezembro de 2016

Natividade

a estrela que corta o céu hoje,
dia de missa, a do Galo,
dia de festa, a do peru,
dia do velhinho, o bom,
dia do menino, Jesus,
revela um nascimento.

para nós, que nos achamos vivos, é hora de renascer.

sábado, 24 de dezembro de 2016

No Natal

era um Natal sem Papai Noel
pobre de sentido
rico em jabuticabas inexistentes

na árvore,
minha cidadela imaginária,
de galho em galho,
enfeites eram aventuras.
e só.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Revolução de 1842: outra versão

Marcha da coluna de Lavras para a Oliveira, e desta vila sobre a do Tamanduá

O Movimento de 10 de Junho progredia, quase sem oposição, ao sul da Província, tendo-se por ele declarado em menos de 15 dias os Municípios de Queluz, Bonfim, Pomba, Barbacena, São José, São João del-Rei, Lavras, Aiuruoca, Baependi e Oliveira. O Município de Tamanduá era um dos que gemiam debaixo da maior opressão. O juiz de direito, cunhado do desembargador Honório, e o juiz municipal substituto, Francisco Soares, tinham ali desenvolvido a mais terrível perseguição. A cadeia estava atulhada de presos, uns comprometidos em fantásticos processos, outros, em virtude da suspensão de garantias, e muitos outros indivíduos, para escaparem aos horrores da perseguição, se haviam internado pelos sertões e pelas matas. Arrancar aquele importante município a tantos padecimentos era uma ação, além de importante e útil, assaz meritória; e a glória de a empreender coube aos valentes guardas nacionais do Município de Lavras e da Oliveira, especialmente aos dos curatos do Cláudio, Japão, Santo Antônio do Amparo e do curato de São Francisco, do mesmo Município de Tamanduá, e Bom Sucesso, do Município de São José, reunidos todos em uma coluna, que subia em número de praças a cerca de 600 homens, cuja direção foi incumbida ao Dr. José Jorge da Silva, que com tanta eficácia e zelo trabalhara na sustentação do Movimento de 10 de Junho, promovendo-o na Vila de Lavras e marchando, finalmente, à frente desses bravos que tomaram sobre si libertar o Município de Tamanduá do barbarismo que sobre ele pesava.

Nesta, como em outras muitas ocasiões, foi fatal aos insurgentes a falta de oficiais que os dirigissem. Fortes e numerosas colunas se reuniram, possuídas do melhor espírito, não lhes faltava boa vontade e coragem; dissolviam-se, porém, por não haver quem as dirigisse. Os legalistas de Tamanduá, advertidos da marcha da coluna insurgente, se vieram postar de emboscada a três léguas aquém da vila, em um lugar apropriado. Cometeram os oficiais a falta de não esperarem pela força, que marchava do Arraial de São Francisco, ao mando de Manuel Rodrigues de Andrade, homem prático dos lugares, e de se irem internando por uma mata, sem que tivessem tomado qualquer precaução, a fim de evitarem alguma surpresa que muito naturalmente deviam recear. Caíram, pois, na emboscada, e o fogo inesperado, feito sobre a vanguarda da coluna, pô-la imediatamente quase toda em debandada; uma parte dela fez corajosa resistência e conseguiu por fim que se retirassem os legalistas, de sorte que, ambas as partes combatentes debandaram-se depois dum tiroteio.

Se os insurgentes tivessem quem os conduzisse, se não fora a fatal moléstia do Dr. José Jorge, que o obrigara a ficar na Vila da Oliveira, a do Tamanduá houvera sido tomada, pois que, ali, uma grande parte da força, que sustentava a legalidade, aderia aos princípios dos insurgentes, e só esperava por um apoio para se declarar. Na Vila Nova da Formiga, pertencente também à Comarca do Rio Grande, existia, reunida pela legalidade, uma força, que disposta estava a reforçar as fileiras insurgentes desde o momento, em que se estes apresentassem fortificados na do Tamanduá; no Município de Uberaba, não faltava aos insurgentes apoio, e forte.

José Antonio Marinho. História da Revolução Liberal de 1842. 5.ed. Belo Horizonte: Assembleia Legislativa de Minas Gerais, 2015. [Original de 1844]. Disponível em: https://goo.gl/IbOV7j

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Revolução de 1842: um relato


P.S. Depois de feito este officio, (que é fechado no dia 26 às 11 horas da noite) recebi huma carta de pessoa de inteiro credito, escripta de Tamanduá de 18 do corrente, em que se assevera, que marchando sobre aquella Villa huma Força rebelde de 300 a 400 Praças (que já anteriormente constava que era dirigida pelo Bacharel Jose Jorge da Silva) fôra completamente batida por outra Força da Legalidade no lugar denominado Cajú, distante tres leguas e meia da Villa de Tamanduá. Este importante successo, alem de firmar a tranquilidade, e segurança da Villa de Tamanduá, deo tanto enthusiasmo aos Legalistas, que immediatamente partio da mesma Villa huma Força de 150 homens para restaurar a Villa de Oliveira, onde os rebeldes tinhão constrangido a Camara a reconhecer o Governo intruso. Com essa Força marchou também o Juiz de Direito interino da Comarca do Rio das Mortes (Manoel Antonio Fernandes) que se havia reunido aos Legalistas de Tamanduá depois que a Cidade de S. João d'El-Rei, e a Villa da Oliveira forão occupadas pelos rebeldes. Tambem acabo de ter certeza de achar-se occupada a Cidade de Sabará por huma Columna Legalista, comandada pelo Coronel Manoel Antonio Pacheco, que alli entrou entre mil demonstrações de jubilo da população, que por alguns dias estivera opprimida sob o domínio dos rebeldes.

História da Revolução de Minas Gerais em 1842. Rio de Janeiro: Typografia J.J. Barroso, 1843. p.204.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Tamanduá




Fonte: goo.gl/9ZyN0p


Tamanduá, onde cheguei dentro em pouco, deve os seus fundamentos a criminosos que vieram, a uma centena de annos (escripto em 1819), procurar um asylo no seio das florestas de que a região é coberta.  Esses homens, tendo morto um formigueiro no lugar em que se fixaram, deram ao nome do local de Tamanduá, que tanto em portuguez como em guarany, designa o comedor de formigas. Achou-se ouro no lugar; a população de Tamanduá tornou-se considerável e foi erigida em villa, no ano de 1791, sob o governo de Luiz Antonio Furtado de Mendonça, visconde de Barbacena, capitão-general da provincia de Minas.
Vêm-se ainda em volta de Tamanduá lavras consideraveis, que hoje em dia estão completamente abandonadas; ellas forneceram muito ouro, mas foi dissipado pelos que o recolheram, e seus filhos, hoje, pedem esmola: triste exemplo das consequencias da mineração e da imprevidência tão natural dos mineiros.
Os actuaes habitantes de Tamanduá são cultivadores que só lá vão aos domingos e dias de festa, alguns mercadores, artifices, e homens pobres, que, aproveitando-se da abundancia de que se goza na região, vão comer ora na casa de um, ora na casa de outro, e passam a vida na ociosidade.

Auguste de Sain-Hilaire. Viagem às nascentes do Rio São Francisco. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937. p.140-141. [Original de 1847]

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Requisito para a discussão

Quem não sabe pôr no gelo seus pensamentos não deve se entregar ao calor da discussão.
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

domingo, 18 de dezembro de 2016

Fundos

Para aquela que tem orelhas sem ouvidos

Não havia politicamente correto, logo o "beco" não pesava. Não era igual a casa, prédio, fazenda, mansão, moradia, mas era real. Um microcosmo, pequeno, limitado, grandemente esquecido e, da rua, inexistente.
Não é fácil saber que há décadas mudamos, mas um de nós ainda está lá, preso, obtuso, remoendo um bagaço de ódio e frustração que não tem gosto, nem futuro. Esse grilhão invisível e individual impede o amanhã. 
- Livre-se dele. Se não tem um martelo, use os dentes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A técnica do livro

Para Dom Paulo Evaristo Arns


"O escritor sempre mantém dois instrumentos ao alcance da mão:
 o estilete (stilus) e a pena (calamus)."

o estilete brinca com as mãos do autor:
pode ser texto, pode ser acidente.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Extra virgem

a verossimilhança tem baixa acidez
entretanto
congrega
entre tantos temperos
apenas
com a vida real

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Belo Horizonte

Fonte: goo.gl/A4XZrd

ainda que o horizonte esteja no mesmo lugar e não seja mais o mesmo, o belo que nos define, emontanhado, suspira a cada novo vale.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Compreensão

- Morrer é o de menos, o problema é não renascer no dia seguinte.
- Isso é espiritismo?
- Sempre achei que fosse metáfora.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Gioconda

Para Henriqueta, minha bisavó

flor única das Cerqueiras,
mãe de meus irmãos,
fiadeira das palavras brancas,
das noites negras,
a sombra que agora abraça o sol.

não há tempo que apague seu sorriso
discreto
silencioso
vivo.
a certeza da dúvida.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A calhar

calhestro tem em quantidade
calhau bem utilizado
calhe sempre há
calheiros é
calhordice não conhece

sempre a calhar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O ano da ampulheta


Fonte: goo.gl/YeezXM


Será possível que o atual treinador do Galo, em catorze dias, conseguiu implantar um mínimo padrão tático e coletivo no time como o treinador anterior, em duzentos e dez dias, não conseguiu?
Será que, em duas semanas, o atual treinador leu, minimamente, um jogo e entendeu um adversário como o antigo treinador, em vinte e oitos semanas, não fez?
Será que, em meio mês, o elenco (re)aprendeu o significado de time? Será que, em sete meses, o "professor" não conseguiu falar a língua dos "alunos": entendê-los, motivá-los e coletivizá-los? Certamente, "mobilizá-los" não.
Nesse passar dos dias, das semanas, dos meses, jogamos fora o ano.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

De um dito Birrinha

Não há cisco no olho
que faça piscar tua alagoa.
Não há limite para dentes.
Só de valores, a dieta boa.

De joelhos, casto, prece posta,
falsa oração para um fauno,
suínas mãos enlameadas
em 50 tons de bosta.

Desce, Birrinha,
desse falso pedestal,
só doma teu fétido recôncavo,

em celebrações espontâneas,
na Convivência dos dementes,
quem macera o lamaçal.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Descrição do que realmente é a Sé

Agradecimento a Gregório de Matos

A cada canto um grande colaborador,
que quer mandar na cabana, e na vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar com leviano louvor.

Em cada porta um frequentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Convivência, e ao braseiro.

Muitos tolos desavergonhados,
trazidos pelas mãos homens embevecidos,
posto nas palmas todo o insano porre.

Estupendas usuras nos mercados, 
todos, os que não se omitem, muito esquecidos.
Eis aqui a visão da Torre.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O trem sem destino

Para Ferreira Gullar

"Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar"


Hoje, o menino que pintou a canção de Villa-Lobos foi chamado.
Agora, pra sempre, corre
"entre as estrelas a voar
no ar, no ar..."

sábado, 3 de dezembro de 2016

No meu tempo

três Marias aguardam o nascimento das irmãs.
precoces
perderão a beleza antes das mais novas
contarão histórias pessoais lindas não vividas por elas
e chamarão essas narrativas de passado.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Erro

Sempre haverá a dúvida se o erro é absoluto ou relativo, se pode ser justificável ou aceitável.
Se é irrelevante, então não deve ser erro. Deve?
Quando o erro é precificado, na casa dos 6,8 bilhões de reais, não é fácil arranjar um adjetivo que o classifique. Agora, talvez tenhamos o "odebrechiano" e um novo modo de pensar o erro.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...