sábado, 31 de dezembro de 2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Espontânea

há muito tempo não ouvia nada tão falso quanto "celebração espontânea".
meus ouvidos se contorciam de tanto rir

sábado, 17 de dezembro de 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates

na Seleção dos meus sonhos,
a do Sarriá,
o Dr. vestirá eternamente a 8
pintando o gol de Dasaev.

sábado, 26 de novembro de 2011

Águas

a chuva que traz as festas de fim de ano já chegou
logo virão as poças
e com elas
o som inconfundível do Natal

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vide, vida marvada

Agradecimento a Rolando Boldrim
Corre um boato aqui donde eu blogo
Que as frase que eu oro são mal ponteadas
Que na vera hestória do que foi
A prosa sempre foi santa e purificada

Diz que eu rumino desde menininho
Torto, esquisitinho, a ração da estrada
Vou mastigando o mundo e ruminando
E assim vou tocando essa vida marvada

É que a palavra fala alto no meu peito humano
E todo verso é um remédio pros meus desengano
É que a palavra fala alto no meu peito, mano
E toda a mágoa é um mistério fora desse plano

Prá todo aquele que só fala que eu não sei iscrevê
Chega no blog pruma visitinha
Que no verso e no reverso da vida inteirinha
Talvez entenda o meu canjerê
Talvez entenda o meu canjerê

Tem um ditado dito como certo
Que a caneta esperta não grafa por nada
E quem refuga o mundo resmungando
Passará berrando essa vida marvada

Cumpadi meu que inveieceu inventando
Diz que ruminando dá pra ser feliz
Por isso eu vagueio canetando
E assim suspirando minha flor-de-liz

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Questões do coração

 
"As pessoas que você mais ama, são as mais difíceis de manter por perto."

Pobre, vírgula! Separou o sujeito, antes o tivesse feito com oleitor.

domingo, 6 de novembro de 2011

Rafinha Bastos

Depois de toda a polêmica envolvendo a declaração do "humorista": artigos de revista, ações judiciais, críticas pelo gosto duvidoso do comentário, defesas pela liberdade de expressão, campanha para o ostracismo, fica uma pergunta: como está o "humorista" no Twitter? Perdeu seguidores, ganhou, ou o número se manteve? No momento, são 3.444.067 acompanhantes.
Talvez seja a hora de mudar o foco da discussão e pensar o papel que nossa sociedade faz nas redes sociais, e não o que as redes sociais fazem em nossa sociedade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O gato sem sombra

Para as bruxas do dia

No muro de uma velha casa, uma gata branca solfeja numa noite enluarada. Sozinha, dá dó. Só dó. Nenhuma nota outra. De olhos fixos na lua, entoa sua triste canção e busca outra nota, que, por si mesma, nem sabe que existe.
Subitamente, tem sua atenção tomada por um vulto negro que se aproxima. Reconhece ela, silencioso e sorrateiro, um semelhante que, de tão espectral, parece flutuar pelo jardim. O gato negro acomoda-se ao lado dela e ouve a interrupção da melodia. A gata não quer mais dó.
O gato negro emite um sol, que espanta os ouvidos incautos da gata. Depois emite outra nota, mais uma, outra mais e mais outra. A gata está assustada. O gato diz:
- Que belas imagens compõe a lua.
A gata volta seus olhos para o chão. Seus pelos se eriçam, seu corpo se contorce e sua boca se resseca. O apavoramento é crescente: quer gritar, mas não há notas. Do alto do muro, a gata vê seu reflexo solitário no chão. Não há sombra de seu companheiro das trevas.
O negro gato estica a pata para tocar a gata, que tenta se afastar aterrorizada e se desequilibra do muro. O negro a socorre com o rabo, num movimento de chicote, e a recoloca no muro.
- O que assusta você não é sombra que você não vê, mas a sombra que acredita ser sua.
A gata vira-se para o chão e percebe a própria sombra, disforme e monstruosa, movimentando-se livremente. Um miado de horror rasga a noite.
- A sombra nunca mente - sussurou o gato antes desaparecer na escuridão.

domingo, 30 de outubro de 2011

Faces

Ontem, num shopping, ocorreu um desfile de modelos. A magreza das candidatas daria ao observador menos atento a certeza de se tratar de um concurso de desnutrição, ou, quem sabe, de uma disputa geométrica, em que a reta fosse o grau máximo de perfeição.
Súbito, ouço o Nélson comentar assustadíssimo:
- Somos o país do carnaval, e não há uma cuíca, um pandeiro, uma zabumba que nos represente naquela passarela. Querem matar nossa bateria! Essas não são mulheres brasileiras. São antibrasileiras.
- São outros tempos, Nélson. Agora, quem dá as cartas são os tablets.
- Toda tecnologia é burra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Samba da bênção

Agradecimento a Vinícius de Moraes e Baden Powell

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

[...]

Eu, por exemplo, o bicho do mato
Humberto Mendes
Editor e bucaneiro
O branco e preto mais torto do Brasil
Na linha direta de Ogum, saravá!
A bênção, Dona Quiméria,
a maior vidente de BH
Terra da eterna luta no varal.
A bênção, Cônego Belchior,
tu que me ensinaste na vida
todos os matizes de nossa dor.
A bênção, Chocô, a benção, Tadeu
A bênção, Padre Dulinho
Sua bênção, Ninico, primo dos prazeres
A bênção, Tio Lauro
A bênção, Dr. Ezequiel
A bênção, Geraldinho
você, sobrinho de Cesarinho,
o inesquecível.
A bênção, José, meu pai,
o severo, o menino.
A bênção, todos os grandes
peladeiros do Brasil
branco, preto, mulato
lindo como a pele macia de Oxum.
A bênção, maestro Cesário Mendes
companheiro de blog e avô querido,
que já viajaste tantas letras comigo
e ainda há tantas por viajar.
A bênção, Clóvis Habibe
parceiro cem por cento
você que une a palavra ao sentimento
e ao pensamento.
A bênção, Baden Powell
A benção, Vinícius de Moraes
que fizestes este samba
que agora bucaneio.
A bênção, Sr. Luiz, meu avô,
companheiro de blog,
que me ensinaste o engenho dos adjetivos.
A bênção, Tio Lulu
o único, o múltiplo
os mais Mendes de todos os Mendes
incluindo meu Tio Sebastião.
Saravá!
A bênção, que eu vou partir
eu vou ter que dizer adeus

[...]

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

sábado, 22 de outubro de 2011

Nós

– Dr., estou arrependido de toda aquela história.
– A que você se refere?
– De toda aquela confusão envolvendo a menina.
– É mesmo?
– Gostaria de ter dado outro desfecho à história.
– O que o incomoda?
– Penso por que chutei e pisei amenina naquela noite.
– Porque ela cruzou seu caminho e atrapalhou seu pensamento.
– Aquela maldita... – encarou o médico e prosseguiu – ...esquina alterou minha vida.
– Até então você estava incógnito.
– Apenas mais uma sombra entre tantas.
– Sua energia era superior à dela, e apenas o esbarrão já a teria machucado.
– Não a devia ter pisado...
– Não há como mudar o passado.
– Não a devia ter chutado...
– É importante ver que você...
– Eu a devia ter matado – disse Hide num guincho colérico. – Ela e aqueles tolos que a acudiram.
– Não! – respondeu o médico energicamente. – Você não poderia fazer isso.
Hide, ainda arfando, sorriu diabolicamente para Jekyll e disse:
– É verdade, Dr., eu não o faria. – e gargalhando: – Nós a mataríamos, Dr. Nós.

Para Robert Louis Stevenson

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Os Mendes

aquele que deve ser louvado
aquele que deve ser reprendido.
barroco

os prazeres da vida
os (des)cultivos da mente
o sentido ímpar de tempo

voláteis
sanguíneos
armeiros, armados, amantes

domingo, 16 de outubro de 2011

Os Clemente

belicosidade ímpar
aguda memória
poucas palavras
nada para agradar
para irritar, menos

um Clemente, ao nascer, bate os pequenos lábios freneticamente e, em seguida, irrompe em lágrimas, sentindo a ausência dos caninos com os quais atacaria aquele que o segura pelas mãos. Ao vir à luz, um Clemente ouve o mantra que o acompanhará por toda a vida:

"Ei nós, que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos polvóra, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear"

produtores e hábeis manuseadores de armas brancas
em breve não haverá mais deles
só lembranças, cicatrizes e as históricas pedras

sábado, 15 de outubro de 2011

Antigamente

antigamente, médico era doutor
delegado era doutor
professor era mestre
hoje, médico contiua doutor
delegado continua doutor
professor é comerciante

é uma questão de educação ou de mercado?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Nós, bucaneiros

Algumas pessoas com as quais convivemos dizem que não nos conhecem, que gostariam de saber mais sobre nós. Acreditamos que essas afirmações são fruto de miopia e de analfabetismo, duas patologias comuns em nossa sociedade vitrinista.
Tentar explicar, neste momento, pode ser tarde, uma vez que já arremessamos as duas flechas (alguns dirão pedras), mas não há ofensa míope nem analfabeta.
Não somos vitrinistas.
Não somos twiteiros.
Não são mares que navegamos, as redes sociais.
Somos textuais, não visuais.
Somos mestiços.
Somos barrocos.
Nosso convés é a dúvida.

domingo, 9 de outubro de 2011

A ribalta

Neste mês, completamos 3 anos. Para quem corre é muito tempo, mas para quem caminha com velocidade é oração. Caminhamos juntos, nós três e tantos outros que nos acompanham com visitas silenciosas e anônimas. No dia 25, a festa é nossa.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sem aspas

há vinte anos abandonava o seminário
a igreja em ruínas
a fé em doses homeopáticas
o mundo sem aspas

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sem-fim

Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

Vou andando caminhando caminhando
Me misturo no ventre do mato comendo raízes

Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato
Raul Bopp

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O dia

O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para a frente ou para trás.
Italo Calvino

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Retrato de Erasmo de Rotterdam

Santidade de escrever,
insanidade de escrever
equivalem-se. O sábio
equilibra-se no caos.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tirania

Eis por que a tirania gosta dos homens maus: porque os tiranos gostam de ser bajulados, e não existe nenhum coração livre que se preste a isso; os homens bons gostam de seus governantes, mas não os adulam. Os homens maus são úteis para as más ações: "um prego empurra o outro", conforme diz o provérbio.
Aristóteles

domingo, 18 de setembro de 2011

Explicar

[...] faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem, [...]
José Saramago

sábado, 17 de setembro de 2011

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Os viajantes

Alguns homens iam por uma estrada para fechar um negócio. Eis que, no caminho, encontram um corvo caolho. Como não queriam passar pelo pássaro, um deles, pensando que estavam diante de um mau presságio, achou melhor não ir em frente. Um outro replicou:
- Como esse pássaro pode prever nosso futuro se não soube evitar a perda de seu próprio olho?
Não dá para ouvir os conselhos de quem não sabe cuidar de si mesmo.

Esopo

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Delírio (XI)

Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo...
Nesse momento, ainda havia palavra: as vozes de meus companheiros que conversavam entre si. Uma felicidade ansiosa tomou conta de mim e fez com que eu me apalpasse buscando papel e caneta.
– Aquieta, primo. As palavras não já fazem mais carreiras. Estão só. Pingado de ideia.
– É o devir – disse o Fidalgo.
– É hora de trocar de montaria – e Jorge me tocou o braço.
– E o capítulo VIII? – disse eu.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Delírio (X)

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que os Cavaleiros escutaram sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, – de um riso descompassado e idiota.
–Tem razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, – talvez monótona – mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, não tardemos; a coisa é divertida, mas não tardemos. 
A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: - "Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade." E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranquilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões; em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, faziam-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Delírio (IX)

Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, – nada menos que a quimera da felicidade, – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.
Vi minha família, vi minha origem, o ato ancestral símio que se transmutou em homem. Revi meus erros: todos os que eu conhecia e os inúmeros que nem imaginava; os acertos também se apresentaram, mas breves, discretos, diáfanos até.

sábado, 10 de setembro de 2011

Delírio (VIII)

Isso dizendo, Jorge arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única.
Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos.
Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e delícias, – desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Delírio (VII)

–Entendeste-me? – disse ele.
–Por que estamos aqui?
–Somos tua essência e, agora que sentes o cheiro do sepulcro, partiremos contigo. É o fim.
Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-os com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.
–Pobre minuto! – exclamou Jorge. – Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?
–Viver somente, não peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão vocês? e, se eu amo a vida, por que precisam golpeá-la, matando-nos?
– Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste.
A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Delírio (VI)

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. Soltaram uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.

– Não te assustes, disse Jorge, o dragão está morto. Vives: não quero outro flagelo.

– Vivo? – perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

– Sim, meu jovem, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Em seguida, o Fidalgo estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma simples pluma. Só então, pude ver-lhe de perto o rosto, que me era tão familiar em caneta nanquim.

Mostrou-me um espelho que segurava na outra mão. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, em meu rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Delírio (V)

Seguindo a jornada, juntou-se a nós um terceiro cavaleiro. Montava um corcel branco como uma noite de paz, alto e imponente como até então eu jamais vira. A armadura reluzente, a capa vermelha dansando com o vento, a lança sestra em posição de batalha e uma tranquilidade insistente nos olhos e na face.
–Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! – exclamou o primeiro cavaleiro.
–Para sempre seja louvado! – respondeu o guerreiro.
O segundo cavaleiro retirou o capacete e saudou o companheiro recém-chegado com deferência.
Agora, seguíamos os quatro emparelhados. O sol descia em direção ao não-horizonte.
Estupefato, não disse nada, mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.
–Ê, primo, tá aluado? ­– disse Riobaldo.
–Se não reconheces o chefe da Cavalaria, bem se vê que deliras – respondeu o Cavaleiro de La Mancha.
–Sou Jorge e você veste minhas roupas e minhas armas – disse o terceiro cavaleiro.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Delírio(IV)

Pouco à frente naquela imensidão do nada, surgiu novo vulto montado. Esse cavaleiro não corria, ao contrário, trotava galante e altivo. Olhar fixo no não-horizonte, em uma das mãos uma lança medieva e, na outro, um escudo esférico. O bigode e a lucidez da face iluminavam aquele fidalgo.
– Enfim, chegastes. Não era sem tempo.
Olhou curioso para minha montaria e não conteve o muxoxo ao imaginar aquele protótipo de cavaleiro em batalha. O cavalo relinchou, tal como uma risada dos tempos.
– Rocinante, não ria de estranhos na frente deles!
O cavalo, então, virou risonhamente o rosto.
–Seu cavalo fala? – indaguei.
– Apenas em bom castelhano – e o cavalo relinchou novamente.
Um sorriso escorreu pelos lábios do Fidalgo.
– Se acá estivesse Dulcinéia, certamente não esconderia seus alvos dentes diante dessa quixotesca montaria.
Ajeitou a armadura, sussurrou algo ao cavalo e nos disse:
– Partamos, pois a vida é uma donzela em perigo que nos pede socorro, e a morte é um socorro que nos pede em perigo uma donzela.
O primeiro cavaleiro soltou um grito e o tropel partiu na embolada. Ainda que estivéssemos em diferentes velocidades, seguíamos lado a lado, parelhos. As cantigas de Siruiz voavam pela boca do primeiro cavaleiro, enquanto histórias cavaleirescas grafavam os bigodes do segundo. Da minha parte, silêncio e solidão.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Delírio (III)

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; o avestruz mantinha-se imóvel. Ao longe, trazido pelo vento, um uivo equino trouxe consigo um vulto montado. Corria compulsivamente e dançava o chicote de um lado para o outro em sua negra montaria, incentivando o animal pela mão e pelo cão. Não tardou a se juntar a nós.

– Barzabú – gritou o cavaleiro fazendo o cavalo arrefecer.

Fez um gesto de saudação cordial com a mão e acariciou o pescoço do cavalo.

– É, primo, sua andância fozeou. É hora de conhecer o de-verdade.

O avestruz me olhou fazendo um gesto afirmativo com a cabeça.

– Vamo, primo, que as balas não pipocam de menos porque o fim da música parou a dansa.

Tocou o galope.

Meu avestruz tocou atrás.

– Olerê, baiana... – cantava ele.

domingo, 4 de setembro de 2011

Delírio (II)

Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o avestruz não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas. Pela minha parte, fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos, tudo isso reflexões de um cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembro-me só de que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície árida, com um sol branco ao meio do céu, com uma ou outra árvore retorcida.
Tudo imóvel; só nós galopávamos. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:
– Onde estamos?
– Já passamos o Éden.
– Bem; paremos na arca de Noé.
– Mas se nós caminhamos para trás! – redarguiu motejando a minha cavalgadura.
Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois – cogitações de enfermo – dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a aquela gélida aridez voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranquilamente em torno de mim.
Olhar somente; nada vi, além do imenso sem-fim, que desta vez invadira o próprio céu, até ali albamente amarelado. Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra árvore, sem tamanho, brutesca, meneando ao vento suas galhas aquilinas.
O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.

sábado, 3 de setembro de 2011

Capítulo VII - Delírio (I)

Para Brás Cubas

Que me conste, muitos já relataram os próprios delírios, cientes do que faziam ou não; sem originalidade alguma, faço-o eu também e tenho lá minhas dúvidas se alguém mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação de fenômenos mentais, pode saltar o capítulo. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos. Primeiramente, tomei a figura de um bule andino e sentia um chá fervente correr por meu interior, alfinetando, a cada gota escaldante, meu corpo de barro.

Logo depois, senti-me transformado numa cimitarra, que, nas hábeis mãos de um sarraceno, partia mãos e crânios de cristãos que brigavam por uma cruz que carregavam ao peito, sem a menor ciência de que, em poucos minutos, descobririam a nulidade de jazer sob ela. Esse corpo de morte me deu a mais completa leveza e a sensação de que a tinta que sujou minhas mãos tantas vezes em vida não era comparável àquele fluido ígneo e escarlate para a composição de uma narrativa.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um avestruz, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevia interrogá-lo e, com alguma arte, lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

– Engana-se – replicou o animal – nós vamos à origem dos séculos. Aos seus.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Escutar e compreender


Nem todos os livros são tão tediosos quanto seus leitores. Provavelmente há palavras que se aplicam exatamente a nossa condição, e que, se as pudéssemos realmente escutar e compreender, seriam mais salutares a nossas vidas do que as manhãs ou a primavera, e possivelmente dariam um novo aspecto à face das coisas.


Henry Thoreau

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Prudência


A verdadeira prudência consiste, já que somos humanos, em não querer ser mais sábios do que nossa natureza o permite.


Erasmo de Rotterdam

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Foto

Vês nas fotos um rosto inexistente
Esquecimento sob forma de avivamento.
As carnes, os ossos comidos pelas certezas desesperam a beleza
                                                                                    [simulada.
Que significados dará a vida aos horizonts que esquecemos?

Vera Casa Nova

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Exatidão

A palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo.
Italo Calvino

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aquieta, cambada!

Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais, estavam ajuntando a cavalhada. Regulava subida amanhã, orçado o sol, e eles redondeavam no aprazível - tropilha grande, pondo poeira, dado o alvoroço de muitos cascos. Fiz um rebuliz? Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. Aí porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre relincha exagerado. Ardido aquele nitrinte riso fininho, e, como não podiam se escapulir para longe, que uns suavam, e já escumavam e retremiam, que com as orêlhas apontavam. Assim ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva tão repentina, eu pulei para o meio deles: - "Barzabú! Aquieta, cambada!" - que eu gritei. Me avaliaram. Mesmo pus a mão no lombo dum, que emagreceu à vista, encurtando e baixando a cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufôr.
Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo, dos cavalos e as minhas maneiras. Só que se riam, formados no costume de jagunços, que é de frouxas essas leviandades. - "Barzabú!" - ô gente!, feito fosse minha certeza, o Das-Trevas. E eu parava, rente, no meio de todos, que de volta aceitavam minha presença, esses cavalos.
João Guimarães Rosa

domingo, 28 de agosto de 2011

O peso do amor

O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não tende só para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. Movem-se segundo o seu peso. Dirigem-se para o lugar que lhes compete. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas, quando o encontram, ordenam-se e repousam.
Santo Agostinho

sábado, 27 de agosto de 2011

O tempo e o espírito

Mas como diminui ou se consome o futuro, se ainda não existe? Ou como cresce o pretérito, que já não existe, a não ser pelo motivo de três coisas se nos depararem no espírito onde isto se realiza: expectação, atenção e memória? Aquilo que o espírito espera passa através do domínio da atenção para o domínio da memória.
Santo Agostinho

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O que é o tempo?

De que modo existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?
Santo Agostinho

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O saci

para quem tem uma só perna
e corre pelo frio uivo da mata,
é crendice acreditar que mais será melhor.

sábado, 13 de agosto de 2011

Ilusão

Mas, então, tudo naquela parte dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. O mundo ali tinha de ser de se recomeçar...
João Guimarães Rosa

domingo, 31 de julho de 2011

A década

Hoje, cheguei às últimas linhas de Walden, de Thoreau. Foi uma leitura longa, que nem de perto se compara aos dois anos de vivência no e de convivência do autor com o lago, mas a sensação do passar das estações é inequívoca.
Hoje, 10 anos do Caneteiro. É uma data importante para os Bucaneiros, porque nós somos o prolongamento de nossos parentes, que muitas vezes, erroneamente, são vistos como antepassados. Erroneamente porque os laços consaguíneos não passam, são presentes, metamorfoseados em nomes distintos, em ações idênticas.
Em 2001, "eu não quis pegar uma cabine de primeira classe sob o tombadilho, mas viajar de segunda, na frente do mastro e no convés do mundo, pois dali podia enxergar melhor o luar entre as montanhas. Não pretendo descer agora."
Em 2011, "o que mais temo é que minha expressão não seja extra-vagante o suficiente, que não possa vaguear muito além dos limites estreitos de minha experiência diária para se adequar à verdade da qual estou convencido."

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Lázaro

- Alô, Lázaro? Oh, meu fio, saudade d'ocê! Comé que as coisa anda por aí?
As coisas tão brava aqui, meu fio, ocê nem imagina. O Grorioso continua, ocê me disculpa o termo, "cagado de arara". Virgi Mãe! Nada que o Lorival faz tá dando certo: já tentou de tudo e nada funciona. Dispois que o Magnata esbanjou o campeonato rural ao perder aquele gol, o do caneco, as coisa ficaram fusca. As pessoas fala que era o Magnata, o Fábio e o gol naquele lance do segundo jogo da final, mas é mintira. Era o Magnata, o Fábio, o gol, a bola (que é a dona do jogo) e a turcida inteira do Galo. Ele num pudia tê perdido. O Chicão, quando o Magnata perdeu a bola, avançou no pé do móve da televisão de tanta raiva: quase que ele deixa manco o pobre coitado do armário.
Aí nós começamo bem o campeonato, com duas vitória boa, achando que o vento soprava a nosso favor. Bubiça! Dispois do jogo contra o Bahia, tudo desandô. Achei até que fosse praga de urubu, mas discobri que é ruindade memo. É como o Caneteiro fala: é um monte de moeda pequena, faz volume, causa impacto nos óio e nos ouvido, mas não tem valor. Eta, meu Deus!
O Lorival tá meio perdido, mas ele é um home esperto. Tratô de trazê uma cópia do cabelo do Neymar pra espantá a zica que ficô com ele no ano passado: como o André num é o Neymar e o Santos não é o Galo, nessa ordem, vai sê fácil afastá essa inguiça.
- ...
- Comé que é? Dorival? Não, meu filho, é Lorival memo. É porque ele tem um nariz grande, parece um bico de papagaio, aí o Chicão apilidô ele de Lorival. E como de ave nós entendemo tudo, nós batizamo ele de Lorival. Cê pode ter certeza que as coisa vão melhorá dispois que desse batismo oficial.
Lázaro, meu fio, tô ligando pr'ocê pra pedir uma ajuda pro Grorioso. Ocê que já teve do outro lado e voltô, consiguiu levantá dispois de todo mundo tê falado que ocê tava morto, dá uns conselhos pro Lorival e pros jogadô pra eles se levantá tamém. Tem muita gente caída, tem até um que tá cunhecido como Já-morreu, e é hora de levantá.
Em 2009, meu fio, nós ressuscitamo o Fluminense. Ele tava praticamente sem respirar, moribundo, e, dispois de vencê o Galo, ele embalô e se salvô da degola. Em 2010, eu queria tê ligado pr'ocê pra pidi essa ajuda, justamente na véspera do jogo contra o Fluminense, mas num consigui completá a ligação. O Luxa tava com a faca no pescoço e acabô rolando a cabeça dele memo, dispois daquele vexame no Engenhão.
Agora, Lázaro, tô esperando que o Galo comece a se levantá hoje, vencendo o tricolor do Nelson e se afastando da zona do desespero. Lá embaixo, meu fio, é só choro e rangê de dentes... Credo em cruz!
- ...
- Ô, meu fio, agradicida dimais. Ocê num sabe o bem que ocê tá fazendo pros preto e pros branco, pra esse povo todo arreunido em torno dessa bandeira. O Lorival hoje vai consigui. Tá iscutando o Chicão lati? Ele tamém tá agradecendo do fundo do coraçãozinho dele.
Aproveitano, meu fio, qu'eu já tô na linha, deixa eu falá cum o Roberto. Tô cum saudade desse minino...

domingo, 24 de julho de 2011

Back to black

Para Amy Winehouse
em trôpegas palavras
o voo de uma voz
uma vida sem limites
que se descobre limitada.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Maluco beleza

faltam 10 dias para 10 anos.
no dia 25 de julho, uma porta se fechou
no sétimo dia, despertei aos gritos
orações, grunhidos, palavrões

nãohaviamaisvolta

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Eu sou a lenda

Quem seria capaz de “matar” um paralelepípedo no peito e chutá-lo? Quem poderia correr por toda a Via expressa, em velocidade, atrás de um papagaio “voado”? Ou carregar uma geladeira duplex sozinho escada acima? Ou soltar um arroto na “Doçura” que fosse ouvido na praça do Colégio Batista? Ou mesmo tomar 18 refrigerantes seguidos, um atrás do outro, “sem respirar”?

Quem seria capaz de acertar o resultado da disputa de pênaltis da final da Copa da África (11x10), quando o jogo ainda estava no tempo regulamentar? Quem poderia arremessar, com a mesma mão, simultaneamente, uma pedra e um ovo, para que a pedra quebrasse uma vidraça e o ovo entrasse pelo buraco feito pela pedra?

Hoje, meu amigo Flávio Lúcio, a quem a Floresta deu o nome de Gongom, completa 50 anos. A ele, a quem eu chamo de “A lenda”, colega de tantas hestórias, minha estima.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A amiga

Ele chegou ao bar, pálido e trêmulo. Sentou-se.
- Por enquanto, nada - desculpou-se ao garçom. - Estou esperando uma amiga.
Dali a dois minutos, estava morto.
Quanto ao garçom que o atendeu, esse adorava repetir a história, mas sempre acrescentava ingenuamente:
- E, até hoje, a "grande amiga" não chegou!
Mario Quintana

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Os remédios para o amor

O amor penetra nos corações com o hábito; é com o hábito que o desaprendemos. Poder fingir a cura é estar curado.
Ovídio

terça-feira, 28 de junho de 2011

Nós mesmos

Nós próprios devemos fazer
o que aos outros aconselhamos.
Adestrados, adestraremos.
Domar-se a si é que é difícil.
Darmapada


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Sobre a leitura e os livros

[...] os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas, para saber o que ele viu durante o caminho, é preciso usar os próprios olhos.
Arthur Schopenhauer

domingo, 26 de junho de 2011

316

Companhia e presunção - Desaprendemos a presunção quando sabemos andar sempre com pessoas de mérito; andar só estimula a soberba. Os jovens são presunçosos porque se relacionam com seus iguais, que nada são, mas gostam de parecer muito.
Friedrich Nietzsche

sábado, 25 de junho de 2011

As cidades

Todo homem precisa reaprender os pontos cardeais a cada vez que desperta, seja do sono ou de alguma abstração. Só quando nos perdemos, em outras palavras, só quando perdemos o mundo, é que começamos a nos encontrar, entendemos onde estamos e compreendemos a infinita extensão de nossas relações.

Henry Thoreau

domingo, 12 de junho de 2011

Complementos

"Tenho 55 anos e não me identifico com ninguém da minha idade, a maioria das pessoas desisitiu em algum lugar, ou ficou bêbada, drogada ou está casada."
Marina Lima, Revista Época,  n.682, 13 de junho de 2011, p.128.


não há problema em se identificar (ou não) com a própria idade,
em desistir, ficar bêbado, drogado ou estar casado

se se sabe o que completa
- desistir de quê? beber o quê? se drogar com quê? estar casado com quem?-
tanto faz a idade ou a identidade

sábado, 11 de junho de 2011

Velha trama

Para D. Irene, "A tenaz"

Duas mulheres trabalham silenciosamente numa máquina de costura.
- É a senhora, vó?
- Sim, meu filho. O que faz aqui?
- Eu queria saber...
- Você é muito novo para isso.
- Mas eu queria...
- Com o tempo, você aprenderá...
O garoto encolheu os ombros.
- Que isso, meu filho? Sua avó acabou de dizer que é uma questão de tempo e você se desanima?
- Desculpe, senhora. Eu a conheço?
- Meu nome está sempre nas palavras de sua mãe e nos ouvidos de sua irmã. Você não me conhece, mas eu o conheço bem. Carregamos o mesmo sangue. Somos aqueles que sempre insistem...
O garoto se surpeendeu com a resposta e não segurou as lágrimas.
- Eu achei que a senhora...
- Não, meu filho, estou aqui.
A avó do menino retomou a palavra:
- Você corta bem, mas precisará aprender a costurar. Enquanto não coser, nosso encontro seguirá mudo. Sem sentido. Sem explicação. Quando unir os pontos, ouvirá nossa voz.

domingo, 5 de junho de 2011

Por uma vida melhor

Agradecimento aos Novos Baianos

enquanto seguem nos agredindo porque nós pega os peixe,
nosso cordão segue em festa
"besta é tu, besta tu,
não viver esse mundo,
besta é tu, besta é tu
se não há outro mundo
besta é tu, besta é tu"

terça-feira, 31 de maio de 2011

Artificiais

por que perder tempo escolhendo o suco pelo sabor se o que o identifica é a cor?
só o gosto de terra é natural para quem veio do pó.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cobertores

muitos são os anti-alérgicos
raros são antialérgicos

por que sofrem os alérgicos?
nesse caso, o alérgeno é a língua

quarta-feira, 25 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

O livro

o livro segue desaparecido
entre tantas histórias
nunca esquecido
entre tantas hestórias

encontrá-lo será buscar a flor de Santa Rita
no inverno que jamais apagará o Cônego

sexta-feira, 13 de maio de 2011

sábado, 7 de maio de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

De mortuis nil nisi bonum

as finadas virtudes sobem aos céus
os mundanos adjetivos se desmancham no ar
à terra cabe dilacerar a lembrança

quinta-feira, 5 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

Apólogo

Para Joaquim Maria

Em um sarau, fizeram a leitura de "O apólogo", de Machado de Assis. Ao fim, um revisor de textos levantou-se e disse, melancólico, balançando a cabeça:
"- Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!"

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Mídia animália II

"Politicamente, ela (Rania, rainha da Jordânia) e as outras piranhas (mulheres de ditadores árabes) são intragáveis."
Caio Blinder, jornalista do Manhattan Connection, em 3 de abril de 2011

Era um programa de jornalismo ou uma conversa de botequim?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Mídia animália

"Há uma ascensão social incrível. A empregada doméstica, infelizmente, não existe mais. Quem teve este animal teve. Quem não teve nunca mais vai ter."
Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, no programa Canal Livre,
da TV Bandeirantes.

Fonte: Revista Época, n.673, p.49, 11 de abril de 2011.

Considerando que delfim é um mamífero, que sugou as grossas tetas do Estado durante o "milagre econômico", é estranho observar um animal atacando outro animal. Nessa história, contudo, só há uma besta e é ela que fala.

domingo, 3 de abril de 2011

Duelo

a palavra atravessou o peito
feriu ambos os lados

um sangrou de imediato
o outro sangra até hoje

domingo, 27 de março de 2011

Sêmi

quando encontro
semizero
semivirgem
semiburaco
semijoia

surge em mim
um semissentimento
um semientendimento

domingo, 20 de março de 2011

Bonfim

– Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! – gritei ao portão.
– Pra sempre seja louvado, meu fio! – respondeu Dona Quiméria. – Vamo entrando que a coisa aqui tá feia.
Passei pelo portão e caminhei em direção à porta sem ser recebido pelo Chicão.
– O que está acontecendo, Dona Quiméria?
– Nóis tamo aqui numa campanha, meu fio. Temo um invasor nessa casa. O Chicão tá interrogando o suspeito.
Lá estava o cão acuando um galo na cozinha, rosnando e latindo para a ave que se encolhia assustada.
– É bom que ocê vai sê tistimunha desse interrogatório.
– Que galo é esse, Dona Quiméria? Por que o Chicão tá bravo assim?
– É o Obama, meu fio. A culpa é dele.
– Obama?
– Aquele galo que o Chicão tá interrogando é o Obama. Nós discobrimo a verdadeira identidade dele.
– Me explica isso, Dona Quiméria.
– Meu fio, depois que o Obina foi embora e consiguimo devolver o Diego Souza pro mar, nóis sofremo com a venda do Tardelli. A gente tava precisando de um novo 9 pro nosso time. Aí, numa manhã dessas, apareceu esse galo aí, sem nome, ciscando na frente da casa. O Chicão me chamou e eu fui vê se era um dos meus que tinha fugido, o que não era. Ele num tinha nome, tava um pouco cansado e eu peguei ele pra criá. Coloquei junto com os outro, e fui alimentando, ainda que o Chicão sempre rosnasse pra ele.
– O Chicão nunca rosnou pra outro galo, já?
– Não meu, fio. Nunca! Isso me chamou a atenção, mas eu achei que fosse implicação dele. Mas no último domingo eu descobri que o Chicão tava certo... Aí descubrimo quem ele era.
– O que aconteceu?
– O Grorioso jogava contra o Coelho e, na hora do gol do Berola, foi aquela festa aqui em casa. Os minino tudo cantando e pulando, menos o sem nome, que agora é o Obama, mudo e cabisbaixo. Achei istranho, mas num liguei muito. Quando o Coelho empatou, o Obama levantou e ficou mais ouriçado. Eu falei “Eta, meu Deus! Esse galo tá meio isquisito.” Aí, quando Fábio Jr. virou o jogo, o Obama disparou a cantar e a pular que nem um louco. Aí eu não aguentei: “Chicão, aquele galo é americano! Vão pegá o sem-vergonha!” E nós fervemo pra cima dele. Aí foi um Deus nos acuda! Nóis correndo atrás dele, os minino que tava nas gaiola querendo saí pra pegar impostor, outros que tavam solto partiram pra cima dele, aquele furdum, as plantas caindo, as roupa no varal enrolando na gente e ele tentando se esquivar de todo jeito... Eta, meu Deus!
– A senhora conseguiu pegá-lo?
– Não, o Obama é esperto. Correu pra gaiola dele e fechou a porta.
– Por que a senhora deu o nome de Obama pra ele?
– Ora, meu fio, o galo é americano. Se é americano, só pudia ser o Obama.
Sorri diante da resposta dela.
– Dipois nós revistamo ele e discobrimo umas penas verde na asa. Só faltou o uniforme do Coelho! É americano mesmo! Agora o Chicão tá concluindo o interrogatório e dipois ele vai sê extraditado. Nóis vão mandá ele lá pra Arena do Jacaré hoje, pro meio da torcida do Vila.
– Mas por que pra lá?
– Por que o Vila Nova, meu fio, dipois do jogo de hoje, volta pro Caldeirão do Bonfim, que é o lugar que o Obama merece. Esse falsário vai sê extraditado. Esse galo é 171, tá usando o nome dos outro.
Dona Quiméria afastou o Chicão com uma mão e pegou o Obama com a outra. Colocou o galo numa gaiola, ajeitou o cabelo e o lenço da cabeça, assobiou pro cachorro e se dirigiu pra porta.
– Vamo, meu fio, se não nós perdemo o jogo.
– A senhora tá indo pra Arena?
– Isso, meu fio. Vamo extraditá o Obama e somá três pontos.
– E o 9 que o time tá precisando, Dona Quiméria?
– Nós vendemo a metralhadora, mas ainda tamo cheio de munição, meu fio. O Leão que prepare o couro porque hoje nós vamo metê bala! Vero tiroteio.

domingo, 6 de março de 2011

Até o fim

Agradecimento a Chico Buarque
Para Luiz Clemente, o Engenhoso

quando nasci veio um anjo safado
o chato do querubim
e decretou que eu estava predestinado
a ser canhoto assim
já de saída a minha palavra entortou
mas vou até o fim

"inda" garoto tentei jogar bola
não vingou o folhetim
não sou ruim de tudo, não sou meia-sola
sou mulato marfim
um quieto futuro é o que jamais me esperou
mas vou até o fim

eu bem que tenho ensaiado um sucesso
na ribalta sou o arlequim
talvez eu faça um bruto progresso
se me enxergarem assim
não sei como o rebucetê começou
mas vou até o fim

por conta de umas questões paralelas
quebraram minha parker nanquim
não querem mais ouvir as minhas mazelas
e a minha letra chupim
fiquei careca, a minha tinta secou
mas vou até o fim

não tem charuto acabou minha renda
deu livro no meu cupim
minha caneta ficou mais pudenda
o que será de mim?
eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
mas vou até o fim

como já disse era um anjo safado
o chato dum querubim
que decretou que eu estava predestinado
a ser todo chinfrim
já de saída a minha palavra entortou
mas vou até o fim

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...