terça-feira, 31 de maio de 2016

Transparência

O ministro foi muito transparente em suas conversas particulares. Não conhecia o Machado, foi atingido por ele e caiu. Encontrou o Jucá, caído na semana anterior, e elevou a média de um ministro no chão por semana.
Os otimistas acreditam que, em breve, não haverá ministros. Os pessimistas, que, em breve, não haverá chão.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Peladeiro - parte 2

O peladeiro conhece como ninguém todas essas posições, porque, em geral, ele tenta estar em todas. Alguns descobrem que não é possível, outros encerram a carreira tentando, o que não é um demérito, apenas um ponto de vista peladeiro. Do goleiro ao atacante, a distância é mínima: basta um gol, um toque entre mãos, uma palavra, um gesto, um olhar, nada, e o atacante se faz goleiro, e vice-versa. A pelada, mais uma vez, se mostra mágica.
Todo esse preâmbulo para desembarcar no peladeiro da vez: Patrick. Não há nenhuma alusão aqui do futebol dele ao de Sorín, apenas a constatação de um fato e uma resposta à presença constante de Patrick na escalação de treinadores diferentes que passaram pelo Galo. Num universo de “jogadores de escolinha”, um jogador que busque o jogo constantemente e que dele participe é uma peça importante em qualquer elenco. Essa é a resposta para Patrick ter sido titular com o Levir, com o Aguirre e, agora, com o Marcelo, em variadas posições, a quinta diferente (as duas laterais na defesa e no ataque e, ontem, no meio de campo).
Patrick não é um jogador de muitos recursos técnicos, mas não se omite em uma partida e está sempre participando do jogo. Não é um brucutu, um perna-de-pau, é perspicaz em algumas jogadas, não perspicaz em muitas, mas nada que o impeça de pedir a bola na próxima jogada. Não faltam vontade, determinação e entrega, e esse conjunto é muito importante para a Arquibancada Atleticana, daí o reconhecimento: “Patrickão da Massa”.
Ontem, contra o Vitória na Arena Fonte Nova, foi o mais lúcido do Galo em campo, recebendo, inclusive, o prêmio de melhor em campo pela Rádio Itatiaia. Essa lucidez não quer dizer precisão, qualidade refinada ou genialidade, apenas que entende bem, como bom peladeiro, como a bola comanda a pelada.

domingo, 29 de maio de 2016

Peladeiro - parte 1

Certa vez, o Vampeta se referiu ao Sorín, jogador argentino que atuava pelo Cruzeiro, como um peladeiro no bom sentido. Esse comentário surgiu pela flutuação de Sorín dentro de campo, muitas vezes não guardando sua posição e aparecendo como elemento surpresa em jogadas de ataque.
Por que o peladeiro, inicialmente, pode ofender? Neste momento de politicamente correto, qualquer adjetivo pode causar mal-estar, ainda que grande parte dos torcedores de qualquer equipe já tenha vivenciado essa experiência mítica chamada “pelada”. Quem já foi peladeiro sabe que nem toda pelada é uma pelada, e há peladas fabulosas eternizadas na memória de cada bola de várzea.
O peladeiro não precisa de uniforme, e talvez o fato de “não precisar” de indumentária tenha contribuído na etimologia do termo. O “peladão” e a “peladinha” são variantes essenciais para a compreensão desse fenômeno sociológico, não necessariamente para o bem, nem para o mal. Tal como magia, não há boa ou má, apenas a maneira como você a vê e participa dela definem o valor da pelada.
A pelada é uma instituição nacional, tal como a feijoada, a cerveja, a bunda e o palavrão. Nesse quinteto, há a explicação de quem somos e de por que somos. Avalie a pelada como um simulacro da vida brasileira cotidiana média e verá como o brasileiro é um peladeiro em essência: não tem posição fixa no contexto do jogo, não carrega escudo no peito, muitas vezes não tem os itens necessários para a pelada ou os tem em estado de miséria, não há questões de religião, de partido político, de cor, e a qualquer tempo a posição pode mudar.
Depois dos fatídicos 7x1, a dúvida se o futebol brasileiro está em crise se condensou no “meio do futebol”. Se há crise, parte dela passa pela falta de peladeiros. Hoje, há uma enxurrada de jogadores que só jogam em uma posição, não sabem atuar em outros espaços do campo e preferem o banco a uma improvisação. Muitos desses, para piorar, são medianos ou fracos (“O futebol é uma bênção”[1]) e se firmam em alguma equipe graças à for$a do empresário.


[1] Frase de Paulo César Vasconcelos, jornalista do SporTV.

sábado, 28 de maio de 2016

Conto


quem conta um conto aumenta um quilômetro.
sem rima
sem poesia
só chão
poeira
e os pés que medem
o centímetro sentimento do mundo

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Moeda falsa

O jogo de ontem do Galo mostrou que o elenco está cheio de falsas moedas: propagam-se as coroas, mas não mostram as caras quando necessário. É a falsa sensação do bolso cheio de moedas: muito volume, pouco valor.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Absolutização

no Brasil, o feriado é absoluto.
não importa se santo, cívico ou sacana.
o feriado se justifica por si mesmo.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Sétimo dia

mede-se um morto pela lembrança que ele suscita na missa de sétimo dia.
a importância da causa mortis é inversamente proporcional ao vivido.
sem lágrimas, sem flores, sem santinhos, sem títulos.
- Descanse em paz, Aguirre. Amém.

terça-feira, 24 de maio de 2016

És saporra

O Jucá caiu do planejamento, mas continua firme com essa porra.
Não se pode atacá-lo por "essa porra", porque é expressão de grande valia no cotidiano, para as mais variadas situações e já sofreu, inclusive, variação linguística "saporra".
A certeza após o impeachment, o ajuste fiscal, as delações pululantes e após a queda do Jucá é que essa porra vai longe.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Pilathos

o sabonete Pilathos saiu do mercado
a sujeira não.

"Você sempre de mãos limpas": o slogan.
tantos sem entender: o sintoma.
mais útil do que nunca: o "planejamento".

domingo, 22 de maio de 2016

Autopsicografia

Para meu tio Belchior, o cônego, no dia de Santa Rita

Agradecimento a Fernando Pessoa

O poeta é um mentidor.
Mente tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem sua mente,
Na dor lida sentem bem,
Deveras sabem que ele mente,
Mas só nas palavras que eles não veem.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a (não)razão,
Esse comboio de corda
Que é o meu coração.

sábado, 21 de maio de 2016

O riso

Hoje eu só quero rir. Digo mais, hoje eu só posso rir. Todos nós somos engraçados e cômicos. Observo outras pessoas e vejo o quanto são ridículos os atos que também eu repito. Rio. Rio muito porque a vida, a rotina diária, tenta ser séria. No fundo, essa seriedade nada mais é que a face mais cômica e divertida da nossa sociedade. Todos representam tantos papéis que chegam a ser idiotas de tentarem ser eles mesmos. Eu rio deles. Eles riem de mim. Eu também sou mais um idiota entre tantos. Sirvo de matéria-prima para a gargalhada alheia. Tudo bem, não faz mal. Quando riem de mim, eu rio deles porque eles não entendem que rindo de mim fornecem-me argumentos para rir deles. Torna-se um ciclo. Um processo repetitivo sem fim. Aí eu acho mais graça e rio mais ainda. Eu rio sozinho e chego a rir até de mim mesmo, quando vejo o que faço. Sou repetitivo e previsível, e isso é muito chato. Na verdade, todos são assim. Quando alguém propõe algo diferente, todos riem por ele ser tão estúpido de dizer o que pensa. Eu rio daqueles que riem dele por serem tão idiotas. Eles riem de mim porque aquele idiota encontrou outro idiota para acreditar nele. E eu volto a rir deles porque, na verdade, nem sempre, acredito naquele idiota, apenas aceito o direito de ele pensar o que achar melhor. O idiota ri de todos nós por não acreditarmos nele. Ri de ser considerado idiota. Ri de tudo e de todos. E Deus, do alto de sua onipotência e onipresença, ri de todos nós humanos. Deve dizer entre os anjos: "Eu os criei, mas são uns tolos."
Rimos de Deus à medida que rimos de sua criação. Rimos dele e ele ri de nós. Quando Deus chamar alguns para rirem junto dele, alguns de nós que ficarmos desafinaremos a melodia. Choraremos. Quando nascemos, todos riam e só nós chorávamos; quando morrermos, partiremos rindo, e alguns chorarão.
Ria.

*Texto originalmente publicado em 1996.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Para amanhã

quando não se sabe resolver, adia-se.
quando não se pode adiar, inventa-se.
quando não se pode inventar, realize-se uma reunião.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Meio mais meio

Em 2014, jogamos o primeiro semestre fora com o Paulo Autuori.
Em 2016, jogamos o primeiro semestre fora com o Aguirre.
De meio em meio, foi-se um ano.
Para quem tem fome de eternidade, é tempo demais.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Um dia novo

Dona Quiméria pulou da cama às 4h, no mais estrondoso silêncio. Luisinho abriu um olho, acionou o focinho, sentiu o cheiro do dia, abriu o outro olho, se ergueu, cumprimentou alegremente a técnica e rumou ao quintal para as abluções matinais.
Nenhum galo cantou.
O sol se mantinha apagado.
A água fervendo na chaleira puxou a primeira canção do dia.
Esfrega, torce, bate, molha, enxágua.
Para, olha. Começa de novo.
Esfrega, torce, bate, molha, enxágua.
Pronto. No varal.
A fumaça do café, a lata de biscoito, o afago no cão.
A escova no cabelo, o perfume do dia e o manto de festa.
Saiu de casa com o pé direito, pôs a mão no chão, fez o "nome-do-pai", beijou a medalhinha e partiu.
Na rua ainda escura, ao lado de Luisinho, Dona Quiméria disse:
- Tá cedo, minino, má hoje nóis pricisa de trabaiá muito e Deus só abençoa quem trabaia muito, quem começa cedo com os serviço e as reza. Vem aqui, deixa eu vê seu coraçãozinho.
Segurou Luisinho e auscultou a emoção da massa.
- Tá bão, Luizim. Fica tranquilo, tá? Hoje é um dia daquel's e nóis vão pricisá de todo povo atleticano junto. Quando o Chicão chegá, dá passage. Deixa ele assumi o jogo. Nós vamu pricisa dimais dele.
O cão olhava atentamente as palavras que Dona Quiméria desenhava enquanto cortavam a avenida.
***
O dia escuro encontrará, em breve, o dia claro. É muito cedo ainda, mas fé e paixão não têm hora.
O jogo já começou.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Aniversário

um aniversário, quando não pode ser comemorado, deve ser chorado.
hoje, há risos e brincadeiras. a certeza da vida agora.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Up grade

Provérbio antigo: "Atirou no que viu e acertou no que não viu."
Upgradeado: "Atirou no Facebook e acertou no WhastApp".

domingo, 15 de maio de 2016

Goleadas

goleadas estrondosas foram vivenciadas nos últimos dias: 74 x 0, 55 x 22. a mais peculiar, contudo, foi a de 367 x 54 milhões, vencida pelos donos da casa.

a matemática está atônita
a política não vê nada demais
a história aguardará sua vez de se pronunciar

sábado, 14 de maio de 2016

A política na língua

nesta semana, a presidenta sofreu uma impedimenta, que a afastará por 6 meses até que seja julgada se culpada ou inocenta no que se refere às pedaladas fiscais.
a voz tonitruanta do tempo dirá se há algum erro no discurso.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

13, sexta-feira

Sexta-feira 13. Mais uma, consecutiva (no mês anterior havia ocorrido também), de Lua cheia e de quebra, dentro do período da Quaresma, quando as almas penadas e não-penadas estão mais fortes e presentes entre nós. No que diz respeito ao dia: calor, pouco vento e muita agitação. Trevo-de-quatro-folhas, simpatias, benzeduras, chás e poções milagrosas regendo o dia. Aos mais "espertos" somam-se projeções astrológicas, consultas zodiacais e ligações telefônicas 0900 das mais variadas categorias mediúnicas e previsivas. Se há tudo isso, aula não poderia faltar. E aula normal, diga-se de passagem, mesmo diante dos protestos de tantos alunos preocupados com as inguiças geradas por uma sexta-feira 13.

* Trecho de "Mema, o louco", publicado originalmente em 13 de março de 1998.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Impeachment

O impeachment é legal, mas não pode ser usual.
O preço pago se arrasta por anos.
O preço pago se arrasta por nós.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Arroz com feijão

- Alô?! Alô?! É o Adisle?
- ...
- O Adile? Técnico do Galo? É a Quiméria, meu fio.
- ...
- Isso, Dona Quiméria.
- ...
- Isso memo que eu falei. Aguirre. O que que eu falei? Adilio. Isso. Aguirre.
- ...
- Adilio, tô ligando pr’ocê pra ti lembra que nós tamu no Brasil e aqui quem manda é o arroiz co’fejão. Tá ovino? Arroiz co’fejão.
- ...
- Num tá entendeno? Vô ti explica. Nós gostamu, Adile, é de arroiz co’fejão, que é um prato simples, mas muito bão. Nós comemu uma feijoada as veiz, uma dobradinha, um pé-diporco, mas o de todo o dia é arroiz co’fejão.  Ele é bão, hoje num tá barato, mas é o que nós  gostamu, deixa a gente cheio e dá força pra trabaiá. Intendeu?
- ...
- Intão, quando o Galo fô entrá em campo hoje, Adilio, faz um arroiz co’fejão e num inventa: iscala o time certinho, sem querê misturá catraca de canhão co’ conhaque de alcatrão. O povo atleticano sabe o time que tem que jogá e num tá aguentado s’as bizarria.
- ...
- O esqueleto do Galo, Adile, tem que tê o abençoado do Vito, o Léo Silva, o General no meio, o Carioca do lado dele, o Douglas de um lado e o Marcorrocha do outro, o Urso no meio e o Pratto na frente. Por falar nele, ocê sabe por que que todo mundo gosta do Pratto? Porque ele sabe fazê o arroiz co’fejão, Adisle. Ele num inventa.
- ...
- 8 é um número mágico, bobão, e o time num tá incompleto não, Adilio. Só tem oito, porque o Luan tá machucado (Eta! Tá fazeno uma falta danada!), o Dato tá machucado (otro que tá fazendo muirta farta) e o Robin veio, ma’ num trouxe a bicicreta dele. Tá pedalando poco e, quando pedala, num disenvolve.
- ...
- Aguiro, quando ocê chegô no Brasil, nós já jogava futebol há muitos ano. Mió: quando ocê nasceu, nós já jogava. Intão, num acha que ocê sabe dimais não, porque isso é mentira. A cigana que ti falô isso recebeu pra ti conta essa história, ela num falô digraça. Ocê é um minino esforçado, ma’ num é hora de inventá. Faz o simples, faz o arroiz co’fejão.
- ...
- Ocê cunhece o Rei?
- ...
- Esse tamém é, ma’ tô falano do Galo: o Reinaldo. Ocê viu ele jogá? Nem na televisão? Vô ti conta intão pr’ocê num isquecê: quem via ele jogá ficava se perguntando porque todo mundo num era igualinho ele. Era simples dimais, Adilio. Parecia que futebol era uma coisa tão boba de tão simples que ele fazia. Ma’ isso, Adislio, era purque ele era foradissérie, craque. Ele num precisava de cigana pra ovi isso.
- ...
- Pega esse exemplo, intão, é faz quinem. Simples, meu fio. Simples. Prepara um arroiz co’fejão hoje bem mineiro no primeiro tempo, dispois ocê bota um cadinho de farinha, segura isso nos quarenta e cinco. No segundo tempo, estrala um ovo, fritinho, disco-voador memo, dispois refoga uma couve com calma e fecha com a linguiça. Desse jeito.
- ...
- Num precisa inventá a roda, Adislio, ela já foi inventada. O Levi, que tava antes d’ocê, é um minino bão, gosto dele, ma’ ele tamém gostava de inventá, dava sorte de veiz em quando, ma’ a sorte gosta de viajá e tem hora que ela num vorta. Intão, se ocê num inventá, a chance de dá certo é mto maió, porque arroiz co’fejão num erra.
- ...
- Dumingo, Aguisrre, ocê já inventô dimais e acabô entregano o oro pro’s bandido. Já tem gente chamanu ocê de tapir. É, tapir.
- ...
- Bão... eu num ia querê esse nome pra mim... Se é ofensive? Não, claro que não... Dependi de como ocê vê a natureza. Má num preocupa com isso hoje, não, Aguire, pensa só no jogo e na simplicidade. Se ocê num agarrá, Aguirre, o time vai fazê a parte dele. A torcida sabe disso.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Desanular

o verbo "desanular" é defectivo
o verbo "desdesanular" também
só se conjugam por uma pessoa

até quando o verbo suportará prefixos?
até quando o povo brasileiro suportará o verbo?

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Di ego anta

para perder um título:
- entre em campo desligado;
- desperdice um pênalti no primeiro jogo;
- tenha um jogador expulso ainda no primeiro tempo da segunda partida;
- tenha reservas que deveriam ser apenas reservas;
- perca jogadores importantes por contusão;
- subestime o adversário;
- não tenha sorte e poupe quando não terá  oportunidade de gastar depois;
- invente na escalação a gosto.

sábado, 7 de maio de 2016

O terceiro olho

http://glo.bo/1ZpWMCT
Adnan Abidi/Reuters
***
Um relojoeiro usa uma lupa para reparar um relógio em oficina à beira de uma estrada em Déli, na Índia
***
o terceiro olho traz aquilo-que-não-se-via
cega o primeiro
oculta o segundo

nessa arte, ver é uma questão de tempo

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Comentários

Para Maria Cristina Brandão

Não há palavras que não cortem.
Aquelas que não cortam também não semeiam
e, se não o fazem, por que se grafam?

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Barragem

a barragem da Samarco se rompeu em novembro
outra
há anos
vem sujando vidas
corroendo faces

quando essa irromper
não haverá planejamento
nem reza
que salve parasitas e vermes

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Veículo

A vida é um veículo em que presente e futuro estão no para-brisa, e o passado, no retrovisor. A relação entre o tamanho do vidro e do espelho é ampla e pedagógica, pois revela a importância do ontem, do hoje e do amanhã.
Aquele que se apega ao retrovisor está condenado a despedaçar o para-brisa.
Pode não ser o fim da linha, mas, certamente, o fim da brisa.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Pulse - 2ª parte

Voltando ao LinkedIn Pulse, que é o tema deste artigo, já li vários artigos incentivando a redação de textos pertinentes à área de atuação do autor, outros dando dicas de como produzir um texto para a ferramenta, mas não me lembro de nenhum deles que propusesse uma atenção aos aspectos linguísticos. Talvez por ser uma premissa tão fundamental que beire a obviedade, os autores não a citem, e de igual forma, nos comentários, não me recordo de colocações pertinentes a questões de língua portuguesa (pedantes, inconvenientes...). Novamente, foco no conteúdo.

O crescimento do número de autores é um fato relevante, pois, inevitavelmente, o número de leitores crescerá, ainda que esse incremento não possa ser classificado qualitativamente. O aumento da produção escrita abriria um mercado enorme para revisores de texto, pois seriam necessários nas áreas mais diversas, em empresas de tecnologia e tradicionais, nos contextos mais diversos. Digo abriria, pois não é o que se vê na prática. O mercado cresceu muito para revisores de textos nos últimos dez, quinze anos, mas está aquém da produção escrita.

Não é possível que as questões linguísticas sejam pensadas apenas ao término da redação do texto, com a crença de que um revisor de textos (que muitos acreditam ser “o do Word”) possa resolver inúmeras variáveis em 24 ou 48 horas. Além disso, é muito difícil encontrar um revisor que tenha esse serviço como fonte única e exclusiva de trabalho e renda (muitos são professores de língua portuguesa ou têm formação em jornalismo ou direito, entre as áreas mais comuns).

O contexto do LinkedIn Pulse também deve ser analisado, uma vez que as relações são muito digitais, a sociedade é digital, e a forma de usar nosso tempo disponível, por consequência, cada vez mais digital. Há textos com linguagem de diário, com “fluidez” de uma conversa de bar (claro, sem o acompanhamento de bebidas e tira-gostos), com o figurino de listagens e listas (como aquela relação de ingredientes de uma receita), sem contar os mais jornalísticos e os autopromocionais. Não há demérito para nenhum deles, pois todos têm seu espaço e seu público-alvo. Por essa variada gama de gêneros textuais e por nossa rapidez digital, além de outros motivos, o conteúdo.

Não deixo de acompanhar o LinkedIn Pulse, porque me serve como fonte de informação, de conhecimento e de reflexão para o meu trabalho diário com a língua. Entretanto criei uma categoria de textos chamadas de “3P”, para os quais minha paciência analógica tolera até três parágrafos antes que a sanha digital contemporânea feche o navegador e passe para o próximo.

Para esses “3P”, muitos deles com milhares de visualizações, não há delação, só deleção.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Pulse - 1ª parte

Desde que o LinkedIn Pulse surgiu, tenho lido bons conteúdos, informações diversificadas e atuais e muitas novidades, inclusive do ponto de vista linguístico. Em contrapartida, observo que não há um trabalho sistemático em relação à língua portuguesa nesses artigos, o que gera, muitas vezes, um distanciamento entre forma e conteúdo.

Trabalho com edição de textos há anos, principalmente no ensino superior, e observo que o foco está, na produção de monografias, dissertações e teses, essencialmente, no conteúdo, restando à forma, se houver tempo, alguma atenção. Não quero debater aqui as questões relacionadas às variações linguísticas, porque, em minha opinião, um trabalho acadêmico que mereça esse título deve-se pautar na norma “científica” da língua. A preocupação com os aspectos linguísticos pode ser incipiente, mas jamais insipiente.

Os aspectos formais do texto são tão importantes quanto os relacionados ao conteúdo e deveriam ser assim tratados, inicialmente, pelos professores-orientadores, para que os alunos, já nos semestres iniciais, entendessem esse fato e o incluíssem no cronograma de execução do trabalho. Ao término de uma pós-graduação, restarão para a história o título (mais visível, curricular e social, mas que será perdido ao fim da vida) e o trabalho impresso, que poderá ser obra de referência para trabalhos posteriores e, certamente, parte da base de conhecimento de nossa sociedade.

Analisando essa questão de forma mais ampla, é notório que o problema não está na pós-graduação, certamente passa pela graduação, mas, sem dúvida, está na educação básica, e as mais de 53 mil redações no ENEM com nota zero confirmam esse fato. É preciso qualificar nossos alunos na produção de texto e cobrar, insistentemente, uma performance mais condizente com os padrões de que nossa sociedade necessita.

O Novo Acordo Ortográfico, depois de anos opcionais, agora é obrigatório. Estamos preparados para ele ou deveríamos perguntar se ele está preparado para nós? Para o nosso dia a dia digital e oral, não há diferença, mas não podemos nos esquecer de que as idéias de ontem podem não ser as ideias de hoje (muitas delas certamente não são). Não cabe a discussão se o NAO é relevante, pertinente ou agradável, pois agora ele é real e vigente.

domingo, 1 de maio de 2016

O brasileiro é um feriado

Para Nelson Rodrigues

No Brasil, o dia do trabalho ser feriado e cair em um domingo é um drama existencial.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...