Houve um tempo em que caixas de lápis de cor eram
ótimos presentes e havia um certo fascínio pela variedade de tons de uma mesma
cor, muito antes de tons de cinza serem humanizados. Esse tempo passou, como terapia
antiestresse, mas, certamente, carrega consigo um ar vintage em nossa sociedade
de dedos, sobredita digital.
Resolvi, observando esses tempos falsamente
modernos, buscar uma caixa de lápis de cor que refletisse nossa variedade: uma
caixa de duas cores. Não encontrei. Percebi até mesmo um certo descrédito por
parte de lojas e vendedores especializados quando verbalizava meu pedido bilateral.
À mais sagaz especialista, coube a pergunta: “Quais seriam essas duas cores?”
Não sei dizer, respondi, mas tenho certeza que são
antagônicas e que ambas se anulam perfeitamente. A mente combinatória e
colorida da especialista afirmou, categórica, que não existe esse produto no
mercado nacional. “É mesmo? Sério?” foi o que eu disse.
Como é possível não haver essas cores, se grande
parte da sociedade brasileira só trabalha com elas? Como vivemos um período tão
maniqueísta, em que as cores valem mais do que as pessoas, e ninguém sabe que colorido
é esse? Por que grande parte quer se pintar para a guerra e não quer reconhecer
a validade da tintura do outro?
Por que devemos ser coxinhas ou petralhas apenas?
Por que devemos ser negros ou brancos apenas? Petistas ou bolsonarianos apenas?
De direita ou de esquerda apenas? Feministas ou machistas apenas? Por que
devemos ser homofóbicos ou heterofóbicos apenas? Cristãos ou não cristãos
apenas? Onde estão as pessoas que vivem debaixo desses rótulos?
Entre os limites desses espectros antípodas, não há
vida inteligente? Não se pode, tal como uma pesquisa de opinião, concordar
parcialmente ou discordar parcialmente? Não posso aceitar que a opinião do
outro é diametralmente oposto a minha, mas que tem o valor de ser dele? Por que
é preciso diminuir, desmerecer, menosprezar e ofender ideias e pessoas?
A mim, roseanamente, cabe a terceira margem, que
chamo de silêncio, quando encontro canoeiros que usam remos no ar. Minhas palavras,
miúdas, gasto com gente misturada.