quinta-feira, 25 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 6]


– Ele é um cara que tem um passado obscuro, do qual ele tenta se esquecer, mas que constantemente bate a sua porta. Belinha é sonhadora, romântica e acredita na força do amor. Muitas pessoas não querem esse romance, mas eles vão tentá-lo com todas as forças.
– E tem cenas quentes? 
– É o que mais tem. O livro pega fogo na sua mão. 
– Nossa, eu quero esse livro. 
– É um livro para esquentar as noites frias. 
– Nossa! É do jeito que gosto. 
– Vai ser lançado em breve. 
– Quando? 
– Está quase pronto. 
– E como termina? 
– Não posso dar spoiler, senão perde a graça. 
– Ah, vai, me conta. Eu estou louca para saber. 
– É segredo. Só nas últimas páginas haverá a revelação. 
– Ah, não faz isso. Me conta!
– Eu tenho alguns finais prontos, mas não sei qual vou usar. Pode ser até que escreva uma continuação do livro, alguma coisa tipo uma trilogia.
– Nossa! 
– Vai depender da aceitação do público leitor. 
– Nossa! E você já tem uma editora? 
– Tenho sim. Vai sair pela Pedkouv, a editora dos grandes talos. 
– Nunca ouvi falar! 
– É uma editora especializada, que tem 9 na lista dos 10 livros mais vendidos. É uma das maiores do mercado nesse segmento e tem uma ótima relação com autores.
– Vou pesquisar. Mas, e meu livro? 
– Comece a colocar suas ideias no papel. 
– Não é meu perfil, sabe? Escrever é muito devagar, eu prefiro navegar e produzir na cabeça, que é muito mais rápido.
– Para ser uma escritora, você vai precisar “escrever”.
– Vou procurar alguém para me ajudar. 
– É uma boa ideia. 
– E seu livro? 
– Espero terminá-lo logo, porque já está queimando minhas mãos, assim como esse celular.
***
Notas:
*Capa produzida com imagem da Pixabay.
**Em virtude da pandemia de COVID-19, a quase venda ocorrerá apenas em formato eletrônico, nos principais players do mercado.
*** Outras informações pelo Instagram: humberto_mendes_

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 5]

– Lá vai: “Então ele me pegou e me beijou.”
[Silêncio]
– Ponto-final?
– Sim. Grandioso assim. O que achou?
– É...
– É o quê?
– É... "impactante".
– Eu sabia. Todo mundo vai gostar.
– Vai... Vai sim...
– Então seu romance vai ser em primeira pessoa?
– Vai, vai sim. Então, você vai me ajudar?
– Desculpe, mas... fiquei tão impactado com o fim que me perdi. O que você quer mesmo que eu faça?
– Que escreva minha história para mim!
– Quer que eu escreva? 
– Sim, isso. Não existe a função de ghost writer? Então, queria que você fosse o meu.
– Desculpe, Anastásia, mas não faço esse trabalho.
– Você vai perder essa chance de ficar famoso e ganhar dinheiro? Não acredito que não quer!
– Não trabalho como ghost writer.
– Talvez seja a hora de começar. Você tem talento! Eu ajudo você.
– Você me “ajuda”?
– Claro. Só não posso colocar seu nome no livro porque a ideia foi só minha.
– Ah, claro.
– Então?
– Infelizmente tenho que confessar que não posso ajudar você porque estou escrevendo um livro sobre um grande romance. 
– Não acredito!
– Sim, estou. Já tenho o título, as personagens, o enredo e muitas páginas escritas.
– Mentira! Jura?
– É verdade, e vou contar para você em primeira mão!
– Ah, não! Não me fala isso.
– O livro se chama “Eu, Testosterona” e conta a história de Brutus, um homem forte, másculo e viril que se apaixona pela meiga Bela, uma jovem linda e ingênua. Só que Brutus tem um segredo guardado a sete chaves, que, se for descoberto, acabará com todas as chances de felicidade dele.
– Nossa!
– Brutus é um homem irresistível.
– Meu Deus!
– Isso mesmo! Um deus grego com uma pegada moderna: jovem, veloz e furioso.
– Nossa! 

terça-feira, 23 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 4]

– [Não devia perguntar, mas não resisti] Você pode ler para mim essa frase? 
– Acho melhor não. 
– Por quê? Se você quer minha ajuda, eu preciso saber o desfecho. 
[Silêncio] 
– É, acho que você tem razão. Vou pegar. 
– Tá bom. 
Alguns segundos depois: 
– Vou ler, tá? 
– Tá bom. 
– É algo impactante, assim, avassalador, para que o leitor saia deslumbrado com o livro. 
– Claro, assim deve ser. 
– Não queria nada muito óbvio. 
– Sim. 
– Nada clichê. 
– Você está certa.
– Pensei em algo que o leitor quisesse decorar, que o fizesse querer ler o livro de novo só por essa frase.
– Entendo.
– Alguma coisa que mexesse com o sentimento dos homens e o desejo das mulheres. 
– Tá. 
– Que tivesse uma pegada moderna. 
– Hunrum. 
– Sabe, uma “pegada” forte! 
– Sei. 
– Um misto de amor e paixão. 
– Hunrum. 
– Demorei muito para escrever isso. 
– Hunrum. 
[Silêncio] 
– Então, vou ler: 
[Silêncio]

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 3]

[Silêncio] 
– E o que mais?
– Queria que você me ajudasse com as construções, que me desse umas dicas sobre a melhor forma de narrar, sobre as vírgulas, sobre as personagens.
– Bem, tenho que lhe dizer que o que você deseja precisaria ter sido pensado antes do texto estar pronto, pois agora o trabalho será enorme para fazer isso.
– Não se preocupe, isso é simples. 
– Você usou esse mesmo método nos outros livros? 
– Não, não. 
– Como fez nos outros? 
– Foi inspiração. Tive uma ideia e escrevi. 
– E o trabalho com a língua? 
– Ainda não foi feito. 
– Então você escolheu começar por esse? 
– Sim. 
– Você tem inúmeras páginas escritas que precisam ser avaliadas, é isso? 
– Ah, não são "inúmeras". 
– É um livro pequeno, então? Na verdade, um conto. 
– Não, não, não é um conto! É um livro mesmo. 
– Quantas páginas ele tem? 
– Não muitas. 
– Me diga quantas são. 
– Huljileopnbertyad 
– Desculpe. Não entendi. 
– Bgtradoleuncte. 
– A ligação ficou péssima. Não consegui entender. 
– Estou mudando de lugar. Melhorou? 
– Sim, agora sim. Quantas são? 
– Então, na verdade... Bem, na verdade, eu queria sua ajuda na redação do livro. 
– Para escrever o livro? 
– É isso. Isso mesmo. 
– Você não tem nada escrito, então? 
– Não, não, tenho. 
– Você só tem a história? 
– Não, não, claro que não! O livro está pronto na minha cabeça. 
– Ah, sim, na sua cabeça. Só falta passar para o papel. 
– É isso! Sabia que você ia me entender. 
– Quanto você já escreveu? 
– O mais importante. 
– Que é? 
– O fim. 
– Você tem o capítulo final. 
– Quase... 
– Quase como? 
– É... quer dizer, eu tenho o fechamento, a frase final. 
– A frase?
– Isso, a frase. O fechamento do romance, a chave de ouro, o ponto alto de toda uma história de amor.

domingo, 21 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 2]

– Anastácia? 
– Não, Anastácia não. Pelo amor de Deus! Anastásia! 
– Me desculpe, Anastásia. 
– Tudo bem. 
– Seu nome me é familiar. 
– Deve ser impressão sua, porque eu não conheço outra. 
– É... pode ser mesmo. Mas, então, do que você precisa? 
– Eu preciso da revisão de meu novo romance. 
– Está pronto? 
– Sim, está. 
– Qual é o título? 
– Ainda não defini. Estou em dúvida. 
– Me fale do que ele trata então. 
– É um romance “romance”. 
– Uma história romântica, você quer dizer? 
– Não exatamente romântica, mas picantemente romântica. 
– Me fale mais. 
– É a história de um homem e uma mulher que se apaixonam intensamente. 
[Silêncio] 
– Sim, e o que mais? 
– Que vivem loucuras na cama. 
[Silêncio] 
– E? 
– Basicamente, é isso. 
[Novo silêncio] 
– Você já publicou outros livros, pelo que entendi. 
– Publicar, publicar não... mas já escrevi. 
– Então esse vai ser seu primeiro livro. 
– Publicado sim. O primeiro de muitos. 
– Claro, não tenho dúvida. 
– Tenho certeza que fará muito sucesso. 
– Isso é ótimo. 
– Eu queria que você me ajudasse nesse livro. 
– Você deseja a revisão do texto e uma ajuda no título? 
– É, mas alguns conselhos e dicas também. 
– Dicas para? 
– Escrever também.

sábado, 20 de junho de 2020

Eu, Testosterona [parte 1]

Baseado em fatos quase reais

Numa manhã de sábado, numa chamada de celular com número não identificado:
– Alô!
– Alô! Bom dia.
– Bom dia.
– Você é revisor de textos, não é?
– Sim, sou.
– Quem me indicou você foi uma amiga minha que já trabalhou com você.
– Ah, que bom! Agradeço a atenção.
– Você também redige, né?
– Em que sentido você está dizendo?
– No sentido de escrever mesmo, de produzir textos.
– Sim, escrevo, mas nada profissional.
– Você tem um blog, né?
– Sim, tenho. Você conhece?
– Sim, gosto muito. Você escreve bem.
– Obrigado. Fico feliz que goste.
– Leio sempre.
– Que bom!
– Então, eu estava querendo a revisão de um texto.
– Que tipo de texto?
– É um texto grande, mas não está difícil de revisar.
– Que ótimo! Você é da área de Letras?
– Não, não. Por que você pergunta?
– Porque você já avaliou seu texto como fácil de revisar. Isso é coisa de gente da área ou de autor de livro.
– É isso! Sou autora de livro.
– Ah, que bom! Gosto de conversar com autores.
– Escrevo livros.
– Você ainda não me disse seu nome, autora. Qual seu nome?
– Desculpe. Não me apresentei, né? Anastásia.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A hora da mula

Fonte da imagem: https://bit.ly/3dyNz8T
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Dona Amélia,

Há muito tempo não nos falamos e, há poucos dias, quando surgiu a oportunidade de jantarmos juntos e então conversar, a sra. se sentiu “indisposta” e se retirou da mesa. Não a recrimino, pois eu também me sentiria “indisposto”. Sentar-se à mesa é compartilhar, e partilhar com é uma atitude para a qual precisamos de empatia e estômago. Sem a primeira, o segundo será vazio. Sem o segundo, não há a primeira. 

Já se vão longos anos desde que conversávamos com o Sr. Petão, o almocreve, e ele noz dizia do ofício de guiar mulas de um lado para o outro. A senhora deve se lembrar que ele ficou nos devendo a história de uma mulinha, uma que era bastante diferente das demais, muito lampeira e cheia de miçangas. Naquela ocasião, ele atrasado, desculpou-se por deixar a senhora à janela justificando a demora pela perda do texto original. Pois é, Dona Amélia, esse texto foi achado. 

É interessante observar que, quando tudo parecia perdido, uma luz breve piscou e, no seu rastro, sem pressa, o texto reapareceu. O Sr. Petão ficou alegre demais, sem palavras para explicar o que sentia, nem como o texto havia sumido e reaparecido. Ele me disse que, ao encontrar o original, um desejo de completá-lo e publicá-lo tomou conta dele, mas só no início. À medida que lia, a história daquela mulinha perdia o encanto, enfoscava-se, tornava-se uma piada sem graça, que nem a ele mais fazia rir. Aquela mula, Daquelinha, completara sua jornada com ele e partira com uma nova tropa, num novo caminho. 

A outra mula, a toda branca e de crina quase loira, sumiu, ninguém sabe, ninguém viu, e o próprio Sr. Petão tem dificuldades de dizer alguma coisa sobre ela. Penso que morreu antes mesmo de nascer e não fará falta. Que ela descanse em paz no cemitério das ilusões, para onde vão todas as insignificâncias. 

Toda essa volta, Dona Amélia, e a citação do Sr. Petão são para dizer que as mulas me ensinaram muito nesses anos todos. Tocando a tropa ao lado do almocreve, percebi que o verso de Augusto dos Anjos, 

“O homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.”

é a epígrafe de quem fui e o epitáfio de quem quero ser. As mulas têm o meu respeito, mas, se viver entre elas, é inevitavelmente ser uma delas, então adeus.

Da próxima vez que estivermos juntos, Dona Amélia, para jantar ou não, a mesa estará posta, a toalha branca, e sentaremos juntos, para que eu possa dizer-lhe o que ainda não ouviu. Peço que tenha paciência com meu relato e me conceda a boa vontade da compaixão, que é do que precisa uma mula desgarrada da tropa. Também quero ouvi-la e saber o que sentiu e o que sente, quais foram as dores que minha andadura causou na senhora e que marcas minhas ferraduras infligiram ao caminho.

Se ao final de nossa conversa, ainda estiver “indisposta”, fique à vontade para se levantar e deixar a mesa. Se isso acontecer, saberei que nós dois, de mãos separadas, sairemos não felizes, mas coligados. Se conseguir aceitar meu pedido de desculpas e entender minhas palavras zurradas, será nossa comunhão.

Com o carinho e o respeito.

B.M.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...