a talha quebrada.
o rastro vermelho no chão.
uma geração de cacos.
ajoelhou-se e se pôs a recolher um por um,
caco por caco,
sonho de grude e goma.
dois se encaixaram, puzzle.
mais um. com alguma dificuldade, outro.
afastou-se e percebeu encaixes e arestas.
seu rosto se iluminou e redobrou o esforço na emenda.
estava certo, ali, no rasteiro, que nunca fora uma talha.
era um quebra-cabeça escondido,
pronto para ser montado.
sábado, 23 de novembro de 2019
sexta-feira, 22 de novembro de 2019
Shangri-la
estalo coronariano,
arritmia anímica,
campo de papoulas.
Shangri-la
nesse não lugar de luz,
Canaã do querer,
cavalgo palavras aladas,
rabisco o chão que não piso.
arritmia anímica,
campo de papoulas.
Shangri-la
nesse não lugar de luz,
Canaã do querer,
cavalgo palavras aladas,
rabisco o chão que não piso.
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Ho'oponopono
demos as mãos.
brincadeira de roda.
compromisso.
oração.
os ais do alforje pesavam
meus ombros. tantos.
não de agora. não meus.
sinto muito
sofridos e cansados,
enterravam meus pés,
raiz de dor e silêncio.
me perdoe
pranteei palavras,
vidas, preces.
bicho em fuga.
obrigado.
a paz,
essa tormenta ardente,
invadiu o meu coração.
eu te amo
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Sêmi
Vivemos tempos de pós-verdades, de fake news (sempre existiram, não com essa incidência e com esse nome, mas se lembre de que a serpente já se utilizava desse recurso), de radicalização e de ódio declarado (haters), de conexão constante, de curtidas, likes e viralização. Um fato rotineiro que se junta a esse grupo citado tem me chamado a atenção: os sêmis. Uma pesquisa mais dicionarizada talvez não revele esse “sêmi” substantivado, com acento, arrimo de família, mas essa forma carinhosa e apelidada se justifica plenamente pela insistência pela qual nos deparamos com ele.
“Semi-”, assim, sem acento e com faca em mãos, foi batizado de prefixo e cresceu bem relacionado, político, marcando presença nos mais variados ambientes e se unindo a todos aqueles se mostrassem interessados nessa parceria. Seu sentido primevo é o de metade, donde se tem o semicírculo, o semianalfabeto, a semijoia e o seminovo, legítima invenção brasileira.
Acontece, contudo, que a sociedade vai mudando (para o bem ou para mal) e a linguagem vai mudando junto (para o bem ou para mal), as inovações tecnológicas se fazem cada vez mais presentes (para o bem ou para mal), e o indivíduo, parte menor da engrenagem, parte maior da existência, muda também. Semimuda, semitambém, semi-indivíduo.
Hoje, o “Sêmi” está, muitas vezes, deixando de ser metade para ser integralidade ou, opostamente, quase não ser. A esse movimento, dou o nome de semiverdade, que não é o mesmo que pós-verdade e não se parece com ela, pois se constitui em uma classificação taxonômica particular e talvez seja a primeira ocorrência dessa fase pela qual passamos no momento.
Em julho deste ano, um político brasileiro, referindo-se a outro político, usou a seguinte expressão “próximo de imbecil”, que nada mais é que um semi-imbecil. Há poucos dias, havia “praticamente certeza” de que o petróleo que polui o litoral brasileiro era venezuelano, e agora há fortes indícios que ele seja proveniente de uma navio de bandeira grega: isso é semicerteza. Perceba-se que, nessa fase sêmi em que vivemos, as informações não são necessariamente falsas, não necessariamente verdadeiras, logo semifalsas ou semiverdadeiras.
Não é difícil encontrar alguém que tenha uma ou várias ideias brilhantes, revolucionárias, que não se sustentam, porém, à mínima análise. Essas são, sem dúvida, semi-ideias, que certamente serão veladas e sepultadas assim, sem desfibrilador que as salve ou ressuscite. No mundo corporativo, ocorre o mesmo: semigestão, semiprofissional, semiplanejamento, semirreunião, semiqualificado. Nas relações familiares, idem: semipai, semimãe, semifilho e outros sêmis mais, que a medicina genética poderá explicar sem grandes dificuldades, mas não sem grandes tabus.
Nas questões de gênero, políticas, futebolísticas (o VAR inaugurou o semi-impedimento) ou do ENEM, sempre há sêmis, basta estar atento para observá-los. Nesses casos, se estiver semiatento, pode-se não perceber ou semiperceber. Assim, da metade para quase tudo ou para o quase nada, o sêmi pode ser meia parte ou mea culpa. É uma questão de semiperspectiva.
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