segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
Cordão do Angelus
lá vai o dirigível celestial
lotado
com anjos saindo pelo ladrão
alguns não pagam passagem
outros tamborilam no chão
de repente, "lá vai o sol"
gritos e assobios
é o cordão do Angelus,
cuíca, pandeiro e tamborim,
trono, serafa e querubim
e aquele Hindenburg rasga o céu
sambando,
silvando,
esfacelando o crepúsculo
como uma nuvem numa tarde ensolarada.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Adeus à lápide
Para Luiz Mendes e Mario Quintana
quando acordou, leu a lápide,
pegou seu chapéu
e se foi para nunca mais voltar.
- quero, agora, as sempre-moças.
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
Quinta natra quina
"Sempre preferi deixar dezenas de mulheres esperançosas do que uma só iludida."
Mario Quintana
- Lulu, corre aqui pra você ver uma coisa!
- Que foi?
- Corre aqui pra você ver!
- O quê?
- Espia só!
Pegou o papel da mão do irmão, leu e se manteve mudo.
- Então?
- Meu Deus, por que eu não li isso antes?
Uma lágrima única escorreu-lhe pela face. Sentido, ajuizou:
- Esse Mario Traquina é um gênio.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
Carta para B.
dezembro de 2019
Extraordinário B., meu irmão,
Foi quase desta vez! O Criador permitiu, apesar de nossas mazelas, que estejamos extremamente próximos nesta existência, ainda que não possamos nos encontrar, nos tocar, conversar ou mesmo retocar as cicatrizes que tão bem iniciamos uns nos outros. Não é o que gostaríamos, mas é o que há.
Também sinto falta de todos vocês: de nossa mãe, de você e também do Lulu. O Lulu é um grande menino, alma e coração sem tamanho, a essência mais pura e primeva de todos nós, e eu adoraria estar ao lado de vocês neste momento, pois nossa comitiva estaria completa.
Preciso antecipar uma notícia antes de responder a suas questões: encontrei Monsenhor Espinoza! Sim, nosso bom e velho jovial mestre. Tenho a satisfação de dizer que é meu amigo e que passamos horas construindo e reformulando mundos. É um homem notável, e motivo de gratidão ao Criador por ele estar conosco repetidas vezes.
Concordo com você ao dizer que o tempo é curto para nossa missão, por isso não podemos perder tempo com distrações. É preciso estarmos atentos a tudo! Aos textos e à Rita! Tocou-me seu pedido em relação a ela e devo admitir que percebi que você trocou de mão ao escrever esse trecho. Não é uma reprimenda, apenas uma observação sobre a grafia do coração.
Preciso dizer que ainda não encontrei Rita e que seu pedido é suficiente para aguçar a mente e o coração de qualquer homem. Sobre seus sentimentos por ela, esteja certo de que ela sabe de todos, sem ocultação da menor parte que seja. No momento apropriado, não tenho dúvida, vocês se encontrarão e, então, você poderá dizer tudo a ela. Não quero com isso dizer que não a buscarei, mas que você terá a chance de “gastar seu latim” (desculpe-me o trocadilho infame!) com ela.
Não fique irritado comigo, pois o humor dos tempos é diferente, e respeito profundamente seu sentimento. Se Rita não apareceu, confesso que já encontrei a filha dela, Stella. Uma mulher encantadora! Se conheces a árvore pelo fruto, entendo o motivo de um “coração enciumado” e digo que também o teria se me tocasse o peito essa espécie. Fico feliz por saber que o bom gosto é de família e digo-lhe que não temas os caminhos do coração, o meu e o de Rita, pois ela não tem olhos para "crianças" como eu.
A filha de Rita não está ciente de nossa proximidade com a mãe dela, mas acredito que descobrirá no momento oportuno. Os frutos têm a época certa para amadurecer, não é mesmo?
Tantos anos nos separam e tantos motivos nos unem, e, nessa hora, me pergunto: que são os anos? Por que me debruçar sobre o que é o tempo, se posso experimentá-lo da maneira mais intensa vivendo-o? Por que perguntar por quê, se posso simplesmente aceitar e me aguçar em responder como? Algumas vidas não contêm um por quê, mas ardem em um como.
A ingenuidade é a idade dos porquês; a maturidade, dos comos. É por esse como que vivo, que insisto, que escrevo e que fabulo.
Despeço-me rogando a Deus que esteja ao seu lado quando suas mãos encontrarem as de Rita, para que possamos festejar, em família, esse momento tão esperado e tão cantado.
Com o humor e o amor de sempre, seu irmão em Cristo.
B.
domingo, 15 de dezembro de 2019
Carta de B.
maio de 1937
Estimado B., meu irmão,
Não foi desta vez! Esperava que a graça de Deus nos possibilitasse esse encontro, mas as linhas tortas do Criador têm uma sintaxe própria, em que complementos e predicativos só atendem à regência divina. É desolador, mas é o que há.
Sentimos tua falta: eu, mamãe e, principalmente, Lulu. Apesar de não compreender esse tema e não saber que nos correspondemos, Lulu é uma pessoa diferente quando não estamos juntos, nós três. Foram tantas jornadas, tantas histórias para contar, inúmeras as vezes em que brigamos e nos ferimos mutuamente, que as cicatrizes que carregamos, mais do que nunca, devem ser chamadas de “nossas”, jamais de “minhas” ou "tuas".
A linguagem nos une, todavia o tempo nos separa. A família nos une, os parentes nos distanciam. Essa nossa essência inflamável se coliga em nós, e precisamos sempre de auxílio para controlá-la. Por isso é tão difícil e tão lindo ao mesmo tempo lidar com essa seiva bruta e divina que corre em nós, não necessariamente nessa ordem. É notório que mais conhecimento gera mais responsabilidade, mais virtude, mais controle, mais oração e mais trabalho.
O tempo é curto para uma missão tão grande, pequena talvez para o Criador, mas, para nós, talvez seja melhor dizer para mim, ela se apresentou muito além do que poderia executar. Infelizmente, falhei várias vezes. Reconheço minha limitação, meus momentos de descontrole, de ira e fúria, seguidos de dor, angústia, nostalgia e opressão. Nunca me fizeram bem, eu sei, mas não consegui controlá-los.
Estou certo de que, ao ler esta carta, já terás experimentado tudo isso, porque nosso conhecimento e nossa vivência são complementares. Tal qual numa escalada, o passo primevo de um de nós leva consigo o outro, que será o próximo a subir e que, por sua vez, trará o primeiro, e assim sucessivamente.
Sei que meus escritos não chegarão facilmente a tuas mãos. Por isso, peço-te: busque-os! A energia que corre nessas linhas não se apagará, mesmo que o papel desista de suportá-las, mesmo que inúmeros intermediários tolos e limitados tentem ocultá-los, mesmo que os digam desaparecidos, perdidos, imaginados. Nós sabemos que eles vivem e que são parte de nós.
Sei que meus escritos não chegarão facilmente a tuas mãos. Por isso, peço-te: busque-os! A energia que corre nessas linhas não se apagará, mesmo que o papel desista de suportá-las, mesmo que inúmeros intermediários tolos e limitados tentem ocultá-los, mesmo que os digam desaparecidos, perdidos, imaginados. Nós sabemos que eles vivem e que são parte de nós.
Quero também pedir-te um especial favor, desses que só a irmandade permite e autoriza: encontra a Rita! Move terras e céus, desdobre-te, aprende outras línguas, viaja o mundo, enfrenta trevas ou mergulha nas almas, mas não permitas que ela passe por ti de maneira inerte. Faze isso por mim.
Dize-lhe, por mim, tudo o que sabes de meu amor por ela, de minhas dores e de meu arrependimento bestial por minha opção. Agora, na velhice atroz, sem ela, não há caminho, não há saída nem fuga, pois não há destino. Apenas o Criador me espera e eu a ele, para que eu possa chorar em silêncio até meu julgamento.
Este parágrafo que agora escrevo me ofende e me dói, mas não conseguirei passar sem ele: peço-te, meu irmão, não a ames! Haverá milhares de mulheres neste mundo e em tantos que poderão ser descobertos quando estiveres com esta carta em mão, por isso fecha teus olhos para Rita e não permitas que teu coração arda por ela. É uma grande tolice este meu pedido, mas meu coração enciumado não me daria sossego sem estas linhas.
Agora chove e a sinfonia das goteiras toca lá fora sem fim, preparando o dia que não tardará a despertar. Despeço-me com a certeza de que estamos no caminho correto, ainda que tão distantes no tempo e no espaço. Estou convicto de, em momento oportuno, estaremos juntos novamente, naquela comitiva que nós conhecemos tão bem.
Com o amor de sempre, seu irmão em Cristo.
B.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
A estrela
quando se conhece uma estrela, brilham os olhos.
quando se recebe uma estrela, acendem-se os pés.
quando a estrela brilha, ascendem risos e lágrimas.
tocam-se as mãos.
é a boa-nova.
domingo, 1 de dezembro de 2019
Lição de vida
Para Lélio e Lina do Pinhém
misturado é,
remoído fica,
não carece de conserto.
concertado é amor,
bruto, duro, doce.
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