segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Em cena

A parábola do filho pródigo parece injusta até o momento em que se assume o papel do pai.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Cordão do Angelus


lá vai o dirigível celestial
lotado
com anjos saindo pelo ladrão
alguns não pagam passagem
outros tamborilam no chão

de repente, "lá vai o sol"
gritos e assobios
é o cordão do Angelus,
cuíca, pandeiro e tamborim,
trono, serafa e querubim

e aquele Hindenburg rasga o céu
sambando,
silvando,
esfacelando o crepúsculo
como uma nuvem numa tarde ensolarada.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Adeus à lápide

Para Luiz Mendes e Mario Quintana

quando acordou, leu a lápide,
pegou seu chapéu
e se foi para nunca mais voltar.
- quero, agora, as sempre-moças.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Quinta natra quina

"Sempre preferi deixar dezenas de mulheres esperançosas do que uma só iludida."
Mario Quintana


- Lulu, corre aqui pra você ver uma coisa!
- Que foi?
- Corre aqui pra você ver!
- O quê?
- Espia só!
Pegou o papel da mão do irmão, leu e se manteve mudo.
- Então?
- Meu Deus, por que eu não li isso antes?
Uma lágrima única escorreu-lhe pela face. Sentido, ajuizou:
- Esse Mario Traquina é um gênio.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Carta para B.

dezembro de 2019

Extraordinário B., meu irmão,

Foi quase desta vez! O Criador permitiu, apesar de nossas mazelas, que estejamos extremamente próximos nesta existência, ainda que não possamos nos encontrar, nos tocar, conversar ou mesmo retocar as cicatrizes que tão bem iniciamos uns nos outros. Não é o que gostaríamos, mas é o que há.

Também sinto falta de todos vocês: de nossa mãe, de você e também do Lulu. O Lulu é um grande menino, alma e coração sem tamanho, a essência mais pura e primeva de todos nós, e eu adoraria estar ao lado de vocês neste momento, pois nossa comitiva estaria completa.

Preciso antecipar uma notícia antes de responder a suas questões: encontrei Monsenhor Espinoza! Sim, nosso bom e velho jovial mestre. Tenho a satisfação de dizer que é meu amigo e que passamos horas construindo e reformulando mundos. É um homem notável, e motivo de gratidão ao Criador por ele estar conosco repetidas vezes.

Concordo com você ao dizer que o tempo é curto para nossa missão, por isso não podemos perder tempo com distrações. É preciso estarmos atentos a tudo! Aos textos e à Rita! Tocou-me seu pedido em relação a ela e devo admitir que percebi que você trocou de mão ao escrever esse trecho. Não é uma reprimenda, apenas uma observação sobre a grafia do coração.

Preciso dizer que ainda não encontrei Rita e que seu pedido é suficiente para aguçar a mente e o coração de qualquer homem. Sobre seus sentimentos por ela, esteja certo de que ela sabe de todos, sem ocultação da menor parte que seja. No momento apropriado, não tenho dúvida, vocês se encontrarão e, então, você poderá dizer tudo a ela. Não quero com isso dizer que não a buscarei, mas que você terá a chance de “gastar seu latim” (desculpe-me o trocadilho infame!) com ela.

Não fique irritado comigo, pois o humor dos tempos é diferente, e respeito profundamente seu sentimento. Se Rita não apareceu, confesso que já encontrei a filha dela, Stella. Uma mulher encantadora! Se conheces a árvore pelo fruto, entendo o motivo de um “coração enciumado” e digo que também o teria se me tocasse o peito essa espécie. Fico feliz por saber que o bom gosto é de família e digo-lhe que não temas os caminhos do coração, o meu e o de Rita, pois ela não tem olhos para "crianças" como eu.

A filha de Rita não está ciente de nossa proximidade com a mãe dela, mas acredito que descobrirá no momento oportuno. Os frutos têm a época certa para amadurecer, não é mesmo?

Tantos anos nos separam e tantos motivos nos unem, e, nessa hora, me pergunto: que são os anos? Por que me debruçar sobre o que é o tempo, se posso experimentá-lo da maneira mais intensa vivendo-o? Por que perguntar por quê, se posso simplesmente aceitar e me aguçar em responder como? Algumas vidas não contêm um por quê, mas ardem em um como.

A ingenuidade é a idade dos porquês; a maturidade, dos comos. É por esse como que vivo, que insisto, que escrevo e que fabulo.

Despeço-me rogando a Deus que esteja ao seu lado quando suas mãos encontrarem as de Rita, para que possamos festejar, em família, esse momento tão esperado e tão cantado.

Com o humor e o amor de sempre, seu irmão em Cristo.

B.

domingo, 15 de dezembro de 2019

Carta de B.

maio de 1937 

Estimado B., meu irmão, 

Não foi desta vez! Esperava que a graça de Deus nos possibilitasse esse encontro, mas as linhas tortas do Criador têm uma sintaxe própria, em que complementos e predicativos só atendem à regência divina. É desolador, mas é o que há.

Sentimos tua falta: eu, mamãe e, principalmente, Lulu. Apesar de não compreender esse tema e não saber que nos correspondemos, Lulu é uma pessoa diferente quando não estamos juntos, nós três. Foram tantas jornadas, tantas histórias para contar, inúmeras as vezes em que brigamos e nos ferimos mutuamente, que as cicatrizes que carregamos, mais do que nunca, devem ser chamadas de “nossas”, jamais de “minhas” ou "tuas".

A linguagem nos une, todavia o tempo nos separa. A família nos une, os parentes nos distanciam. Essa nossa essência inflamável se coliga em nós, e precisamos sempre de auxílio para controlá-la. Por isso é tão difícil e tão lindo ao mesmo tempo lidar com essa seiva bruta e divina que corre em nós, não necessariamente nessa ordem. É notório que mais conhecimento gera mais responsabilidade, mais virtude, mais controle, mais oração e mais trabalho.

O tempo é curto para uma missão tão grande, pequena talvez para o Criador, mas, para nós, talvez seja melhor dizer para mim, ela se apresentou muito além do que poderia executar.  Infelizmente, falhei várias vezes. Reconheço minha limitação, meus momentos de descontrole, de ira e fúria, seguidos de dor, angústia, nostalgia e opressão. Nunca me fizeram bem, eu sei, mas não consegui controlá-los.

Estou certo de que, ao ler esta carta, já terás experimentado tudo isso, porque nosso conhecimento e nossa vivência são complementares. Tal qual numa escalada, o passo primevo de um de nós leva consigo o outro, que será o próximo a subir e que, por sua vez, trará o primeiro, e assim sucessivamente.

Sei que meus escritos não chegarão facilmente a tuas mãos. Por isso, peço-te: busque-os! A energia que corre nessas linhas não se apagará, mesmo que o papel desista de suportá-las, mesmo que inúmeros intermediários tolos e limitados tentem ocultá-los, mesmo que os digam desaparecidos, perdidos, imaginados. Nós sabemos que eles vivem e que são parte de nós.

Quero também pedir-te um especial favor, desses que só a irmandade permite e autoriza: encontra a Rita! Move terras e céus, desdobre-te, aprende outras línguas, viaja o mundo,  enfrenta trevas ou mergulha nas almas, mas não permitas que ela passe por ti de maneira inerte. Faze isso por mim.

Dize-lhe, por mim, tudo o que sabes de meu amor por ela, de minhas dores e de meu arrependimento bestial por minha opção. Agora, na velhice atroz, sem ela, não há caminho, não há saída nem fuga, pois não há destino. Apenas o Criador me espera e eu a ele, para que eu possa chorar em silêncio até meu julgamento.

Este parágrafo que agora escrevo me ofende e me dói, mas não conseguirei passar sem ele: peço-te, meu irmão, não a ames! Haverá milhares de mulheres neste mundo e em tantos que poderão ser descobertos quando estiveres com esta carta em mão, por isso fecha teus olhos para Rita e não permitas que teu coração arda por ela. É uma grande tolice este meu pedido, mas meu coração enciumado não me daria sossego sem estas linhas.

Agora chove e a sinfonia das goteiras toca lá fora sem fim, preparando o dia que não tardará a despertar. Despeço-me com a certeza de que estamos no caminho correto, ainda que tão distantes no tempo e no espaço. Estou convicto de, em momento oportuno, estaremos juntos novamente, naquela comitiva que nós conhecemos tão bem.

Com o amor de sempre, seu irmão em Cristo.

B.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A estrela


quando se conhece uma estrela, brilham os olhos.
quando se recebe uma estrela, acendem-se os pés.
quando a estrela brilha, ascendem risos e lágrimas.
tocam-se as mãos.
é a boa-nova.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Lição de vida

Para Lélio e Lina do Pinhém

o mundo
misturado é,
remoído fica,
não carece de conserto.
concertado é amor,
bruto, duro, doce.

sábado, 23 de novembro de 2019

Família

a talha quebrada.
o rastro vermelho no chão.
uma geração de cacos.

ajoelhou-se e se pôs a recolher um por um,
caco por caco,
sonho de grude e goma.

dois se encaixaram, puzzle.
mais um. com alguma dificuldade, outro.
afastou-se e percebeu encaixes e arestas.

seu rosto se iluminou e redobrou o esforço na emenda.
estava certo, ali, no rasteiro, que nunca fora uma talha.
era um quebra-cabeça escondido,
pronto para ser montado.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Shangri-la

estalo coronariano,
arritmia anímica,
campo de papoulas.
Shangri-la

nesse não lugar de luz,
Canaã do querer,
cavalgo palavras aladas,
rabisco o chão que não piso.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ho'oponopono

demos as mãos.
brincadeira de roda.
compromisso.
oração.

os ais do alforje pesavam
meus ombros. tantos.
não de agora. não meus.
sinto muito

sofridos e cansados,
enterravam meus pés,
raiz de dor e silêncio.
me perdoe

pranteei palavras,
vidas, preces.
bicho em fuga.
obrigado.

a paz,
essa tormenta ardente,
invadiu o meu coração.
eu te amo



quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Sêmi

Vivemos tempos de pós-verdades, de fake news (sempre existiram, não com essa incidência e com esse nome, mas se lembre de que a serpente já se utilizava desse recurso), de radicalização e de ódio declarado (haters), de conexão constante, de curtidas, likes e viralização. Um fato rotineiro que se junta a esse grupo citado tem me chamado a atenção: os sêmis. Uma pesquisa mais dicionarizada talvez não revele esse “sêmi” substantivado, com acento, arrimo de família, mas essa forma carinhosa e apelidada se justifica plenamente pela insistência pela qual nos deparamos com ele.

“Semi-”, assim, sem acento e com faca em mãos, foi batizado de prefixo e cresceu bem relacionado, político, marcando presença nos mais variados ambientes e se unindo a todos aqueles se mostrassem interessados nessa parceria. Seu sentido primevo é o de metade, donde se tem o semicírculo, o semianalfabeto, a semijoia e o seminovo, legítima invenção brasileira.

Acontece, contudo, que a sociedade vai mudando (para o bem ou para mal) e a linguagem vai mudando junto (para o bem ou para mal), as inovações tecnológicas se fazem cada vez mais presentes (para o bem ou para mal), e o indivíduo, parte menor da engrenagem, parte maior da existência, muda também. Semimuda, semitambém, semi-indivíduo.

Hoje, o “Sêmi” está, muitas vezes, deixando de ser metade para ser integralidade ou, opostamente, quase não ser. A esse movimento, dou o nome de semiverdade, que não é o mesmo que pós-verdade e não se parece com ela, pois se constitui em uma classificação taxonômica particular e talvez seja a primeira ocorrência dessa fase pela qual passamos no momento.

Em julho deste ano, um político brasileiro, referindo-se a outro político, usou a seguinte expressão “próximo de imbecil”, que nada mais é que um semi-imbecil. Há poucos dias, havia “praticamente certeza” de que o petróleo que polui o litoral brasileiro era venezuelano, e agora há fortes indícios que ele seja proveniente de uma navio de bandeira grega: isso é semicerteza. Perceba-se que, nessa fase sêmi em que vivemos, as informações não são necessariamente falsas, não necessariamente verdadeiras, logo semifalsas ou semiverdadeiras.

Não é difícil encontrar alguém que tenha uma ou várias ideias brilhantes, revolucionárias, que não se sustentam, porém, à mínima análise. Essas são, sem dúvida, semi-ideias, que certamente serão veladas e sepultadas assim, sem desfibrilador que as salve ou ressuscite. No mundo corporativo, ocorre o mesmo: semigestão, semiprofissional, semiplanejamento, semirreunião, semiqualificado. Nas relações familiares, idem: semipai, semimãe, semifilho e outros sêmis mais, que a medicina genética poderá explicar sem grandes dificuldades, mas não sem grandes tabus.

Nas questões de gênero, políticas, futebolísticas (o VAR inaugurou o semi-impedimento) ou do ENEM, sempre há sêmis, basta estar atento para observá-los. Nesses casos, se estiver semiatento, pode-se não perceber ou semiperceber. Assim, da metade para quase tudo ou para o quase nada, o sêmi pode ser meia parte ou mea culpa. É uma questão de semiperspectiva.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Palavrório


"Na sala de espera de um dermatologista, inicia-se um tratamento otorrinológico."

revista cantada,
falso divã,
programa de auditório.

não há palavrório botulínico para essa marca de expressão.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

domingo, 27 de outubro de 2019

Fragmento akáshico

Um único golpe de pá fora o suficiente para matá-lo, restando o segundo apenas como descarga de ódio e ímpeto incontrolável para certificar a qualidade da execução do serviço.

Não abriu uma cova funda para esconder o corpo, primeiro porque ele não valia tanto esforço e segundo porque o solo estava muito endurecido, fruto do frio extremo e da neve que castigara os dias anteriores. O trabalho tremendo o fizera transpirar bastante e, fechando aquela vala-sepultura, chutou um pouco de neve para cima dela tal qual um cachorro que esconde um osso.

O primeiro sentimento de culpa foi abafado porque ninguém saberia do acontecido, e ele próprio sumiria no mundo. Não era certo matar um homem, mas era justo mostrar a todos do que ele era capaz, e essa sensação de justiça pessoal trouxe-lhe o bem-estar que precisava para se afastar do local.

Ainda não sabia que, de alguma maneira, levava o morto consigo.

sábado, 26 de outubro de 2019

77

Para Milton Nascimento

há em Minas uma montanha,
não nos mapas,
encantada.

para meus ouvidos,
visitantes,
travessia cantada.



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O estranho ofício

O ofício no blog é um laboratório, tal qual o do Dr. Jekyll: algumas vezes entra o médico e não sai nada ou ninguém; outras vezes, entra o médico e sai o médico, vindo do pó e ao pó voltando; certas vezes, porém, entra o médico e surge saltitando, voraz, livre e liberto, Mr. Hyde.
Não há estranheza para quem conhece a poção.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Tatoo

no espelho, à ponta de faca, tatuei:
“É tudo vaidade, e correr atrás do vento”

desde então,
minha idade,
não menina,
baixos-relevos,
me sorri sem dentes,
à espera da tinta que fabule o borrão.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Sou


Uma parte de mim está submersa,
de ponta-cabeça,
essência dos tempos,
que sou.

No mundo emerso,
de luzes e ribalta,
forma transitória,
quem sou.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Fim da tinta

quanto uma caneta para,
sem seiva,
sem vida,
a frase pode não estar no fim.

no olhar úmido do leitor, o epílogo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Pela vida

esse caminho cheia de pedras,
tidas ou havidas,
sumário do eu,
madeira de lei.
no canto, alaúde,
no pranto, ataúde.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Raças

Homo sapiens
Canis lupus
"O homem é o lobo do homem."

Canis lupus familiaris
"Homo sapiens familiaris"
quando atingirmos essa subespécie, saberemos o que é evolução.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Chão de giz

"Há tantas violetas velhas sem um colibri"
Zé Ramalho


asas apaixonadas
evitam violentas,
velhas ou novas.
lábios doces,
que beijam sem idade.
violetamente.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Reencontro

"A felicidade é uma arma quente"
Belchior


o calor que me abrasa
não está em Celsius,
mas em seus sons.
palavra cantada.
taquicárdica.
sorriso de criança.

domingo, 15 de setembro de 2019

Afortunado

Para Luiz Mendes,
meu tio-avô,
sobredito Tio Lulu,

uma mulher linda.
tantos têm (sem posse) e não sabem.
muitos têm (com posse) e nem sabem o que é uma mulher.
[a posse é o túmulo da essência]

os que sabem, têm e amam são os mais afortunados dos seres.

sábado, 14 de setembro de 2019

Horóscopo

"O NHC prevê que Humberto se converterá em furacão 'em dois ou três dias'. A tormenta seguirá em direção norte durante o final de semana [...]."
***
personalizado, é melhor não duvidar.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Terapia

Para Lilla

dadas, postas ou armadas,
as mãos se cruzam.
leves, mudas ou de pedra,
as palavras me projetam.
insinuam, força e medo,
a sombria luz do que sou.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Do veneno

uma flor venenosa repulsa o jardim.
uma existência que não conhece o afago e o sussurro.
tão só a humilde moagem do tempo.
tão só.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Queimada

a sarcástica labareda sabe que, ao morrer, continuará queimando.
o crepitar é o berço da cripta.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Maior que antes

Para Renata Velasco
Agradecimento a Dani Black e Milton Nascimento


"Eu sou maior do que era antes
E sou melhor do que era ontem
Eu sou filho do mistério e do silêncio
Somente o tempo vai me revelar quem sou"


uma dor coruja,
rida, borboletou.
renascida, criou raízes que costuram,
margaridamente,
letras, piparotes e lembranças.

nesse tempo misterioso,
do silêncio mais gritado,
cresce a muda,
muda o mundo,
sorri o inventado.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Toque na alma

quando um presente tocar,
diga alô, sorria, agradeça.
o girassol da alma
dançará, extático,
com a luz única de seus olhos.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Deus vomitará os mornos

humano e diminuto,
não consigo engoli-los.

triturados por meus dentes de ferro,
alma de bigorna,
cuspo-os secamente.

puro capricho da divindade.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Saci

o saci que me habita é sinistro,
destramente canhoto.

na boca, preso num canto torto,
um lápis mastigado, coto.

fumega,
esse traquina,
boquirroto,
um rascunho tição.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Para a Sociologia

a gambiarra é uma das instituições que estruturam a sociedade brasileira.
do não saber com o fazer, nasce esse proceder.
o rebento do cotidiano.

sábado, 3 de agosto de 2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O diário higiênico

um boçal nato acredita que mudará a história pelo diário oficial. para ele, esse jornal deveria ser usado para única e higiênica serventia.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Maioridade

só se faz 18 anos uma vez.
aos que ultrapassam, acréscimos e múltiplos são recontados e requentados.
causos.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Comissão da verdade

quando a Comissão da Verdade é chamada de balela,
é melhor pedir a conta e levantar.
a bebida está estragada ou o botequim está à deriva.

um boçal nato é capaz de estragar a bebida, o trago, o dia, o botequim.
nessa hora, redobre-se a cachaça para o santo. ele também vai precisar.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Desserviço

Apesar de mentalmente doente, Adélio Bispo prestou um desserviço ao Brasil que demorará muitos anos para ser reparado. Se conseguirmos.

sábado, 27 de julho de 2019

Boçal

um boçal nato e absoluto não é uma espécie rara.
é fruto de antipatia com infantilidade discursiva verde e amarela.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Conselho rimado

Para Marlene Porto

"Depois que nasce barba e pentelho, não adianta mais dar conselho."
"Quem ouve conselho expõe o cu ao bedelho."

o conselho é uma moeda atirada ao ar
pode ser cara
poder ser coroa.
pode não cair jamais.


sexta-feira, 19 de julho de 2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Nepotismo (II)

A proposta a ser votada é a reforma do nepotismo, para que passe a ser newpotismo. Além de resolver questões internas, seria também um agrado que o novo embaixador brasileiro levaria aos EUA, numa nítida política da boa vizinhança.

newpotismo
(new-po-tis-mo) 
s.m.
1. modo de escolha democrático em que o governante se orienta por valores idiossincráticos inseridos dentro de um conjunto homogêneo;
2. escolha por cores ou desenhos;
3. desejo de se privilegiar certos indivíduos com atribuições mínimas e parentesco máximo.

Obs.: Será criada uma CPI para investigar "idiossincráticos".

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Nepotismo

Querem trocar nepotismo de sentido na base da saliva, ou melhor, da baba, pois a saliva é atributo dos que sabem fechar a boca. Não será a primeira vez, pois anteriormente já tentaram inverter direita e esquerda.
A língua é viva, mutável e pode seguir caminhos peculiares, mas não se movimenta exclusivamente por causa de um idiota. É preciso de vários. Idiotas ou hambúrgueres.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Sobre o Caneteiro


No próximo dia 31, o Caneteiro chega à maioridade e, a partir deste post, contarei um pouco da história dele, de como surgiu, de como cresceu. Em algum momento, a história dele se encontra com a minha, caminhamos de mãos dadas, mas são duas personalidades distintas, não distantes.

Em julho de 2001, acompanhei minha mãe a uma consulta oncológica de rotina (bem, se é que oncológica pode ser chamada de rotina). Ela teve um câncer de pele bem agressivo na década de 1980, foi curada e, até aquela época, regularmente, fazia exames para confirmar que a doença havia sido vencida. Foi uma experiência única, porque, quem já frequentou sabe, o consultório oncológico pode ser o início do fim, o fim ou, em menor incidência, um novo início. Foi o caso de minha mãe.

Dessa consulta, surgiu o texto “Beleza”, que brinca com essa visita e apresenta o então Caneteiro Maluco. O escrevente já existia, assim como o caneteiro, mas foi nesse texto que a ideia de uni-los foi cristalizada. Esse “maluco” dialogava com o Chapeleiro, de Alice, e também com a figura do Raul Seixas, o Maluco Beleza, porque a ideia era escrever livre, sem entraves, sem politicamente correto (na época, nem era pensado), o que certamente levaria a um non-sense. O nome podia ser bom para um desenho, uma história fantasiosa ou uma fábula, bom para mim, mas como cartão de visita não servia.

Não possuía blog ou site nesse período, e todos os textos eram enviados por e-mail, de um endereço caneteiromaluco@. Sempre foram pouquíssimos retornos, mas eu seguia escrevendo minhas histórias malucas (algumas literalmente) e me divertindo.

Em 2003, reuni 20 textos em um volume doméstico, “Canetadas”, que me mostrou que individualmente eu gostava dos textos, coletivamente não. Foi uma ótima experiência, pois me mostrou o que eu não deveria fazer mais. Não fiz.

Nesse mesmo ano, conheci a personagem que me trouxe novos rumos: Dona Quiméria. Nascida em 23 de julho daquele ano e apresentada na aula de Espanhol da atleticana Karla Cipreste ao amigo atleticano Jean, essa incrível atleticana e seus cachorros maravilhosos são meus companheiros desde então. Do papel para a vida, já a encontrei tantas e inúmeras vezes que a tenho como minha parente, minha avó dos campos e da rua.

Em 2004, consegui publicar, de verdade, meu único texto com o Caneteiro. Foi um conto, Dos vivos, impresso na revista da Faculdade de Letras de São João da Boa Vista (SP). Acredito que depois dessa publicação, o “Maluco” ficou pelo caminho, com o Caneteiro seguindo sozinho. Perdeu-se o epíteto, não o sobrenome.

Em 2005, criei um site “caneteiro.com.br”, que começou como uma livraria virtual e se metamorfoseou em mural de textos. Nele, as publicações se aproximavam de crônicas, e todo processo do site (arte, texto e publicação) era feito por mim. Os textos eram publicados em PDF, e também havia espaço para textos de outros autores, além de um varal de pensamentos e aforismos diversos (não meus).

Em 2007, desenvolvi o projeto “As crônicas do Galo”, acompanhando todo o Campeonato Mineiro com um texto por jogo do Galo. Foi uma experiência muito divertida e contagiante, porque o time foi campeão e uma página ímpar da história alvinegra foi escrita: foi o ano do “gol de costas”. A partir dessas crônicas, surgiria, já neste blog, o marcador “A eterna luta no varal: crônica do viver atleticano”, que indexa os textos sobre futebol.

Em maio de 2007, o site foi encerrado por questões contratuais, e houve um hiato de publicações até outubro de 2008, quando o “bucaneiros” surgiu.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Para bom entendedor

um pingo é letra
dois pingos, eco
três pingos, cachoeira
alguns pingos, mapa
muitos pingos, história.

um pingo de juízo é suficiente para matar um sonho.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Essência azul


o desconhecimento é o pai de todos os adjetivos.
a taxonomia do espelho é a mãe de todos os tolos.
nenhum familiar, porém, muda uma essência, ainda que seja chamada de borboleta ou escaravelho.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

De cor


Houve um tempo em que caixas de lápis de cor eram ótimos presentes e havia um certo fascínio pela variedade de tons de uma mesma cor, muito antes de tons de cinza serem humanizados. Esse tempo passou, como terapia antiestresse, mas, certamente, carrega consigo um ar vintage em nossa sociedade de dedos, sobredita digital.

Resolvi, observando esses tempos falsamente modernos, buscar uma caixa de lápis de cor que refletisse nossa variedade: uma caixa de duas cores. Não encontrei. Percebi até mesmo um certo descrédito por parte de lojas e vendedores especializados quando verbalizava meu pedido bilateral. À mais sagaz especialista, coube a pergunta: “Quais seriam essas duas cores?”

Não sei dizer, respondi, mas tenho certeza que são antagônicas e que ambas se anulam perfeitamente. A mente combinatória e colorida da especialista afirmou, categórica, que não existe esse produto no mercado nacional. “É mesmo? Sério?” foi o que eu disse.

Como é possível não haver essas cores, se grande parte da sociedade brasileira só trabalha com elas? Como vivemos um período tão maniqueísta, em que as cores valem mais do que as pessoas, e ninguém sabe que colorido é esse? Por que grande parte quer se pintar para a guerra e não quer reconhecer a validade da tintura do outro?

Por que devemos ser coxinhas ou petralhas apenas? Por que devemos ser negros ou brancos apenas? Petistas ou bolsonarianos apenas? De direita ou de esquerda apenas? Feministas ou machistas apenas? Por que devemos ser homofóbicos ou heterofóbicos apenas? Cristãos ou não cristãos apenas? Onde estão as pessoas que vivem debaixo desses rótulos?

Entre os limites desses espectros antípodas, não há vida inteligente? Não se pode, tal como uma pesquisa de opinião, concordar parcialmente ou discordar parcialmente? Não posso aceitar que a opinião do outro é diametralmente oposto a minha, mas que tem o valor de ser dele? Por que é preciso diminuir, desmerecer, menosprezar e ofender ideias e pessoas?

A mim, roseanamente, cabe a terceira margem, que chamo de silêncio, quando encontro canoeiros que usam remos no ar. Minhas palavras, miúdas, gasto com gente misturada.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Irmão sol

devia ter sido médico, 
mas minha compreensão não é deste mundo.

devia ter sido padre,
mas minha compreensão não é desse mundo.

devia ter sido professor, político, palhaço,
mas minha compreensão não é do mundo.

sem caminho, coube a mim,
às costas, o saco de ilusões.

furado, cosido, roto e torto.
o saco, porém, é de ótima qualidade.
as ilusões, então, iniludíveis.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Réquiem

nada como o hálito doce e fresco da morte para sublimar egos e ideias.
um réquiem de uma nota só.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Ferrosa

http://bit.ly/2IKJaS1


Para Rita e Belchior

a rosa não se importa com os cristais.
são efêmeros.
não podem afetar a essência da fé, ainda que a matem.

domingo, 12 de maio de 2019

Filosofia GoT

a temperança, a justiça, o bem público,
silentes,
combinam com o exílio.

tramas, vícios, crimes,
discursados,
valem reis e rainhas.

terça-feira, 26 de março de 2019

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Nas sombras



há vida nas sombras
silenciosa
paciente
noturna
sem dentes

por anda o corpo?
junto ao medo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A porta

um homem entra com uma porta pela porta do ônibus.
espera ele abrir o caminho,
não a porta,
não o sonho,
com o suor ululante de seus cabelos grisalhos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Selfie

a cada ano fotografado,
minha self tem mais pixels
e marcas,
mais resolução,
menos solução.
é a serena certeza de que o cupim do tempo
segue macerando minha vaidade.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Dominó

um comentário é uma peça de dominó: pode dar prosseguimento ao jogo ou criar o "efeito", nunca de maneira antecipada.

domingo, 27 de janeiro de 2019

domingo, 20 de janeiro de 2019

Na obra

a engenharia é exata,
a construção, um jogo de azar.
às vezes, há um tijolo de sorte.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Torto

o relógio está torto na parede torta.
as horas estão tortas,
mas elas não sabem,
só correm.
nós que não sabemos de nós
queremos saber das horas
que não sabem de si.

tortuosidade e tortura.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Depois de morto


Um crânio pintado de dourado se destaca entre os 20 mil esqueletos armazenados no ossário da igreja Katharinenkirche, em Oppenheim, na Alemanha.
Foto: Michael Probst/AP
Disponível em: https://goo.gl/R5HWwT
***
esse anônimo, morto, atingiu, paradoxalmente, o brilho que tantos procuram em vida.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Alívio imediato

Agradecimento aos Engenheiros do Hawaii

que a chuva caia
de repente caia
tão clemente quanto um raio
que a chuva traga
alívio imediato

que a vida seja 
como um rio
um brilhante, um delírio,
que a vida seja
presente imediato

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...