quinta-feira, 15 de maio de 2014

Despacho (II)

- Meu fio, já passô da hora de ispantá essa inguiça que garrô em nóis. Ainda bem que ocê veio. Se nós num dê um jeito daqui, só lá num vai resorvê não. A cabeça de burro que interrarru lá é das bravas. Mandaru o voz de trovão imbora, mas a coisa num miorô como divia não.
Dona Quiméria fez uma expressão ambígua de medo e esperança e prosseguiu:
- Ocê sabe purque que nós tamu assim, num sabe? - fez segundos de silêncio  e seguiu - Sabe o num sabe? - outra pausa e - É por causa do xibio. Isso memo, é o xibio do ano passado, sim sinhô. É ele que tá atravacando a gente.
Olhou para os lados, ganhou fôlego e emendou:
- Meu fio, o xibio é uma força da natureza, tem um poder que ocês num faz ideia e num pode sê usado de qualquer jeito. Ano passado, nós reunimu muitos xibio para levá pra Marrocos, era xibio de mais, era pra empantufá o Xuvitz até a tampa, mas deu tudo errado. Aí, com muito xibio junto, nós criamu uma energia muito grande, que num foi utilizada. Ela tá agarrada na gente e num larga.
- Ocê vê o Ronaldinho e fala: "Num é ele". Mas é. Ele num tá aguentando nada purque é excesso de xibio acumulado. Isso mata, meu fio. Essa história de "levanta as mão pro alto e vamu bebê" é conversa fiada. Ele tá levantando é otra coisa.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Despacho (I)

- S'imbora, cambada!
Atravessou o portão que dividia o dela e o de todos e ganhou a rua. Ajeitou a roupa, acertou o cabelo, olhou o grupo, contou os meninos e disse:
- Mulecada, hoje nós vamu fazê um despacho. É hora de mandá a zica imbora e nós vamu tudo junto pra Praça do Papa pra arresorvê essa pendenga. Bora, Luisinho!
Tomou a frente do grupo o Luisinho, Dona Quiméria ao centro e o Chicão protegendo a retaguarda. O dia ainda não estava claro, e a cidade insistia no sono impossível.
Rasgaram a Afonso Penna de ponta a ponta, com pompas e circunstâncias na área do Parque Municipal, e marcharam sobre a Ladeira dos Incautos. Na Praça da Bandeira, uma saudação à tremulante e um olhar afiado para a placa que dizia: "Avenida Agulhas Negras". Dona Quiméria assobiou reunindo a tropa e disse:
- Mulecada, nós vamu precisá disso. - e emendou: - Toca pra frente.
Mais alguns minutos e avistaram os gramados da Papa. Chegaram ao platô, fizeram a vênia à cruz e buscaram se assentar.
- Agora, mulecada, é só isperá.
Horas depois, Dona Quiméria foi despertada pelo rosnar do Chicão.
- Eta, minino bão! Num faia! Na horinha! - e afagou a cabeça do cão.
Subia os metros finais da praça um velho conhecido, arfando e sorrindo, sem perceber que era observado. Quando os cães correram na direção dele, é que se deu conta da trupe.
- Dona Quiméria! - abriu os abraços para cumprimentá-la.
- Eta, cavalo de parada! Na hora como sempre. Sodade d'ocê.
O Chicão se embolou nas pernas do visitante, levando-o ao chão.
- Chicão, seu peste! Já falei que num é pr'ocê derrubá, é só pra cercá. Vem aquiqui eu mostro pr'ocê! - e fez um gesto com a mão, enquanto o cão se afastava sorrindo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Figuras reais

a Isabel é histórica.
a Áurea também.
os valetes, as rainhas e os reis,
de Paus e de Espadas,
são geográficos:
aqui
ali

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Grande sólido

Para Sofia Sasdelli

tenho dias de solidão
alguns mais
outros menos
nos demais, só ela

minha solidão não pede companhia
apenas o direito inalienável
de ser só
uma
muda
única

domingo, 11 de maio de 2014

Com uma mão

algumas mulheres não levantam homens
nem com palavras
nem com ações
nem sem roupas
sobre essas, não falo.

aquela que levanta um Estado inteiro apenas com uma bandeirada,
homens e mulheres,
sem brasão ou estandarte,
apenas convidando para o
improvável
impossível
insuspeitável
não impedimento
merece algumas palavras.

três pontos para nós
reticências para os outros...

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Disparada

Para Jair Rodrigues
"Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu"


longe fui para entender
meu boi
nossa boiada
esse boiadeiro

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...