terça-feira, 17 de setembro de 2013

As mulheres de Lulu (III)

Depois de alguns minutos de solfejos e músicas, ele me disse:
- O que traz você aqui?
- Quero conversar com o senhor.
- Sobre o quê?
- Sobre todos nós.
- Nós quem?
- Nós Mendes.
- O que têm os Mendes?
- É o que quero saber. E também quero o que eles não têm.
- É muita filosofia para mim. Preciso refrescar as ideias.
Caminhou até perto da cama, abaixou e puxou uma caixa de madeira que estava sob a cama. A caixa cantou ao vir à luz e revelou-se um engradado. Retirou uma garrafa, examinou o conteúdo, devolveu a garrafa ao engradado e pegou outra. Repetiu esse movimento até se dar por satisfeito com uma garrafa.
- Muito bem. Essa é uma espécie única. Safra de... - olhou o relógio e cravou - sete horas atrás. Um brinde.
Puxou dois copos, abriu a garrafa e, servindo:
- Lúmen, Lúmen, Lúmen - bradou ele com olhos apaixonados.
- A mítica cerveja Luiz Mendes.
- Um brinde aos Mendes, aos nossos, àqueles que sabem por que viver, por que morrer.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

As mulheres de Lulu (II)

- A porta estava aberta e eu...
- E você é cachorro para entrar só porque a porta está aberta?
- Eu não...
- Minguta! - gritou ele ao ver apontar uma galinha no alto do guarda-roupa. O que você tá fazendo aqui dentro? Vai pra fora.
Correu atrás da galinha e a colocou para fora do quarto. Suspendeu as calças que já iam ao joelho, assoou o nariz e me encarou novamente.
- Quem é você?
- Neto do Zaio.
- Que Zaio?
Percebi que o ciclo se reiniciaria e resolvi mudar a abordagem.
- Sou Mendes, Tio Lulu, seu sobrinho-neto.
Ele parou, apertou o cinto da calça, limpou as mãos no paletó e, com os olhos marejados, disse:
- Eu sabia que era você. Só um Mendes responde corretamente a um Mendes. - e me abraçou. Como está seu pai, sua mãe, o Zaio, a Raimunda? Me dê notícias de todos.

domingo, 15 de setembro de 2013

As mulheres de Lulu

sete dias e 84 anos separam o início da conclusão.
***
- Tio Lulu! - gritei entrando pela casa. Estrondos vinham do quarto, como se objetos fossem arremessados à parede.
- Tio Lulu! Oh Tio Lulu! - insisti.
Os ruídos cessaram. Prossegui.
- Tio Lulu! - chamei e fui empurrando a porta do quarto.
- Que que é? Que que é? - respondeu em tom colérico.
Fiz um gesto cordial cumprimentando com as mãos.
- Quem é você? O que que você quer?
- Sou neto do Zaio.
- Que Zaio?
- Seu irmão.
- Não conheço. Quem é seu pai?
- O Zézé.
- Qual Zezé?
- O do Zaio.
- Zezé do Zaio?
- Isso.
- Não conheço.
- Não se lembra do Zezé e do Zaio?
- Claro que não, idiota. Os dois eu conheço. Não conheço você. - sorriu e arremessou um sapato que tinha em mãos na parede.
- É barata?
- Claro que não. Se fosse barata, a Minguta já tinha comido. Falando nisso, cadê a Minguta?
Ei, e você? Como entrou aqui?

domingo, 1 de setembro de 2013

Dos ratos

os ratos são os primeiros a abandonar o navio.
por isso, algumas histórias só por eles são contadas.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...