sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O fogo da gata

mia no muro a bichana
canta no escuro
as delícias da faina

os pelos eriça
o corpo contorce
as unhas atiça

nas costas
dedilha uma canção
lascívia e sofreguidão

a noite que não finda
a chama que não queima
o verso que ronrona... ainda


* A expressão "O fogo da gata" me foi gentilmente cedida pelo amigo Clóvis Habibe.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Inventário

Para Manuel Bandeira
dores
fraquezas
amores
certezas

riso
choro
minha família
meu pote de ouro

minhas falhas
meus desenganos
minhas gralhas

além, migalhas minhas não mais

quando a Indesejada chegar
iniludível e imponderável
a anamnese será fátua
caroável, o porvir

domingo, 12 de dezembro de 2010

Meu guri

Dos meus filhos eu sinto saudade
Eu tenho medo que eles achem que
Eu não sinto a falta deles
Como eu acho que eles sentem de mim
Nando Reis

Hoje é um dia especial. São 15 anos correndo juntos. Para você, Pinafo, "O impegável", a quem eu chamo carinhosamente de filho, o carinho de sempre: paterno, pegável, primogênito.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mundo da bola

a cartomante afirmou taxativa "é cracker"
a vaidade, tachativa, entendeu "é craque"
o futuro confirmou as cartas
natureza de biscoito

sábado, 4 de dezembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

O disfarce


assobia o doce perfume da Gérbera
corteja o beija-flor a rosa-dos-ventos
nada aqui. nada ali. nada...
apenas um repolho roxo
paquidermicamente
em deslocamento

Meu Deus! um repolho em disfarce
uma falsa flor sem face

Ah tolo repolho, teu cheiro jamais será floral
ainda que saias fagueiro do banho
tua história é contada em quentes vapores
rudes rumores
humanos humores

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

De variedades

Num revista de variedades, li que os paparazzi buscam agora as imperfeições corporais de atrizes e modelos. Disso, tirei duas conclusões: como são perigosas as revistas de variedades e como o fantástico mundo do Photoshop está míope.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Eleição

No período eleitoral, recebi inúmeros e-mails das mais variadas abordagens que sempre desqualificavam a candidata eleita. Estranhamente (ou não), não recebi nada (para o bem ou para o mal) sobre o candidato derrotado. O "falem bem, falem mal, falem de mim" mostrou eficácia.
A eleição confirmou a situação.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Distância

uma mulher linda à distância
um passo pela curiosidade
um passo pelo instinto
um passo pela sedução

olhos vazios
boca seca
língua fútil

passo pela ilusão
passo pela decepção
passo pelo erro

se tivesse acreditado na crase

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nosso lar

Comemoramos hoje o 2º ano nesta blogosfera. Em 2008, quando juntos partimos, tínhamos em mente o desejo de reunir a família, de trazer à mesma tela os Ribeiro, os Mendes, os Cerqueira, os Clemente e de pintar um retrato (que para alguns pode ser autorretrato) único, mas não homogêneo, em preto e branco, de nós que nos dizemos parentes. Podemos dizer que os traços (não os textos) obtidos nestes dois anos são fiéis aos sobrenomes que carregamos conosco.
No último final de semana, festejamos o aniversário de 80 anos de minha tia Zoca. Reencontramos e conhecemos velhos parentes, uns mais Ribeiro, outros mais Cerqueira, outros nitidamente mais Mendes, outros sempre Clemente e alguns não tão menos Rabelo (que não tinham entrado na história).
A melhor parte foi reencontrar a Mercês e, com ela, aqueles que tanto povoam este nosso lar. Muitos anos depois, um pouco envelhecida pelo tempo e pelo sol, mas vívida e jovem, a mesma encantadora de lágrimas. Por ela, encontrei muitos que fazem parte de mim e que só na eternidade esperava abraçar.

A alegria e a emoção desse encontro não são palavras.
Não estamos sós.

domingo, 17 de outubro de 2010

Rosário

rosário é uma vida que se diz oração
fé, paciência e perseverança

Hoje, 17 de outubro, minha tia Maria do Rosário, a Zoca, completa 80 anos de oração. A ela, a quem eu chamo carinhosamente de “A acolhedora”, minha gratidão e meu afeto.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Hodierno

Para Edgar Alan Poe
Minha maldição foi ter nascido palhaço. Acaso fosse um domador de feras, o homem-bala, um triste elefante encantado por amendoins, ou mesmo um chimpanzé, acorrentado à imagem e semelhança de um escravo, não produziria estas letras. Não. Meu fardo é rolar, dia após dia, essa imensa rocha de lembranças rumo ao topo da ilusão.
Meu acerto foi, nesse palco etéreo, me apaixonar pela bailarina. Leve, flexível, sombrinha dos tempos em mãos e sorriso da paz em seus lábios. Não havia música na qual os pés curtos e precisos não modelassem uma coreografia almiscarada, lúdica, cativante. Ela me mostrou doçura para que eu aprendesse a lidar com a dureza, ouviu meus vícios e, serena, sorriu para que eu aprendesse a lidar com as lágrimas.
Não se sabe a exata medida de seu nome, ainda que seja a razão entre o que circula e o que corta.
Não se têm referências, nem ajudarão a primeira e terceira pessoas de qualquer tempo.
Não se proclama mais o delicado chuvisco de seu nome.
Não serão formas afetivas tampouco diminutas que reduzirão a lembrança de sua semeante alegria.
Eu bem me lembro disso...
A bailarina está morta. Não me importa que ela não dance mais diante de meus olhos, que não deslize, sombrinha em mãos, pelo picadeiro úmido de uma noite chuvosa, que retribua meu desejo com seus olhos infinitos. Eu a tenho comigo.
Eu falo com os mortos, eu invado sonhos, eu corro pelas sombras com as bestas, eu entendo a língua do silêncio, da distância e do tempo. Nenhum negro corvo voará em minha noite escura, nenhuma ave será o arauto de minha impossibilidade eterna, nenhum bico adunco ressoará “Nunca mais” em meu quarto nem rasgará meus umbrais. O grasnar demoníaco de seus olhos vazados e de seu voo nefasto não será o archote de meu devaneio. Não, não há criatura que crocite o amanhã. Eu sou o hoje.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Nosso Chevrolet 51

Para Antônio Cesário Mendes Rabelo

Foi a maior aventura da minha vida.
Saí do estado de Connecticut, E.E.U.U., no dia 1º de outubro de 1960.

Completam-se hoje, 1º de outubro, 50 anos que meu tio Cesarinho, O prático, partiu, em um Chevrolet Fleetline modelo 51, dos Estados Unidos com destino a Itapecerica (MG). Essa história é descrita no livro “Meu Chevrolet 51 e eu” e assim pode ser sintetizada, nas palavras do próprio autor:
“Relato da viagem que fiz ‘sozinho’, dos Estados Unidos ao Brasil, dirigindo um velho Chevrolet modelo 51, passando por 14 países, rodando quase 24.000 km de estradas de todos os tipos que é possível imaginar.
Por vezes, usei correntes, pá, enxadão, machado, serrote, facão, cordas, etc.”
No carro, tio Cesarinho seguia sozinho, mas com ele viajavam dezenas, centenas de pessoas. Essa viagem mudou a vida dele e também, de certo modo, de toda a família, seja pela apreensão que os perigos da viagem e os períodos sem notícia causavam, seja pela mobilização para o envio de apoio, muitas vezes em dinheiro, sempre em oração. Além disso, a cada leitura do livro ou a cada vez que a história é mencionada, embarca-se novamente no Chevrolet 51 e, não sem motivo, ouve-se “aquele roncado bonito parecendo um tanque de guerra”.
Em agosto de 2009, tio Cesarinho partiu em nova viagem. Dessa vez, sem o Chevrolet, mas, de certo modo, toda a família partiu com ele novamente. Poucas coisas continha sua bagagem: algumas peças de roupa, a camisa do Galo, o livro que narra essa aventura e aquilo que define os Mendes: o sonho do impossível.
Neste dia festivo, tão importante para nós, a homenagem ao Cesarinho, meu tio, que dizia: “De vez em quando, sonho que estou com ele [o Chevrolet], viajando por aí e contando a nossa história.” Nós também sonhamos, tio. Nós também.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A chuva

Ao primeiro chamado não houve resposta.
Ao primeiro chamado não se ouve resposta.
– Dona Quiméria! – insisti.
Ouvi, então, o roçar de patas no chão. Era o Chicão que vinha ao portão, incrivelmente silencioso, apenas atentamente me observando. Aproximou-se do trinco e, mantendo-se em duas patas apenas, com um golpe único fez com que o portão se abrisse. Como eu não entrava, Chicão se assentou.
Eu sabia que, quando estivesse do lado de dentro, com o portão fechado, não haveria problemas, pois o Chicão se transformaria no Luizinho, mas, como a travessia de mundos não é para qualquer um, mantive minha indecisão. Não posso dizer o mesmo de Chicão, que, talvez cansado de me esperar, virou as costas e voltou para dentro de casa.
Passei pelo portão trancando-o e segui casa adentro.
– Dona Quiméria! – chamei novamente.
Nenhuma resposta. Chicão apareceu e, silenciosamente, pediu que o seguisse. Atravessamos a casa e chegamos ao quintal, avistando Dona Quiméria sentada num banco. O cachorro se aproximou dela e se deitou.
– Puxa a cadeira, meu fio!
Avistei um banco e o peguei me acomodando ao lado dela. O ar estava quieto e percebi que Dona Quiméria olhava fixamente para o infinito.
– Como a senhora está, Dona Quiméria?
– Bem, meu fio. Com a graça de Deus, bem.
– Tô achando a senhora um pouco abatida.
– É impressão sua.
Não era impressão minha. Os olhos vivos de Dona Quiméria não brilhavam como de costume.
– O que a senhora faz aqui, sentada nesse banquinho?
– Tamo esperando.
– Esperando quem?
– A chuva, meu fio.
– A chuva?
– Isso memo, meu fio. A chuva. Só ela vai limpá essa lambança.
– É, Dona Quiméria, a lambança tá brava.
– Bota braba nisso. Da última vez que nóis nos vimo, naquele dia em Lourdes, nós lavamo a entrada da Sede e deixamo tudo pronto pro time deslanchá. Mas num deu. Eles enganaru a gente.
Deixei que ela prosseguisse.
– Nosso time é de Galo, meu fio. Eles esquece disso. Encheram o time de pato, de marreco, de pavão, até faisão tem, mas Galo memo que é bom tá faltando. É pur isso que o time não deslancha. Falta gente pra jogá futebol. É pur isso que o Chicão fica preto desse jeito.
O medo da travessia não permitiu que percebesse como o Chicão estava mais betuminoso.
– Nós num guenta, meu fio. Nós num guenta.
O céu cinza emoldurava o desabafo de Dona Quiméria: sentada, queixo escorado na mão esquerda e a direita livre para gestos esporádicos, tendo aos pés o cão, que, deitado, mantinha a cabeça entre as patas da frente. O som da espera.
– Nóis num vota, nóis num frequenta a sede, talvez nem deixem a gente entrá lá ou memo visitá a Cidade do Galo, mas nóis somo esse time. Se não fosse nóis, o Grorioso seria apenas mais um clube como tantos que tem por aí. Nós tamo numa draga danada, mas continuamo a leva mais gente na Arena do Jacaré. Como dizia o velho Caneteiro, “O melhor do Atlético é o atleticano”.
– O Dorival chegou e talvez agora as coisas melhorem.
– Já passô da hora, meu fio. Já passô da hora. Se eles tivesse ouvido o Caneteiro e colocado a estrela vazada na manga da camisa, talvez nóis num tivesse nessa draga agora.
– Estrela vazada?
– Isso, meu fio. O Caneteiro difindia que nóis tivesse uma estrela vazada na manga da camisa para num mais esquecê o inferno da segundona. Pra mostrá pras novas gerações, ainda que com dor e amargura, o que nóis fomo um dia e pra nunca mais deixá isso acontecê, pra mostrá que nóis aprendemo com os erro do passado. Que nóis somo muito maió que um campeonato, que uma divisão, que um clube comum. Que nóis somo branco, somo preto, preto e branco, branco e preto, e que nóis num deixamo de acreditá nunca. Nem morto! – concluiu ela levantando o braço direito com o punho fechado.
Nesse momento, o cão saltou e latiu como quem parte para a guerra. No horizonte, um primeiro raio pincelou aquela cinzura.
– Dona Quiméria, vamos entrar. Daqui a pouco vai começar a chover.
– Meu fio, tamo esperando a chuva. S’nóis entrá na hora que ela chegá, de que adiantou esperá?
– A senhora pode pegar uma gripe.
– Nóis treis tamo acostumado, meu fio.
– Nós três?
Dona Quiméria levantou o dedo indicador direito e apontou em frente. Nesse momento, percebi, no fundo do quintal, pendurada no varal, a camisa do Atlético. Desde minha chegada, era esse o infinito particular de Dona Quiméria.
– Meu fio, nóis tamo acostumado a enfrentá qualquer coisa.
Em seguida, a chuva desceu com força e o vento sacudia a camisa no varal de todos os modos. Na chuva, Dona Quiméria pulava e agitava as mãos, enquanto Chicão saltava e mordia aqueles pingos chuvosos, na euforia do gol que levanta a Arquibancada.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Refazenda

o abacateiro foi morto por um capricho
de quem não gosta de gente, de planta, de bicho

desde então, nascem carvalhos, oliveiras,
pereira, cipreste e nogueira

a amoreira não nasce
é desde sempre

domingo, 19 de setembro de 2010

Situação

Daqui a duas semanas, ocorrerão as eleições.
Qual é a situação de momento?
Qual é o futuro da situação?
Mudarão os nomes (alguns dizem que serão fantoches.
pura maldade! O que dirão os fantoches?),
seguirá a mesma sopa de letrinhas.
A Situação continuará a ser situação.
Não é um caso de pleonasmo. É sufrágio mesmo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Palavras

Agradecimento a Martinho da Vila
Para Luiz Mendes, o Ilimitado
Já tive palavras
De todas as cores
De várias idades
De muitos amores
Algumas até
Certo tempo grafei
Prá outras apenas
Pouco rascunhei...

Já tive palavras
Do tipo cingida
Do tipo versada
Do tipo mentida
Casada carente
Solteira feliz
Já tive donzela
E até meretriz...

Palavras cabeça
E desequilibradas
Palavras confusas
De guerra e de paz
Mas nenhuma delas
Me fez tão sutil
Como você me faz...

Procurei
Em todas as palavras
A felicidade
Mas eu não encontrei
E fiquei na vontade
Fui rabiscando bem
Mas tudo teve um fim...

Você é
A flor da minha vida
A minha verdade
Você não tem limite
É voracidade
É tudo o que um dia
Eu sonhei prá mim...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sibila

Numa bruxa sapateia uma vassoura
Não há piaçaba, apenas cabelos
De todas as cores, de todas as idades

Voa a bruxa nas noites frias de luar
E varre sonhos de garotos maus

Os bons não sabem de vassouras
Os maus não compreendem as bruxas
Feitiços não gostam de bons nem de maus

O fetiche do feitiço sibila se bela é a bruxa

sábado, 11 de setembro de 2010

Pajelança

Noite de quinta, horas antes do jogo Atlético e Vasco em São Januário.
Descendo a Avenida Olegário Maciel, sentido Praça Raul Soares, na esquina do Diamond, observo uma senhora de idade com balde e vassoura na mão. Ela está apoiada sobre a vassoura, como se descansasse, e com o balde pendurado no braço, como um cesto. Vejo suas roupas simples e reconheço suas precatas inconfundíveis.
Aproximo-me dela e noto que está com os olhos fechados, talvez dormindo. Para não assustá-la, levanto a mão para tocar seu braço e ouço um rosnado bestial. Paro e percebo um cão a curta distância, a necessária para um bote certeiro, olhando-me atentamente e com os dentes aflitos para dançar.
– Até que enfim, meu fio! Tava esperando ocê. – disse Dona Quiméria abrindo os olhos e se dirigindo a mim. – O Chicão já tava impaciente! Eta minino bão esse, sô! – e afagou o cachorro que, agora, sorria de satisfação.
– Dona Quiméria! Não reconheci o Chicão. Parece que ele tá mais escuro, mais preto.
– Tá memo, meu fio. Ocê tá c’os óio bão, hein? O Chicão tá c’uns pobrema de visão e isso tá alterando a cori dele.
– Que problema, Dona Quiméria? É grave?
– É grave, meu fio. Ele tá vendo muita pelada na televisão, muito perna-de-pau, muito enganadô com a camisa do Grorioso e isso tá prejudicando o humor dele. Aí, ele fica preto de raiva. Eta pobrema grave, meu Deus! – e sorriu pelos olhos.
– Eta, Dona Quiméria! Acho que desse problema tem muita gente padecendo...
– É por isso memo que nóis tão aqui, meu fio. Nóis viemo ajudá o time a saí dessa fase empistiada. Eu e o Chicão só tava esperando ocê chegá.
– Como a senhora sabia que eu passaria por aqui?
– O mundo tá pequeno, meu fio. Tá todo mundo de olho em todo mundo. – e piscou pra mim.
– Vamo voltá pro nosso trabalho que daqui a pouco nós temo outra peleja pra acompanhá. Vamo logo com isso.
Colocou o balde no chão e tirou de dentro dele uma garrafa pet, que continha uma mistura colorida. A cada vez que ela balançava a garrafa, a mistura parecia tomar uma coloração nova.
– O que tem aí dentro? – perguntei.
– É uma poção q’eu fiz pra lavá a entrada aqui da Sede, pra podê mandá embora essa praga que tá aninhada na gente. Eta, meu Deus!
– Que tipo de poção?
– É uma mistura antiga q’eu uso pra limpá a casa do mal-olhado. Tem arruda, carqueja, boldo, arnica, agoniada, erva cidreira, dente de leão, guaco, quebra-pedra, unha de gato e capim limão.
– Funciona mesmo?
– Eta, meu Deus! Isso resolve memo. É tiro e queda.
Tirou o balde do braço, colocou-o no chão e abriu a garrafa.
– Toma, meu fio! A vassoura eu trouxe pr’ocê. Esfrega aí enquanto eu jogo o chá.
Peguei a vassoura e comecei a esfregar a entrada da Sede, à medida que Dona Quiméria esparramava o líquido pelo passeio. De longe, o Chicão acompanhava atento essa pajelança quimérica.
– Vamo, meu fio! Esfrega cum força porque a praga tá brava. Dá um sanguinho aí pro time melhorá.
Minutos depois, toda a entrada estava limpa e a garrafa, vazia.
– Toma, meu fio! O balde eu trouxe pr’ocê!
– Pra mim?
– Pr’ocê sentá e descansá. Eta, meu Deus! – e sorriu novamente.
Eu também ri e, virando a boca do balde para o chão, me assentei no fundo.
– E agora, Dona Quiméria? O que vai acontecer?
– Eta, meu Deus! O time vai embalá, meu fio, e as coisa vão fruí mió. Só vai sê goleada!
Conversamos mais alguns minutos e ela disse que precisava ir embora, porque tinha o jogo do Galo para acompanhar.
– Além disso, meu fio, hoje é dia do Roberto me ligá pra sabê comé que estão as coisas do Galo.
– O Roberto...
– Ele memo, meu fio.
– Mas a senhora vai embora como? A pé?
– Eu vim com a vassoura e volto com ela.
– E o Chicão?
– Volta no balde, do jeito que ele veio.
Abracei e a beijei no rosto dizendo:
– Que os bons ventos tragam sorte pro Galo, Dona Quiméria!
– Pode deixá, meu fio. Vai dá tudo certo. Quando nóis se vê de novo, daqui a sete rodada, o Chicão já vai tê voltado ao normal. Vai tá menos preto e mais preto e branco.
Virou-se para o Chicão e disse:
– Vão borá, Chicão! Tá na hora de nós rezá. Eu puxo as prece: “Nós somos do Clube Atlético Mineiro...”
E o cão latia ao fim de cada verso acompanhando a melodia.
– Eta minino bão esse, sô! – e seguiram os dois rezando a alegria contagiante de uma paixão.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Saudosa Pelada

Agradecimento a Adoniran Barbosa

Se o senhor não tá lembrado
Dá licença de contar
De um tempo muito alegre
Que nós só ria de brincar

Os colete azul e amarelo
Era o estandarte
O eterno sonho no prelo

Foi assim, seu moço,
Que Osvaldo, Oreia, Múmia e Tadeu
Vidão, Sirley, Veiinho, Bill e eu
Rogério, Geo, Du, Willy, Magela e Kaká
E tantos outro que ap’recia por lá
Eternizemo nossa pelada

Mais um dia
Nóis nem pode se alembrar
Veio os vento do destino
E começaram a nos levar
Foi joelho, tornozelo, dedo e idade
Teve língua, dor, viagem e fatalidade
E dessas perda tão cruel
Só voltaremo a jogar, junto, no céu

Que tristeza que nós sentia
Cada um que não mais ia
Duia o coração
O síndico quis gritar
Mas em cima eu falei:
Os ventos num pede licença
Segura esse rojão
Nós se conformemos quando a Bola falou:
"Deus dá o frio conforme o cobertor"

E hoje nóis óia sem graça as grama do jardim
E prá esquecê nóis cantemos assim:
Saudosa pelada, pelada querida,
Que dim donde nóis passemos dias feliz de nossas vidas

domingo, 29 de agosto de 2010

Respeito

Estar em uma sala de espera que possua revistas recentes, e não apenas aqueles refugos da coleta seletiva, que são enojáveis, nada reaproveitáveis. Revistas gratuitas de aviação ou essa imprensa cor-de-rosa que sobrevive de anúncios e da nulidade de sobrenomes vãos.
Para esse estorvo, apenas a sábia natureza indica um fim: de nome cupim.

domingo, 22 de agosto de 2010

Corte e costura

a trama contém sem número de pontos
a costureira sabe ou apenas a costura?

agulha e linha não somam: sem ou cem não importa
sutura é recriação ou apenas rasura?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Paciência

Quando aprendemos a contar de 1 a 10
Na fase diminutiva da vida
Os numéricos dizem que é matemática
Os coléricos, que são dedos

A vida adulta ensinará o que é paciência.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Magnum 45

Talvez os dois mais singulares representantes de minhas genealógicas – Luiz Clemente e Luiz Mendes – não tenham se conhecido e, se reciprocamente conhecidos, poucas palavras tenham trocado, mesmo que hasteassem a mesma bandeira.
Hoje, há um Luiz Clemente que se funde a um Luiz Mendes, não menos Clemente, não menos Mendes. A esse Luiz, “O versado”, a quem eu chamo carinhosamente de irmão, meu tributo.

domingo, 8 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

sábado, 31 de julho de 2010

Beleza

Não sou decorador, nem arquiteto, tampouco designer de interiores. Sou apenas um homem de letras que se propõe a tecer alguns comentários: hoje, sobre ambientes. Permita-me leitor que me apresente: sou o Caneteiro Maluco. Caneteiro pelo ofício de redigir utilizando canetas e Maluco, pelo gosto daqueles que me conhecem.

Nos últimos dias tive a oportunidade de conhecer dois ambientes bem distintos, mas que pensando bem possuem suas semelhanças. O primeiro deles foi um sofisticado e conceituado salão de cabeleireiros, e o segundo foi o Centro de Oncologia e Quimioterapia de um hospital em Belo Horizonte.

Na cortança de minhas madeixas, conhecia apenas as peculiares barbearias e seus calendários que mostravam a anatomia feminina. É verdade que senti a falta daquele português bem falado das barbearias, onde adjetivos, pleonasmos e boas mentiras temperam o ambiente, mas é interessante conhecer outros ares.

O salão de Cabeleireiros era claro, limpo, bem arejado e com pessoas sorridentes e bem humoradas na labuta. Não há divisão de ambientes, todos se vêem e se controlam mutuamente. Atendem-se homens e mulheres, diferentemente da barbearia, onde as mulheres se encontravam nas paredes. Serviços são feitos aos montes, desde cortes simples, pés e mãos até as balayages. O que é balayage? Tive que consultar o universo feminino para entender que é algo feito nos cabelos. Para mim foi suficiente a explicação.

Sentado enquanto esperava ser atendido, observava as pessoas que chegavam. Fofinhas, roliças, rotundas e filiadas a esta categoria prevaleciam lá. Deixo claro que nada tenho contra elas, ao contrário, têm o meu apreço e a minha atenção como pode se observar. E cada uma que chegava, ao aproximar-se de algum dos cabeleireiros dizia: “Boa Tarde! Hoje vim fazer aquilo!” ou “Hoje eu vou fazer.” E nada mais. Para falarem tão pouco e dizerem tanto, devem ser sócias de carteirinha do salão. E realmente algumas precisavam estar ali constantemente. Pouco antes de ser chamado, ouvi um presunto bem apessoado dizer: “Será que vai ficar bom?” Estávamos em um salão ou em uma clínica de cirurgia plástica? O presuntinho não sabia.

Os excessos à parte, havia também mulheres que não necessitavam estar ali. Tenho um amigo que usa a seguinte frase: As belas vão ao salão apenas para administrar a beleza; as feias, para tentar o impossível.

Deixo o salão de lado e passo ao Centro de Quimioterapia. É uma sala ampla de espera, bem iluminada e arejada e pintada com cores discretas. A recepção dá o aspecto de ante-sala à sala de espera principal, um pouco pleonástico, mas assim mesmo. As pessoas falam baixo e procuram fazer silêncio. Ao entrar cumprimenta-se a recepcionista timidamente, diz-se nome completo, horário da consulta e se particular ou convênio (nem sempre nesta ordem). “Pode se assentar e aguardar” diz a recepcionista e educadamente respondo: “Obrigado”.

Ali as pessoas não conversam entre si; eventualmente, um consultante e o acompanhante trocam algumas palavras rápidas e param. Não que seja proibido conversar, mas a vontade das pessoas é ficar em silêncio, ou melhor, a vontade talvez seja sair daquele local o mais rápido possível e encontrar o sol que brilha lá fora.

Para que falar se alguns que ali estão sentem-se no corredor da morte? A expectativa de laudos e exames silencia o lugar e as pessoas. A TV de vinte e nove polegadas enfeita o local: não há vontade de se ver nada, principalmente em dias de apagão.

Surge um garoto, dez anos aproximadamente, com a cabeça calva e o olhar distante. Acompanhado, caminha com dificuldade. Penso que muitos de nós lutamos por melhores empregos e salários e vejo uma luta em um nível diferente, vital. Aquele garoto briga diariamente contra a doença e contra si mesmo, tentando vencer o desânimo e apatia que surgem dentro de si.

Penso na frase do presuntinho do salão e descubro o quão parecido são os ambientes. Todos procuram a beleza e a alegria de viver. A beleza e alegria vivem juntas, ou deveriam viver. Alguns buscam a beleza que não têm; outros, aquela que perderam. Vejo que as outras frases do salão se encaixariam perfeitamente no Hospital, pouco ou nada se alterando.

Antes de terminar este texto recebo um e-mail intitulado CANCER, com um anexo e sem texto do remetente. Em anexo, o pedido de ajuda a uma Instituição que trata de crianças com câncer. Lembro-me do professor de português que corrigia as provas com uma caneta vermelha, rabiscando as palavras escritas de maneira não correta e dizendo: Isso não existe! Que inveja tenho dele! Que vontade de rabiscar este CANCER sem acento circunflexo e dizer que ele não existe, que é uma farsa.

Enquanto espero que o tempo me dê esta caneta vermelha, torço para que o garoto não desanime da beleza de ver o dia seguinte.

Divulgado originalmente em 31 de julho de 2001.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Bola de meia

Há sete anos ela se foi, numa tarde fria, um domingo no CEU.
Desde então, sem inferno que me acolha,
meus pés descalços driblam o purgatório.
O sonho morreu. O menino não.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A verdade amiga

em um mundo sem arco-íris
o cinza não é uma opção.
por que medo de um futuro sombrio
cinza como uma tarde de tempestade
se, ao fim, seremos cinzas?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Eliza e o zeppelin

Não conheci Eliza. Não sei o que ela fazia para viver, ou mesmo sobreviver, nem posso afirmar que ela era boa pra apanhar, era boa pra cuspir. Os nomes e os zeppelins vão e vêm sem cessar, renovando sempre a história enodoada de dramas e damas.

Não quero discutir a monstruosidade dos relatos dos últimos dias, com detalhes ignóbeis e performáticos de vilões e bufões, que fizeram com que a cidade apavorada se quedasse paralisada. Quero me ater às mulheres que amamos, Marias Madalenas de todos os dias.

Puta não é uma palavra querida, ainda que esteja em nossa boca em momentos regulares de nossas vidas, para alguns em momentos muito regulares. Talvez o pouco afeto de que goza o determinante seja reflexo do pouco sentimento dispensado ao determinado, ainda que este esteja prenhe de amar. Poderia dizer que está prenhe de “amor”, mas isso acarretaria uma discussão mais profunda, que não é o objetivo deste texto.

Talvez pareça paradoxal que algo que esteja prenhe de amar não contenha amor, uma vez que amar e amor têm o mesmo radical (linguístico e pragmático). Talvez pareça paradoxal que uma mulher com a qual tenhamos contato tão íntimo seja objeto de tanto desprezo e asco (este objeto não é casual), que seja tão estimada antes e tão desconsiderada depois. Talvez pareça paradoxal menosprezar uma mercadoria pela qual se paga, que ansiosamente é aguardada e que, fato consumado, desvalorizada de maneira vil. Talvez pareça paradoxal erigir o dirigível com tanto aprumo e vigor para vê-lo, mais tarde, tombar mortalmente como o Hindenburg. O paradoxo da parecência é uma característica do ser humano.

Quando incendiaram o índio Galdino, o argumento dos adolescentes foi que eles acharam que se tratava de um mendigo. Quando espancaram uma doméstica em um ponto de ônibus na cidade do Rio de Janeiro, o argumento dos adolescentes foi que eles acharam que se tratava de uma garota de programa. Nesse jogo de premissas, a conclusão é óbvia.

Toda essa repercussão sobre a profissão de “modelo” de Eliza, se era garota de programa, atriz de filmes eróticos ou qualquer eufemismo que o valha, abafa a humanidade do caso, reminiscência inequívoca de um imaginário popular que desqualifica totalmente as prostitutas. Observe que, dos três palavrões mais comuns de nossa língua, dois deles carregam “puta” em sua estrutura; há um ditado antigo que afirma “Conversa de puta Deus não escuta.” (não nos esqueçamos da importância da religião em nossa cultura e sociedade); quando uma mulher precisa ser desqualificada, o primeiro adjetivo a ser lembrado, em geral, é puta, zoologicamente metamorfoseado em piranha se dito por uma mulher.

Em contrapartida, há um chavão do imaginário popular que afirma que uma mulher para ser uma boa esposa precisar ser “na rua uma dama e uma puta na cama”. Novamente, o paradoxo da parecência.

Não faço apologia aos extremos – nem à prostituição nem à hagiologia das meretrizes; não afirmo que os preceitos abordados neste texto sejam definitivos ou compartilhados integralmente por homens e mulheres. A reflexão é sobre a humanidade, sobre homens e mulheres, sobre aquilo que nos permite afirmar que constituímos uma civilização. De que adianta o zeppelin partir se seguimos cuspindo e arremessando bosta na maldita?

sábado, 3 de julho de 2010

Bolsa de valores

Em uma aplicação, viu-se sem carteira, relógio e celular.
Da carteira, só voltou uma esmaecida 3x4.
Do relógio, algumas horas anônimas.
Do celular, nem o toque. Foram os contatos ou foi a bateria?

domingo, 27 de junho de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Epifania

“Aquele de quem se fala e não se vê está junto de nós.
Nosso bando está completo de novo.
O Enojado voltou!
Mãos às armas! Adeus às ilusões!
É hora da noite pelejar.”

Da nascente vez em que zuni essas palavras, nada me diziam os marimbondos.
Um mundo novo, porém, se desenhou quando descobri quem era o Enojado.

sábado, 19 de junho de 2010

O pastor

Para José Saramago
O escritor talvez tenha concluído, antes de partir, que "Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas."
A quem se referirá esse "tu"?
"A história acabou, não haverá nada mais que contar."
A dúvida é um estado da Arte.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Abelha rainha

Para Maria Bethânia
Pela rua, pela serra, pela hora
Pela estrada toda a fora
Anima de vida o seio da floresta
Amor imanta o aguilhão
Zumbe na orelha, concha de almíscar
Ó abelha boca de mel
Carmim, carnuda, desnuda

sábado, 12 de junho de 2010

Virtude

Para Donathien Augustin-Françoise
Corre, caneta,
rasga o virginal papel
inunda o negro palimpsesto
de alvas garatujas

não há pontuação que pare teu correr

sedentos corpos
palavras autônomas
atrozes desejos
a escrita é uma guerra

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Atenas

Meus poucos anos não permitiram conhecê-la como gostaria, o que não impediu, contudo, que eu a descobrisse em minhas manuais irrequietações diárias. Da memória, ficaram as maçãs únicas, que frutificaram massas, manhas e manhãs. A ela, D.Irene, “A tenaz”, a quem eu chamo carinhosamente de avó, meu carinho irrequieto.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Cassandra

Para o sorriso sem rosto
Alguns sonhos trazem o porvir.
Brumosas imagens
Ilhas brancas
Algumas palavras trazem a esfinge.
Anônimos relatos
Recortes azuis
Nada mudará o futuro: apenas o tempo.

domingo, 6 de junho de 2010

Dia D

Com a invasão de pensamentos, tomamos uma praia, uma cidade, um país, um coração.
O que vem depois pode ser história, pode ser novela.

sábado, 22 de maio de 2010

Santa Rita

- Belchior, busque uma rosa para enfeitar seu quarto.
- A senhora se esqueceu de que não há rosas na roseira neste momento?
- Não?
- A roseira não floresce no inverno.
- Não é que isso que diz meu olfato. Você não sente um doce aroma no ar?
Um movimento mais forte dos pulmões comprova que há algo no ar.
- Talvez seja o perfume de uma mulher...
- Belchior, busque uma rosa para enfeitar seu quarto.
- Mas...
- Belchior, se não acredita em minha palavra, confie em seus sentidos.
Levantou-se de sua prece e foi até o jardim. Lá chegando, deparou-se com a roseira em galhos, sem folhas, sem flores. Parou alguns minutos, pensou em silêncio e retornou ao quarto. Ajoelhou-se novamente e voltou às orações.
- Onde está a rosa, Belchior?
- A roseira não floresce no inverno.
- Eu não perguntei pela roseira.
- Não há rosa no jardim.
- Eu não mencionei o jardim.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Palhaço

Muitos olham sem ver.
Poucos veem sem olhar.
Para esses, não é possível tirar a pintura.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Assim mesmo

Não sei se eles me ouvem, mas eu falo assim mesmo.
Se eles não me ouvem, eu falo assim mesmo.
Se eles não querem me ouvir, eu falo.

domingo, 16 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

s7t7

A existência de Deus é fato questionável.
A sabedoria divina, irrefutável.
Evoé, sábados e domingos de todas as feiras!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Nobre

Há dias em que rimos até chorar.
Há dias intransitivos: choramos.
Há dias em que choramos e rimos sem saber por quê.
Há dias em que choramos e rimos, infelizmente, sabendo o porquê.
De tantos dias, três anos. De tantos outros, setenta e três.

sábado, 10 de abril de 2010

Flora

Amada Flora,
[...]
Lembro-me de nossas tardes juntos, em que, sentados à beira do córrego, conversávamos horas fazendo planos para nosso futuro. Lembro-me das flores que colhia e enfeitava seus cabelos, e de seu sorriso que me trazia a paz de que tanto precisava. Quando molhávamos os pés nos córrego e olhávamos o céu azul, rindo de nosso silêncio apaixonado, de nossa cumplicidade.
Nesse tempo não havia preconceito, discriminação e éramos livres, em nossas mentes, para podermos sonhar um mundo diferente, para acreditarmos que a religião era a confirmação de que necessitávamos para selar nossa união. Que as alianças, o altar, a bênção do divino e o nosso desejo selariam nossa relação que há tanto cultivávamos. Nosso amor não distinguia cores opostas, apenas complementares.
Não olvido nossas brincadeiras, nas tardes de sábado, após a igreja, que nos mostravam no campanário o quanto poderíamos ser felizes, o quanto éramos únicos, o quanto nos amávamos. Nos dias chuvosos, antes de irmos para casa, enxugava seus pés e observava seus olhos castanhos, infinitos.
Tudo isso passou, assim como as nuvens que cortam os céus. Algumas nuvens se transformam em chuva, alguns sonhos se transformam em lágrimas. O meu pranto não rola, ele preenche meu ser, afoga minha dor e contorce minha face para que esta velha Senhora, a quem sirvo, não perceba nada.
Deus meu deu intelecto, me deu engenho e me deu você, Flora, mas esta velha Senhora afastou de meu coração a possibilidade de viver as primaveras a seu lado. Sei que está casada, sei que é mãe e que ama o teu rebento de todo o coração, não porque mo dissessem, mas porque conheço sua alma e seu espírito, e rogo a Deus que a faça feliz por todos os anos de sua vida. Do lugar onde estou, é o que posso fazer para abrandar a minha ira, que aprendi em tantos annos de seminário ser um sentimento vil, mas que minha alma humana não descarta e que a reencontra em todos os momentos de solidão e reminiscência.
Da minha família de músicos, muitos cantam, dançam e tocam os mais variados instrumentos, mas nada hoje toca minh’alma, nenhum sentimento dança em meu coração e só sinos tocam em minha cabeça, não permitindo que eu olvide minhas obrigações para com esta velha Senhora.
Estou preso a esta velha decrépita, que nada conhece do amor, da paixão, do coração humano, apenas retórica e esgarçadas palavras vãs. Os mesmos que diziam que nossas peles eram distintas são os que louvam meu trabalho, que oferecem esmolas e beatitudes por pobres almas que nunca viram. Não sabem por que estão casadas, não celebram o santo matrimônio e frequentam a casa do Senhor como se fossem discípulos que carregam consigo uma boa-nova. Este é o mundo, este é o meu mundo.
Que o amor possa vencer sempre, ainda que tenha sido derrotado em nossa campanha, fruto incontestável de minha fraqueza e de minha pusilanimidade, chagas que carrego comigo e que as levarei desta vida. Que não haja distância, que não haja medo, que as diferenças sejam motivo de união e regozijo, que os homens sejam instrumentos da palavra de Deus e que esta velha Senhora encontre a morte e, na ressureição, a verdade que ela sempre desconheceu e que tanto insiste em nos ensinar.
[...]
Com amor. Sempre.
Seu B.
São Bento do Tamanduá, 22 de dezembro de 1896.

terça-feira, 30 de março de 2010

Outros campos

Para Armando Nogueira
O Nogueira que cronicava frutos se calou.
Partiu para outros campos, não menos verdejantes, não menos poéticos.
O Armando segue grafando. A memória.

sábado, 27 de março de 2010

A morte

Uma curva.
Com poucos passos, surge um urubu. Introspectivo, coça o peito com o bico. Não me vê.
Na sequência dos passos, surgem outros urubus. Conversam entre si, mudos.
Percebem minha presença, atraindo a atenção do primeiro e de outros que vão surgindo.
Nesse momento, há centenas deles. Todos me olham.
Sigo caminhando. Não paro.
Os primeiros passos de um deles desencadeiam o caminhar dos demais.
Líder, membro ou presa? A morte não é pródiga em certezas.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Rosa camisa

Tributo a Pixinguinha.
Em homenagem à Nação Atleticana.

Tu és, divina e graciosa
Camisa majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da nação de mais linda cor
Do sol o mais ativo por
Que na vida é preferida pelo amador
Se Deus me dera tal presente
Aqui nesse ambiente de graça
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu suado
Honrado e amado sobre a rósea raça
Do arfante peito seu

Tu és a forma ideal
Escudo magistral oh manto perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És áurea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza

Perdão, se ouso confessar-te
Oh róseo-negro estandarte
Oh rivais, meu peito não resiste
Oh meu Deus, o quanto é triste
A inveja de uma cor
Que mais me faz alegrar em cantar
O hino dessa magia
Ao ver o povo entoar
Ganhar, aos pés do Onipotente
Em jogos comoventes nessa cor
E chamar de casa o Mineirão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

quinta-feira, 18 de março de 2010

Por alguns royalties a mais

Balas perdidas consomem a vida de alguns, a esperança de outros, mas nenhuma lágrima do governador. O pranto cabralino está reservado à covardia dos royalties, do ouro negro que corre naquele Rio, o antípoda do velho Chico.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Geraldão

Para Glauco
Temos amigos cujos pais nos são desconhecidos, apesar de os filhos serem, a gosto ou contragosto, a extensão paterna.
Geraldão, Dona Marta, Geraldinho e os Neuras perderam o pai. Outros estão órfãos.
Nós perdemos um pouco do riso. Triste sorriso.

terça-feira, 9 de março de 2010

O último dos iconoclastas

O último dos iconoclastas caiu em batalha, foice e martelo em mãos, trincando os dentes em uma bandeira soviética. Apenas um guincho bestial foi ouvido antes do fim, um profético "não" rasgou a solitária, derradeira e muda espiração.
O incompleto não se tornou o ícone de um mundo sem rumo.

terça-feira, 2 de março de 2010

Capítulo I

Mais um dia de chuva.
As ruas enlameadas dificultam o vaivém das carroças, mulas desapressadas cortam o barro úmido, enquanto cavaleiros se equilibram em cavalos equilibristas. A manhã de março não traz o cotidiano à rua, e São Bento do Tamanduá dorme ao revés de galos que espantam a neblina.
Na casa do Major, o assoalho de madeira degusta passadas rápidas em um movimento freneticamente mudo. Henriqueta, no quarto, com o auxílio de Sinhá Rita, inicia as contrações que trarão ao mundo mais um rebento. O Major, ansioso, enumera os cigarros um atrás do outro, com tragadas longas e baforadas rápidas, enquanto espera o médico.
[...]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Cuscos

Na foto que deveria estar aqui, não há tristeza. Três pessoas se confraternizam erguendo taças imaginárias com seus pés coloridamente fantasiados. Brindam àquele momento fugaz, fugidio na memória, fulgurante na lembrança, uma festa que testa o que nos resta de uma antiga Floresta.
Na foto que deve estar aqui, não há melancolia. Três tênis tecem trocadilhos e troçam times triviais, tateiam o tempo com troféus, trombetas, trupicãos, tapas e o tropel da trupe.
Na foto que deverá estar aqui, só haverá alegria. Só Cuscos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O grande baile

Realizou-se no domingo passado em casa do nosso amigo Major Belchior Mendes Ribeiro o baile que ao bello sexo offereceu a rapaziada chic da terra.
Nada faltou para realçar o brilho dessa festa que correu animada e com enthusiasmo sempre crescente: – flores, confetti, bisnagas, ditos de espirito e a mais franca cordialidade. A satisfação era geral e por todos os lados só se ouviam elogios ao baile.
Toda a gente achava na festa um grand encanto, um prazer extraordinario.
E, de facto, quem a observasse, veria que alli reinava a mais franca alegria, uma alegria que era o maior brilho, o maior deslumbramento d’aquella festa que só terminou aos primeiros clarões do dia.
As 11 horas da noite, quando lá chegamos, o baile estava em pleno explendor.
Pelo salão primorosamente decorado com flores naturaes, bandeirolas e serpentinas se crusavam no rodopiar das valsas para mais de trinta pares.
A confusão era geral.
A maioria dos cavalheiros estava em vêstuário de rigor e as senhoritas trajavam custosas e elegantes toilletes.
Como a festa era em domingo de carnaval alguns de nossos rapazes, que primam pelo gosto e pela elegancia, deixaram de parte a etiqueta e lá se apresentaram fantasiados.
Foi esta, sem duvida, a nota hilariante da noite.
Um verdadeiro successo.
Não foi sem grande difficuldade que conseguimos conhecer alguns desses mascarados.
[...]
O Lulú trajava rico dominó de seda preta, todo enfeitado de cartas e sellos do correio, tendo em uma das mãos um grande sinête, distinctivos esse de seu emprego. Estava mesmo a caracter.
Durante o tempo que estivemos no salão, o nosso Lulú esteve silencioso e cabisbaixo. Naturalmente o nosso agente do correio sentia-se envergonhado por ser o vovô daquella rapaziada.
E tinha bem razão: trinta e cinco Janeiros não são brincadeira.
[...]
O nosso Totonho do Belchior deixou de parte o seu ar grave e circunspecto e metteu-se também na troça. Lá estava elle com o deu dominó todo feito de retalhos de fazendas, e bonito que era um gosto. O rapaz é perito na arte de cortar e costurar.
Trazia no pescoço uma medida de alfaiate e nas mãos uma grande thesoura, emblemas de seu oficio. O Totonho (sempre o do Belchior para não se confundir com outro qualquer, visto haver muitos homonymos na terra) mesmo na hora do folguedo quis mostrar que é um rapaz serio e trabalhador. O rico dominó que vestia, foi por elle feito em suas officinas.
Como aquelles pedacinhos de panno estavam pregados com gosto e symetria!
Eis porque não faltam candidatas á sua mão de esposo. Nestes tempos de preguiça, possuir-se um maridinho que sabe costurar com perfeição, é manná cahido do céu.
O Dondico, commandante em chefe dos rapazes, não teve para historias e apresenttou-se com a cara que Deus lhe deu, aliás bem bonitinha e sympathica. Vestia uniforme de militar tendo nos braços e na golla da farda as insignias de General. Do peito pendiam diversas medalhas condecorativas, conquistadas por actos de bravura em combates de amor. Affirmam os seus subordinados (e a cidade está toda cheia) que em certo combate fraqueou e cahiu mortalmente ferido: d’ahi talvez o motivo de sua gravidade e circunspecção.
Quando já se é meio bilhete corrido não se tem graça mais para cousa alguma, mormente estando a pequena ao lado fiscalisando os nossos actos e movimentos.
É mesmo um inferno.
Quando se está nesses assedios só há um remedio, e esse de cura infallivel: – banhos de Egreja.
O Vigario e o Carmello afflictos andam por isso.
Experimenta, Dondico, e depois me dirás se berimbáu é gaita.
[...]

Jornal A Propaganda, anno II, n.34, Itapecerica, 17 de fevereiro de 1907. p.1-2.
Material gentilmente cedido pelo Chico Bacalhau.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Lobo Tao

Agradecimento a Roberto e Sideral
Eu estou sempre por aí a rodar
Eu busco letras em qualquer lugar
E quando estou andando e não tenho aonde ir
Fico até na dúvida se é hora de mentir

Às vezes grafo mal,
Garatuja natural,
eu sou o Tao, tao, tao, tao, tao.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...