terça-feira, 30 de março de 2010

Outros campos

Para Armando Nogueira
O Nogueira que cronicava frutos se calou.
Partiu para outros campos, não menos verdejantes, não menos poéticos.
O Armando segue grafando. A memória.

sábado, 27 de março de 2010

A morte

Uma curva.
Com poucos passos, surge um urubu. Introspectivo, coça o peito com o bico. Não me vê.
Na sequência dos passos, surgem outros urubus. Conversam entre si, mudos.
Percebem minha presença, atraindo a atenção do primeiro e de outros que vão surgindo.
Nesse momento, há centenas deles. Todos me olham.
Sigo caminhando. Não paro.
Os primeiros passos de um deles desencadeiam o caminhar dos demais.
Líder, membro ou presa? A morte não é pródiga em certezas.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Rosa camisa

Tributo a Pixinguinha.
Em homenagem à Nação Atleticana.

Tu és, divina e graciosa
Camisa majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da nação de mais linda cor
Do sol o mais ativo por
Que na vida é preferida pelo amador
Se Deus me dera tal presente
Aqui nesse ambiente de graça
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu suado
Honrado e amado sobre a rósea raça
Do arfante peito seu

Tu és a forma ideal
Escudo magistral oh manto perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És áurea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza

Perdão, se ouso confessar-te
Oh róseo-negro estandarte
Oh rivais, meu peito não resiste
Oh meu Deus, o quanto é triste
A inveja de uma cor
Que mais me faz alegrar em cantar
O hino dessa magia
Ao ver o povo entoar
Ganhar, aos pés do Onipotente
Em jogos comoventes nessa cor
E chamar de casa o Mineirão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

quinta-feira, 18 de março de 2010

Por alguns royalties a mais

Balas perdidas consomem a vida de alguns, a esperança de outros, mas nenhuma lágrima do governador. O pranto cabralino está reservado à covardia dos royalties, do ouro negro que corre naquele Rio, o antípoda do velho Chico.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Geraldão

Para Glauco
Temos amigos cujos pais nos são desconhecidos, apesar de os filhos serem, a gosto ou contragosto, a extensão paterna.
Geraldão, Dona Marta, Geraldinho e os Neuras perderam o pai. Outros estão órfãos.
Nós perdemos um pouco do riso. Triste sorriso.

terça-feira, 9 de março de 2010

O último dos iconoclastas

O último dos iconoclastas caiu em batalha, foice e martelo em mãos, trincando os dentes em uma bandeira soviética. Apenas um guincho bestial foi ouvido antes do fim, um profético "não" rasgou a solitária, derradeira e muda espiração.
O incompleto não se tornou o ícone de um mundo sem rumo.

terça-feira, 2 de março de 2010

Capítulo I

Mais um dia de chuva.
As ruas enlameadas dificultam o vaivém das carroças, mulas desapressadas cortam o barro úmido, enquanto cavaleiros se equilibram em cavalos equilibristas. A manhã de março não traz o cotidiano à rua, e São Bento do Tamanduá dorme ao revés de galos que espantam a neblina.
Na casa do Major, o assoalho de madeira degusta passadas rápidas em um movimento freneticamente mudo. Henriqueta, no quarto, com o auxílio de Sinhá Rita, inicia as contrações que trarão ao mundo mais um rebento. O Major, ansioso, enumera os cigarros um atrás do outro, com tragadas longas e baforadas rápidas, enquanto espera o médico.
[...]

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...