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domingo, 17 de janeiro de 2021

O pardal que canta



Então, perguntei [Pedro] a ele:
- Como posso amar alguém que não me ama e que cobiça minha propriedade? Alguém que roubaria minhas posses?
E ele [Jesus] respondeu:
- Quando está arando e teu criado está semeando atrás de ti, te deterás para olhar para trás e afugentar um pardal que se alimenta de algumas de suas sementes? Se o fizeres, não é digno das riquezas de tua colheita.

Khalil Gibran. Jesus, o Filho do Homem. p.148.

***
O pardal pode ser confundido, o dono das sementes não.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

É, de repente

E de repente é noite
Salvatore Quasimodo

Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repente: é noite.
Trad.: Ernesto Sampaio
***

Cada um tem só, sobre o coração, a terra
Trespassada por um raio de sol:
E, de repente, a vida se fez poesia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

terça-feira, 15 de setembro de 2020

15 de setembro de 1879

“Cosme ainda estava na idade em que a vontade de contar dá vontade de viver, e se acredita não ter vivido experiências suficientes para contá-las, e assim partia para a caça, ficava fora durante semanas, depois voltava para as árvores da praça segurando pelo rabo fuinhas, texugos e raposas, e contava aos penúmbrios novas histórias que, se verdadeiras, narrando-as tornavam-se inventadas e, se inventadas, verdadeiras.” (p.143-144)

“[...] sua loucura fora aceita por todos, e não falo somente da sua fixação de viver lá em cima, mas das várias esquisitices de seu caráter, e todos o consideravam um original, nada mais do que isso.” (p.209)

Homenagem a Luiz Mendes de Cerqueira, meu tio-avô, sobredito Tio Lulu, o mais Mendes de todos os Mendes, nascido em 15 de setembro de 1879.

Acervo: Ana Lúcia Mendes Rabelo.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Poverello



– [...] por que o mundo inteiro te segue, por que, ao que parece, todos desejam ver-te, ouvir-se e servir-te? Teu corpo não é especialmente belo e atraente, tampouco és versado nas ciências, nem és da alta nobreza. Por que então o mundo inteiro corre atrás de ti? [perguntou frei Masseo]
[...]
– Queres saber por que eu? Por que eu? Por que eu? Por que o mundo inteiro corre atrás de mim? Isso me foi dado por Deus, cujos olhos reconhecem em toda parte os bons e os maus e, entre todos os pecadores, os seus olhos sagrados não encontraram ninguém pior, menor e mais pobre que eu. Para completar sua obra milagrosa, Deus não encontrou criatura mais fraca sobre a Terra. Por isso, escolheu a mim, a fim de envergonhar a magnificência e a sabedoria do mundo, para que reconheçam que todo o poder e toda bondade emanam apenas d’Ele, e não da criatura, e para que ninguém se gabe e queira ser maior. [respondeu Francisco de Assis]
HESSE, Herman. Francisco de Assis. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2019. p.47-48 (grifos meus)

sábado, 9 de junho de 2018

O homem e o sátiro

Dizem que, certa vez, um homem firmou um pacto de amizade com um sátiro. Quando chegou o inverno e começou a fazer frio, o homem levava as mãos à boca e as bafejava. O sátiro lhe perguntou por que agia daquele modo e ele respondeu que estava aquecendo as mãos, pois estavam geladas. Mais tarde, foi-lhes servida a mesa e, como a refeição estivesse muito quente, o homem tomou uma pequena porção e, levando-a à boca, começou a soprá-la. E, quando o sátiro tornou a perguntar por que agia daquele modo, ele disse que estava esfriando a comida, pois estava quente demais. Então o sátiro lhe disse:
"Eu abro mão de sua amizade, meu caro, pois dessa mesma boca você expele tanto o frio como o calor!"
Esopo

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
Torquato Neto

quinta-feira, 7 de junho de 2018

terça-feira, 5 de junho de 2018

Cultura x desordem


É que a internet não se destina a substituir os livros, mas é apenas um formidável complemento a eles e um incentivo para ler mais. O livro continua a ser o instrumento príncipe da transmissão e disponibilidade do saber (o que os estudantes estudariam num dia de blecaute?) e os textos escolares representam a primeira e insubstituível ocasião de educar as crianças ao uso do livro. Além disso, a internet oferece um repertório fantástico de informações, mas não os meios para selecioná-las, e a educação não consiste apenas em transmitir informação, mas também em ensinar critérios de seleção. Esta é a função do professor, mas é também a função do texto escolar, que oferece justamente um exemplo de seleção realizada no mare magnum de toda informação possível. Isso acontece até com o texto mais malfeito (caberá ao professor criticar sua parcialidade e completá-lo, exatamente do ponto de vista de um critério seletivo diverso). Se as crianças não aprendem isso, ou seja, que cultura não é acúmulo, mas seleção/discriminação, não há educação, apenas desordem mental.
Umberto Eco

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A bela e o dragão

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESCONHECIDA. E ei-la rotulada, classificada, exorcismada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em chamares a um dragão de JOLI, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...
Mario Quintana

sexta-feira, 6 de abril de 2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

quinta-feira, 15 de março de 2018

Grande esforço

Eis algo que me exigiu e sempre continua a exigir um grande esforço: compreender que importa muito mais como as coisas se chamam do que aquilo que são.
Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 14 de março de 2018

Nossa estirpe


Somos apenas uma estirpe avançada de macacos em um planeta menor de uma estrela muito comum. Mas podemos entender o universo. Isto nos torna muito especiais.
Stephen Hawking
+14 mar. 2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Humanitas

- Humanitas, dizia ele, o princípio das coisas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta três fases Humanitas: a estática, anterior a toda a criação; a expansiva, começo das coisas; a dispersiva, aparecimento do homem; e contará mais uma, a contrativa absorção do homem e das coisas. A expansão, iniciando o universo, sugeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e daí a dispersão, que não é mais do que a multiplicação personificada da substância original.
Machado de Assis, em Memórias póstumas de Brás Cubas
***
a substância original, expansiva e dispersa, é o que carrego no saco furado de minhas ilusões.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Da guerra

Os sentimentos primordiais, inclusive os mais violentos, não iam contra o inimigo; sua obra sangrenta era apenas uma irradiação do interior, da alma dissociada e dividida, que queria enfurecer-se e matar, aniquilar e morrer, para nascer de novo.
Hermann Hesse

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Do caminho

A única realidade é aquela que se contém dentro de nós, e se os homens vivem tão irrealmente é porque aceitam como realidade as imagens exteriores e sufocam em si a voz do mundo inteiro. Também se pode ser feliz assim; mas quando se chega a conhecer o outro, torna-se impossível seguir o caminho da maioria. O caminho da maioria é fácil; o nosso, penoso. Caminhemos.
Hermann Hesse

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O pequeno príncipe (VII)

Para Antoine Saint-Exupéry
"- O que é importante não se vê...
- Eu sei...
- É como com a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é bom, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estarão floridas."

nessa narrativa, ver e olhar são detalhes.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Ontem ou amanhã

"[...] o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acaba perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia muito sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam um sentido para mim.
Albert Camus

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...