sábado, 30 de abril de 2016

A fome não tem rosto

http://glo.bo/1Ulf6NT
Tiksa Negeri/Reuters
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Uma vaca magra anda em um campo aberto na vila Gelcha, uma das áreas atingidas pela seca na região de Oromia, na Etiópia.
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a fome da morte
um sopro de vida

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Sabemos, mas não conhecemos

A verdade é que nós sabemos, mas não conhecemos.  Sabemos sobre a morte, entendemos os fatos racionalmente, mas nós - isto é, a porção inconsciente da mente que nos protege da angústia intolerável - nos separamos, ou dissociamos, do terror relacionado a ela. Esse processo dissociativo é inconsciente, invisível para nós, mas podemos ser convencidos de sua existência nos raros episódios em que o mecanismo de negação falha e a angústia da morte irrompe com força total. Isso ocorre raramente, talvez apenas algumas vezes na vida. Ocasionalmente, acontece quando se está acordado, após um contato pessoal com a morte ou quando uma pessoa amada morre; entretanto, é mais comum a angústia da morte aflorar nos pesadelos.
Irvin D. Yalom

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Reunismo II

três macacos se reuniram
um surdo
um mudo
um cego

um não se dispunha a ouvir
outro, a conversar
o terceiro, a ver

em consenso, produziram
um grupo
um hospício
uma piada

só ri quem está fora desses muros.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

O último comunista

http://goo.gl/JdFusG
Foto: Lynn Bo Bo / EFE
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Proteção
Monge budista usa guarda-chuva para se proteger do sol, na República da União de
Mianmar, no sul da Ásia.
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a tarde
o muro
a calçada
as sandálias
o guarda-chuva que luta contra a ditadura do sol

desbotado
descascado
repintado
rebitado
pichado.
mas vermelho

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Pura

http://goo.gl/RJ0P9H
Foto: Abir Sultan/EFE
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Dois cães correm por campo florido na aldeia Kibbutz Nir Yitzhak, perto da faixa de Gaza.
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opostos
brincando
em um campo de flores
perto da Faixa de Gaza.

ou é arte ou são animais.

domingo, 24 de abril de 2016

July's way

Para Billy Paul

But I was able to find that right road
That makes me be on time
Cause I feel like [Feel like]
I was just born, just born, just born again


Mas eu era capaz de encontrar o caminho certo
Que me faria estar na hora
Por que eu me sinto como (sinto como)
Se eu estivesse acabado de nascer, acabado de nascer, acabado de nascer novamente

sábado, 23 de abril de 2016

Ave, Jorge

para um cavaleiro torto
não gauche
esquisito mesmo
o ranger da armadura dos ossos

parca é a visão
avançada, a idade
mas firmes, as mãos
cosidas pela urutu da noite

não há um dragão
apenas os monstros que atormentam
a escuridão da insônia

sexta-feira, 22 de abril de 2016

516

anos de Brasil
não com esse nome
não com essa língua
não com esse povo

"já estivemos melhor"
"estamos"
"estaremos"

o tempo verbal é incerto,
mas é certo que precisamos
desse nome,
dessa língua,
desse povo.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Inconfidência

A cultura popular tem sepultado o nome do delator da Inconfidência, deixando todo o fardo de adjetivos para aquele que beijou a face de Cristo. Não fará falta o apagamento desse nome, e esse Silvério sem reis estará preso, mesmo depois de morto, para sempre, pela língua, às páginas da história.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Garças

http://glo.bo/1psbqNr
Michael Goh/REX/Shutterstock
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O fotógrafo australiano Michael Goh capturou uma série de imagens do céu durante a noite usando a técnica de longa exposição. Goh faz fotos panorâmicas nas quais ele mesmo aparece, usando controle remoto sem fio e acessórios de iluminação.

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na noite em que parti
o céu estava claro

garças cósmicas
estrelas, muitas, incontáveis

a que mais brilhava, contudo, estava em minhas mãos
e atendia pelo nome de fé.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Traiçoeiro

[...] o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre.
João Guimarães Rosa

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Um só

Deus é um só - já o demônio está longe de ser sozinho; tem imensa companhia; é legião.
Henry David Thoreau

domingo, 17 de abril de 2016

Não vai ter golpe

Antes que os mais exaltados já se posicionem para atacar ou defender este texto que ainda não foi completamente lido, informo que a proposta aqui é pensar na questão linguística da expressão que dá título a este post e refletir como a língua nos ensina que há mais de uma maneira de se enxergar a mesma realidade. 

Hoje, 17 de abril de 2016, a partir das 14h, haverá a votação na Câmara dos Deputados sobre a admissibilidade do processo de impeachment contra a atual presidente do Brasil. Caberia, apenas nesse “presidente” ou na opção por “presidenta”, uma boa discussão linguística, mas essa questão está impregnada por outros valores e também já foi realizada por outras vozes. 

Um dos lemas do grupo contrário ao impeachment é “Não vai ter golpe”, uma vez que se entende que não há crime que justifique esse processo e, por consequência, não haverá aprovação na Câmara desse impedimento. Assim, o impeachment seria o golpe, e a não-ocorrência dele ratificaria a expressão. Logo, não haveria golpe. 

Para o grupo que apoia o impeachment, houve sim crime de responsabilidade, e o impeachment é um instrumento legal previsto na Constituição brasileira, o que configuraria todo o processo como ocorrência democrática, anulando-se, desse modo, a possibilidade de uso da palavra “golpe”. Logo, não haveria golpe. 

Ambos os lados estão convictos de suas posições e defendem (peço a todos que não usem unhas e dentes para a defesa, apenas palavras) que serão e sairão vitoriosos ao fim do dia. 

Quando o resultado for divulgado, caminhando o processo para o Senado ou não, um dos grupos poderá afirmar linguisticamente que “não houve golpe”, pois as premissas que sustentam o discurso vitorioso estão apoiadas no contexto da palavra “golpe”, já explicado anteriormente. 

Essa questão linguística sinaliza, de maneira direta, como um mesmo discurso pode ser usado por grupos distintos (muitas vezes antagônicos) sem que, necessariamente, algum deles esteja errado ou se utilizando de má-fé. 

Assim como a língua é uma só para todos os brasileiros (mesmo com tantas variantes), o país também deve ser pensado assim. O importante é que o resultado de hoje à noite seja um passo para que nossa democracia seja fortalecida e que soluções para nossos problemas sejam buscadas.

sábado, 16 de abril de 2016

FAFICH

Para Gregório de Matos

Define a Faculdade[1]

Mote
De dois ff se compõe
esta faculdade a meu ver
um fumar, outro foder.

Glosa
1
Enrolou-se direito,
e quem o enrolou
com dois ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem composto, e suspeito
só com dois ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer, que esta terra
De dois ff se compõe.

2
Se de dois ff composta
está a nossa FAFICH,
certa a ortografia está
e a nenhum dano exposta:
eu quero fazer aposta,
e quero um real perder,
que isso a há de perverter,
se o fumar e o foder bem
não são os ff que tem
esta faculdade a meu ver.

3
Provo a conjetura
prontamente de uma vez:
Fafich tem letras seis
que são F A F I C H;
logo ninguém me dirá
que dois ff não possa ver,
pois aos olhos estão a arder,
digo em boa verdade
são os ff da faculdade
um fumar, outro foder.





[1] Baseado na obra de Gregório de Matos.
* Texto originalmente publicado em 2001.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Sem consenso

Pela classificação tradicional da Gramática, os verbos podem ser doces (alguns autores dizem suaves) ou amargos (alguns dizem ásperos). No primeiro grupo, encontram-se verbos como dormir, comer, amar, viajar e outros. No segundo grupo, verbos como chatear, trabalhar, brigar, aborrecer e outros. O critério de classificação pode ser subjetivo simples ou composto. Simples quando só o autor acha; composto quando o autor e outras pessoas também acham. Como ocorre com outros assuntos na Gramática, não há consenso sobre a classificação.

*Trecho de "Cais de porto", originalmente publicado em 2002.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Sem bula

– Se eu tivesse, meu amigo, o mundo não estaria desse jeito. Quando o FHC se candidatou, eu pensei: esse tem nome de remédio, deve ser bom. Ah, se eu tivesse lido a bula... Mas brasileiro é assim: não lê porra nenhuma. Mal tem dinheiro para comprar o remédio, e ainda vai ler a bula? É querer demais.

* Trecho de "O conhecedor das palavras", publicado originalmente em setembro de 2001.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Fucão

Certa vez, bêbado, estranhou-se com alguns cachorros e, quando deu por si, já estava em uma nuvem de poeira e sangue com os cães. Agarrou tão fortemente um deles pelos dentes, mordendo seu pescoço, que poucos segundos foram necessários para que o cão tombasse sem vida e ele se levantasse rubro e irado. Os demais cães correram e ele ainda chutou o falecido algumas vezes, dizendo alguns palavrões.

* Trecho de "Botoludos", publicado originalmente em 2001.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Três chances

O esperto é aquele que aprende em cima da hora; o sábio, aquele que antecipa; o tolo, aquele que amaldiçoa.

*Trecho de "Bons motivos", originalmente publicado em 2001.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Administrar o impossível

As belas vão ao salão apenas para administrar a beleza; as feias, para tentar o impossível.

* Trecho de "Beleza", originalmente publicado em 31 de julho de 2001.

domingo, 10 de abril de 2016

Loucura do cotidiano

A loucura do cotidiano cresceu e, hoje, adulta, imprime ritmos alucinantes e bovinos à esmagadora parte da população.

* Trecho de "Adeus", publicado originalmente em 2002.

sábado, 9 de abril de 2016

Em batalha

Hoje me vejo no reflexo; amanhã, na lâmina.

*Trecho de "A espada sincera", publicado originalmente em 2001.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Os sobrinhos

Me disseram porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Romaria, de Renato Teixeira

Este não é um texto de uma mão só, de uma nota só, de uma cor só. Este é um texto de muitas mãos, de muitas lágrimas, de muitos sorrisos e de muitos sobrinhos. Sim, muitos sobrinhos, tantos quantos possamos imaginar e mais do que aqueles que podemos contar.

Os sobrinhos de sangue são aqueles que a família germinou, e os sobrinhos de adoção, aqueles crescidos pela semeadura diária de tantos anos. Alguns desses não a chamavam de tia, mas carregavam em si a afeição do parentesco.

Este não é um texto de um Clemente só, mas de vários. Alguns seguem com seu árduo (e infrutífero) trabalho com menires, outros partiram para terras mais distantes e deixaram aqui o ofício e muitas saudades, e uns não querem mais a pedreira: não querem tocá-la, querem trocá-la. A melhor maneira de reconhecer um Clemente é observar os menires: não há bolso ou bolsa que os esconda.

Neste ponto, as histórias se encontram na mesma personagem: tia Nilce. Todos que a conheceram sabem de suas características pessoais e acolhedoras, e não sem motivos cativou tantos sobrinhos, tantas amizades, tantas demonstrações de carinho.

No último ano, tia Nilce reuniu suas ferramentas, martelinho em mãos, e se debruçou sobre um trabalho maior para o qual foi chamada. “Nilce, vê esta pedreira a sua frente. Ela não devia ser assim: havia sonhado que seria um jardim verdejante, frutífero, que fosse refúgio para homens e animais, e que houvesse uma fonte de vida que não secasse. Ajude a mim e a eles: faça alguma coisa por essa terra.” Por que ela? As palavras de Leonardo Boff, citadas pelo Pe. João hoje pela manhã, são precisas: “[Deus] Olhou-nos um a um e escolheu para si o mais preparado”. Se alguém podia começar esse trabalho, certamente era tia Nilce.

Não era e não foi um trabalho fácil, mas, agora, ao término da missão que lhe foi destinada, o resultado é muito satisfatório. Ao reencontrar seus pais, sua irmã mais velha, seu querido amigo Véio (Washington) e tantas outras pessoas de tão gratas lembranças, tia Nilce será saudada pela chegada e pela obra de quase 70 anos de vida. Para ela, é hora de guardar as ferramentas, descansar, degustar as colombas celestiais e acreditar na germinação das sementes.

A todos aqueles que sentirem a vazia presença de tia Nilce, sorriam e lembrem-se de grandes momentos, aqueles que justificam nossa existência. Para aqueles que sentirem a presença marcante dela, multipliquem as sementes e sorriam com ela. Não há tristeza nem dor que apaguem o riso livre e o sorriso espontâneo de tia Nilce.

O trabalho de tia Nilce foi concluído, parte de um serviço maior. É hora de outros assumirem a parte que lhes cabe nessa narrativa e cultivar a terra. Nessa história, de forma idêntica e oposta, simultaneamente, à parábola do semeador, a semente que cai entre as pedras cresce e se multiplica como pedra. A parábola não deve ser assim. O sonho não é esse.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Verbo democrático

Envelhecer não é verbo defectivo.

*Trecho de "1 ano", publicado originalmente em 31 de julho de 2002.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Estranjas

Engraçados esses nomes de boate. Você não vê um em português, só em inglês ou francês, para dar a sensação de internacional, importado, de boa qualidade. Aí você chega lá dentro e até o uísque é nacional.

*Trecho de "Programa", originalmente publicado em 2001.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Dúvida

Cultivamos nossas dúvidas como rosas do jardim que não possuímos.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Mastro nasal

Fui embora pensando como o nariz interfere na vida das pessoas. Interfere (muito) porque não há como escondê-lo; outras partes do corpo podem ser tampadas, mas ele não. É o mastro de todos nós.

*Trecho de "Nasal", publicado originalmente em 2002.

domingo, 3 de abril de 2016

(anti)Herói

Temos uma galeria de personagens que poderiam desempenhar esse papel. Talvez Peri, Ubirajara ou, em outra perspectiva, Vitorino Carneiro da Cunha ou Policarpo Quaresma. Se não afirmamos nosso herói, há muito já temos nosso anti-herói: Macunaíma. Único e interminável.

*Trecho de "Herói brasileiro", publicado originalmente em 2001.

sábado, 2 de abril de 2016

7x

A vitória do Galo sobre o Vila Nova por 7x2, no Mineirão, trouxe o eco dos 7x1 de 2014. Essa voz nefasta se agarrou ao mítico e fantástico número 7 e só se calará em nossa memória quando essa promissória dos campos for resgatada.
Tal como um precatório, só as gerações futuras verão esse antípoda.
Se ele existir.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Quase que nada não sei

[...] eu toda a minha vida pensei por mim, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.
João Guimarães Rosa

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...