terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Já lá

Falam tanto do burro, mas, quando a estrela da Boa-Nova chegou ao destino, o pobre animal já lá estava.
A sabedoria silenciosa do burro precedeu reis e fiéis.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

domingo, 23 de dezembro de 2018

Akáshico

Esta narrativa estava perdida a mais de 200 anos e agora, graças ao apoio de Monsenhor Espinoza, que tem me permitido acessar esses papéis, reaparece na minha família. Uma única condição está imposta: que as narrativas sejam recontadas, jamais transcritas.

Espero que, em breve, possa me dedicar exclusivamente a elas.

***

Um dia claro de sol perdido no fim do século XVIII, numa cidade brasileira marcada pela aristocracia branca e pela escravidão negra. Mais uma manhã que se inicia com os comércios abrindo as portas, homens de negócios e de letras transitando pelas ruas, o mercado ruidoso com negociantes chegando e saindo, a algazarra de meninos pela rua, os montes de esterco espalhados por todos os cantos e a melodia de carroças subindo e descendo ladeiras.

Sentado em um chafariz, observo tudo, tal qual um espectador privilegiado. As pessoas passam por mim sem me perceber ou mesmo sem tempo para me olhar. Não destoo da paisagem, estou entre outros que ali também se acomodam, mas não há olhos para mim. Quer dizer, quase não há. Um gato malhado, amarelo, preto e branco, passa por mim, me fita nos olhos, sibila, se arrepia e corre.

Do alto da praça, surge Conceição e seu balaio de roupas. Talvez tenha vivido tempos de frescor e beleza, mas que certamente já passaram. Usando um vestido vermelho de tecido barato, surrado pelo uso e pelo tempo, a mulata segue compenetrada rumo ao riacho onde irá bater o seu ganha-pão. Mesmo sem recursos, vê-se que seu cabelo está escovado e que há uma espécie de prendedor que cria uma arte no cabelo, deixando claro que a lida não consumiu sua vaidade.

Surge, então, de uma rua lateral um mulato parrudo, descalço, com roupas um tanto quanto gastas, mas que em nada tiram dele a convicção e o objetivo. Também ele sem nenhuma beleza, apenas a força brutal que exala de seu corpo. Em movimentos firmes, felinos, caminha entre sombras em direção à Conceição, que não percebe sua aproximação. No meio da praça, já a poucos metros, ela descendo, ele subindo, Conceição percebe a chegada do homem.

Ceição não sabe o que faz: quer correr, quer fugir, quer gritar, mas sabe que nenhuma dessas opções será boa. Resolve mirar um ponto do outro lado da praça, junta o balaio ao corpo, cerra as sobrancelhas, levanta o rosto e aperta o passo. Nada disso impede o encontro com Bastião. Ele se junta a ela e inicia um diálogo, na verdade um monólogo, pois Ceição nada responde. As palavras são firmes, fortes, duras como sua constituição física, mas não agridem a mulher. Ceição levanta ainda mais a cabeça, muda, e tenta andar mais rápido.

O grande mal de Bastião é não entender o comportamento daquela mulher que ele tanto ama e por quem tantas vezes se declarou. Ela está fria, de pedra, intocável, sem nenhum movimento que mostre a mínima reciprocidade para o sentimento dele. Aqueles olhos agora estão no infinito, perdidos, sem o menor resquício de uma chama que ardeu neles.

A travessia da praça não é longa, e a rua que levará Ceição ao riacho está próxima. Sem obter nenhuma resposta, Bastião segura com firmeza o braço da mulher, o que a faz parar. Lança seus olhos sobre o dela e ruge:
- [...].

Essas palavras causam um frisson em Ceição, com um longo arrepio percorrendo o corpo da mulher e fazendo suas pálpebras vibrarem fortemente. Nesse momento, ouve-se um grito de ordem e uma patrulha com quatro soldados surge da rua do riacho. Bastião larga o braço de Ceição, tenta correr, mas já não há espaço para fugas. O homem é preso, levado à prisão, espancado e por lá vê as últimas luzes de sua vida, ainda sem saber por que Ceição fizera aquilo.

Ceição é interrogada e afirma não saber de nada da vida daquele homem, temendo que qualquer palavra pudesse colocar a vida do amado em risco. Durante toda a travessia da praça, ela estava ciente do perigo que Bastião corria e por isso tentou evitá-lo de qualquer maneira. Ele não soube disso, nem ela soube que ele fora enterrado em uma cova qualquer, ouvindo apenas uma versão que ele teria fugido da cadeia.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

12:1,2

correr com perseverança,
no escuro da dúvida,
no claro da fé.

parar é perder.
a corrida.
o caminho.
o sentido.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Birrão

um velho infantilizado
repleto de manias e birras,
o dono da bola que mal dá uma embaixada,
o falso filho do dono,
que não é parente do dono,
mas filho não tenha dúvida.
filho ele é.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

S's

a semana sacode as certezas,
sobreavisa as sombras,
serra, de soslaio,
sonsos, sabidos, senões.

de quantos s um plural é feito?
o silêncio, de vários.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Birrinha

Para Gregório, meu parente

Adeus, Birrinha! Não digo que vai tarde, pois não faria falta se não tivesse vindo.
Vai buscar outro canavial para afogar suas alagoas.
O nariz quebrado lhe faria bem, uma só vez, com humildade, golpe único, abafado, para que sentisse o sangue escorrendo tal qual as lágrimas que plantou tantas outras vezes.
Uma massa sanguínea entre cacos ósseos.
Nada que gerasse preocupação, pois o nariz cresceria de novo. O seu sempre cresce.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Marcela

lembro-me de Marcela, 
de meus onze contos de réis,
nada menos.
os quinze meses,
os rumino como bom aruá.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

Cartas

dezembro chegou com as cartas de novembro.
missivas ou de baralho,
manuseá-las não é para amadores.
nem para amados.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Friday-feira

Um ano brasileiro tem mais de 50 sextas, mas apenas uma friday.
A feira que lhe falta no nome está na loucura das ruas.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Matada

Para Armando Nogueira

matar a bola não está na cartilha.
é handicape para chuteiras que tocam harpas no céu,
jamais calçadas por anjos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Então

então,
palavra-grude para o próprio e o alheio
e para o próprio quando sempre é alheio.
então alcaloide.
então ornitorrinco.

domingo, 18 de novembro de 2018

Os amores difíceis

Para Ítala, a calvina

não há lugar para amores difíceis,
pois eles intransitam.
vertem a chama sanguínea dos loucos.

sábado, 17 de novembro de 2018

Coelho branco

um coelho branco que passa correndo
não conhece pressa. ele vive a urgência.
a pressa é atributo dos tolos.
de copas ou não.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Faficheiro

Agradecimento a Edu Lobo

Sou faficheiro de cabeça mediana
Gosto muito de Juana, mas a Musa é quem me quer
Porque na letra quem perde quase sempre ganha
Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Calado

"A impossibilidade de falar e de ficar calado não pode parar de falar".
Manuel António Pina

ficar calado é orquestrar as criaturas que falam na mente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

terça-feira, 13 de novembro de 2018

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Bolso à parte

dizem que o bolso é a parte mais sensível do homem.
espero que o Bolso não torne o homem uma parte.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Torcedor raiz

"[...] eu preciso muito do torcedor de raiz do Atlético..."
(36'46")

quando os ventos são bons,
a bandeira é o sócio-torcedor.
quando a tempestade aparece,
clamam pelo torcedor raiz,
pois é ele que sustenta o varal na peleja contra o vento.

domingo, 28 de outubro de 2018

Nas urnas

não houve livros.
quando, foram poucos.
ouviram votos,
tais como as margens do Ipiranga,
um brado retumbante.
a prudência pede para aguardar o eco.

domingo, 21 de outubro de 2018

As melhores festas

- O que achou da festa?
- Ótima.
- Mas me disseram que você não foi?
- Por isso mesmo. Essas são as melhores.

sábado, 20 de outubro de 2018

Ressaca

ontem tomei todas!
as gotas de chuva me procuravam,
todas,
e até as caídas, em poças,
voltavam a mim aos prantos.
eta vida fluida, meu Deus!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A operação

no momento, o país pode ser 13 ou 17.
infelizmente, não será 30.
os profetas apontam que será 04.
as pesquisas, numéricas, não fazem esse cálculo.

os números importam,
mas são as mãos,
dadas ou cerradas,
que construirão o futuro
nosso.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

As graças

O atleticano recebeu uma graça misericordiosa: o treinador que não via o jogo foi demitido.
Recebeu outra, divina, pouco tempo depois: a contratação de um treinador boca dura.
Esperar uma terceira, no mesmo dia, seria exigir demais da divina providência.
Assim, agradeceu, fez o pelo-sinal e se deitou,
Olhou para o céu e se lembrou de que, aconteça o que acontecer, as Três-Marias nunca serão quatro.
Amém.

domingo, 7 de outubro de 2018

Bolso

há um velho ditado que diz: "cabeça vazia, panela do diabo."
o conhecimento popular afirma que a parte mais sensível do homem é o bolso.
ambos são verdadeiros, ambos são falsos.

atualizados, se encontram "bolso vazio, panela do diabo."

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Fórmula química

CO e CO2 são nocivos e afetam a existência.
(CO)2, porém, que sai da boca de gente estúpida, afeta a essência.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Professora de redação

acho divertido pessoas que se vangloriam dos próprios méritos.
acho mais divertido quando elas não têm esses méritos.
o espelho é pequeno para refletir o ego.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Eleições 2018 (parte IV)

há uma candidata que se autoproclama "puta"é uma atitude de coragem, pois tantos filhos  se candidatam anonimamente todos os anos e só os descobrimos e adjetivamos ao longo do mandato.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Eleições 2018 (parte II)

há um partido que propõe uma rebelião pelo voto.
rebelião por voto é democracia.
a linguagem que se vire para explicar.

domingo, 30 de setembro de 2018

Dia 7

no sétimo dia, Deus descansou, era domingo.
no próximo, 7 de outubro, Deus não poderá folgar.

domingo, 16 de setembro de 2018

Trigueirinho

há um trigo que floresce em meus ouvidos
e me desperta para uma nova dimensão.
a semente é pequena, mostárdica,
a parábola, transformadora.

sábado, 15 de setembro de 2018

Lúmen

nossa cerveja é feita de lúpulo e de malte,
de dedicação e amor,
de sabedoria e irresponsabilidade,
de dor, de lágrimas e de fúria,
da essência bruta que nos define.

o sabor não vem só dela,
mas do copo que brinda conosco.
***
Para Tio Lulu, "O ilimitado" cervejeiro
15 set. 1879

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Palmito

o repórter se referiu ao jogador como "palmito".
se tivesse dito berinjela, movimentos sociais teriam aparecido e exigido retratação.
o politicamente correto não é incolor.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

domingo, 2 de setembro de 2018

Dous F

semeia-se uma vida com dous f:
fé e fábula,
e colhe-se um sentido.

fé não é religião.
fábula não é ilusão.
mas podem ser.
na semente, o sinal.

sábado, 1 de setembro de 2018

Precisar


https://www.montblanc.com.br/static/petit_prince
***
- Príncipe, preciso de você.
- Eu preciso de você também, Raposa.
- Mas nós não deveríamos precisar um do outro.
- É verdade.
- Mas por que então?
- Porque essa história é diferente. Nós a escrevemos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Paradoxo da nuvem

a nuvem representa, hoje, o paradoxo da matéria.
leve e etérea, transformou-se na casa de milhares e milhares de bytes.
é o peso que não pesa.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

domingo, 26 de agosto de 2018

Tempo sem asas

quando jovem,
mariposa,
tatuou às costas
diáfanas borboletas.

hoje,
maracujada,
convive com
morcegos disformes
que não batem asas.

sábado, 25 de agosto de 2018

Velário

quando uma vela é acesa,
uma história é contada.
para trás ou para frente.
vivida ou querida.
certeza única é que a chama se apagará
ouvido ou não o amém.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Velha política

a velha política segue organizando a pelada,
separando os times,
dirimindo as dúvidas,
apitando as faltas.
como dona da bola, não há jogo sem ela.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

A tinta


a morte redigiu um conto que a luz ilustrou.
a rubra tinta é a prova do acabamento.

sábado, 18 de agosto de 2018

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Xavielmente

"Joana Xaviel de certo chorava. Essa história ela não sabia, e nunca tinha escutado. Essa história ela não contava."
um jardineiro que não via as plantas, a terra, só uma flor.
mas a flor não estava lá.
só a história.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pétala

uma pétala se desgarrou
voou
solitária

atingiu
silente
cortante
o rosto do ermitão

ambos
feridos
pintaram as cicatrizes

tatoo da lembrança

terça-feira, 31 de julho de 2018

Nova bandeira


nesses 17 anos do Caneteiro, nosso barco tem uma nova bandeira.
somos os mesmos, sempre,
contudo, mais velhos,
mais leves com tudo.
mais caneteiros, mais bucaneiros.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Bumbum

No Brasil, o bumbum aparece nas páginas policiais.
Logo se vê que temos mais bundas do que cabeças.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Três amigos e um cachorro voltaram


- Acorda, Sô Zé Rate! Levanta, Apolidoro! Junta as traia, Zé Calixto! S'imbora, Capeba!
Tá na hora de sairmos de novo. Vamos caçar umas risadas e uns sorrisos que ficaram guardados por anos. Se umas lágrimas rolarem, não faz mal! Rir e chorar é pra quem tá vivo!


***
Depois de longo trabalho, Três amigos e um cachorro está disponível em versão digital.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

León Messi

falta ao Messi a essência do futebol de seu país de origem: a argentinidade.
tivesse ele disputado o Apertura ou o Clausura algumas vezes, "la pulga" seria "el león".

quarta-feira, 20 de junho de 2018

É hoje

Agradecimento a Didi e Mestrinho

a minha anarquia atravessou o mar
e arreou numa ribalta
fez um desembarque fascinante
e se tornou a mais peralta

será que eu serei
o dono desta festa
errei!
no meio de uma gente tão modesta

eu vim comendo terra
torto de euforia para desfilar
o mundo inteiro espera
hoje é dia do riso chorar

levei o meu samba
pra Dona Quiméria rezar 
contra urucubaca
carrego o meu vaitomá

acredito ser o mais valente
nesta luta do não dito com o brincar
(com o brincar)

É hoje o dia da alegria e a tristeza
Nem pode pensar em chegar

Diga espelho meu
Se há na boliça
Alguém mais esquis que eu

domingo, 17 de junho de 2018

A doçura do outro lado

quando um torrão de açúcar passa para o outro lado de uma xícara,
descobrimos a doçura do além.

sábado, 16 de junho de 2018

Grandeza visceral

com uma hestória bem azeitada, a dobradinha é visceral.
dispensa, inclusive, pratos, talheres e os próprios miúdos.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Não era assim

Gota a gota nasceu em duas partes:
primeiro a cabeça,
depois o corpo.
o corpo se revoltou,
e a gota que o nomeava fugiu.
sobrou a cabeça, que não arredou pé
(nem podia)
e brotou a rachadura. benfazeja.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A ditadura da bola

Estátua de Lenin é vista com um cartaz da Copa do Mundo 2018 ao fundo no estádio Luzhniki em Moscou, na Rússia.
Foto: Matthias Schrader/AP
https://goo.gl/Pei6tq
***
Para o camarada treinador

a ditadura da bola é soberana em qualquer pelada.
quem sabe pede a bola.
quem não sabe pede atenção.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Gota a gota

namorar
namora r
namor ar
namo rar 
nam orar
na morar
n amorar

a rachadura também é criadora.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

domingo, 10 de junho de 2018

Torneira

"de grão em grão, a galinha enche o papo".
uma torneira com coriza é o anverso desse ditado.
lá o milho, aqui o milhão.

sábado, 9 de junho de 2018

O homem e o sátiro

Dizem que, certa vez, um homem firmou um pacto de amizade com um sátiro. Quando chegou o inverno e começou a fazer frio, o homem levava as mãos à boca e as bafejava. O sátiro lhe perguntou por que agia daquele modo e ele respondeu que estava aquecendo as mãos, pois estavam geladas. Mais tarde, foi-lhes servida a mesa e, como a refeição estivesse muito quente, o homem tomou uma pequena porção e, levando-a à boca, começou a soprá-la. E, quando o sátiro tornou a perguntar por que agia daquele modo, ele disse que estava esfriando a comida, pois estava quente demais. Então o sátiro lhe disse:
"Eu abro mão de sua amizade, meu caro, pois dessa mesma boca você expele tanto o frio como o calor!"
Esopo

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
Torquato Neto

quinta-feira, 7 de junho de 2018

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Quando se vê a luz

Agradecimento aos Blues Brothers

num sábado de sol,
nas Mercês, 
o toque da luz trouxe os músicos.

nessa hora, a banda passou
completa,
e tocou,
iluminada,
o que até então eu não conhecia.
minha família.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Cultura x desordem


É que a internet não se destina a substituir os livros, mas é apenas um formidável complemento a eles e um incentivo para ler mais. O livro continua a ser o instrumento príncipe da transmissão e disponibilidade do saber (o que os estudantes estudariam num dia de blecaute?) e os textos escolares representam a primeira e insubstituível ocasião de educar as crianças ao uso do livro. Além disso, a internet oferece um repertório fantástico de informações, mas não os meios para selecioná-las, e a educação não consiste apenas em transmitir informação, mas também em ensinar critérios de seleção. Esta é a função do professor, mas é também a função do texto escolar, que oferece justamente um exemplo de seleção realizada no mare magnum de toda informação possível. Isso acontece até com o texto mais malfeito (caberá ao professor criticar sua parcialidade e completá-lo, exatamente do ponto de vista de um critério seletivo diverso). Se as crianças não aprendem isso, ou seja, que cultura não é acúmulo, mas seleção/discriminação, não há educação, apenas desordem mental.
Umberto Eco

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O barbante

toda vez que me pego plantando uma pedra, 
me recordo de quem será o cultivo.
então paro, recolho a semente
e a coloco no barbante que me ata as mãos.
em prece.

domingo, 3 de junho de 2018

A desperta

A lua cheia é vista atrás de uma estátua de Buda durante as celebrações do 'Vesak Day', em Hanoi, no Vietnã.
Foto: Kham/Reuters.
https://goo.gl/EokK9U
***
nas trevas, o que não se mistura é a desperta luz do caminho.

sábado, 2 de junho de 2018

Fila

A expressão "fila indiana" teve origem nos EUA, mas, certamente, ninguém desenvolveu essa prática mais que o brasileiro.
Aqui, a fila é uma instituição social, fundamental para explicar nossa brasilidade.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Bala de prata

O combustível começou a reaparecer, sem queda de preço e com reajuste. O diesel voltou, e os quarenta e seis centavos junto, ainda que o governo afirmasse que esses não voltariam. Hoje, a conversa é que esses centavos podem levar até 15 dias para sumir, período em que já seremos de novo o país do futebol, transformados pela lua cheia da Copa do Mundo.
Uma saída para nós passa pela bala de prata, não pela bola de ouro.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Os posts que você fez pra mim

Hoje, eu leio os posts que você fez pra mim
Não sei por que razão tudo mudou assim
Ficaram os textos e você não ficou

Esqueceu de tanta coisa que um dia me tocou
Tanta coisa que somente entre nós dois ficou
Eu acho que você já nem se lembra mais

É tão difícil olhar o mundo e ver
O que ainda existe
Pois sem você meu mundo é displicente
Minha alegria é triste

Você disse tantas vezes que rezava tanto
Tantas vezes eu enxuguei o seu pranto
E agora eu choro só sem ter você aqui
Agradecimento a Roberto Carlos

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Regra três

Há uma semente perigosa dentro do programa sócio-torcedor: que o time se transforme em clube. O número de torcedores é infinitamente superior ao número de sócios, sem desconsiderar, é claro, que os sócios são torcedores muito além da simples nomenclatura. Olhando o copo meio cheio, há uma demanda reprimida enorme. Olhando o copo meio vazio, há um clube fechado.

Entre o resto e o restolho, vale a "Regra três", de Vinícius e Toquinho:

"Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz,
Abusou da regra três
Onde menos vale mais


Da primeira vez ela chorou 
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar"


Até quando o torcedor conseguirá viver, com paixão, trocando a arquibancada pela mesa de bar ou pelo sofá? Os canais a cabo, os bares e as cervejarias agradecem, e a Nutella, que não tem nada a ver com a história, leva a fama. É o espetáculo gourmet. É por isso que, na Fox Sports, eles insistem em anunciar o "futebol raiz".

Tempos atrás, assisti ao Chico Sá dizendo, na ESPN, não necessariamente com essas palavras, que não se havia "civilizado" em relação à Libertadores. Essa é a essência do futebol, da arquibancada hoje (da geral antigamente), da paixão furiosa que rege o torcedor. Se vivo, Nélson Rodrigues diria: "Qual paixão não é furiosa? A fúria é o bálsamo dos apaixonados."

Longe dos gramados, sem a paixão clubística, é melhor assistir à Liga dos Campeões ou a qualquer campeonato no Brasil? Por que os jogadores brasileiros sempre citam a vontade de jogar na Europa, mas não na China ou no "mundo Árabe", ainda que esses destinos, muitas vezes, paguem bem mais? Não é apenas dinheiro, é também espetáculo. Qualquer peladeiro que dê, minimamente, três embaixadinhas sabe a diferença em jogar ao lado de bons jogadores ou de pernas de pau.

O sócio-torcedor pode ser a redenção de um time ou sua rendição. Se redimir, todos ganharão, inclusive a bola. Se render, o país do futebol será um clube fechado, com acesso restrito aos sócios.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A carta

enviei uma carta em fevereiro de 2014, que foi recebida na última semana, no dia de Santa Rita.
por onde ela andou, só os selos sabem.
ter chegado "na hora certa", é a pura magia da amizade.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Bênção didática

Este post é um agradecimento ao amigo Roberto Tristão, professor de literatura, que, no hoje distante ano de 2011, citou um dos posts deste blog em um material didático.
Para aquele samba, foi a bênção.

domingo, 27 de maio de 2018

De costas

Quando Sirley chegou ao céu, São Judas, o das causas perdidas, chamou-o ao canto e disse:
- Me conta a história do penâlti que você pegou de costas.
- Foi mesmo - disse ele. - Lá no campo do Galena.
- Me conta, me conta...
- Como o senhor ficou sabendo?
- O Expedito me falou.
- Ele tava lá?
- Foi ele que bateu o penâlti.
***
Homenagem ao amigo Sirley, o decano, convocado para outros campos em 30 abr. 2018.

sábado, 26 de maio de 2018

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Nunca jovens

os Mendes nunca morrem jovens.
mesmo recentes, carregam consigo
a crônica da boa morte: 
a incerta convicção do último suspiro.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A morte à porta

Para os Mendes

os Mendes,
esses loucos
que cantam,
que amam,
que bebem os dias,
que rasgam as almas, 
e riem, velhos e tolos,
quando a morte bate-lhes à porta.
não se preocupam com a visita,
apenas a abraçam
a beijam e lhe dizem:
- Quem está com você, querida?

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O sonho da vírgula

com os ditos 20 anos em 2, a vírgula só tem ouvido: "ruim com ela, pior sem ela".
esperançosa, espera que o voto de outubro a faça exclamação.

terça-feira, 22 de maio de 2018

A flor do cônego

Para Rita Capemba


por onde anda, Rita?
por que se retira para essas páginas que ninguém lê?

os lábios de absinto
o sinuoso sabor das selvas
as sonoras seivas incensadas
a serena sede da surpresa.

não há fé que viceje nesse feitiço.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A vírgula gata

"O Brasil voltou, 20 anos em 2".
***
A vírgula, tantas vezes vilipendiada, gaiata nessa história, quer se enrodilhar, tal qual um gato, para ver se se faz ponto. Não será a salvação, mas um alívio para essa pobre alma, pois com o ponto, intransigente, é fim de papo.

domingo, 20 de maio de 2018

Das fadas

o casamento real é um conto de fadas que as fadas não contam.
não sem motivo, elas não têm uma caneta de condão.

sábado, 19 de maio de 2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Flatulência digital

O gemidão do WhatsApp é um peido digital: quando foge, aos berros, mostrando-se ao público, é hora do circo.
A performance do palhaço garante a comédia ou o drama.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Esquisito

sempre que me dizem esquisito,
meu guarda-chuva de tachinhas cresce,
meus sapatos floridos se agitam,
brota uma nova hestória.
sem trocar a vaca,
assim sobe meu pé de feijão.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A boca

na placa: "pão com requejão".
- moço, tá faltando uma coisa ali. - e apontou para a placa.
- tá sim, mas é porque a linguiça acabou.

moral da história: a língua está subordinada à boca.

domingo, 13 de maio de 2018

Mães

Para Nelma, Norma e Zoca

A maternidade é um acolhimento, uma maneira de apresentar o mundo aos novatos e de conduzi-los por terrenos tão novos quanto eles, ainda que velhos (os novatos e os terrenos). No colo, de mãos dadas ou em prece, essa presença é um afago na existência.

sábado, 12 de maio de 2018

Bão

prefiro o bão ao bom,
o tom ao tão,
a garatuja à cara suja,
a caneta à chapoleta.
bucanear é vera treta.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O relógio

preso à parede
não ao tempo
esse paladino do nada
atira os braços ao vento
ora como hora
ora como caos.

girando às avessas
desescreve o passado
rerrascunha o presente
desdeturpa o futuro.

defeito não, filosofia de vida.
o ululante silêncio da anarquia.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Sim, não ou talvez?

sempre é bom ter uma pergunta pronta para os dias de mistério.
enquanto as interrogações não pulam, brinca-se com as certezas.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Lápide

riu enquanto pôde.
ao fim da piada,
deitou-se, esperançoso, aqui mesmo.
sonha, agora, com o cheiro da terra
e o flerte das sempre-vivas.

terça-feira, 8 de maio de 2018

O dragão e a bela

Para a Bela Desdenhosa

Os amigos (ou nem tanto), ao longo da vida, incansavelmente, renomeiam e corrigem o escorregão linguageiro que nossos pais (nem sempre) cometem aos nos batizar. Essa metamorfose de nossos eus nos molda e revela se vamos da larva ao adulto (e batemos asas) ou se da larva à larva (abscônditos).
As palavras certas, brejeiras, adestram o dragão, e não haverá desdém que, tomado de assalto, não sucumba a uma flor em flecha. A beleza precisa de um nome para ser sussurrado, não de um sussurro...

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A bela e o dragão

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESCONHECIDA. E ei-la rotulada, classificada, exorcismada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em chamares a um dragão de JOLI, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...
Mario Quintana

domingo, 6 de maio de 2018

A parte que falta

Para Regiane Mendes

a parte que falta
falta para quem?
se em mim, é presença.
se no outro, é querença.

sábado, 5 de maio de 2018

De botequim

Para Mario Quintana

Com a informatização das relações sociais, as conversas de botequim migraram, em grande parte, para as redes sociais. Antigamente, etilizado, não prestava atenção em muitas bobagens ditas e até rias para elas, delas e com elas. Mesmos tristes, todos ficavam felizes.
Agora, porém, em qualquer lugar e hora, nessa torrente de mensagens bêbadas, não há bebida que nos deixe ébrios. Mesmos hipnotizados, a atenção não presta.
Hoje, no menu, só bebida zero byte ou sem like, com 0,0% de digitalização, para que o brilho dos olhos seja uma maçã com asas.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Redação

Tributo a Albanito Vaz Júnior
+27 abr. 2016

não havia politicamente correto

disciplina
diversão
piadas infames de ambos os lados
e a lembrança de que a vida é tênue,
que à morte está reservado o rascunho.
a melhor redação é o presente.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Pedagogia da bigorna

no início, tapas quentes, lágrimas frias.
na infância, veio a bigorna,
essa matrona trituradora de sonhos.

o ferreiro não conhece o malhado,
apenas o martelo, chamado de flauta.
nessa melodia não há agudos.
tudo é grave.

apanha no quente, apanha no frio,
incha no fogo, soluça no gelo,
fogogelo, gelofogo.
quando fogo e gelo não se distinguem,
nascem os monstros.
alguns de papel...

se fossem oitenta por cento nas almas,
os óxidos não pintariam meus dentes
e eu chamaria de primo o itabirano.
com esse sorriso,
ferroso,
feérico,
fero,
minha parenta é a calçada.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Sonho meu

Tributo a Dona Ivone Lara
+16 abr. 2018

Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu

Vai mostrar esta saudade, sonho meu
Com a sua liberdade, sonho meu
No meu céu a palavra guia se perdeu
E a caneta fria só me traz melancolia
Sonho meu

Sinto o gosto da noite na boca do tempo
Fazer o verso das flores no meu pensamento
Traz a pureza de um conto
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um conto que mexe o corpo da gente
E o olho vazio rabiscando a flor

terça-feira, 1 de maio de 2018

Nicanor (parte 7) - O encantado

O Nicanô viveu co’nóis muitos ano, sempre fazeno minino e arrumano briga. Virô lenda aqui na Lagoinha, na Floresta, no Bonfim, quase na cidade inteira, e o povo vinha de longe pra cunhecê ele.
Numa manhã clara, o Nico partiu. Tinha chovido a noite inteira, muito trovão, muito relâmpago, e a manhã dispertô calma, como se ela num tivesse nada a vê com aquela noite de fera. Levantei, fui pra cozinha fazê café e, quando abri a porta, vi que uns vaso tinha tombado e tinha muita terra pelo caminho. Fui buscá a vassoura pra arrumá aquela confusão e vi que tinha umas marca de pé na terra molhada.
Algum galo passou por aqui. Pensei em todos, menos no Nico, purque havia dois pé marcado na terra, e ele num pudia sê nunca. Conferi um por um, todos lá, e fui ver o Nico, que não estava onde costumava dormir.
Chamei por ele e num tive resposta nenhuma. Num era possível! Voltei na porta da cozinha, abaixei e fui observar as marca de novo. Era de um galo mesmo, e tavam de duas em duas, num pudia ser o Nicanô.
Fiz o café, bibi e pensei naquilo tudo. O Luizim me olhava atento.
Então não tive dúvida que era o Nicanô memo, que agora tava incantado, que ia podê usá as perna que ele sempre teve, mais que num picisô pra expricá a perfeição.
***

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Nicanor (parte 6) - O fabuloso

Me afastei, a gritaria aumentou, os home saíru da rinha e soltaru o Belzebu. O diabo do galo ferveu pra cima do Nicanô, que só disviava e difendia. Na primeira vez que os dois subiru junto, o Belzebu acertô uma asada no Nicanô que fez ele rolá pelo chão comeno terra. Pensei nessa hora que num ia dá pra nóis, e que o Nicanô num ia aguentá, mais num instante eu lembrei que já tinha visto essa história antes. O Nicanô nem tinha levantado, e o Belzebu correu pra cima dele achando que ia fechá a tampa do caixão co’as espora. O veiaco rolô de banda, evitô o ataque e sacizô pro outro lado da rinha. Belzebu balançô as penas e partiu pra cima de novo.
O relógio corria, mas o tempo parô. Olhei a rinha em volta e vi aquela quantidade de gente berrano, guinchano, enquanto os galo se matava lá dentro. Olhei para o Chicão e vi que ele estava aflito, pois, apesar de não amarrá as égua com o Nicanô, sabia que o Nico era nossa família. Vi o home que apostava sorrino e gritano, satisfeito com o espetáculo e com o dinheiro que o pobre galo dava dando pra ele. Pensei na luta nossa de cada dia, no quanto nóis se parece com esses galo da rinha e pur que qui tem qui ser assim. Que bestage!
Quando o tempo voltô a corrê, vi os dois subino de novo e o Belzebu atingino o Nicanô com a asa novamente. Graças a Deus num foi com as espora! O Nicanô caiu disgovernado, sem rumo, cambaleando. Levantô rodopiano e, com o bico bem alto, tombô no chão, retim, como se fosse um bambu caino. Tava muito próximo do Belzebu e, no chão, a peste do galo ia matá ele, se ele num já tivesse.
O povo gritava e jogava os chapéu para cima, vibrano com o desfecho da luta, sem sabê, meu fio, que ela num tinha acabado. O Nicanô tombô, meu fio, retim, do jeitim q’eu falei, quinem uma antena, um poste, e, caino, fincô o bico no chão, jogano o corpo para frente.
O mundo parô. 
Com o bico fincado no chão e o corpo durim quinem uma navaia, lançô a espora canhota pra cima, que encontrô o pescoço do Belzebu quinem uma foia de taioba. O galo nunca tinha visto aquele golpe e jamais isperava um ataque daquele jeito, nem ele, nem o povo todo que tava lá. A ispora rasgô a carne do pobre bicho, e um isguicho de sangue vuou, manchano o terno branco do dono dele, que já tava pertim pra comemorar a vitória.
O silêncio brutal acabô com meu grito: 
- Cadê o padre?

domingo, 29 de abril de 2018

Nicanor (parte 5) - O sinistro

As cinco e meia, eu acordei o Nicanô e expriquei pr’ele a situação. Ele me olhava com os óio fundo, distante, num sabia se ele tava entendeno ou não, num dizia nada tamém. Nessa hora, eu baixei a cabeça e pidi perdão a Deus se eu tivesse fazeno uma coisa rúim, que, se fosse para fazê mar pro Nicanô, que nóis num fosse. Foi intão que eu sinti umas pena me encostano e eu levantei a cabeça: era o Nicanô que incostava ni mim e me olhava firme.
Senti uma energia enorme e falei com ele:
- Vamu, minino. Vão mostrá pr’aquele home quem é o aleijado.
Partimo os três: eu, Chicão e o Nicanô, ele sentado em cima do Chicão. Quando nóis entramu na rinha, foi um silêncio só. Todo mundo parô e ficô olhano pra nóis. Um home apontô o caminho e nóis fomo até chegar no lugar onde a luta ia acontecê. Assim que nóis entramo, tomamu uma sonora risada, todo mundo fazeno chacota de nóis:
- Uma velha, uma vira-lata e um aleijado!
Meu fio, foi difíce dimais. Cre’m Deus-Padre! O Chicão rosnando o tempo todo, e Nicanô quase desacordado de tanto cansaço.
O home do galo chegou e me passou o dinheiro, mas eu não via o galo dele. Guardei o dinheiro e perguntei pelo bicho.
- Tá entrando agora – respondeu ele. 
Quando o povo abriu espaço e o galo apareceu, os home tudo começaru a gritar:
- Belzebu! Belzebu! Belzebu!
Virge Maria! O diabo do galo era um monstro de tamanho e ainda chamava Belzebu. Pensei: nóis vão morrê hoje. Daqui nóis num sai com vida. Corri no ouvido do Nicanô e falei co’ele:
- Nico, vamu desisti.
O Nicanô arregalou os óio e me encarou com a cara mais feia do mundo.

- Não, Nico. Eu sei que ocê pode cu’ele, mais ocê tá cansado hoje, cê passô o dia com as galinha, e é mió marcá pra outro dia.
O Nicanô sartô do Chicão e continuô me encarando firme.
- Nico, aquela besta chama Belzebu. Óia o tamanho dele! Pensa bem, meu fio. Num quero que ninhum mal aconteça c’ocê.
Tive a sensação do miseravi piscá pra mim antes de sacizar pro meio da rinha. Belzebu, do outro lado, tava sendo controlado, purque quiria começa a luta logo. O home do galo chegô perto de mim e disse que eram só três minutos, mas que achava que não ia durá trinta segundos. Corri outra vez pra perto do Nicanô e cochichei no ouvido dele:
- É três minuto, Nico. Num sei o que ocê tá pensano, mais nóis tamu junto. Rebenta ele!

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...