Me afastei, a gritaria aumentou, os home saíru da rinha e soltaru o Belzebu. O diabo do galo ferveu pra cima do Nicanô, que só disviava e difendia. Na primeira vez que os dois subiru junto, o Belzebu acertô uma asada no Nicanô que fez ele rolá pelo chão comeno terra. Pensei nessa hora que num ia dá pra nóis, e que o Nicanô num ia aguentá, mais num instante eu lembrei que já tinha visto essa história antes. O Nicanô nem tinha levantado, e o Belzebu correu pra cima dele achando que ia fechá a tampa do caixão co’as espora. O veiaco rolô de banda, evitô o ataque e sacizô pro outro lado da rinha. Belzebu balançô as penas e partiu pra cima de novo.
O relógio corria, mas o tempo parô. Olhei a rinha em volta e vi aquela quantidade de gente berrano, guinchano, enquanto os galo se matava lá dentro. Olhei para o Chicão e vi que ele estava aflito, pois, apesar de não amarrá as égua com o Nicanô, sabia que o Nico era nossa família. Vi o home que apostava sorrino e gritano, satisfeito com o espetáculo e com o dinheiro que o pobre galo dava dando pra ele. Pensei na luta nossa de cada dia, no quanto nóis se parece com esses galo da rinha e pur que qui tem qui ser assim. Que bestage!
Quando o tempo voltô a corrê, vi os dois subino de novo e o Belzebu atingino o Nicanô com a asa novamente. Graças a Deus num foi com as espora! O Nicanô caiu disgovernado, sem rumo, cambaleando. Levantô rodopiano e, com o bico bem alto, tombô no chão, retim, como se fosse um bambu caino. Tava muito próximo do Belzebu e, no chão, a peste do galo ia matá ele, se ele num já tivesse.
O povo gritava e jogava os chapéu para cima, vibrano com o desfecho da luta, sem sabê, meu fio, que ela num tinha acabado. O Nicanô tombô, meu fio, retim, do jeitim q’eu falei, quinem uma antena, um poste, e, caino, fincô o bico no chão, jogano o corpo para frente.
O mundo parô.
Com o bico fincado no chão e o corpo durim quinem uma navaia, lançô a espora canhota pra cima, que encontrô o pescoço do Belzebu quinem uma foia de taioba. O galo nunca tinha visto aquele golpe e jamais isperava um ataque daquele jeito, nem ele, nem o povo todo que tava lá. A ispora rasgô a carne do pobre bicho, e um isguicho de sangue vuou, manchano o terno branco do dono dele, que já tava pertim pra comemorar a vitória.
O silêncio brutal acabô com meu grito:
- Cadê o padre?

