quarta-feira, 27 de novembro de 2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Mensaleiro III

um emprego para chamar dir ceu precisa valer 20 mil.
menos que isso, é melhor ser mártir político na Papuda e escrever um livro do cárcere.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Mensaleiro II

político preso por crime político
preso político
crime político
na Papuda. no papo.

domingo, 17 de novembro de 2013

Taberna

durante dois anos, lia-se no frontispício de nossa taberna: "Mudamos de casa, de nome, de letra. Mudamos os hábitos, os hinos, as bandeiras. Contudo, seguimos nós e as dúvidas.  BdR".
pouco a porta se abriu e a fumaça não revelava o fogo.

sábado, 16 de novembro de 2013

Mensaleiro

A ortografia é única: grafa-se "genuíno"; qualquer alteração não é variação linguística, é erro mesmo. O falsário que carrega uma bandeira com poema do Quintana, só o último círculo das orlas infernais receberia. Nunca, na história desse país despronominado, a poesia foi tão aviltada.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Operação Xibiutis - parte III

– Aí, a Espanha entrô no xibiu. Eta, égua!!! Achô que a lua era queijo e deu nu que deu. Porque xibiu, se num fô bem medido, mata um home, meu fio. – concluiu rindo. – Aí, eu tava conversano co' Marquês e ele me disse: “Leva o xibio de Recife, porque ele já tem experiência”. Num pensei duas veiz.
– ...
– Meu fio, a Espanha é vermeia quinem o Xuvisquis, num fala português quinem o Xuvistis e tava cheia de fama quinem tá o Xubitis. Intão, recolhemu uma meia dúzia de uns sete xibiu, dos de mió qualidade, todos que tava com a Espanha no meio do ano e vamo tocá pro Marrocos agora. Esses xibiu, mais o sal grosso, mais a taioba, mais os naco de porco, mais nós tudo que tá aqui vamo vô parti pra cima do Xuvitis.
– ...
– Roberto, num tem nada não. O mundo é assim desde deus-menino.
– ...
– Tô preocupada é com o Fernandinho, meu fio. Tô achando que el’s tão querendo baixá o cabelo dele e isso nós num podemu deixá. Já tô matutando alguma coisa pra resorve isso, mas num tá fácil. Fiquei sabendo que o Bastião do Xuvistis num vai, mas isso num resorve muito o nosso pobrema. Vai pensando daí qu’eu tô pensando aqui.
– ...
– Num falei antes dessa nossa missão no Recife purque era secreta, meu fio. Nessas hora, é preciso muito cuidado pra num vazá nada, porque tem um monte de raposa seguindo a gente e elas num pode discubri nada antes da hora.
– ...
– Intão é isso, Roberto. Operação Xibiutis concluída. Fi'co’Deus! Se ocê tive que rezá e quisé pidi umas coisa, num pede pra São Vito e nem pra São Humberto, porque el’s tão indo com a gente e num vão podê atendê nesses dia.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Operação Xibiutis - parte II

– Minino, a praia de Boa Viage é linda. Gostei dimais. Aqui tamém é cidade do Galo, o da Madrugada. Eta Galo bão, sô!!!
Respirou fundo e prosseguiu:
– Meu fio, pra enfrentá o Xuvisquis, nós precisamu recolhê uns material e por isso nós passamu aqui no Recife. Nós num podemu se esquecê que, antes do Xuvistis, temo que passá pelos raiados, o que carece de atenção tamém. Num podemu dexá esses raio caí na gente, inda mais que el’s são azul e branco. Aí, nós pegamu muito sal grosso pelo caminho, pra ajudá a aterrá esses raiado, porque num podemu corrê o risco de tomá um biliscão deles. É um ôio neles e outro no Xivitis.
– ...
– Pra enfrentá o Vermeião, nós precisava de um ingrediente especial, que tem no Brasil todo, mas o daqui já tem... cumé que fala? Quando ocê já testô e deu certo?
– ...
– Isso, isso, experiência. O daqui já tem experiência no assunto.
– ...
– Xibiu.
– ...
– Xibiu, meu fio. É isso memo que ocê ouviu. Nós viemu aqui recolhê uns xibiu.
– ...
– Eta memória fraca, hein, minino? Ocê não se alembra da Copa das Confederações desse ano? Vô explica: quando a seleção da Espanha ficô aqui no Recife, el’s arrumaru umas confusão braba, tá lembrado?
– ...
– Isso, minino. O consumo de xibiu foi muito grande aqui e el’s acabaru desconcentrando, ficando fraco e sem vontade. Aí, quando el’s foru disputa a final no Maracanã com a gente, além de nós jugá mió, eles num tava bem. Aí, nós sapecamu el’s: 3x0. Eta festança!
– ...
– Antes de começá, todo mundo só falava da Espanha, que a Espanha ia ganhá, que ia atropelá, que ninguém guentava ela e otras coisa. Só que esses memo que falava isso num alembrava que o futebol é quinem dô de barriga: muitas coisa num cai bem e nem sempre o apito anuncia o fim de jogo, as vezes é no apito é que as coisa começa a acontecê.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Operação Xibiutis - parte I

– Alô!? Roberto? É ocê? Sou eu, meu fio, a Quiméria.
– ...
– Tô, tô no Recife, já resolvi os pobrema tudo aqui e daqui a pouco nós vão saí de novo. Daqui pro Marrocos.
– ...
– Nós chegamu onti, meu fio. Tá todo mundo bem, a viagem foi boa, só tivemu uns pobrema na chegada aqui na cidade, mas dirresto foi tudo muito bão. Num pegamu chuva, muitas vêiz tinha uma brisa fresca pra arejá, a comida foi boa, e a comitiva tá confiante.
– ...
– Minino, nós saímu daí aquele dia e viemu subindo: cumemo uns pequi em Montes Claros, recolhemu umas pimenta e muito azeite de dendê em Salvador e viemu apeá aqui em Recife.
– ...
– O dendê? Eta, Roberto, nós vão precisá dele no Marrocos. Mas como eu ia falano co’cê: nós viemu apeá aqui em Recife. Quando nós tava chegano na cidade, um mundéu de timbu tentô cercá a gente. Mas era muito memo. A cara deles num tava muito boa e nós pensamu até em conversá, mas resolvemu, graças a Deus, corrê. Foi nossa salvação!
– ...
– Ocê tá esquecendo da sapecada que nós demu nel’s no Horto? Intão, nós tamém isquecemu. Quando o Chicão me alembrô disso, nós arrumamu uma correria da peste.
– ...
– E el’s atrás da gente.
– ...
– Não, meu fio, num teve conversa, num teve nada. Era só nós correnu e el’s atrás.
– ...
– Eu tentei, mas o Elotero ingasgô. E eu gritava: “Atira, home de Deus!” e o Elotero, ingasgado, nem respondia. “El’s tão chegano e vão pegá a gente. Atira logo!” E eu batia nas costa dele pra desingasgá o pobre coitado e nada. E el’s só chegano, só chegano, só chegano...
– ...
– Medo? Não, meu fio, num tinha ninguém cu’ medo não. Era quinem um “coletivo”, um treinamento para enfrentá o Xucrutis.
– ...
– Aí, de tanto batê nas costa do Elotero, ele disingasgô. E foi um só! Pá!!! Vuô taioba pra tudo enquanté lado. Aí, os timbu assustarô e correru pro outro lado.
– ...
– Brigá? Pra que brigá, meu fio? Nós tamu focado no Xuvitiz e brigá num resolve nada. Por isso, nós corremu.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Legião estrangeira

sem luz, não há sombras.
o que faz você aqui? por quem procura?
são palavras? aquelas?
estão todas aqui, mas nem sempre é fácil vê-las.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nos dentes

a faca está nos dentes.
quando nas mãos, 
não haverá amarra,
perdão, dúvida.
só o gume frio
e o futuro claro.

sábado, 9 de novembro de 2013

Sem cheiro

nua, como os brancos alvos dentes:
- é um sonho.
- o cheiro de verdade me disse.
- não tenho palavras.
- então por que não ficou em silêncio?
- a minha máscara cairia.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Gota de fogo

Binsar Bakkara/AP
http://g1.globo.com/fotos/fotos/2013/11/imagens-do-dia-6-de-novembro-de-2013.html#F1001096
***
Um gato foi fotografado no telhado de uma casa coberta de cinzas vulcânicas da erupção do Monte Sinabung em Mardingding, Indonésia.
***
na língua de fogo,
uma gota de vida se aquarela.

domingo, 3 de novembro de 2013

Caçada ao bávaro vermelho - parte III

- A pé, Dona Quiméria? A pé não dá, é muito longe. O Marrocos fica do outro lado do Atlântico.
- Meu fio, num tô preocupada de que lado o Atlântico tá: num torço pra ele e, se ele engraçá com gente, nós metemo taioba nele tamém.
- O Atlântico é um mar, Dona Quiméria.
- Eu sei, meu fio. E daí? Moisés andô quarenta ano no deserto com o povo dele dispois de tê atravessado o Mar Vermeio e ninguém falô que era longe. Nós vamu andá muito menos... Nós num temu esse tempo todo tamém.
Prosseguiu ela:
- Eta, tô pensando aqui: nós tamém vão tê que atravessá o vermeio, só que em vez de sê o mar vai sê o porco. -  e sorriu.
- Nós tamu saino hoje purque hoje é dia de São Humberto, o santo protetô dos caçadô. Com nosso grupo certinho, as peça certa, a munição vera e o santo junto, vai ficá mais fácil enfrentá o Xubitis. Agora, meu fio, ocê num repará não que nós temo que botá o pé na estrada. Temo que passá no Recife antes de sigui pro Marrocos.
- Para quê, Dona Quiméria?
- Isso é um segredo, meu fio. Dispois de resolvido, iscrevo pr'ocê contano.
Prendeu o saco de bala na algibeira, fez sinal para o Chicão pegar as iscas, colocou o Elotero nas costas, juntou alguns pertences e gritou:
- Meninada, nós saímu hoje pr'uma caçada grande, a maió da nossa vida até agora. Nós sabemu que o Xulrutis tá esperando a gente iqui num acredita que nós podemu dirrubá ele. Acha que nós somu um bando de morto de fome, de peladeiro sem rumo nem prumo, que vamu chega lá e caí que nem pato. Pato não, purque aqui é Galo!!!
Um trovão ressoou no terreiro. Seguiu ela:
- Nada foi fácil até agora e num ia sê agora que ia mudá. Intão, pode prepará pra guerra, pode prepará pro sofrimento, até mesmo pra dor, mas tamém pode prepará pra alegria, pra vitória, pro banquete. Só vai dependê de nós: se nós somu o Davi, vamo sentá a funda nesse Golias!
Um novo estrondo iluminou o terreiro.
- Vamu mostrá que o que é impossíve pros otros, pra nós é história, é magia, é festa. Por aqui é Galo, e o Galo num disiste nunca. Vamu pegá esse Xubitis e prepará uma boa feijoada com ele, completa, com trupicão à vontade, com muita foia de couve e laranja baía. Sem medo, mininada, porque o futuro é nosso. - e concluiu gritando: Galo!!!
O quintal, vivo, respondeu novamente. Dona Quiméria partiu, seguida pelo Chicão, e me pediu que abrisse a porta da cozinha, que levava ao quintal: "Pr'os minino saí".
Ao abrir a porta da cozinha, um mar de galos se avolumava a minha frente, a perder de vista. Eram muitos, inúmeros, milhares, de todas as cores, de todas as raças, de todos os credos, todos seguindo Dona Quiméria. Um espetáculo magnífico, único, tal como será a caçada a esse bávaro vermelho.

Caçada ao bávaro vermelho - parte II

- De quem?
- Num sei bem se é Xútis, Xultis, Xurultis, Xubultis, mas nós vamo pegá o bicho. É ou não é, Chicão?
O cachorro rosnou, latiu e avançou no som que o nome evocara.
- Eta minino, bão, sô! Nós vamu saí hoje e só voltamo perto do Natal, depois de tê derrubado o bicho. Já tamu com tudo pronto: munição, comida e água, o plano pra intucaiá o danado, a maneira de dirrubá e tudo quantuá.
Prosseguiu ela:
- Tá todo mundo dizendo que o bicho é grande que nem popótamo, mal que nem cobra e muitas vezes maior que o javali do Hércules, ma num tem poblema. Nós tamu junto e vamo vencê.
Caminhei até os volumes que estavam no chão da sala e li, num saco, "bala".
- Posso ver?
- Claro, meu fio, é só num misturá.
Abri o saco e percebi que eram vegetais.
- O que é isso, Dona Quiméria? - e levei ao nariz para cheirar.
- Talo de taioba, meu fio. Num conhece não?
- Mas aqui está escrito "bala"?
- Intão, pra nós metê bala no bicho. Não tem coisa mió. É taioba da boa.
Percebendo que não estava entendo, disse ela:
- Meu fio, esse Xucrutis, Xuvrutis ou sei lá que diabo de nome ele tem, é um porco gigante. Tão dizendo que é o maió da oropa, vermeião, imponente, que num fala português, que é o tal. Aí, nós tamu levando esse carregamento de bala para enchê o bucho dele. Nós soca na boca do Elotero, e Elotero cospe fogo pra dentro do bicho.
- A taioba é para engordar o porco?
- Eta minino, e pra que mais devia de sê? Ele vai cumê tudo, vai crescê mais ainda, vai se achá ainda maió, o bonzão, e aí, gordão e pesadão, nós pegamu ele.
- E esse saco aqui? - disse eu abrindo e sentindo um cheiro de carne de porco.
- Ah, esse é das isca. Pra espantá as raposa que vão sigui a gente. Ocê sabe que as raposa adora espreitá a gente durante uma caçada, principalmente sabendo que o bicho é desse tamanho. Aí, seguindo o conselho do Barão, que tem ixperiência nessas coisa, tamo levando essa carne de porco pra espaiá pelo caminho e tirá o foco da raposada. Elas vão querê secá a gente, mas vão atrás do porco errado.
- A senhora vai como? De avião?
- A pé, uai.

Caçada ao bávaro vermelho

Estampidos roucos avisaram-me que a casa estava em guerra.
- Dona Quiméria?! - gritei eu.
Rebombaram mais alguns e só. Silêncio. Alguns segundos depois, a porta da cozinha se abriu e apareceu Dona Quiméria com uma cara de front.
- Ô meu fio, é ocê? Vamo entrá. Num repara não que eu tô em campanha.
- Que barulho era esse, Dona Quiméria? Parecia tiro.
- Nonada. Tiros que ocê ouviu não foram de briga não, Deus esteja. Era o Elotero limpando a garganta.
- Quem?
- Vamo entrá que eu mostro pr'ocê.
Reinava na casa um ar diferente, que não pode ser explicado, desse que antecede os grandes feitos. As janelas estavam fechadas e havia alguns volumes na sala, ao lado dos quais se colocava o Luisinho.
- Olá, Luisinho. - saudei o cachorro. Ele me olhou, mostrou os dentes e rosnou como um leão.
- Eta, meu fio! Num chama o Chicão de Luisinho que ele num gosta.
- Mas achei que fosse o Luisinho...
- Os óio da gente pode se enganá, meu fio. - disse ela afagando a cabeça do Chicão, o que fez com que ele guardasse os dentes.
A pouca luz que penetrava o ambiente me trouxe a certeza: na casa reinava um fim de ciclo. Perguntei:
- A senhora vai viajar?
- Eu só não: eu, os minino, o Chicão, o Elotero e mais um grupo de amigo.
- Para onde?
Enquanto perguntava, Dona Quiméria me deu as costas e entrou em um quarto, ainda mais escuro do que a sala em que estávamos. Não respondeu.
Como ela demorava e havia ruídos no quarto, perguntei de novo:
- Pra onde?
- Pro Marrocos -  respondeu ela aparecendo com uma espingarda descomunal nas mãos.
- Que isso, Dona Quiméria?
- É o Elotero, meu fio. Ocê num pergunto por ele. Tá aí ele.
Não era bem uma espingarda, mas um bacamarte colossal, com um aspecto bem velho e alguns pontos de ferrugem.
- Nós vamo atrás do Xútis.

sábado, 2 de novembro de 2013

Epitáfio

aos amigos, pela alegria do encontro.
aos não amigos, pelo aprendizado profissional.
aos inimigos, pela paz da distância.
aos vermes, por permitirem apenas a lembrança.

Mar de vento

"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos pergun...