Realizou-se no domingo passado em casa do nosso amigo Major Belchior Mendes Ribeiro o baile que ao bello sexo offereceu a rapaziada chic da terra.
Nada faltou para realçar o brilho dessa festa que correu animada e com enthusiasmo sempre crescente: – flores, confetti, bisnagas, ditos de espirito e a mais franca cordialidade. A satisfação era geral e por todos os lados só se ouviam elogios ao baile.
Toda a gente achava na festa um grand encanto, um prazer extraordinario.
E, de facto, quem a observasse, veria que alli reinava a mais franca alegria, uma alegria que era o maior brilho, o maior deslumbramento d’aquella festa que só terminou aos primeiros clarões do dia.
As 11 horas da noite, quando lá chegamos, o baile estava em pleno explendor.
Pelo salão primorosamente decorado com flores naturaes, bandeirolas e serpentinas se crusavam no rodopiar das valsas para mais de trinta pares.
A confusão era geral.
A maioria dos cavalheiros estava em vêstuário de rigor e as senhoritas trajavam custosas e elegantes toilletes.
Como a festa era em domingo de carnaval alguns de nossos rapazes, que primam pelo gosto e pela elegancia, deixaram de parte a etiqueta e lá se apresentaram fantasiados.
Foi esta, sem duvida, a nota hilariante da noite.
Um verdadeiro successo.
Não foi sem grande difficuldade que conseguimos conhecer alguns desses mascarados.
[...]
O Lulú trajava rico dominó de seda preta, todo enfeitado de cartas e sellos do correio, tendo em uma das mãos um grande sinête, distinctivos esse de seu emprego. Estava mesmo a caracter.
Durante o tempo que estivemos no salão, o nosso Lulú esteve silencioso e cabisbaixo. Naturalmente o nosso agente do correio sentia-se envergonhado por ser o vovô daquella rapaziada.
E tinha bem razão: trinta e cinco Janeiros não são brincadeira.
[...]
O nosso Totonho do Belchior deixou de parte o seu ar grave e circunspecto e metteu-se também na troça. Lá estava elle com o deu dominó todo feito de retalhos de fazendas, e bonito que era um gosto. O rapaz é perito na arte de cortar e costurar.
Trazia no pescoço uma medida de alfaiate e nas mãos uma grande thesoura, emblemas de seu oficio. O Totonho (sempre o do Belchior para não se confundir com outro qualquer, visto haver muitos homonymos na terra) mesmo na hora do folguedo quis mostrar que é um rapaz serio e trabalhador. O rico dominó que vestia, foi por elle feito em suas officinas.
Como aquelles pedacinhos de panno estavam pregados com gosto e symetria!
Eis porque não faltam candidatas á sua mão de esposo. Nestes tempos de preguiça, possuir-se um maridinho que sabe costurar com perfeição, é manná cahido do céu.
O Dondico, commandante em chefe dos rapazes, não teve para historias e apresenttou-se com a cara que Deus lhe deu, aliás bem bonitinha e sympathica. Vestia uniforme de militar tendo nos braços e na golla da farda as insignias de General. Do peito pendiam diversas medalhas condecorativas, conquistadas por actos de bravura em combates de amor. Affirmam os seus subordinados (e a cidade está toda cheia) que em certo combate fraqueou e cahiu mortalmente ferido: d’ahi talvez o motivo de sua gravidade e circunspecção.
Quando já se é meio bilhete corrido não se tem graça mais para cousa alguma, mormente estando a pequena ao lado fiscalisando os nossos actos e movimentos.
É mesmo um inferno.
Quando se está nesses assedios só há um remedio, e esse de cura infallivel: – banhos de Egreja.
O Vigario e o Carmello afflictos andam por isso.
Experimenta, Dondico, e depois me dirás se berimbáu é gaita.
[...]
Jornal A Propaganda, anno II, n.34, Itapecerica, 17 de fevereiro de 1907. p.1-2.
Material gentilmente cedido pelo Chico Bacalhau.
Material gentilmente cedido pelo Chico Bacalhau.
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