Amada Flora,
[...]
Lembro-me de nossas tardes juntos, em que, sentados à beira do córrego, conversávamos horas fazendo planos para nosso futuro. Lembro-me das flores que colhia e enfeitava seus cabelos, e de seu sorriso que me trazia a paz de que tanto precisava. Quando molhávamos os pés nos córrego e olhávamos o céu azul, rindo de nosso silêncio apaixonado, de nossa cumplicidade.
Nesse tempo não havia preconceito, discriminação e éramos livres, em nossas mentes, para podermos sonhar um mundo diferente, para acreditarmos que a religião era a confirmação de que necessitávamos para selar nossa união. Que as alianças, o altar, a bênção do divino e o nosso desejo selariam nossa relação que há tanto cultivávamos. Nosso amor não distinguia cores opostas, apenas complementares.
Não olvido nossas brincadeiras, nas tardes de sábado, após a igreja, que nos mostravam no campanário o quanto poderíamos ser felizes, o quanto éramos únicos, o quanto nos amávamos. Nos dias chuvosos, antes de irmos para casa, enxugava seus pés e observava seus olhos castanhos, infinitos.
Tudo isso passou, assim como as nuvens que cortam os céus. Algumas nuvens se transformam em chuva, alguns sonhos se transformam em lágrimas. O meu pranto não rola, ele preenche meu ser, afoga minha dor e contorce minha face para que esta velha Senhora, a quem sirvo, não perceba nada.
Deus meu deu intelecto, me deu engenho e me deu você, Flora, mas esta velha Senhora afastou de meu coração a possibilidade de viver as primaveras a seu lado. Sei que está casada, sei que é mãe e que ama o teu rebento de todo o coração, não porque mo dissessem, mas porque conheço sua alma e seu espírito, e rogo a Deus que a faça feliz por todos os anos de sua vida. Do lugar onde estou, é o que posso fazer para abrandar a minha ira, que aprendi em tantos annos de seminário ser um sentimento vil, mas que minha alma humana não descarta e que a reencontra em todos os momentos de solidão e reminiscência.
Da minha família de músicos, muitos cantam, dançam e tocam os mais variados instrumentos, mas nada hoje toca minh’alma, nenhum sentimento dança em meu coração e só sinos tocam em minha cabeça, não permitindo que eu olvide minhas obrigações para com esta velha Senhora.
Estou preso a esta velha decrépita, que nada conhece do amor, da paixão, do coração humano, apenas retórica e esgarçadas palavras vãs. Os mesmos que diziam que nossas peles eram distintas são os que louvam meu trabalho, que oferecem esmolas e beatitudes por pobres almas que nunca viram. Não sabem por que estão casadas, não celebram o santo matrimônio e frequentam a casa do Senhor como se fossem discípulos que carregam consigo uma boa-nova. Este é o mundo, este é o meu mundo.
Que o amor possa vencer sempre, ainda que tenha sido derrotado em nossa campanha, fruto incontestável de minha fraqueza e de minha pusilanimidade, chagas que carrego comigo e que as levarei desta vida. Que não haja distância, que não haja medo, que as diferenças sejam motivo de união e regozijo, que os homens sejam instrumentos da palavra de Deus e que esta velha Senhora encontre a morte e, na ressureição, a verdade que ela sempre desconheceu e que tanto insiste em nos ensinar.
[...]
Com amor. Sempre.
Seu B.
São Bento do Tamanduá, 22 de dezembro de 1896.
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