Noite de quinta, horas antes do jogo Atlético e Vasco em São Januário.
Descendo a Avenida Olegário Maciel, sentido Praça Raul Soares, na esquina do Diamond, observo uma senhora de idade com balde e vassoura na mão. Ela está apoiada sobre a vassoura, como se descansasse, e com o balde pendurado no braço, como um cesto. Vejo suas roupas simples e reconheço suas precatas inconfundíveis.
Aproximo-me dela e noto que está com os olhos fechados, talvez dormindo. Para não assustá-la, levanto a mão para tocar seu braço e ouço um rosnado bestial. Paro e percebo um cão a curta distância, a necessária para um bote certeiro, olhando-me atentamente e com os dentes aflitos para dançar.
– Até que enfim, meu fio! Tava esperando ocê. – disse Dona Quiméria abrindo os olhos e se dirigindo a mim. – O Chicão já tava impaciente! Eta minino bão esse, sô! – e afagou o cachorro que, agora, sorria de satisfação.
– Dona Quiméria! Não reconheci o Chicão. Parece que ele tá mais escuro, mais preto.
– Tá memo, meu fio. Ocê tá c’os óio bão, hein? O Chicão tá c’uns pobrema de visão e isso tá alterando a cori dele.
– Que problema, Dona Quiméria? É grave?
– É grave, meu fio. Ele tá vendo muita pelada na televisão, muito perna-de-pau, muito enganadô com a camisa do Grorioso e isso tá prejudicando o humor dele. Aí, ele fica preto de raiva. Eta pobrema grave, meu Deus! – e sorriu pelos olhos.
– Eta, Dona Quiméria! Acho que desse problema tem muita gente padecendo...
– É por isso memo que nóis tão aqui, meu fio. Nóis viemo ajudá o time a saí dessa fase empistiada. Eu e o Chicão só tava esperando ocê chegá.
– Como a senhora sabia que eu passaria por aqui?
– O mundo tá pequeno, meu fio. Tá todo mundo de olho em todo mundo. – e piscou pra mim.
– Vamo voltá pro nosso trabalho que daqui a pouco nós temo outra peleja pra acompanhá. Vamo logo com isso.
Colocou o balde no chão e tirou de dentro dele uma garrafa pet, que continha uma mistura colorida. A cada vez que ela balançava a garrafa, a mistura parecia tomar uma coloração nova.
– O que tem aí dentro? – perguntei.
– É uma poção q’eu fiz pra lavá a entrada aqui da Sede, pra podê mandá embora essa praga que tá aninhada na gente. Eta, meu Deus!
– Que tipo de poção?
– É uma mistura antiga q’eu uso pra limpá a casa do mal-olhado. Tem arruda, carqueja, boldo, arnica, agoniada, erva cidreira, dente de leão, guaco, quebra-pedra, unha de gato e capim limão.
– Funciona mesmo?
– Eta, meu Deus! Isso resolve memo. É tiro e queda.
Tirou o balde do braço, colocou-o no chão e abriu a garrafa.
– Toma, meu fio! A vassoura eu trouxe pr’ocê. Esfrega aí enquanto eu jogo o chá.
Peguei a vassoura e comecei a esfregar a entrada da Sede, à medida que Dona Quiméria esparramava o líquido pelo passeio. De longe, o Chicão acompanhava atento essa pajelança quimérica.
– Vamo, meu fio! Esfrega cum força porque a praga tá brava. Dá um sanguinho aí pro time melhorá.
Minutos depois, toda a entrada estava limpa e a garrafa, vazia.
– Toma, meu fio! O balde eu trouxe pr’ocê!
– Pra mim?
– Pr’ocê sentá e descansá. Eta, meu Deus! – e sorriu novamente.
Eu também ri e, virando a boca do balde para o chão, me assentei no fundo.
– E agora, Dona Quiméria? O que vai acontecer?
– Eta, meu Deus! O time vai embalá, meu fio, e as coisa vão fruí mió. Só vai sê goleada!
Conversamos mais alguns minutos e ela disse que precisava ir embora, porque tinha o jogo do Galo para acompanhar.
– Além disso, meu fio, hoje é dia do Roberto me ligá pra sabê comé que estão as coisas do Galo.
– O Roberto...
– O Roberto...
– Ele memo, meu fio.
– Mas a senhora vai embora como? A pé?
– Eu vim com a vassoura e volto com ela.
– E o Chicão?
– Volta no balde, do jeito que ele veio.
Abracei e a beijei no rosto dizendo:
– Que os bons ventos tragam sorte pro Galo, Dona Quiméria!
– Pode deixá, meu fio. Vai dá tudo certo. Quando nóis se vê de novo, daqui a sete rodada, o Chicão já vai tê voltado ao normal. Vai tá menos preto e mais preto e branco.
Virou-se para o Chicão e disse:
– Vão borá, Chicão! Tá na hora de nós rezá. Eu puxo as prece: “Nós somos do Clube Atlético Mineiro...”
E o cão latia ao fim de cada verso acompanhando a melodia.
– Eta minino bão esse, sô! – e seguiram os dois rezando a alegria contagiante de uma paixão.
Dona Quiméria vai ter que rezar muito e preparar muita poção desse "chá" milagroso. Faltam apenas 17 jogos...
ResponderExcluirKkkkkk! Haja fé! Haja reza!... As minhas são em contas em tons azul e branco, com estrelas entre os mistérios; as intenções, outras... ;-)
ResponderExcluirJosé.
A pajelança feita não falha. É como uma pedra arremessada, que não pode mais voltar. As rodadas ficam cada vez mais diminutas, mas Dona Quiméria e o Chicão ainda não encerraram a prece.
ResponderExcluirJosé, só com a prece da Dona Quiméria o Galo sai dessa. Você tem estrelas e mistérios em campos mais tranquilos. Eta, meu Deus!
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