quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Oito

– Ô de casa!?
Sem ouvir resposta, destranco o portão e entro pelo jardim. Um galo de porte médio corta meu caminho em uma louca correria, seguido, segundos depois, por um vulto negro. Mais alguns passos e ouço o som de patas que revela um cão de porte médio que, sem um latido, pula em meu calcanhar. Tento me desvencilhar, sem chutá-lo, mas ele muda de calcanhar seguidas vezes, fazendo com que eu logo esteja esticado no chão.
– Para, Pierre! Solta o minino. – reconhecemos, eu e o cão, a voz de Dona Quiméria.
Ela chega sorridente e o Pierre corre para brincar com ela.
– Ô, meu fio, num leva a mal não. Já falei com o Pierre para não chegá derrubano os outros, basta cercá que tá bão, mas ele num intende. – e riu olhando para o cão.
– Dona Quiméria, eu esperava ver o Chicão ou o Luisinho. O Pierre foi novidade.
– Esse minino tá comigo desd’o ano passado e é um minino muito bão, se entusiasma as vezes... – e olhou para mim, ainda no chão, e sorriu novamente.
Antes de me levantar, o mesmo galo que havia visto correndo passa numa disparada só. Atrás dele, o vulto novamente. Olho para Dona Quiméria e, enquanto me levanto, pergunto que galo é aquele.
– É o Berola, meu fio. Tá treinando.
– E quem corre atrás dele?
– Num tem ninguém não, meu fio. É só impressão sua.
Afagando o Pierre, diz:
– Sodade d’ocê, meu fio! Tá sumido?
– Também estou com saudades, Dona Quiméria. Há muito não venho aqui. Como estão as coisas?
– Aqui tá tudo mudado, meu fio. Vamo lá fora pr’ocê vê.
– E o Chicão?
– Tá logo aí atrás d’ocê.
Virei-me e vi que o cachorro me seguia silenciosamente. Apesar do aspecto assustador, ao lado de Dona Quiméria sabia que estava seguro. O Pierre corria na frente de todos nós e foi o primeiro a chegar ao terreiro.
Quando atravessei a porta da cozinha, vi os galos de Dona Quiméria espalhados pelo terreiro, todos soltos, como nunca antes tinha visto.
– Todos soltos? E não brigam? – perguntei e busquei com os olhos a estrutura de madeira que guardava os galos.
– Aqui agora, meu fio, acabô a concentração. Tá todo mundo junto e num tem mais briga. Galo que brigá aqui agora eu boto pra corrê, num tem perdão. O grupo tá unido e num aceito confusão. Nem eu nem o Kalil.
– Quem?
– O Kalil, meu fio, aquele galo preto e branco lá no alto do poleiro. Ele é que comanda o galinheiro e bota ordem na casa. É ele e o... – um canto rouco interrompeu a fala.
– É isso memo, ele e o Maluf, que foi esse que acabô de cantá.
– A senhora resolveu administrar o terreiro de maneira diferente.
– Era o que faltava pra acertá essa casa. Agora tá todo mundo com os mio em dia, água fresca e tem até umas galinha tamém de vez em quando... – e começou a rir antes de terminar.
Nesse momento, o Berola passa correndo por nós, seguido pelo vulto. De novo.
– Dona Quiméria, como será neste ano?
– Meu fio, tá muito difícil, porque as coisas tão certinhas no galinheiro, mas é muita gente querendo dirrubá nosso poleiro. Se fosse só em campo, tava bão.
– Faltam oito rodadas...
– Eu sei, meu fio, oito é nosso número, eu num esqueço. Por isso que eu esperava ocê aqui hoje.
– É mesmo?
– Claro, meu fio, nessas hora mágica todo mundo tem que dá as mão. E eu contava com as suas.
Lá vem o Berola. Lá vai o vulto.
– Pode contar comigo, Dona Quiméria.
– A camisa já tá lá. – e apontou para o varal. Fez o nome do pai e falou:
– Acredita, meu fio, num disanima não. Memo que as coisa esteja tudo pretinha, num esquece que se botá um branco vira preto e branco. Pode sê uma gotinha pequenininha, miúda, mas se for branca na situação preta é o Galo que tá virando.
Lá vai o Berola. Lá vem o vulto.
– Hoje é 17. Um mais sete é oito. O oito num tem começo nem fim... Oito somo nós.
O telefone toca lá dentro.
– Meu fio, num vai imbora não. Vô atendê o telefone e já volto. Deve sê o Roberto...

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