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O texto se refere à partida São Caetano x Atlético, realizada em 09 de dezembro de 2001 e válida pela semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano.
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De grandes épicos e dramas é feita a História do Galo. Quantas vitórias inesquecíveis, momentos de glória e, em seguida, tempos de desconsolo e abandono. Falar desta hereditariedade alvinegra é chover no molhado e é, pois, onde quero chegar. Que chuva ontem em São Caetano! As águas rolavam e pareciam não acabar mais e, após o jogo, uniram-se às lágrimas dos abandonados, aumentando ainda mais o frio, o cansaço e a desolação. Ontem, em São Caetano do Sul, senti a falta de Noé. Sim, o da Arca! O homem, que reuniu os animais para salvá-los do grande dilúvio, não apareceu no Anacleto; veio as águas, mas não veio a Arca. Afogamos.
Você não deve saber porque o estádio tem o nome de Anacleto Campanella, assim como eu também não sei: pensei no CAM na panela. Trocadilho estúpido!
Sou torcedor daqueles que vão a campo e vibram, torcem, gritam, xingam, ficam revoltados na derrota e orgulhosos na vitória. Acabou o jogo, acaba a exaltação; comento e discuto, mas pronto. Sem brigas e sem tumultos. Além disso, eu também não tenho mais idade para ficar indo ao campo de Futebol. É, mas ontem eu estava lá!
Eu e mais alguns torcedores, fanáticos, apaixonados e mais outros adjetivos usados para descrever esta peculiar figura de nome torcedor. Peculiar como o clone do Curley (o gordo dos Três Patetas) e sua máxima de vida: “Quem come qualquer coisa está sempre mastigando!”; ou o sósia do Mister M, que não conseguiu fazer a mágica de classificar o Galo.
Antes, tudo é festa; é a empolgação dos 3x0, 2x0, 1x0 e dos 5x0. É, torcedor gosta de mão cheia! Ah, se fosse fácil assim! Planos para Curitiba ou quem sabe o Rio de Janeiro, em busca do tão sonhado título. Que já veio, mas que está tão longe quanto o ano de 1971. Planos de casa cheia no próximo domingo no Mineirão, de vitória esmagadora sobre o adversário e com direito a show de Marques, gols de Guilherme, defesas espetaculares de Velloso e de apresentação impecável de Ramón e Gilberto Silva. Aí vieram a água e o poeta: “nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”.
Chegou a água, acabou o futebol e pelo leito sujo do rio azul foi-se o nosso sorriso. O espírito peladeiro de jogar “debaixo de um toró”, tão velho quanto à expressão, já foi esquecido, por alguns, do Galo. Em compensação, outros pareciam estar em casa. Cleisson e Gilberto Silva demonstraram o que é o espírito alvinegro: se não há como mostrar técnica, mostra-se vontade, raça e determinação. Ainda assim, não deu. Dois cruzamentos e duas cabeçadas selaram nosso destino. E o sofrimento maior foi ver o Mancine fazer o cruzamento do primeiro gol. Castigo! Era tudo o que eu não queria ver.
Chuva, frio, derrota e o itabirano de novo: E agora, José? Voltar para Belo Horizonte, tomar um banho quente e um café forte e recomeçar a segunda-feira. Terminou? Não. A volta guardava surpresas.
O vôo que traria a rotina de volta, trouxe a nós e parte da delegação do Galo. Os torcedores aproveitaram para lavar a alma e como em um confessionário, revelaram mais que falaram. É claro que alguns falaram demais e até bobagens, mas torcedor é assim, apaixonado. Um torcedor limitava-se, de tempos em tempos, em bradar sua opinião:
– GALO DOIDO!
Outro fazia uma lista de renegados. Não perdoou a ninguém, nem a ele mesmo. Enquanto ouvia as lamentações, lembrei-me de Nelson Rodrigues e de suas histórias, e a cada ladainha iniciada vinha a afirmação de como somos humanos. É bonito, mas não presta; mas é bonito; mas não presta; é, não presta, mas é bonito. E assim foi o tom do desabafo da maioria daqueles torcedores voltando para casa.
Não gastei minha voz no avião, porque o pouco que restava seria útil hoje. Minhas últimas palavras urradas foram ao término do jogo, quando o Goleiro Atleticano saía de campo, desolado.
Assim prosseguimos nesta tarefa prazerosa, às vezes dura, de ser atleticano e de gritar GALO. Resta-nos o Hino, alma atleticana, e a esperança do próximo anos. Para encerrar, uso a frase de um daqueles torcedores anônimos:
– Eu torço é para a minha esposa, porque o Galo eu amo!
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