terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Moinhos de vento

Agradecimento a Miguel de Cervantes

Desocupado leitor: podes crer, sem juramento, que eu gostaria que este blog, como filho da inteligência, fosse o mais formoso, o mais galhardo e o mais arguto que se pudesse imaginar. Mas não consegui contrariar a ordem da natureza, em que cada coisa gera seu semelhante. ["Do limoeiro só nascem limões", não me esquecerei nunca]. Então o que poderia criar meu árido e mal cultivado engenho a não ser a história de um filho seco, murcho, caprichoso e cheio de pensamentos desencontrados que não passaram pela imaginação de nenhum outro, exatamente como alguém que foi concebido num cárcere, onde todo incômodo tem seu assento e onde toda triste discórdia faz sua moradia? [No fundo, meus pensamentos originais são compilações e ruminações de tantos que me antecederam e que, a gosto ou contragosto, me modelam dia após dia]. O sossego, o lugar agradável, a amenidade dos campos, a placidez dos céus, o murmúrio das fontes e a tranquilidade do espírito são de grande ajuda para que as musas mais estéreis se mostrem fecundas e ofereçam ao mundo partos que o encham de maravilha e alegria. [Por isso estou nas sombras, na doce tranquilidade que os anônimos gozam e também os gatos, que, à noite, saem silenciosos em busca da lua que lhes pinte a silhueta.]

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